Não quero mais brincar de distâncias

Cansa essa vida de viver longe de você. O coração fica pequeno cada vez que um abraço não é dado, que um beijo não é trocado, que a pele não roça. Sobra distância, falta toque. E com a falta do seu corpo junto ao meu, também cansa essa vontade de encurtar os quilômetros que nos separam, mesmo sabendo que os nossos corações estão perto demais para se perderem de vista.

Desgasta essa saudade que se acumula diariamente. A falta é sempre mais presente que a presença e é doloroso demais viver assim. Suas palavras alimentam o que ainda sinto, mas como competir com a falta de atitude? O desejo de agir até existe, mas fica só na intenção. De concreto temos apenas esse amontoado de vontades e saudades e não sei se eu estou disposta a colecionar essas dores todas.

Eu sei que tudo isso dói aí também e não é gostoso saber que sou motivo de aflição no coração que eu só queria afagar. Queria poder fazer mais, tocar mais, viver mais, mas como? Quilômetros me impedem e te impedem também. Na teoria é bonito dizer que o amor constrói pontes, mas na prática, a saudade massacra os planos e o projeto da ponte nunca sai do papel. Eu agonizo por proferir tais palavras, mas a verdade precisa ser dita agora, antes de nos ferir com as próprias mãos, antes de encontrarmos abrigo a centímetros de distância.

Não quero varrer nada para debaixo do tapete, prefiro rasgar o projeto da ponte antes de planejar a construção dela. Parece inviável, vê? Uma ideia louca de que um dia a gente possa, finalmente, estar lado a lado… Dói demais essa distância entre nós. Eu vejo os quilômetros aumentando, a gente se afastando e as nossas possibilidades virando poeira.​

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Como te esquecer em 30 dias

Ouça enquanto lê: Adeus Você – Los Hermanos (https://www.youtube.com/watch?v=PUs144LMiy4)

Seis e meia da tarde.

Encarei o relógio assustada, não havia me dado conta do quanto o dia tinha passado e de como fora tão depressa. Seis e meia da tarde, e eu estava sentada no banco frio do carro, ligando o som que me invadiu com lembrança tua. Eu sorri engolindo o choro, porque lembrar de você ainda me dói. O sorriso foi pelo horário. Depois de dias lamentando tua falta logo ao acordar, hoje levei um dia inteiro para sentir tua falta.

Um mês, 30 dias, 720 horas.

Esse é o prazo que eu me dei para te esquecer. Não posso passar disso, eu não devo passar disso. Acho que um mês é um período muito bom. Eu posso curtir os meus dias de fossa, comendo sorvete e chocolate sem culpa, eu posso rever nossas fotos e chorar de saudades e eu conseguirei seguir em frente. Pode parecer estranho se dar um prazo para esquecer uma pessoa, mas eu me dei essa meta.

Agora preciso saber por onde começar, afinal eu só tenho esse tempo para tirar da minha cabeça a pessoa que morou tanto tempo nos meus pensamentos. O motivo dos meus sorrisos no meio de uma tarde fria, o motivo da minha preocupação, o motivo de eu acordar de manhã e estar feliz por ter alguém do meu lado, por ter você comigo.

Mas agora, como te esquecer em 30 dias? Como deixar para traz todas as lembranças e momentos que passamos juntos?

A nossa história é tão bonita para terminar assim, sem ponto final, sem um ‘se cuida’. Você simplesmente saiu. E eu fiquei. E entre a gente ficou um silêncio gritante, umas memórias lindas e um amor pela metade. A minha metade.

Mas hoje eram seis e meia da tarde e eu passei um dia quase inteirinho sem pensar em você. Se conseguir mais vinte e nove, talvez te esqueça de vez. Só preciso tentar descobrir o que fazer com a parte de mim que é toda tua. E então, em trinta dias, espero esquecer você.

Eu preciso esquecer você. ‘pra que minha vida siga adiante’

Paris 1940 – Le Café de Flore

Fizera bastante frio naquela tarde amena nas estreitas ruas de Paris. Assim como a Alemanha havia dominado a França naqueles dias de guerra, os olhos de Marie dominaram Pierre no primeiro encontro das retinas esverdeadas. Ela – garçonete do Le Café de Flores –  possuía uma pele alva como a neve, tinha o verde da natureza em seus olhos e lábios avermelhados que pediam beijos vagarosos. Ele – militar da armada francesa – tinha o mesmo verde claro nas íris, possuía uma pele que almejava ser escura, tinha os cabelos lisos e negros, estava sempre acompanhado do seu cigarro, e tinha lábios carnudos e cicatrizados.

