Não quero mais brincar de distâncias

Cansa essa vida de viver longe de você. O coração fica pequeno cada vez que um abraço não é dado, que um beijo não é trocado, que a pele não roça. Sobra distância, falta toque. E com a falta do seu corpo junto ao meu, também cansa essa vontade de encurtar os quilômetros que nos separam, mesmo sabendo que os nossos corações estão perto demais para se perderem de vista.

Desgasta essa saudade que se acumula diariamente. A falta é sempre mais presente que a presença e é doloroso demais viver assim. Suas palavras alimentam o que ainda sinto, mas como competir com a falta de atitude? O desejo de agir até existe, mas fica só na intenção. De concreto temos apenas esse amontoado de vontades e saudades e não sei se eu estou disposta a colecionar essas dores todas.

Eu sei que tudo isso dói aí também e não é gostoso saber que sou motivo de aflição no coração que eu só queria afagar. Queria poder fazer mais, tocar mais, viver mais, mas como? Quilômetros me impedem e te impedem também. Na teoria é bonito dizer que o amor constrói pontes, mas na prática, a saudade massacra os planos e o projeto da ponte nunca sai do papel. Eu agonizo por proferir tais palavras, mas a verdade precisa ser dita agora, antes de nos ferir com as próprias mãos, antes de encontrarmos abrigo a centímetros de distância.

Não quero varrer nada para debaixo do tapete, prefiro rasgar o projeto da ponte antes de planejar a construção dela. Parece inviável, vê? Uma ideia louca de que um dia a gente possa, finalmente, estar lado a lado… Dói demais essa distância entre nós. Eu vejo os quilômetros aumentando, a gente se afastando e as nossas possibilidades virando poeira.​

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Amanhã terminaremos tudo

Amanhã terminaremos tudo. 

Na próxima alvorada, nossos planos se extinguirão. Nossas promessas bonitas de mesas de bar e de poltronas de cinema virarão fábulas. Seus olhos, diante de mim, fecharão para sempre. Não riremos nem implicaremos mais um com o outro. É amanhã. Amanhã seus lábios recolherão seus desejos. Seus olhos olharão pra mim e avistarão um estranho. Ou um inimigo. Amanhã sua ausência passará  a ser dor. Uma dor que fará morada aqui dentro. Você não se preocupará mais em me lembrar de pagar as contas. Eu não lhe trarei mais café pela manhã. Não ouviremos nada mais além do eco de nosso adeus. 

Será amanhã. Nem um dia a mais. A noite será mais longa. A madrugada me aprisionará na cama. Suas costas viradas serão meus olhos implorando descanso. As paredes do meu quarto serão labirínticas. Não encontrarei saída. Enxergarei você na janela, no porta-retratos, no lado esquerdo da minha cama. Os restaurantes que frequentávamos e os bares onde sorríamos juntos serão punhais cravados em meu peito. É amanhã. Quando a noite adormecer, nada mais existirá. 

Essas são as nossas últimas horas. No próximo amanhecer nos desconheceremos. Haverá o receio de nunca termos caminhado. De nunca termos visto à frente. De nunca termos dado as mãos. Amanhã seremos apenas um. Seremos pontos extremos. Criaremos ilusões de que tudo pode mudar. Apenas ilusões. Procuraremos as respostas, mas estarão a milhas de nós. Nossos braços jamais alcançarão novamente um ao outro. Meus olhos perderão o brilho amendoado de você. Desconhecerei o verdadeiro gosto de sua pele. 

Passaremos dias em claro buscando compreender os motivos. Talvez não existam. Talvez estejam diante de nossos olhos. Vagaremos feito sonâmbulos em busca do  inexplicável. Notaremos  ter plantado passados sem colher futuros. Seremos nada além de recordação. De uma doída recordação. Nas recaídas choraremos dúvidas. As respostas serão nossas carnes vazias.

Meus olhos não enxergam nada mais além de ponteiros. Ponteiros de nossos últimos resquícios de tempo. Enxergo a velocidade com que são compassados. Os ponteiros são carrascos incansáveis. Despejam angústias ao apontar suas lanças. Os ponteiros arrancarão o derradeiro suspiro de nós dois. É amanhã. Amanhã terminaremos tudo. Amanhã terminaremos, talvez, o que nunca teve início. 

Às vezes a vida nos vira do avesso

Sempre tive o costume de me pegar pensando na vida. Vira e mexe estou eu em um lugar qualquer pensando em como minha vida está se saindo no momento. Sei bem apreciar quando vejo que está tudo bem e estou feliz. Saio distribuindo flores até pros vizinhos chatos. Mas meu amigo, o que fazemos quando a vida te vira totalmente do avesso? Você pega pra pensar no quanto sua vida mudou de uma hora pra outra, de um mês para o outro ou de um ano pra cá.

Me sinto perdida, sem saber que rumo minha vida vai tomar. Não consigo fazer nenhum plano para semana que vem porque não sei como vou estar semana que vem. Vou estar na minha cidade ainda? Vou estar empregada? Vou estar apaixonada? Vou estar solteira? Vou estar namorando?

Eu não consigo mais ter as respostas dessas perguntas tão simples da minha própria vida. Tudo que me resta é ficar revivendo os momentos bons que a vida me proporcionou.

Tudo que está me restando agora é acreditar em destino. Acreditar que o que tiver que ser, vai ser. Sempre usei isso como desculpa pra respostas que eu não sabia dar. Mas agora, de verdade, não vejo outra saída. Tenho que acreditar de verdade que o destino vai se encarregar de tudo.

