Trabalhar na solidão

Estive pensando em recuar. Ou melhor, me isolar um pouco, não na intenção de me “vitimizar” como quem quer somente chamar a atenção, mas com o propósito de trabalhar o autoconhecimento. Me desligar um pouco do fluxo intenso de informações e distrações que me cercam. Já fiz isso algumas vezes, e me trouxeram um vale de sentimentos inquietantes, porém, serviram muito para que eu pudesse notar meus defeitos, para então corrigi-los. Mas uma vez só não basta, me propus a sempre passar um tempo sozinho, tendo bem pouco contato com os amigos, pois trabalhar a personalidade, a meu ver, é algo feito na calada da noite e numa parcial solidão do dia. No quarto, quando deita na cama, naquele escuro, você fica de frente com sua própria consciência, longe de toda a plateia da corrida diária. Não há como esconder os defeitos de si mesmo, o melhor é ir trabalhando na pedra bruta do ser, buscando moldar tudo da melhor forma. No dia a dia você deve reparar cada comportamento seu, e o que te leva a agir e reagir às determinadas circunstâncias.

Eu tenho a mania de observar os comportamentos das pessoas ao redor, sempre tive a curiosidade de desvendar o que as leva a se comportarem como se comportam, mas algo estava faltando: começar a reparar no meu próprio modo de agir. E fui descobrindo com o tempo, e me observando mais, que na solidão da noite eu poderia refletir sobre minha ação do dia que se passou, e tentar mudar no dia seguinte. Não é nada fácil: primeiro, assumir que há erros que devem ser corrigidos, e depois consertá-los, sem que você sucumba diante da resistência do seu próprio corpo de se livrar do problema. Penso que a pior guerra que travamos é contra nós mesmos. No entanto, uma vez que você consegue se manter no controle da situação, no sentido de se adaptar às condições que a vida impõe, mudando para melhor aqui e ali, tudo se torna mais fácil. Não é fácil, como já alertei, é uma longa caminhada. Apesar falar de forma convicta sobre isso, eu ainda estou na caminhada, ainda não tomei o controle da situação, por isso a constante vontade de ficar sozinho. Você poderia me perguntar: “Como você fala como se já tivesse chegado a tal situação? ” Porque há quem já passou, e estes servem como referência. E é aqui que eu quero acrescentar algo: sempre há ensinamentos de pessoas que viveram o suficiente para ajudar nesta caminhada rumo ao seu ideal.  Livros milenares que trazem filosofias de vidas que nos norteiam nas horas difíceis. Sempre me ajudam quando me vejo perdido.

Enfim, mais uma madrugada se vai, e eu estou aqui entre leituras, escritas e pensamentos, tentando organizar tudo para seguir nesta vida. Assim como um texto pede uma harmonia entre as partes, deve haver uma harmonia entre o pensamento e o comportamento: uma coerência entre o agir e o pensar. E nada melhor que a começar a trabalhar tudo na sua própria solidão.

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Meu coração não é ‘casca grossa’

Sabe o que me dói?
Não é o fato de você ter feito o que me fez. Nem ter conseguido fazer com que eu não pudesse mais confiar em você. Foi o fato de ter destruído o que havia de mais bonito em mim. Eu esperava qualquer coisa, de qualquer pessoa, menos que você destruísse qualquer resquício de amor que em mim habitava.

Só uma palavra resume o que estou passando: merda. Sim, é uma merda ter que passar por isso. Se sentir sem chão. Os amigos batendo na porta pra ir pra balada, pra bebedeira, pro caralho com isso tudo. Ninguém é capaz de entender. Acham que homem não é capaz de ter sentimentos intensos. Estão errados. Se me vissem chorando, como estou agora, veriam em meus olhos a dor que é. Sentiriam o peso que paira sobre mim, a angústia a decepção.

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Meu coração está envolvido por uma casca, uma casca grossa. Tá querendo se blindar de qualquer ameaça que possa vir e feri-lo mais uma vez. Ele está com medo. Acuado. Parecendo bicho que foi judiado a vida toda.

Mas estou tentando sair dessa. Estou sim. O que é a vida, senão uma aventura de incessantes acontecimentos felizes e infelizes, não?

