Entre sem bater

Enquanto tomava banho e cantarolava uma música qualquer, ouvi a porta da casa fechar. Teria medo ou preocupação, mas não era preciso. Além de mim, só você tinha a chave… Não era alguém que me faria mal… Era alguém que me faria amor.

Por ter chegado de surpresa, eu sabia: hoje tem. Aproveitei cada gota tranquilamente, sem me preocupar com os minutinhos de espera. Deixei os pensamentos vagando em busca de algo que também te surpreendesse.

Saí do banheiro só de lingerie branca, era minha única carta na manga. O cabelo molhado, o cheiro que você adora e um sorriso que dizia: Bem vindo, Amor.

Luz baixa. Aquela música tocando. Um vinho. Duas taças. Estava ficando ainda mais interessante esse encontro surpresa. Você sentado, me analisou e sorriu maliciosamente. O arrepio foi inevitável e percorreu todo o meu corpo. Te abracei como se fosse a primeira vez e você sussurrou em meu ouvido: Que saudade!

Nossos olhares feito imã, denunciando todos os desejos que tínhamos. O beijo quente, intenso e deliciosamente apreciado por nossas bocas.

Segurou minha mão e me levou até o sofá. “Sente-se. Hoje, eu te sirvo.” Serviria em todos os sentidos. Trouxe o vinho, e como um gentleman serviu minha taça e beijou minha mão, carinhosamente. Enfeitiçada, me distrai e derramei parte do líquido na perna… Desastrada!

“Eu cuido da limpeza e de você.” Com a boca, retirou toda a bebida e me fez tremer da cabeça aos pés. Como resistir? O jogo começou!

Puxei-o pra cima, senti seu cheiro no pescoço e mordisquei sua orelha. “Me faz massagem, Amor?”… e antes que eu pudesse pensar, me deitou de bruços, no tapete da sala. “Todas as massagens do mundo!” – ele estava incrivelmente maravilhoso.

Com as mãos precisas, massageou todo o meu corpo, sabendo exatamente onde eu queria que apertasse. Abriu meu sutiã e me disse para relaxar, descendo as mãos da minha nuca até o meu quadril. “Posso beijar aonde eu quiser?”, ele disse. Que pergunta! Quase implorei:

BEIJE-ME! Sou sua!

E beijou. Boca, orelha, pescoço, seios, barriga, costas, pernas… E não parou até me ver remexer incontrolavelmente. Beijos intensos, lentos, mordidas e uma língua insaciável. Eu já não tinha mais como segurar, queria retribuir todo o prazer.

Levantei, virei a taça que estava na mesa e agora era a minha vez! Refiz todo o caminho do seu corpo, arranhei e apertei, beijei cada pedaço do homem que eu amava e desejava. E nada mais instigante que saber que o prazer era mútuo, recíproco e cada dia maior.

A sala foi pouco, o quarto ficou pequeno e acabamos no chuveiro, de novo. A água escorrendo não esfriou nossos corpos… E fomos até o fim. Sexo com amor, sem pudor, sem vergonha de sentir o outro. Tudo que eu precisava naquele fim de dia massante.

Exaustos e felizes, deitamos no nosso ninho para a noite mais tranquila dos últimos tempos. Aconchegada em seu peito, com as pernas entrelaçadas, pedi: entre sempre sem bater… E a gente faz acontecer.

Ah, eu queria!

Tanta coisa que a gente guarda e não fala… Tantos desejos que guardamos e não expomos. Às vezes tão grandes e inusitados, e outras vezes, grandes pela simplicidade e valor que tem.

Queria mesmo era sair sem rumo e parar pra admirar um horizonte diferente ao seu lado. Queria acordar às 12h e almoçar às 17h, quebrando a rotina que teríamos. Te raptar pra um cinema na quarta-feira, depois de horas trabalhando. Segurar sua mão e pularmos de uns sete metros de altura, gritando feito crianças e caindo dentro d’água. Deitar na grama do parque e ficar olhando o céu, até a luz fazer os olhos doerem.

