Eu não quero te deixar partir

Nos sinto cada vez mais próximos e, ao mesmo tempo, cada vez mais medrosos. Sinto nossas almas se aproximarem, mas nossas bocas se afastarem. Você me quer por perto, mas seus traumas insistem em te afastar. Eu te quero comigo, mas minha liberdade insiste em não deixar.

Seus olhos me imploram para ficar, suas mãos se atam as minhas em um impensável suplico para não mais os abandonarem. Minha barriga sente o frio invadir ao te ver, mais uma vez, soltar meu corpo e seguir em direção à porta. Eu não sei quando você vai voltar, eu não sei se você vai voltar. Eu não sei o que vai ser de nós…

A saudade vem nos visitar pouco tempo depois de nos desligarmos. Nossas almas parecem se completar, e precisam estar juntas. Nosso inconsciente arruma festas e desculpas para se ver.

Permanecemos no mesmo ambiente com uma louca vontade de se entregar e ao mesmo tempo um enorme receio de se deixar levar. Somente a presença já faz bem, mas a gente queria mais. Nossas mãos não respondem aos nossos receios e insistem em se cruzar, ora ou outra. Seus braços parecem ter vida própria e, entre uma música romântica e outra, cruzam o meu corpo e me apertam contra o seu. Sua boca, com medo de encontrar a minha, tentar contentar-se em beijar, de surpresa, minhas costas.

Meus arrepios encontram os seus, meus olhos esbarram nos seus. Aqui, dentro dessa balada lotada, nossos beijos parecem estar tão distantes. O inconsciente implora para que todos desapareçam, o consciente lembra que isso nunca irá acontecer, não tão cedo.

Em atos corajosos, minha boca encontra teu pescoço e seus olhos se fecham – você deve estar imaginando apenas nós dois, enrolados em um manto de amor. Você encosta sua cabeça sobre a minha, eu encosto a minha em seu ombro. A música ainda soa alto, quase que ensurdecedora, mas aqui, no nosso cantinho, o som mais alto ainda é o dos suspiros e do coração acelerado.

Saímos, entre mãos dadas que se desfazem logo quando notamos o que estamos fazendo. Nos despedimos com, no máximo, um selinho em frente aos outros, seguido de um suspiro e um abraço. “Dorme bem”, você diz. “Dorme comigo?”, eu quero dizer, mas disparo somente um “você também”.

O dia amanhece e mensagens não são compartilhadas como deveriam, ambos tememos mandar algo que nos comprometa. Decepções, medos, expectativas falsas e mágoas nos fazem temer. Desculpas são usadas para chamar atenção, mensagens tímidas que não rendem em uma conversa longa.

Seguimos assim, esperando a próxima festa, a próxima desculpa dada para nos vermos. Seguimos esperando o próximo toque corajoso, o próximo suspiro apaixonado. Esperamos o próximo amor, aqui mesmo, sentados em frente ao celular vendo apenas o sinal de “online”. Seguimos deixando o tempo passar e nos levar com ele. Talvez, ele, saiba bem o que fazer conosco. Confio nele. Confio que ele virá apagar todas as nossas mágoas passadas e nossos medos. Confio que ele virá nos trazer todo o amor que ainda insistimos em esconder.

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Amanhã terminaremos tudo

Amanhã terminaremos tudo. 

Na próxima alvorada, nossos planos se extinguirão. Nossas promessas bonitas de mesas de bar e de poltronas de cinema virarão fábulas. Seus olhos, diante de mim, fecharão para sempre. Não riremos nem implicaremos mais um com o outro. É amanhã. Amanhã seus lábios recolherão seus desejos. Seus olhos olharão pra mim e avistarão um estranho. Ou um inimigo. Amanhã sua ausência passará  a ser dor. Uma dor que fará morada aqui dentro. Você não se preocupará mais em me lembrar de pagar as contas. Eu não lhe trarei mais café pela manhã. Não ouviremos nada mais além do eco de nosso adeus. 

Será amanhã. Nem um dia a mais. A noite será mais longa. A madrugada me aprisionará na cama. Suas costas viradas serão meus olhos implorando descanso. As paredes do meu quarto serão labirínticas. Não encontrarei saída. Enxergarei você na janela, no porta-retratos, no lado esquerdo da minha cama. Os restaurantes que frequentávamos e os bares onde sorríamos juntos serão punhais cravados em meu peito. É amanhã. Quando a noite adormecer, nada mais existirá. 

Essas são as nossas últimas horas. No próximo amanhecer nos desconheceremos. Haverá o receio de nunca termos caminhado. De nunca termos visto à frente. De nunca termos dado as mãos. Amanhã seremos apenas um. Seremos pontos extremos. Criaremos ilusões de que tudo pode mudar. Apenas ilusões. Procuraremos as respostas, mas estarão a milhas de nós. Nossos braços jamais alcançarão novamente um ao outro. Meus olhos perderão o brilho amendoado de você. Desconhecerei o verdadeiro gosto de sua pele. 

Passaremos dias em claro buscando compreender os motivos. Talvez não existam. Talvez estejam diante de nossos olhos. Vagaremos feito sonâmbulos em busca do  inexplicável. Notaremos  ter plantado passados sem colher futuros. Seremos nada além de recordação. De uma doída recordação. Nas recaídas choraremos dúvidas. As respostas serão nossas carnes vazias.

Meus olhos não enxergam nada mais além de ponteiros. Ponteiros de nossos últimos resquícios de tempo. Enxergo a velocidade com que são compassados. Os ponteiros são carrascos incansáveis. Despejam angústias ao apontar suas lanças. Os ponteiros arrancarão o derradeiro suspiro de nós dois. É amanhã. Amanhã terminaremos tudo. Amanhã terminaremos, talvez, o que nunca teve início.