Eu poderia ter me vingado se quisesse. Mas não adiantaria de nada. O alívio não seria imediato e apenas passageiro. O que me mata agora é essa busca pela compreensão de tudo. Fico tentando entender tudo olhando pela janela com o cigarro na mão. Por alguns momentos penso que a culpa é minha. Impossível. Não posso e nem devo pensar dessa maneira. Se eu que te quis tão bem e fiz de tudo para que nós dois pudéssemos perpetuar, não posso ser o culpado por erros que não são meus.

E pensar em um recomeço me dá calafrios agora. Amar é bom, é gostoso. Mas ter que esquecer um e pensar na possibilidade de um próximo é assustador. É pra por medo em qualquer ‘coração casca grossa’. E apesar disso tudo eu ainda sei que o amor vale mais que qualquer sofrimento, mais que qualquer birra em dizer que não quero mais amar. Minha condição humana me faz amar. E sempre procurarei um amor.

josias

Gosto de você

Gosto de você.

Gosto do seu sotaque e do seu sorriso que arranca o meu tão facilmente… Gosto de como minha mãos se encaixaram tão bem nas tuas e de como me sinto segura em seu abraço. Gosto das rugas que se formam em seu olho quando sorri e dos teus olhares que eu já bem sei o que significam. Gosto da intimidade que se criou entre nós em tão pouco tempo, de achar que te conheço desde sempre e ainda me surpreender.

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Gosto quando me puxa e dos beijos que se sucedem… dos longos, dos rápidos, dos intensos e dos que pedem mais. Gosto da sua cara de safado, de sono, de cansaço, de fome e de quem me analisa e sabe o que faz… Gosto de ficar te ouvindo e de sentir teu corpo tão perto do meu, das tuas mãos alisando minhas coxas e subindo atrevidamente. Gosto quando me aperta, sufoca e me tira o folego e a razão.

Gosto quando beija meus seios e me olha e de quando beija minha testa e me abraça. Gosto de me perder no nosso gozo e de me encontrar nas nossas risadas. Gosta da sua sinceridade e de quando suplica para que eu fique só mais um pouquinho, quando pede só mais um beijo e faz eu ir me demorando cada vez mais em sua casa até que eu entregue os pontos de novo.

Ah! Eu tenho uma lista gigante de coisas que eu gosto em você, cada dia que passa você me ganha com um detalhe, gosto de saber que sou sua da cabeça aos pés e que saiba apreciar cada pedacinho meu… Seja com a boca, mãos ou olhos, seja me ganhando nas palavras, gestos e em ser exatamente o homem que és, que admiro e que me traz a paz que preciso depois de um dia cansativo.

Antes de dormir, depois de repassar tantas coisas boas na minha mente, eu agradeço a Deus silenciosamente por ter encontrado alguém que sabe me fazer feliz sem qualquer esforço, que faz eu viver plenamente o agora e esquecer o antes e o depois, alguém que parece querer ficar, que eu vejo que também está feliz só por eu estar ali… Hoje isso é mais que o bastante, então eu gosto de você, gosto que esteja aqui para mim.


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Arrisque, mude e se aprofunde

Certa vez, em uma das minhas madrugadas de insônia, lendo o livro Toda Luz Que Não Podemos Ver, de Anthony Doerr, uma certa passagem me chamou a atenção: “Abram os olhos e vejam o máximo que puderem antes que eles se fechem para sempre”. Tal passagem me fez pausar a leitura e refletir sobre coisas que deixamos de fazer por medo de arriscar; lugares que deixamos de ir por comodismo; e o pouco interesse pelo conhecimento profundo.

Nos deparamos muitas vezes com situações em que a vida nos cobra uma atitude, ou uma tomada decisão que aparece no caminho que é fundamental para o nosso crescimento. No entanto, por medo de arriscar, ficamos parados vendo as oportunidades passando, perdendo experiências que poderiam fazer parte de nós. Eu sei que a vida frequentemente nos cobra uma carga muito pesada, e que o risco representa uma incerteza em meio a tantas que vivemos. Sei também que algumas vezes o medo nos livra de consequências desagradáveis. Por isso devemos arriscar em coisas que realmente valerão a pena, e as quais você sabe que não terão consequências tão destrutivas num eventual erro. Assim devemos ir além, nos pôr à prova. Se errarmos, os erros nos fortalecerão.