Sair, andar, viajar, dormir, descobrir, experimentar… Uma vida de desafios. Ah, é o que eu queria!

Ter ao meu lado quem me faça crescer, quem me evolua, acredite em mim e queira dividir cada momento. E eu queria ser segurança, cúmplice, seu ponto de apoio e impulso. Quem também te ajudaria a ser ainda melhor. A ser o que sonha, a conhecer o que guarda no coração.

Eu queria o laço forte do amor, da amizade, do companheirismo, da intimidade. Eu queria caminhar ao seu lado todos os dias e de mãos dadas dizer: Vamos em frente! Pra onde for. Juntos. Dispostos. Vamos viver, Amor!

Eu queria ser o que traz felicidade. O que te transborda, o que soma, o que te faz sorrir. Ah, eu queria… Queria ser sua vida e te transformar em minha vida. Queria te dar mais de mim e receber mais de você. Queria ser… Estar, ficar, permanecer. Em par.

Eu quero é menos

É, eu sei que sou o excesso de tudo. Excesso de palavras, de sentimentos, de pensamentos, de sonhos, de desejos, de esperanças. Sou o excesso… O excesso como o drama mexicano, a música sofrida, a morte do cisne. O excesso de amor, de rancor, de ciúmes e de carinho. Excesso de ironia, de verdades, de sabores e cores. Excesso do medo e da coragem, bem assim: 8 ou 80. Excesso de tudo e nada. Mas o excesso é a sobra. Transborda, vaza pra fora do pote e tem que ser jogado fora.

“Tudo em excesso faz mal.” Não é essa a frase tão conhecida?! E eu, que já dizia que menos é mais, começo a ver ainda mais verdade nisso tudo.

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Não quero mais excessos, eu quero menos. Menos dores, menos peso, menos obrigações, menos promessas. Menos reclamações, menos choro, menos culpa e muito menos desculpas. Menos horários fixos, menos expectativas, menos pressão.

Menos “se”, ” talvez”, “depois”. Menos saudade, menos distância, menos solidão. Menos, sabe?! Bem menos. Quase nada… Só o necessário. Cansei dessa bagagem excessiva, cansei de carregar mais do que posso. Cansei de ser demais.

Quero abrir essa mochila de excessos e esvaziá-la. Quero só a roupa do corpo. Quero cortar o cabelo. Quero o pé no chão, a brisa no rosto e nenhum pensamento em vão. Quero menos, porque essa vida já é demais pra mim. Só quero o que caiba espontaneamente no meu coração.

Yulle

Aceita!

Tem horas que não tem outra saída: aceita! E não estou falando do “aceita que dói menos” pro recalque não. Estou falando pro geral. Pra vida! Aceita, gente! Aceita que não temos o controle total das situações e nem dos sentimentos. Aceita que nem sempre a.maré vai estar boa e que vamos engolir um bocado de água salgada, que vai descer queimando a garganta e fazendo sair lágrimas pelos olhos. Aceita que nem sempre vamos ser correspondidos e que, no fundo, não temos culpa disso. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém.

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Aceita que a realidade é bem diferente do que se sonhou. Aceita que pessoas entram e saem das nossas vidas, a gente querendo ou não. Aceita que não se pode resolver todos os problemas do mundo, porque nem dos nossos estamos dando conta. Aceita que todos temos responsabilidade por cada escolha e suas consequências. Aceita que não adianta o mundo mostrar mil razões para mudarmos, porque a gente só muda quando quer.

Aceita a alegria, mas aceita a tristeza também. As duas ensinam. Só não aceita tudo sem antes tentar, lutar, acreditar. Mas quando as forças acabarem, vai a dica: ACEITA! Aceita porque talvez não é mesmo para ser. Aceita, porque vai doer menos. Eu garanto!

Yulle