Ele estava sentado na última mesa do Le Café, próximo à rua onde sempre sentava-se. Pierre costumava ler poesias, era fascinado pelas palavras e seu dom de cura. Ele tinha o “Fan Don” como seu escritor francês favorito. Logo depois de um dia cansativo trabalhando nas minas de Paris, ele resolvera parar no Le Café de Flores para tomar seu rotineiro café.

Era o primeiro dia de Marie como garçonete naquela tarde amena, e ela aparentava ter bastante habilidade no que fazia. Ela – assim como Pierre – era perdidamente apaixonada pelas poesias do “Fan Don”, e costumava lê-las quando a luz do sol despedia-se de seus olhos esverdeados.

Pierre, com suas pernas cruzadas, lia aquelas palavras sem nenhuma noção de tempo ao seu redor. Fan Don parecia saber exatamente o que passava-se no coração dele. Mas enfim ela chegou, apareceu para ele como quem foge de um filme francês. Olhos perfeitos e esverdeados, e uma boca que almejava beijos vagarosos. Pierre nunca havia visto nada parecido em sua vida. Ela era a coisa mais perfeita que ele podia tocar, ver, amar, e sentir. Ali, nos olhos de Marie, ele notara a beleza das palavras que tanto  F. Don descreveu nas poucas páginas de seu único livro.

Logo após alguns minutos, ela anotou o valor do café e lhe falou alguma coisa, mas para Pierre, tudo aquilo soou como poesia do Fan Don. E por um breve momento, ele viveu aquelas páginas bem na sua frente.

Ele sorriu para ela meio sem graça.

Ela retribuiu o sorriso. Bem mais envergonhada do que ele.

As bochechas de Marie logo foram tomadas por um vermelho adocicado. Ele sorriu novamente e  questionou-se de onde vinha tamanha beleza naqueles olhos claros. Pierre não sabia sequer o nome dela, e naqueles singelos instantes, ele já imaginava ter filhos, uma casa no campo longe daquele período de guerra, e beijos vagarosos e infinitos ao lado dela.

Marie, ao notar o livro nas mãos de Pierre, sorriu disfarçadamente com os olhos, e perguntou-lhe se ele já havia chegado a página 123;

“Mon amuor”.

-Ela falou.

Era a sua poesia favorita daquele livro. Ele sorriu espantado ao perceber que ela também conhecia aquele autor desconhecido por muitos.

Eles se olharam por alguns segundos que pareciam horas, as retinas se entreolharam, os lábios aproximaram-se, as pulsações aumentaram e as mãos se tocaram.  Tudo tão rápido que nem eles mesmo sabiam o que estava acontecendo. Quando deram-se conta, seus olhos já estavam mais alinhados do que o trópico de capricórnio.

Naquela tarde de 14 de maio de 1940, Pierre e Marie perceberam que Fan Don sempre tivera razão ao dizer que o amor acontece quando tem que acontecer. Não existe hora ou lugar marcado. Ele aparece no momento exato. Quando menos se procura por ele. Quando menos se espera por ele.

As partículas aceleravam junto aos batimentos cardíacos. O tempo se alinhava junto ao universo. Os ventos sopravam para o mesmo lugar. E quando menos se esperou… ou procurou…

Naquele momento, naquela hora, em meio a segunda guerra mundial, no meio de tanta dor causada por mais dor, dentre tanto caos e tristeza. O amor foi o único que não se escondeu, ele se mostrou infinito e resolveu fazer morada no detalhe.

Nas minúcias do verde dos olhos de Marie, e de Pierre.

Detalhes diários

Um dia monótono com tempo nebuloso. A chuva cai sem pressa pela manhã de hoje, dando a impressão de que estamos parados no tempo. Tenho a sensação de três dias durarem três meses. Mas é assim o cotidiano de uma pequena cidade: simplicidade e calmaria, onde a vida caminha vagarosamente.