Muitas dessas decisões são voltadas às mudanças – neste caso me refiro às mudanças de lugares, apesar de que qualquer mudança soa estranho ao ser humano. Tendemos a nos acomodar em algum canto, onde a famosa zona de conforta faz sua morada. Dependendo do seu objetivo de vida, é válido passar a vida inteira em um mesmo local, mas penso que o nosso viver é curto demais, e Deus fez lugares extraordinários para que pudéssemos desfrutar. Não somente em uma viajem de uma semana, ou um mês; temos que nos aprofundar em cada peculiaridade do mundo afora. Então, penso que se tivermos oportunidades de mudança, dependendo das circunstâncias, devemos ir e nos aventurar por aí.

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É importante adquirir experiências novas e conhecer outras culturas, obter um conhecimento específico de cada coisa. Hoje vivemos em uma época em que as informações andam tão rápidas que estamos nos tornando superficiais, na intenção de abarcar tudo de uma vez. Em outras palavras, deixamos de nos aprofundar em coisas que nos é essencial quando buscamos saber somente um pouco de tudo. Quando o autor escreve “vejam o máximo que puderem…”, se refere à busca pela aprendizagem, no qual passamos a dominar cada objeto/conteúdo de nossa curiosidade.

O conhecimento abre portas para uma vida rica e edificante. Mergulhar neste mar é ampliar nossa visão de mundo e adquirir o autoconhecimento; é abrir os olhos para a realidade; é conversar com o passado através dos livros. Mas temos de mergulhar mesmo, não só passear pelo raso. Apenas “passar o olho” é uma forma de se acomodar que deve ser evitada.

Então, com essa imprevisibilidade da vida, temos que ter em que mente que cada segundo é uma chance de desfrutar este presente que é viver. Arriscar, mudar e se aprofundar é o que nos permite crescer e tomar um lugar nessa grande peça. Isto nos move, fazendo com que deixemos nossa marca. Assim, quando fecharmos olhos, teremos a sensação de que vimos o máximo que a vida nos mostrou.

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O rapaz que não conseguia dormir

Acordou de madrugada encharcado de suor, como se tivesse sido despertado por um banho de água fria. Havia acordado assustado, de súbito, mas não soube definir o que lhe retirou o sono. Depois de tirar a água do joelho, foi até a cozinha para preparar um café. Enquanto manuseava a cafeteira foi acometido por um pensamento absurdamente idiota. Como um louco que se despe em plena Avenida Paulista, queria saber o que era amar alguém de verdade. Sim, saber o que era amar! Descobrir de que eram feitos esses amores que se viam na televisão, esses amores que se liam nos romances baratos. “Que besteira pensar nessas coisas de madrugada”, disse pra si mesmo em um lapso de racionalidade. Só que em um infinito minuto torturante tentou definir e, por tabela, até sentir a escuridão de um amor verdadeiro. Insistiu na bobagem. Pegou a xícara de café amargo, muito amargo, e começou a observar a rua através da janela. Era uma noite muito escura, escura como quando se fecha os olhos. O céu estava preto, preto como o café que tinha xícara. Voltou para o amor. O que era aquele sentimento? Por que todo mundo queria sentir aquilo se era tão ruim? Causava náuseas, insônia, perda da sanidade e outros males terríveis. Por que homens e mulheres perdiam tempo com uma coisa tão desagradável? A resposta não sabia dar, mas queria sentir aquilo. Havia certo charme nos amantes que ele não possuía. Inveja, talvez fosse isso que sentiu naquele momento.

