Chegadas também são partidas

“A hora do encontro é também despedida”, já dizia Milton Nascimento. Se despedir dói, ? Em menos de um mês, alguns amigos juntaram suas coisinhas e resolveram cada um seguir seus novos rumos, ou nem tão novos assim. Me despedir de alguém é sempre difícil, não importa o cenário. Se existe algo que tenho plena certeza é de que em caso de dor em se despedir, é porque valeu a pena tê-la por perto em alguns vários momentos.

Não somos treinados a lidar com as idas que a vida nos impõe, o pior é que nem sempre é algo inédito, deveríamos encarar essa situação com mais naturalidade, afinal, um outro lado, receberá quem de alguma forma gostamos de ter encontrado no caminho da vida. Novo lugar, novas pessoas, novas experiências, a vontade de fazer dar certo lá noutro canto e a saudade que sente quem fica aqui a esperar o retorno.

Mudanças nos permite amadurecimento, evolução, portas abertas. Novos ares. Em mundo de Whatsapp ainda é possível sentir falta do face to face, do barulho dos copos se chocando no boteco no “saúde!”, do dia em que a falta de festa reunia a galera na casa de um amigo para contar piada sem graça, beber cerveja e tocar Raul. Em algum momento, quando decidem voar mais alto, vai se tornando menos frequente e o medo de nunca mais encontrar bate à porta incansavelmente até você perceber que entre quilômetros e afetos calorosos, o segundo sempre terá muito mais peso que o outro. Deixe ir, deixe encarar outro universo, outras avenidas, deixe voltar quando der, puder, quiser. Saia daqui e vá também. Para amenizar o desconforto de ter de se distanciar, tenha em mente que um outro espaço terá a alegria de receber quem foi. Milton Nascimento, realmente tem razão.

A primeira vez que te vi

Na ânsia de viver a intensa busca pelo tempo bem aproveitado e vivido, entre casos e acasos, a sede de interações, temos preguiça de acumular, mas jamais queremos abrir mão de tê-las. Refém desse momento, dei a sorte de, fazendo o uso da linguagem atual, viver os espaços de realidades e fantasias do mundo do match desbravado.
Foi como ter voltado há alguns anos e, com os peitos estufados, ressignificado algumas coisas que por diversos momentos pensei que não traria na mala para o hoje. E trouxe, vivi tudo de novo de modo e em momentos aleatórios. No meio de tudo isso, reconheci a beleza do respirar fundo, do frio na barriga e no coração acelerado enquanto o tempo de te encontrar está chegando, é tudo como se fosse pela primeira vez. Sem medos, dando tempo ao tempo e disposta a virar a ampulheta quantas vezes for necessário. A deliciosa essência do que é ser paciente.
Te ver pela primeira vez foi me despir de toda timidez e chegar mais perto, foi me livrar da insegurança, conseguir pensar na possibilidade do “de novo”, dos mesmos riscos, das mesmas vontades, do prazer de ter alguém para caminhar compartilhando histórias. Foi relembrar que tem cheiro que fica e no meio de alguma festa vou senti-lo e vai me despertar a saudade de você. Foi me perceber na coragem de dizer que estou preparada mesmo apesar dos pesares de tempos atrás. Foi reviver enquanto borboletas preparavam o vôo em meu estômago. Foi estar em verdadeiro estado de poesia.

Parte da sociedade do cansaço

Os dias não estão sendo fáceis para mim nem para ninguém. A gente corre o tempo todo. Excesso de coisas a serem feitas e o sentimento de invalidez, inutilidade, quando finalmente ficamos “sem fazer nada”, se é que hoje isso ainda é possível. Estamos durante todas as vinte e quatro horas fazendo coisas, isso vai de dormir até ficar vendo as horas na tela de um celular compulsivamente. Impulsos do cotidiano. Acordamos cedo, trabalhamos, estudamos, arrumamos casa, temos que nos encontrar com os amigos para jogar conversa fora, não podemos deixar de lado o almoço da família e nem a reunião de boteco com a galera do trabalho. É diversão? Talvez. Mas cansa? Cansa.