Levantei da cama cedo, não consegui compensar o sono perdido na madrugada. Fui para varanda da casa, olhar aquele tempo que aparentava alguns traços noturnos. Um dia frio – um bom lugar para ler um livro – sempre proporciona boas sensações. Minha vontade é de morar em um lugar em que o frio nos acompanha diariamente. Além disso, o dia começou com o batuque agradável da chuva caindo no telhado, e combinar esse som com uma cama e um edredom confortável, deixa qualquer movimento corporal custoso. Mas dessa vez eu estava na varanda olhando toda aquela cena, ouvindo aquela pequena voz na minha mente falando que o contato com a natureza é o melhor tranquilizante para quem tem uma vida em meio à confusão.

É, minha vida está uma confusão: término de namoro; fui demitido do emprego no qual estava há um bom tempo; falta de confiança no que posso produzir, parece que nenhuma ideia é boa o bastante; um turbilhão de sentimentos negativos. Junto à barulheira que é morar em uma grande metrópole, os pensamentos em busca de soluções ficam sufocados. Sem contar que não tenho visto meus amigos. Mas nem reclamo, porque o único que tive uma breve conversa me indicou o lugar no qual estou agora.

Essa viagem apareceu em uma boa hora, além do lugar que me surpreendeu desde a chegada – e eu ainda não queria vir para cá. Aqui é tão tranquilo que podemos resolver boa parte de nossos problemas. A correria da cidade grande e a enxurrada de informações que é atirada em nós nos empata de raciocinar com mais cautela.

Pois é, estou aproveitando cada segundo neste ambiente agradável. A chuva deu uma amenizada, bem na hora em que os alunos passavam para ir à escola. Engraçado, quando eu estudava, e caía esses “toró”, algumas vezes a chuva parava bem no horário de ir à aula. Podia está caindo um dilúvio, mas quando chegava o horário de sair de casa o sol aparecia bonito – o que me dava muita raiva. Eu, crente de que iria faltar aula para ver desenho, era decepcionado com o grito da minha mãe: “Bora, já passou a chuva. Vai pra aula! ”. Agora a saudade da minha época escolar bateu forte, vendo esses alunos passarem todos uniformizados.

Saindo do sentimento nostálgico, notei que no começo da rua, em direção oposta aos alunos, vinha um padeiro – padeiro dos moldes antigos. Aliás, já vi que aqui ainda existem pessoas que vendem pão de casa em casa. Além disso, eles têm um “single” tradicional: “Padeiro! Padeiro! Padeiro! ”, e entoando este som percorrem todas as ruas com muita naturalidade. Suas ferramentas de trabalho são: uma bicicleta e uma cesta apinhada de pão na garupa. Há quem só carregue a cesta e cumpra seu trabalho caminhando. Então resolvi parar aquele estava vindo para conversar um pouco.

Chamei o senhor, aproveitei para comprar pão, e de pronto indaguei a ele como era a vida ali e se ele já tinha morado em outras cidades maiores. Perguntei também se o mesmo não tinha vontade de ir em busca de outras coisas e lugares, já que o mundo nos oferece várias possibilidades de vida.

Sempre que vejo as pessoas, penso que cada uma é um mundo cheio de aprendizados, portanto, um ser humano qualquer que goste de uma boa conversa já é um atrativo e tanto pra mim. Então, esse senhor que vende pão, e que aparenta ter uma idade avançada, seria o primeiro a ser abordado por mim – pessoas de mais idade sempre são sábias na hora de falar sobre a vida.

Com uma simpatia e alegria de quem vive bem, ele respondeu com toda simplicidade:

“Meu jovem, já rodei por algumas dessas grandes cidades, e até me senti tentado a morar nos lugares onde passei. Enormes espaços de concreto; edifícios magníficos com suas tecnologias; enfim, uma variedade de coisas prontas para lhe servir. E você tem tudo o que deseja, só precisa trabalhar, claro. Aliás, muitos vendem o seu tempo no trabalho para obter o que desejam, e muitas vezes não gostando do que faz. Tudo em troca de coisas que não são essências para uma vida sadia, em todos os aspectos. Não estou falando que trabalhar para ter aquilo que quer seja errado. Me refiro aos que são infelizes no seu trabalho, e assim doam seu tempo para aquilo que não traz satisfação. Tudo em troca de condições financeiras para comprar o que não precisam, e se encaixarem no “estilo cidade grande”. E, apesar de terem a impressão de estarem felizes, dificilmente as pessoas que ali moram conseguem enxergar o simples, ou valorizar mais as pequenas coisas. Sempre tentam achar a felicidade na aparência, no olhar de exaltação do outro, com bens materiais, demonstrando um bem-estar de fachada.