Dialogando com a xícara, com a janela e com rua, começou esmiuçar o pensamento ridículo. Era uma forma de recuperar o sono que havia se perdido em algum lugar naquele apartamento. Ficou cansando em pouco tempo e já não queria mais pensar naquilo. A questão agora era como chegou até ali. O que havia o feito acordar? Sabia que teve um sonho, mas por algum capricho dos neurônios, não conseguia se lembrar do que se tratava. De certo era um pesadelo, afinal acordou ensopado em suor. Existir, ali no sofá, era um fado terrível; a xícara pesava uma tonelada, a janela soprava o frio de junho pra dentro casa, sentiu os pelos das pernas se eriçarem depois que uma brisa gélida desceu até as canelas. Ficou enfurecido ao descobrir que era domingo e havia deixado o domingo ainda maior ao inicia-lo já de madrugada. Esqueceu o pensamento estúpido; queria dormir. Não conseguiu, é claro. Pensou em Carla, a namorada, e novamente foi invadido pela estupidez de entender a lógica do amor. Só que não fazia sentido usar como objeto de estudo ele mesmo, já que não amava a moça – no máximo gostava dela. Poderiam ser amigos, nem transar com ela fazia falta; se deu conta disso naquele instante e se assustou. Estaria mentindo para ela e para ele esses anos todos? A verdade era que sim, mas fez de conta que não e revirou memórias a fim de encontrar algum elo que prendia os dois. Se convenceu da própria mentira. Amava a mãe. E levou a sério quando ela dizia que “amor é só o de mãe”. “Só as mães são felizes”, concordou com Cazuza.

Voltou para a cozinha e pegou mais café. Percebeu que café não lhe ajudaria se reconciliar com a cama. E o sono continuava vagando em algum lugar difícil de encontrar. Talvez estivesse onde as palhetas se escondem, ou seja, apareceria quando desse na telha. Já estava conformado, mas era domingo, não gostava do domingo, mas saber que era domingo foi até reconfortante. Foi para a pequena sacada do apartamento e olhou para a rua vazia. Por algum motivo infeliz, os ponteiros do relógio estavam estáticos e o sol insistia em não aparecer. Lá embaixo, um carro ou outro se atrevia a romper o silêncio sufocante da rua. O silêncio é agradável, mas não quando se perde o sono: nessas horas, ele parece berrar feito um elefante macho que, por um capricho vingativo da natureza, tem um parto natural. Outro automóvel quebra a sinfonia do vazio. Esse passou devagar… devagar… O “rumm” pairou pesado. Ele acompanhou: quis colocar os ouvidos em teste e saber até onde se podia ouvir. Logo o som indescritível do nada tomou conta do ambiente. Voltou para a cama, apagou todas as lâmpadas; apenas as luzes da rua vazavam a persiana do quarto de dormir. Pestanejou e já era dia. Por não conseguir dormir, e possuído por um ódio mortal ao mundo dos vivos e dorminhocos, decidiu que dormiria para sempre: pulou da janela. Como castigo pela mesquinhez do ato foi condenado a virar luz e não se apagar nunca.

flavio

Fogueira da solidão

A noite caiu como um relâmpago e não deu tempo de reagir. Ela correu o mais rápido que pôde e encontrou abrigo. Quando abriu a porta não conseguiu ver nada além de escuridão. Buscou o interruptor incansavelmente, mas não obteve sucesso. Arrastou os pés bem devagar e avançou. Conforme prosseguia notava que haviam obstáculos pelo caminho, algumas pedras, duas ou três muretas e muitas quinas que a fizeram desviar. O lugar era soturno e não era possível enxergar nada além de noite, mas, apesar do breu, ela ouvia a todos. Eles estavam ali, isso era nítido. Eles falavam, discursavam e alguns até se arriscavam a gritar. Ela podia ouvir com clareza cada uma das palavras proferidas. Pareciam dizer a mesma coisa, as linguagens eram semelhantes e todas davam a ela a direção de onde ir: “Direita, esquerda, pare, volte, siga, corra”. Ela ouvia, mas não conseguia seguir as instruções, era escuro demais para arriscar passos maiores. Correr, nem pensar.

