Eu te vi ir embora

Já faz tempo que não te vejo mais. Você partiu em direção ao mundo dos seus sonhos, me deixando em outro, completamente diferente.

Soube que você me esperou aquele dia, no aeroporto. Que me odiou ao perceber que eu não iria me despedir. Acontece que eu já havia me despedido, porque eu te vi ir embora.

A cada resposta curta. A cada diálogo monossilábico. A cada beijo gelado. A cada silencio no jantar. A cada furo na hora de sair. A cada olhar distante. Eu vi cada pedaço do teu amor por mim se esvair. Eu te vi deixar de se importar, então eu decidi não te ver partir fisicamente. Porque a sua alma já havia partido muito antes.

Você me amava, mas dormiu bem naquela noite. E eu que jurava não sentir tanto assim, senti tanto que não consegui pegar no sono. Parece que no fim nós realmente descobrimos a verdade. 

Você jurava que não conseguia sem mim. Conseguiu. Eu dizia que seria pra sempre. Não foi. Você dizia que sempre estaria aqui. Não está. Você disse que sempre lembraria de mim. Não lembra mais. Você jurou que a amizade não acabaria junto com o amor. Foram embora de mãos dadas. Você dizia não mentir. Mentiu todas essas vezes. Eu jurei que jamais escreveria um texto desses pra você. Escrevi.

Sabe, aqui já passou de meia noite. Ontem fez um ano. Repeti todos os passos, inclusive fui naquele lugar. Aquele, onde te conheci. E me perdi.

Não sei ao certo, mas a ferida ainda existe. Coloquei meu melhor vestido e minha sapatilha nova. Faz frio, mas não tanto como naquela vez. Ainda bem, porque agora você não está mais aqui pra me abraçar.

Rostos conhecidos me empurram nessa multidão, mas nenhum deles se parece com o seu. E por mais que eu saiba que isso não vai mais acontecer, sinto um frio na barriga ao pensar na chance de te encontrar de novo. Saudade. Antes era tudo tão diferente. Seu cheiro e seu corpo faziam tudo parecer melhor. Mais bonito.

Um vazio cheio de tristeza me deixa aqui, parada. Voltando para casa no mesmo carro em que voltei no passado, com um sorriso gigante no rosto. Esperando que um dia você fosse se lembrar de toda nossa história mágica e maluca. Faz um ano e eu ainda espero.

Anúncios

Eu não quero te deixar partir

Nos sinto cada vez mais próximos e, ao mesmo tempo, cada vez mais medrosos. Sinto nossas almas se aproximarem, mas nossas bocas se afastarem. Você me quer por perto, mas seus traumas insistem em te afastar. Eu te quero comigo, mas minha liberdade insiste em não deixar.

Seus olhos me imploram para ficar, suas mãos se atam as minhas em um impensável suplico para não mais os abandonarem. Minha barriga sente o frio invadir ao te ver, mais uma vez, soltar meu corpo e seguir em direção à porta. Eu não sei quando você vai voltar, eu não sei se você vai voltar. Eu não sei o que vai ser de nós…

A saudade vem nos visitar pouco tempo depois de nos desligarmos. Nossas almas parecem se completar, e precisam estar juntas. Nosso inconsciente arruma festas e desculpas para se ver.

Permanecemos no mesmo ambiente com uma louca vontade de se entregar e ao mesmo tempo um enorme receio de se deixar levar. Somente a presença já faz bem, mas a gente queria mais. Nossas mãos não respondem aos nossos receios e insistem em se cruzar, ora ou outra. Seus braços parecem ter vida própria e, entre uma música romântica e outra, cruzam o meu corpo e me apertam contra o seu. Sua boca, com medo de encontrar a minha, tentar contentar-se em beijar, de surpresa, minhas costas.

Meus arrepios encontram os seus, meus olhos esbarram nos seus. Aqui, dentro dessa balada lotada, nossos beijos parecem estar tão distantes. O inconsciente implora para que todos desapareçam, o consciente lembra que isso nunca irá acontecer, não tão cedo.

Em atos corajosos, minha boca encontra teu pescoço e seus olhos se fecham – você deve estar imaginando apenas nós dois, enrolados em um manto de amor. Você encosta sua cabeça sobre a minha, eu encosto a minha em seu ombro. A música ainda soa alto, quase que ensurdecedora, mas aqui, no nosso cantinho, o som mais alto ainda é o dos suspiros e do coração acelerado.

Saímos, entre mãos dadas que se desfazem logo quando notamos o que estamos fazendo. Nos despedimos com, no máximo, um selinho em frente aos outros, seguido de um suspiro e um abraço. “Dorme bem”, você diz. “Dorme comigo?”, eu quero dizer, mas disparo somente um “você também”.

O dia amanhece e mensagens não são compartilhadas como deveriam, ambos tememos mandar algo que nos comprometa. Decepções, medos, expectativas falsas e mágoas nos fazem temer. Desculpas são usadas para chamar atenção, mensagens tímidas que não rendem em uma conversa longa.

Seguimos assim, esperando a próxima festa, a próxima desculpa dada para nos vermos. Seguimos esperando o próximo toque corajoso, o próximo suspiro apaixonado. Esperamos o próximo amor, aqui mesmo, sentados em frente ao celular vendo apenas o sinal de “online”. Seguimos deixando o tempo passar e nos levar com ele. Talvez, ele, saiba bem o que fazer conosco. Confio nele. Confio que ele virá apagar todas as nossas mágoas passadas e nossos medos. Confio que ele virá nos trazer todo o amor que ainda insistimos em esconder.