Acordo cedo todos os dias, tomo meu banho quente, sirvo o café, vou para o trabalho, fico algumas horas fazendo tarefas para tudo fluir da mais perfeita maneira, volto para casa, tomo outro banho, vou para o inglês, busco a irmã na escola, levo em casa, vou para a faculdade e só chego em casa no final da noite. É assim todos os dias. Freneticamente. Me perdi entre o tempo, me afoguei nos minutos que correm pelo relógio. Corro contra o relógio diariamente e nada parece andar, de fato. Cansaço. Exaustão. Não tenho tempo nem de chorar quando realmente preciso. Deitar na minha cama e olhar para o teto pensando em “vários nadas” virou raridade. Respirar fundo virou raridade. Para mim e para você. Já parou pra pensar?
A vida tem exigido muito de nós, tem exigido que diariamente sejamos melhores, mas, não melhores para nós mesmos, melhores para quem servimos; melhores que as outras pessoas da turma, do trabalho, melhores do que todos. Cobrança deles ou autocobrança? Não tenho tempo para pensar em todas essas questões que envolvem um meio, um sistema inteiro e, como parte de tudo isso, eu. A gente se cobra sempre mais, se cansa, engole tudo à seco e faz do automatismo um refúgio. Até quando? Quando vamos deixar de servir à vida para de fato vivermos? Às vezes parece que não vai dar para aguentar, que a qualquer momento vamos explodir, mas relaxa que o lance da vida é sorrir. Mas, calma, que vida?

O amor da minha vida

Vocês já tiveram a sensação de “amor da vida”? Isso não é sobre estar junto, vale ressaltar. Ah, também não é sobre nunca mais poder se interessar e amar outro alguém. Mas sobre encontros de alma, encontros inesperados, que mudam tudo em poucos segundos.
É sobre encontro que te aperta a boca do estômago e te faz crer que tudo vale a pena mesmo que as possibilidades de não dar certo sejam maiores, isso não importa. É viver sabendo que você foge da teoria frigideira. Você pode já ter conhecido o amor da sua vida, sim, e pode ter deixado ir, isso não é falta de (re)conhecimento a respeito de pessoas que se esbarram e simplesmente chegam para mudar tudo, é também (saber) amar.
Você deixa ir e ainda sim eles ficam. Você se disponibiliza o tempo inteiro para o novo. Ama, se entrega e, se um dia o mundo os deixar distantes, se sente como se o mundo tivesse perdido o sustento. É mar de carinho e respeito que prevalecem independente de toda e qualquer mágoa. Pode doer, doer muito, mas se um dia te pedirem para falar sobre o que a pessoa representa em sua vida, ah… palavras faltarão e talvez até entre elas você se perca. É amar sem limites, é enfrentar tudo e todos, inclusive aquele que é sempre tão incerto: o tempo próprio das coisas. É perceber que há no mundo alguém que se encaixa e ajeita contigo até nos erros, é o frio na barriga resumido na ligação e o acelerar do coração ao contar histórias e ao esperar o reencontro. Se podemos ter mais de um amor na vida, eu não sei. Só sei que já encontrei o meu.

Guarde tudo isso e me escute

Guarde os presentes, os bombons e as flores. Agora me escute. Hoje é dia 08 de março, dia das mulheres, dia marcado pelo início da luta de várias de nós que deram o sangue fervendo pelas veias em forma de protesto para que tivéssemos nosso papel no mundo reconhecido como deveria e deve ser.

Não adianta você trazer as flores mais bonitas e cheirosas e achar que sou um pedaço de carne e que o “fiu-fiu” é um elogio. Não adianta você postar foto nossa nas redes sociais falando do quanto sou importante e especial se você me estapeia e usa palavras chulas se referindo ao meu gênero e por consequência ao que sou ou deixo de ser na cama. Não adianta você me abraçar desejando um feliz dia da mulher se meu desempenho no mesmo cargo que o teu é melhor e, mesmo sabendo que ganho menos, isso fere teu ego e você não tolera meu sucesso. Tudo isso porque sou mulher. Não adianta os bombons caros que você me traz se você acha que eu tenho que te dar quando VOCÊ tem vontade e eu não. Não adianta você pegar aquelas imagens cintilantes de “feliz dia da mulher” e compartilhar no Facebook ou nos grupos do Whatsapp se você acha que minha roupa curta é um convite. Não adianta me levar para jantar no melhor restaurante se você acha que não posso pagar a conta (ou dividir) porque isso é coisa de homem. Não adianta você postar que mulheres são seres incríveis se você não entende o porquê do seu amigo colocar uma mulher para chefiar na empresa e até pergunta se ele está “comendo a moça e quer garantir a carne”. Não adianta você falar que mulher precisa mesmo de um espaço na sociedade se acha “ok” um governo não ter mulheres à frente dos órgãos os quais ele engloba. Não adianta gastar dinheiro e tempo se acha que teu pau e teu espírito macho predador vão me deixar no chinelo e me fazer desistir da sociedade que preza a equidade de gênero. Não vão, você entendeu? Guarde tudo isso e me entregue quando repensar suas atitudes, me presenteie com suas ações primeiro, enquanto elas não mudarem não vou recebê-los, tá bem? Agradeço por educação, mas eu não quero. Não preciso.