 

Além da ausência de luz, o ambiente era frio, muito frio, gélido até. Era como se todas as janelas estivessem abertas e o vento entrasse de todas as direções. As rajadas batiam e cortavam a pele até arrepiarem todos os pelos do corpo. Ela sentia até os ossos doerem. A temperatura parecia cair a cada passo dado e ela desejava apenas encontrar o dono de alguma daquelas vozes para lhe aquecer. Um abraço forte já abrasaria sua carne, não era necessário muito. Mas não conseguia encontrar ninguém, eram apenas vozes sem boca, sem corpo, sem calor. Ela chamava, pedia, clamava, mas eles não ouviam, apenas continuavam a tagarelar. “Vire à direita”, “pare um pouco”, “venha até aqui”, “corra para a saída”. Ela já não entendia tudo com a mesma clareza e apenas pedia refúgio, em vão.

 

O frio estava cada vez mais rigoroso e seus olhos não se adaptavam bem às trevas. Era preciso avançar com urgência para encontrar algum calor naquele assombroso lugar. As vozes permaneceram manifestando solidariedade com o momento difícil que ela enfrentava, mas palavras jogadas ao vento não estavam proporcionando o conforto que ela precisava para permanecer de pé e encontrar a saída, era preciso mais, muito mais. Mas como poderia ela, exigir das vozes o toque? Ela já clamava por silêncio, aquele falatório todo a estava deixando desnorteada.

 

O combate só seria vencido se ela encontrasse a luz e o calor sozinha, sem ajuda. Era preciso encontrar uma solução para que ela não congelasse na escuridão e foi então que, mais calma, teve uma grande ideia. Recolheu todo o necessário pelo caminho, escolheu um canto protegido do vento cortante e ali, elucidou toda aquela angústia. Queimou todas as vozes sem rosto e as enormes labaredas clarearam o recinto escuro e aqueceram o álgido corpo. Silêncio absoluto. Era disso que ela precisava, incendiar o caos para encontrar a paz. Ela observou as chamas de esperança e conclui: essa era a fogueira da solidão.

MONIKAJORDAO

Medo de ficar sozinho

Ele acorda todos os dias às 6h45 e diante do espelho faz questionamentos diários. O que foi que ele fez com a própria vida? Ele se pergunta o que ainda faz dormindo ao lado dela todos os dias. Ele se questiona porque insiste nesse fracassado relacionamento, mesmo porque ela já o desistiu faz tempo. Ele indaga quando terá coragem para arrumar as malas e partir para viver alguma verdade longe daqueles olhos frios. Talvez ele não tenha a resposta para nenhuma dessas perguntas, mas tenho a esperança de que questionar seja um bom sinal.

Uma década de relacionamento e ele viveu cada momento com a intensidade de um furacão e ela, com a frieza de um iceberg. Os sorrisos que ele ainda tenta, com esforço, dedicar a ela são desperdiçados. Os carinhos e afagos, rejeitados. Cada repulsa faz com que ele se sinta ainda menor. O coração fica do tamanho de uma ervilha e o ar falta aos pulmões. Sempre que é ignorado perde a fala, o foco e o chão. A indiferença é tão presente naquele ambiente que é quase possível tocá-la. A dor é tão palpável que o corpo dele enrijece. A ferida sangra e ele chora enquanto apresenta uma expressão calma e ilusória. Está tão habituado a vestir essa máscara que já usa dessa artimanha sem perceber.

As correntes de amor não permitem que ele note que os planos dela não o incluem, os sonhos estão guardados só no seu travesseiro e o que ela dedica a ele são apenas migalhas, sobras, restos…. Confio nele mais do que ele mesmo, ainda acredito que ele vai pegar todo o menosprezo e desamor, colocar na mala e partir para outra dimensão. Vai desistir do abraço dela para abraçar o mundo. Vai abandonar o status para viver a legítima máxima.  Ainda vai reparar no enorme leque de possibilidades que passam diante dos seus olhos perdidos. Eu tenho fé nele.

A apreensão é compreensível, mas a falta de orgulho próprio não. A ausência de atitude faz o tempo correr e a história parar. Nada vai acontecer, não haverá reviravolta ou um novo capítulo. Enquanto ele não agir em prol de si mesmo ela permanecerá massacrando aquele coração cheio de amor e pouco calor.

Me arrisco a dizer que tudo isso é medo de ficar sozinho, mas sozinho ele já está.

Que diferença faz?

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