As pessoas vivem dizendo que a felicidade está nas pequenas coisas, mas vivem ambicionando coisas de grande valor material. Ah, meu jovem, ainda tem o estresse da correria. E é tanta informação com essa tal de internet agora. A mente fica entulhada com tudo isso.

Ainda tem outra coisa: pagam para desfrutar de coisas que estão aí gratuitamente para nós, como a natureza. Olha, eu pego minha canoa e rodo boa parte desse rio sem pagar nada. Meu filho me disse que lá pagam 40 reais para ficar em uma prancha com um remo. Meu jovem, aqui eu ainda volto com peixe pro jantar. Então pra quê eu vou querer viver em um lugar que vai me induzir ao sacrifício do meu precioso tempo por causa de coisas não preciso?

Vivo aqui, trabalhando no que eu realmente gosto e me sinto bem, por isso sei que andar todas as manhãs por essas ruas não é em vão. Trabalho pelo o que é necessário para se levar uma vida boa, além de viver em um lugar tranquilo. Claro que deve haver aquelas que são felizes com o estilo de vida que levam nesses lugares, mas não é algo atrativo para mim.

Tá certo, as pessoas tem a liberdade de rumar o caminho que achar conveniente. Assim como eu, que escolhi o simples, a calmaria de um lugar. Mas o que quero dizer é que quanto menos criarmos expectativas de que o mundo nos trará felicidade com seus produtos pouco duráveis – o que as grandes cidades oferecem –, mais vamos apreciar aquilo que é belo. Por exemplo: experimente ver o nascer do sol de frente pro rio, e me diga como se sente. Simplicidade autêntica, onde mora a felicidade. Mas poucos param pra ver que os ‘produtos’ que realmente precisamos, Deus já criou há tempos. Estão aí para quem quiser, e nem precisa pagar. ”

Depois da conversa, somente refleti sobre a vida que levo.

Você não queria voar e eu desejava o céu

A chuva cai lá fora, aqui em casa me afogo em minhas lágrimas que quebram toda a minha pose de durona.

-Eu nunca irei sair da sua vida Valerie!

Foram as palavras que frisei antes de tudo se contradizer, de repente um quebra-cabeças com peças iguais, de repente uma saudade que nunca dá trégua, de repente, olha eu em um apartamento que é o reflexo de uma história que já teve dias cinzentos, mas que nunca foram tão vazios como me sinto agora.

De repente as músicas se tornaram clichês, as pessoas comuns, os barzinhos que tantas vezes fomos juntos me dão tédio, até a noite da pizza toda sexta-feira pós Happy Hour, passaram a me dar náuseas, como pode uma pessoa, uma falta mal preenchida, um desencontro de almas e um esbarrão na solidão não são capazes de fazer na vida de alguém que até dias atrás sorria e sonhava com mil e um planos para um futuro que parecia tão certo e de repente tudo se desfez.

Olho para o canto do quarto e a nossa mala ali, ainda por se fazer, me fazendo reviver aquela última noite de amor que tivemos em Bali. Um pôr do sol esplendoroso, meia taça de vinho branco, roupas por se desfazer e corpos sedentos pela ânsia de entregar. Me entreguei e fui mais uma vez sua, inteiramente sua, tanto quanto a primeira vez. Risos, sorrisos, dedos entrelaçados e a delícia de um despertar ao seu lado me trazendo aquele frenesi absurdo de querer começar a viver o nosso agora, exatamente agora!

Éramos opostos e isso desde sempre foi nítido, você era de escorpião, e aqui para nós, escorpianos são um pouco difíceis de lhe dar, mas mesmo assim eu quis arriscar, nunca fui ligada em astrologia e não seria agora que me ligaria.

A única coisa que queria era estar com você, que se dane a astrologia, seu mapa astral, ascendente, lua e o diabo a quatro, eu queria você e não teria zodíaco no mundo que impediria que isso acontecesse.

Tínhamos tudo para dar certo, os mesmos gostos, vontades, sonhos e até defeitos, o único defeito é que eu desejava voar um pouco mais alto, ir além e você permanecia ali, com os pés no chão.

Chegou o momento de caminhar um pouco além, de tentar novas histórias e viver sonhos, você não me pediu para ficar e também não me impediu de ir, segurou meu queixo, beijou meu nariz e virou as costas, você seguiu seu rumo e eu segui o meu.

