Silêncio ensurdecedor

(Silêncio)

Ainda sinto
As dores do teu silêncio.

Acordo na madrugada
Sonhando ouvir sua voz,
Mas logo a razão me chama
E percebo o vazio que me cerca.

Para que tanto silêncio?
Por favor,
Devolva-nos as palavras.

Sem respostas,
Silencio também,
Enquanto tento entender
Como pode o nada
Fazer tanto estrago.

 

Dizem que o barulho, a depender do nível, pode estourar o tímpano e levar à surdez. Não discordo, contudo, acho que a verdadeira surdez é a que vem do silêncio. A surdez do barulho é física e apenas afeta um dos sentidos; já a surdez do silêncio é imaterial, ela destrói toda a alma.

Foi isso que o teu silêncio me causou. Ensurdeceste a minha alma. Confiei a ti livre acesso à fortaleza que construí ao redor do meu coração; mostrei-te coisas que nunca antes haviam passado pelos olhos de outras pessoas; e até mesmo o que eu não tinha, criei só para te dar.

Seria demais pedir em retorno uma palavra que fosse? Será que te custaria tanto conceder-me uma explicação? Talvez tenha sido demais para ti, talvez não tivesses nada para me dizer, talvez eu tenha esperado uma grandeza de alguém tão pequeno.

Ao que parece, nunca terei essas respostas. A única certeza que tenho é a de que, depois de ti, fiquei surdo ao afeto. Os ouvidos tudo ouvem, mas o coração já não mais acredita em nada.

É contra essa surdez que luto diariamente. Luto, diariamente, para que eu seja capaz de curar a esperança, para restaurar a fé nas pessoas e para que um dia eu recobre audição do coração.

Sem obter sucesso, vou aprendendo a conviver em paz com o meu pior inimigo, o teu silêncio.

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Nós dois e o silêncio

Nós dois olhando um pro outro. Os minutos que são horas. Os dias que são segundos. O tempo que desfaz seus ponteiros. Seu olhos na minha boca. Meus olhos que passeiam em sua língua.
 
Somos nós dois e o silêncio.
 
No momento em que  as palavras são utopia, as mais belas frases são ditas com todo o carinho das mãos.  Sorrisos são dicionários. O silêncio é berrante, é pura intimidade de ouvido, é o sentido aguçado daqueles que apenas se olham e se reparam, reparam em si próprios e no outro da maneira mais simples e mais amorosa, como se ali não estivessem. E realmente não estão. No pretexto da esperança, escolheram a cor verde pra colorirem suas verdades. 
 
São os segundos que não precisamos das frases. Basta um olho no olho, um colo, um carinho nas mãos. Somos nós dois ratificando nossas vontades adivinhadas. Nosso instinto mais simples e necessário, as vontades mais afloradas. É no silêncio que dizemos sim. É o cafuné de mãe. A troca de olhares e de  emoções. Não há o que se falar no nosso profundo silêncio. São corações que perguntam um pelo outro e necessitam da calmaria para dizerem que ali estão , peito encostado em uma única pulsação.
 
É o nosso silêncio de frente pro mar.
 
É o nosso silêncio cortejado pela lua.
 
É o nosso silêncio que surge em qualquer esquina, em qualquer troca de olhares, que esbarra em mim e eu agarro com força.
 
Entrego-te o meu silêncio. Cedo-me à sua calmaria. Acredito nas palavras simples e verdadeiras daquele momento de mais incontestável verdade. Encosto minha cabeça no seu ombro e ofereço-te meu maior presente embrulhado com o todo o silencio do nosso futuro. 
 
São seus risos. Todos os seus risos. Suas vontades tão escancaradas e tão femininas, seu jeito simples de me olhar bonito. É todo o universo daquilo que pressente. Diga-me tudo através do olhar, através dos sorrisos, despeje em mim todas as palavras de nossas mãos dadas.
 
Seu carinho é poesia. Meu ombro é tua moradia. No silêncio somos casa um para o outro. E é um prazer morar em ti.