Você foi a minha escolha certa

Leia ao som de Speed Of Sound – Coldplay

Por muitas vezes perdi o sono perguntando a mim mesmo se eu sabia qual caminho havia tomado para minha existência.

Eu não sabia.

Viver, para mim, sempre foi uma forma inconsequente de brincar com fogo. Eu nunca fui uma criança disciplinada, nem um adolescente comportado ou um adulto cuidadoso. Eu não planejei a minha vida e deixei as portas abertas para qualquer coisa que viesse pela frente.

Muita coisa veio. Vivi de tudo um pouco, um pouco demais de tudo. Cometer excessos sempre foi a minha especialidade, afinal. E agora, com um pouquinho a mais de maturidade e juízo na cabeça, finalmente me dei por conta do tamanho da minha sorte. Continuar lendo “Você foi a minha escolha certa”

Romance Contemporâneo

Você conheceu alguém legal numa festa, ficou com a pessoa e agora quer repetir a dose. Só que não sabe como fazer isso. E está com tudo nas mãos: número do Whatsapp, Facebook, CPF, RG e etc. Na dúvida, acaba escolhendo mandar uma mensagem pelo Whatsapp. Para não parecer ansioso (a) demais, você decide esperar uns dias. E aí, coincidentemente, aquela banda massa que tocou na noite em que saíram vai se apresentar naquele bar que você adora. Parece o convite perfeito, não? E aí é só elaborar a mensagem, mais ou menos assim: “Ei, vai rolar um show com aquela banda de novo, num bar bacana da cidade. Tá afim? Vai ser legal, a gente vai se divertir muito”.

Foi firme e clara, uma proposta tentadora, visto que vocês adoraram o último show. Depois que mandou a mensagem começou a agonia. O tão temido status da mensagem muda para “lida”, fica azul o cantinho inferior do balão da conversa, a cor da sua cara de tanta ansiedade. De repente: “digitando…”; seu coração dispara, você fica apreensivo, a resposta parece demorar e você começa a se perguntar o que ela (e) tanto digita. O status sumiu; ela (e) não respondeu. Aí vem a espera: dez, quinze, vinte minutos, uma hora.

A depressão é inevitável e você analisa a mensagem um milhão de vezes a procura de um erro, alguma coisa que pode ter causado má impressão. E então começa a criar teorias mirabolantes: “Como eu sou burro! Poderia ter evitado o “ei” e dito um “olaaa”, mais animado. E pior, nem perguntei como ela estava! Fui muito grosso”.

Com certeza essa história já aconteceu com muita gente. Só que se formos parar pra pensar, nossos pais, por exemplo, não sabem o que é essa sensação. Essa loucura faz com que a gente olhe nossos celulares maniacamente a cada dez segundos. Os romances contemporâneos se tornam ainda mais estressantes por causa dessas mensagens de texto. E como se tornam! Chega a ser estranho imaginar que a felicidade varia em relação ao tempo de resposta da mensagem do crush, ou da crush.

Nesta semana, li uma reportagem na Revista Piauí que trata deste mesmo tema. Os autores tentam desvendar qual o tempo mínimo para alguém responder um whatsapp. No texto da revista é citada uma experiência feita por psicólogos que tentam aplicar a logica behaviorista para as mensagens de texto. Vou dar uma resumida.

Suponhamos que a mensagem de texto seja uma espécie de “recompensa”. Na experiência behaviorista, os animais são recompensados sempre que empurra uma alavanca, ou seja, eles recebem comida. Todas as vezes que fazem isso, eles ficam mais lentos. Por quê? Porque as cobaias sabem que a comida (recompensa) estará sempre à sua disposição sempre que impulsionar a alavanca. Só depende dele próprio para ter recompensa.

Resultado: se você responde muito rápido, a outra pessoal, não sentirá urgência em falar com você imediatamente, pois sabe que você está sempre ali, pronto para responder, assim como a alavanca está para as cobaias da experiência behaviorista. Isso é uma constatação empírica, os especialistas me perdoarão por um eventual equívoco.

Um choque de realidade pode ser muito bom neste caso? Sim. Já parou pra pensar que se a pessoa não te respondeu é porque está ocupada, trabalhando ou transando com outro (ok, essa foi pra sacanear)? Estamos acostumados a ter tudo nas mãos. É uma característica nossa, do nosso mundo contemporâneo, marcado pelo ressentimento. Se a pessoa não te chama, já é logo o fim do mundo. Ou seja, temos dificuldade em lidar com o espaço e o tempo do outro. Se não for do nosso jeito, não presta. Já notaram?

Tenho uma amiga que é simplesmente paranóica. Ela me contou que cronometrava o tempo que o cara gastava para mandar mensagem e fazia uma ração de 1 para 2: se ele gastava um minuto, ela respondia em 2. Apesar de toda essa lógica de precisão cartesiana, ela sempre saia perdendo na história. Todas as vezes em que nos encontrávamos, ela reclamava que os caras não davam atenção pra ela – era de dar dó.

Pensando nela e em um monte de gente que sofre com esse mesmo problema, resolvi conversar com um grande amigo que é psicólogo, o Esequias Caetano. Ele me disse que essa história de ficar cronometrando tempo não faz muito sentido e não há como fazer uma média. Quando estamos conversando pelo whatsapp, a nossa atenção está dividida entre várias tarefas, ou seja, nem sempre a pessoa com quem trocamos mensagens será nosso foco. Por isso, é neura ficar surtando se o cara ou a menina não te respondeu.

Como sempre, gosto de soluções criativas para teoremas existenciais como este. Em vez de mandar um “textão”, ou encher o saco com aqueles vídeos melosos que ninguém assiste, que tal mandar flores, fazer uma visita surpresa, ou até mesmo convidar (pessoalmente) para um passei no parque? Na era do isolamento, quem consegue tocar outro é Deus.

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