Travesseiros jogados, frases entaladas, olhos inchados e a entrega de que a noite anterior não terminou como eu desejava, tínhamos tudo para dar certo, se não fosse o pequeno detalhe que fizesse com que tudo desse errado – você não queria voar e eu desejava o céu.

O amor dos outros

Não me amolecem o coração esses casais considerados símbolo de perfeição, o tal casal que vive junto há uns 50 anos e jura nunca ter brigado, o par que dá conselhos sobre como ter o relacionamento ideal durante a reportagem de um programa qualquer de domingo, ou a senhora que exibe orgulhosa o anel de compromisso que ganhou de presente quando ainda era aquela jovem que acreditava em tudo e todos, enquanto, hoje, o marido apenas assiste TV, sem nem olhar para os lados.

Não me conquista aquele que esconde seus defeitos e finge que amar é sorrir o tempo todo, flutuando entre mil nuvens de açúcar de confeiteiro. Aqueles casais que só se tratam como tal em fotos nas redes sociais, tão agarrados, tão aparentemente envolvidos, mas que dissolvem no dia a dia, toda a magia que teimam em forçar diante das telas.

O que me conquista é a verdade, o sorriso que se percebe pelo brilho que até parece vir lá do fundo, do espaço mais profundo dos olhos. Um sorriso que pode não aparecer o tempo todo entre flashes nos momentos de fotografia, mas que é certeiro, porque quando aparece, e quase sempre aparece, é natural. Ele vem porque tem um recado direto a dar, não serve como disfarce, pois é feito daquelas coisas bonitas de dentro da gente, aquelas que de tão genuínas, exalam sozinhas e nós, meros mortais, não conseguimos disfarçar.

Não dá pra fingir felicidade o tempo todo, não dá pra fingir que não passamos por maus momentos ao lado daquela pessoa ou que nunca houve uma discussão ou desentendimento, porque isso faz parte e é preciso aparar as arestas. Negar os momentos ruins superados seria o mesmo que negar uma parte da nossa história, a verdade que é parte crucial do verdadeiro amor que consiste em saber dos defeitos e se encaixar assim, ser bonito assim, imperfeito como todo e qualquer ser humano é.

O amor é realmente um sentimento divino, mas não nos transforma em deuses, porque, de alguma forma, torta ou não, precisamos do imperfeito, daqueles pequenos ou grandes desafios que nos fazem mais fortes, que nos fazem nós mesmos.

Que fique claro que encarar os desafios que nos aparecem quando nos relacionamos com alguém não é o mesmo que procurar ou engolir, a cada dia, sofrimentos só para continuar ao lado da pessoa a quem temos amor. Somos feitos de falhas e grandes valores, nós somos a mistura de tudo isso e precisamos do equilíbrio entre dias não tão bons, com os dias em que, tal como Zeca Baleiro, acordamos com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, bater na porta do vizinho e desejar bom dia  e beijar o português da padaria, mas se impera lá no fundo do coração, lá onde só você tem acesso, um relacionamento só de buracos e escuridão, é preciso dar meia volta e recalcular a rota porque algo de muito errado aconteceu durante esse trajeto.

Ouço e leio muitas histórias de amor, mas já me apego a elas, não como nos tempos de menina. Elas me inspiram, me emocionam, mas hoje me questiono muito mais sobre o que é de verdade. Como saber quais são as que, de fato, aconteceram, quais delas são reais? Questiono, mas não me preocupo, observo, me permito encantar, e deixo que a resposta fique a cargo de quem vive esses romances.

Eu não quero me pautar por uma história que não é a minha. Eu quero estar acordada quando isso acontecer, porque eu cansei de sonhar e apenas imaginar, mesmo sabendo muito bem que quem escolhe a hora não sou eu, e que também nesse quesito, Deus, o destino, ou o que quer que chamem de poderoso, é implacável.

A minha parte vem logo em seguida: abrir portas e janelas, ou deixá-las entreabertas, ir devagar ou descer as escadas correndo e pular em seu colo. Eu decido uma porção de coisas, mas não posso evitar quando acaba, porque se tiver que acabar, não há convenções sociais, aparências, feitiços ou decisões desesperadas tomadas por conta do medo de perder, que sejam capazes de deter o ultimato do tempo. It’s over.

