Silêncio profundo

Caminhávamos no escuro, pelas ruas desertas de Botafogo. Silêncio profundo.

Já não estávamos mais juntos, mas eu fiz questão de acompanhá-la até em casa; o trajeto era perigoso e o horário não ajudava.

Naquele dia, trocamos boas ideias e risadas no bar. Depois de muito tempo, voltamos a nos encontrar e, como duas almas que se entendem, não demorou muito para nos sentirmos, novamente, como o casal que fomos outrora. Conjectura minha, eu sei, mas, se me permitem, quero sonhar.

A prosa foi tão boa e prazeirosa que o assunto (e o efeito do álcool) acabou. Olhávamos para o chão, braços cruzados para fugirmos do frio e passos relativamente rápidos para o desconforto passar logo.

Perto do seu prédio, ela desabou. Me abraçou, chorou, pediu desculpas por ter me abandonado. Contou dos problemas que vinha passando, da família, do coração gigante, tão grande, que não podia deixá-lo só para mim.

Dei conselhos, fiz cafuné e a gente ficou abraçado, sentado no meio fio, como era antigamente. Dei um beijo em sua bochecha e desejei boa noite. Na volta, trocamos
mensagens pelo celular até adormecermos.

No dia seguinte, para meu infortúnio, com a clareza do Sol do amanhã, ela voltou a si. Tratou-me como um bom amigo e, com o tempo, nos afastamos. Frustração.

Mas, aquele momento, aquelas lágrimas, aquele abraço… Nem que tenha sido por alguns minutos: ela me amou de novo. E eu fui, como há muito não era, feliz.

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Amores utópicos

A imaginação transforma nossos ideais em coisas praticamente intangíveis. Isso acontece frequentemente na busca por alguém que corresponda suas expectativas. O problema é que a gente cresce vendo amores de filmes, sonhando com contos de fadas, que apesar de terem fundos reais, escondem grande parte daquilo que envolve um verdadeiro relacionamento com outra pessoa. Além de termos que aprender a lidar com o fato de que nem tudo é sonho, ainda tem aquele ‘porém’ de superar as frustrações anteriores que nos fazem cada vez mais exigentes.

Acabamos em grande parte sendo aquelas pessoas que se contentam com qualquer agrado por medo de não haver outra chance, ou aquelas pessoas incontentáveis, que sempre esperam por algo melhor. Tudo porque o reflexo das nossas ilusões acaba diminuindo o valor de muitas coisas, a gente nem sempre se reconhece dentro do que inventamos em nossas mentes. Às vezes nós criamos nossas próprias utopias.

É muito difícil aceitar que por mais verdadeiro que seja o sentimento, sempre haverá pequenas ou grandes discórdias, acompanhadas de momentos ruins. Difícil aceitar que em alguns momentos a rotina pesa, que há dias em que nem tudo funciona tão bem.  A questão é o quanto isso afeta, o quanto a gente releva, ou o quanto a gente quer alguma coisa. 

A verdade é que só você tem a capacidade de identificar a pessoa que você tem ao lado. Só você pode reaprender a sentir sem medos e comparações. Por vezes você tem todo o conjunto, todo aquele sentimento mútuo, você está no lugar certo e na hora certa, mas você não se satisfaz e deixa a oportunidade passar, porque a gente tem o costume de pensar tanto, o tempo inteiro, e sempre esperar por mais. Algumas coisas não deveriam ser tão sonhadas ao ponto de serem vistas como inalcançáveis. Sentimentos não são lógicos, não existe padrão certo ou errado de amar. Talvez o amor não seja utópico, talvez seja apenas questão de realidade e reciprocidade.

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