Não adianta nada disso se você acha que a casa e o filho são responsabilidades exclusivas minhas, se você acha que falar sobre feminismo é besteira minha mas que, ok, eu mereço um agradinho. Não adianta sobretudo se você acha que tudo o que nos oferecem no dia 08 de março serve para anular toda a violência que sofremos diariamente e desde sempre por sermos mulheres. A gente não precisa de abraços, apertos de mãos e outras diversas formas de felicitações por esse dia se você reproduz o machismo que nos atinge a cada segundo. O mesmo machismo que mata mulheres todos os dias. O que a gente precisa é dos nossos direitos, do significado dessa luta concretizado.  Queremos voz, espaços, decisões, salários dignos, oportunidades. Queremos transformar um mundo em que as mulheres de amanhã não passem o que nós mulheres de hoje vivemos e muito menos que o nossas bisas e avós passaram. Não precisamos de palavras da boca para fora e nada que valha o que tens na carteira, isso pra gente realmente não importa. Volte várias casas.

Teu cheiro quando chegas

Poderia falar de todas as milhares de coisas que cabem numa dissertação sobre você. Escolhi o cheiro. Ele fica, ele marca e desperta as lembranças mais bonitas, é parte de você que fica no travesseiro, na roupa, no meu casaco guardado há vários dias no armário e até na sua toalha pendurada no secador. Você viaja e eu sinto uma falta que a imaginação do teu cheiro já é capaz de acalmar. É sempre assim.

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Todas as noites durmo agarrada com sua blusa desejando teu colo para conversarmos sobre músicas, filmes, o trabalho, os estudos e até ficarmos trocando frases em inglês como duas pessoas que não fazem ideia do que está saindo da boca ou então para ficarmos apenas caladas enquanto percebo seu tique no olho esquerdo ou conto as pintinhas do teu pescoço, a partir de então deixo cair a ficha de que cada detalhe em você é lindo e único – mesmo quando não é essa uma característica única e exclusivamente sua. O mínimo em você é o que me faz querer a cada dia mais te guardar no pote de liberdade chamado vida. A minha vida.

Não conseguir te ter perto fisicamente durante todos os segundos que moram dentro das nossas corriqueiras vinte e quatro horas, tem uma única vantagem: quando você chega o cheiro se torna único, concreto, se enfia nas dobras das mãos e do resto do corpo como se jamais fosse sair. Fica intenso, forte e meus pulmões de fumante asmática o recebem abertos como se ali estivesse toda e qualquer forma de limpeza e respiração leve, tranquila. Respiro fundo e agradeço por ter seu cheirinho quando está longe, mas ainda mais por receber teu cheiro quando chegas.

Frases: Bom mesmo é fazer do teu cangote moradia.

Não importa quantas pessoas usem o mesmo perfume que o seu, os cheiros de cada um é único. Coisa de pele.

Thais

Você não é o que dizem de você

Estamos vivendo desde sempre como alvo de olhares de quem está disposto a nos apontar em algum momento. Não tem como escapar. Temos que nos acostumar com o ‘achismo’ que mora em outras pessoas, que acabam por nos colocar em caixas que cabem dentro do universo-do-eu-acho-e-falo-o-que-quiser. Mas não somos isso. Não somos nada disso. Não somos o que falam de nós e não somos obrigados a nos limitar por automaticamente já estarmos envolvidos no que as pessoas acham que somos.

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Cresci ouvindo dos meus pais que eles eram as únicas pessoas que me conheciam de trás pra frente e do avesso. Acreditei por um momento. Ou melhor, por vários momentos. Os ouvi falar de mim para seus amigos e até para o vizinhos algumas vezes, coisas a respeito de quem eu sou. Logo na primeira vez que pude acompanhar toda a conversa, tive a maior certeza de que não, eles não me conhecem o quanto pensam. Não que eles tenham falado coisas absurdas e totalmente erradas, mas porque claramente falaram as versões de suas interpretações a meu respeito. E é assim, cada um vai contar o que viram de e em nós a partir da forma com que vão nos interpretar. Natural, nada inédito por aqui.

Passei a pensar nisso desde que comecei a perceber o que diziam de mim até mesmo nas mesas de bares entre amigos onde eu estava presente, ou seja, isso não acontece necessariamente quando as pessoas se dispõem a falar apenas coisas negativas de você, acontece de todas as maneiras possíveis. As pessoas podem conhecer suas preferências, vontades, segredos, seus pontos fracos e até seus defeitos, mas nunca saberão quem você realmente é. Às vezes, essa resposta muitas vezes foge até de nós mesmos, mas, quando olhamos para dentro, temos a verdadeira e impecável interpretação do nosso ‘eu’. Portanto, nunca se deixe envolver pelo achismo exacerbado que sempre estarão disponíveis para te fantasiar positiva ou negativamente. Seja quem você sabe que é, se despeça dos rótulos que vão grudar em sua testa, afinal você não é o que dizem de você.

Thais