Há tanta gente com alguém do lado, mas sozinha, tanta gente acompanhada pela solidão, tantos apenas observando e desejando o amor dos outros, tanta gente que não viu o amor passar e, preocupado tentando salvar o próprio barco, não percebeu que ele chamava para ir com ele, lá no fundo, onde se faz preciso mergulhar. O fim já estava ali, mas ninguém se deu conta que já era a hora do recomeço e que recomeços também dão certo quando estamos sós.

Sozinho é que a caminhada começa, o amor pode nos encontrar logo no início, ou bem mais a frente e mesmo querendo muito, ele só vem quando é chegada a hora e eu sigo, continuo andando, parando de vez em quando, mas repetindo pra mim que um dia ele chega, que um dia ele será pra mim.

Eu teimo em esperar porque eu não quero um amor que é para os outros, o amor que o outro fez, eu quero um amor pra mim e feito por mim. Porque esse amor dos outros não é meu, não fui eu que teci, e embora pareça que sigo fugindo do que não controlo, eu quero mesmo o amor, justamente, porque sei que é ele quem faz o caminho. Eis o risco e eu aceito porque desejo  um amor apenas e não apenas amor. Um amor que não precisa ser pra sempre, que não seja como o dos outros, mas que seja feito da nossa verdade. Minha e de quem estiver disposto a pintar comigo essa estrada toda de azul ou qualquer cor que traga paz para nos ajudar a levantar nos tropeços que podem acontecer sem perder a direção. Um amor que seja feito de duas verdades e duas vontades, a combinação e a soma de duas pessoas que são muitas em uma só nesse grande universo que é ser assustadoramente e apaixonadamente humano.

Fica

Eu nunca tive aquele sonho doido de encontrar alguém, casar e ter filhos. Na verdade é muito pelo contrário. Sempre quis ser ‘’sozinha’’ sabe? Independente, queria viajar e aproveitar da vida o máximo que fosse possível. Meu sonho era viver de loucuras, de noites não programadas andando pelo meio da rua, de doses erradas que me fariam ver a vida com um pouco mais de clareza.

Mas ai você apareceu e mostrou-me que a graça de viver está naquilo que fazemos juntos, no amor que sentimos e cultivamos, no coração que abrigamos no peito um do outro. Mostrou-me que minhas viagens fariam muito mais sentido com alguém ao meu lado e que sem uma mão para segurar, eu não saberia aonde ir. Mas não vou dizer que você é tudo para mim e nem que não viveria sem ti, afinal, eu cheguei até aqui só e sinceramente, muito bem. Mas é que a minha visão mudou, os meus pensamentos se tornaram outros e meu coração apaixonado se tornou irracional desde que estás aqui, e eu amo essa nova versão de mim.

As vezes paro para pensar naqueles conceitos ultrapassados e vejo-me concordando com aquela velha frase: ‘’Você foi feito para mim!’’.  E essa minha certeza se renova a cada dia que passamos juntos, a cada ida ao parque, a cada filme e a cada olhar inesperado. Eu sei que você foi feito para mim todas as vezes que nossas mãos se chocam e a única coisa que você sabe fazer é olhar nos meus olhos e depois ir chegando de mansinho até me beijar. Ah, que beijo! Sei que foste feito para mim, quando ao sentir medo sei que apenas o teu colo pode me brigar, quando ao ouvir tua voz o mundo todo se torna paz ao meu redor e ao sentir teu cheiro, respiro fundo para te fazer morar aqui dentro.

Eu sei que não poderia ser outra pessoa quando eu estou mal e só tu sabes me fazer ficar melhor, quando a tempestade chega e teu abraço é o único no qual eu me sinto completamente protegida, ou quando ficamos longe e a saudade que sinto é algo que não sei explicar. Ela arde, corrói meu corpo por dentro e durante alguns segundos sinto como se estivesse morta, e é depois de escrever isso que eu volto atrás no que disse antes, a partir de agora você é sim tudo para mim e minha vida sem a tua presença é algo que eu prefiro não me martirizar a imaginar.

Logo, hoje te faço o meu pedido mais sincero e de uma forma calma imploro-te, fica aqui… Fica aqui e pega na minha mão quando eu precisar. Fica aqui e meche no meu cabelo todas as noites quando formos nos deitar. Só fica… Fica e faz da tua presença o lar que eu achava não precisar e hoje vejo que sempre me faltou. Fica e traz, traz aquela paz do teu olhar e o doce do teu beijo que me faz ficar tão bem. Traz a luz para a minha vida, traz o amor que eu merecer, mas só aceito se vier de você.