Quando a vida te vira do avesso você não se sente feliz e nem triste. Você está estável e agradece imensamente somente por ter saúde. Não tem nada mais a agradecer e nada a reclamar. Simplesmente senta, cruza os braços e os dedos, torcendo pra que a vida nos vire do lado certo novamente para sentir a felicidade transbordando no coração. Para sentir vontade incontrolável de agradecer aos céus tudo de bom que acontece.

E eu prometo que se a vida me virar do lado certo de novo, não vou esquecer nenhum segundo de agradecer imensamente a Deus!

Nós dois e o silêncio

Nós dois olhando um pro outro. Os minutos que são horas. Os dias que são segundos. O tempo que desfaz seus ponteiros. Seu olhos na minha boca. Meus olhos que passeiam em sua língua.
 
Somos nós dois e o silêncio.
 
No momento em que  as palavras são utopia, as mais belas frases são ditas com todo o carinho das mãos.  Sorrisos são dicionários. O silêncio é berrante, é pura intimidade de ouvido, é o sentido aguçado daqueles que apenas se olham e se reparam, reparam em si próprios e no outro da maneira mais simples e mais amorosa, como se ali não estivessem. E realmente não estão. No pretexto da esperança, escolheram a cor verde pra colorirem suas verdades. 
 
São os segundos que não precisamos das frases. Basta um olho no olho, um colo, um carinho nas mãos. Somos nós dois ratificando nossas vontades adivinhadas. Nosso instinto mais simples e necessário, as vontades mais afloradas. É no silêncio que dizemos sim. É o cafuné de mãe. A troca de olhares e de  emoções. Não há o que se falar no nosso profundo silêncio. São corações que perguntam um pelo outro e necessitam da calmaria para dizerem que ali estão , peito encostado em uma única pulsação.
 
É o nosso silêncio de frente pro mar.
 
É o nosso silêncio cortejado pela lua.
 
É o nosso silêncio que surge em qualquer esquina, em qualquer troca de olhares, que esbarra em mim e eu agarro com força.
 
Entrego-te o meu silêncio. Cedo-me à sua calmaria. Acredito nas palavras simples e verdadeiras daquele momento de mais incontestável verdade. Encosto minha cabeça no seu ombro e ofereço-te meu maior presente embrulhado com o todo o silencio do nosso futuro. 
 
São seus risos. Todos os seus risos. Suas vontades tão escancaradas e tão femininas, seu jeito simples de me olhar bonito. É todo o universo daquilo que pressente. Diga-me tudo através do olhar, através dos sorrisos, despeje em mim todas as palavras de nossas mãos dadas.
 
Seu carinho é poesia. Meu ombro é tua moradia. No silêncio somos casa um para o outro. E é um prazer morar em ti.

Ela avisou que iria embora

O beijo ao acordar não existia mais. A distância era uma ponte, arrebentada pelo orgulho. O dia a dia consumia todo o fogo de antes, com baldes caprichosos de água fria. Ela se recolheu. Foi viver os dias que restavam daquele relacionamento, pra entender o que ela ainda fazia ali.

Tentou.

Abraçou e foi rejeitada. Beijou e foi anulada. Falou e não foi ouvida. O tempo passou demais. Momentos que oscilavam entre felicidade e desprezo.

Ela reclamou. Relutou. Sentiu seu coração bater mais forte quando ele chegava perto. Mas, era só isso. Nem ela sabia explicar. Só avisava que, quando atravessasse a ponte, seria pra ir pra bem longe e nunca mais voltar.

Ele, duvidou. Achou que estava bom do jeito que estava. Achou que dois ou três meses mudando o seu beijo, o seu toque e com uns carinhos intercalados com palavras amorosas, curariam o tempo perdido entre o silencio e o tanto faz.

O tempo passou, de novo. E, de novo, a rotina engoliu até as tentativas.

Dessa vez, ela gritou. Esperneou. Não aguentava mais viver aquela relação de distância. Queria alguém pra conversar sobre o seu trabalho. Queria fazer planos com alguém. Olhava pra ele e não se enxergava naquela vida. Nem sentia-se enlaçada naquele abraço.

Fingindo não escutar, ele saiu pra comprar pão e foi jogar bola.

Voltou tarde depois do bar e, ao retornar, sua cama e guarda-roupa estavam vazios. Nenhum sinal dela. Ela nem havia usado perfume pra não deixar rastros. Ele conseguiu dormir e acordar no dia seguinte pra viver a vida normal. E viveu.

A ficha não tinha caído completamente. Ela, de longe, já conseguia sorrir e sonha de novo. Ao atravessar a ponte, ela encontrou-se com ela mesma. Mais leve, livre e solta. No fundo, ela não quer saber como as coisas ficaram do outro lado da ponte.

Ele vasculha fotos e lembranças. Se pergunta porque rejeitou o calor dos beijos molhados que recebia. Sonhava com ela, pensava nela e a queria com um desejo que, perto dela, nunca tivera. Na verdade, ele achava que ela estaria perto dele a vida inteira. Percebeu que a amava.

Saiu pra comprar o pão na padaria de sempre e voltou logo pra casa. A esperança era a sua melhor companhia nos últimos dias.

Voltou pra casa, mais uma vez, e não encontrou ninguém. Estava só. Definitivamente, só.

A ficha caiu e ele tremeu. O estrondo foi tão forte em sua consciência que o coração doeu e as lágrimas rolaram. O relógio nem marcava sete horas, mas ele sabia que já era tarde.

 

E assim todo dia era primavera

Ele acorda, dava – lhe um beijo na testa, “Bom dia minha linda”. E ia para a cozinha. Cheiro de café quentinho invadia a casa e entrava em suas narinas.

Ela se espreguiçavatoda na cama, olhava para o lado e sorria. As flores estavam balançando no jardim, ele já havia afastado as cortinas para o lado, sabia que ela gostava da claridade invadindo o quarto de manhã.

Seguia para a cozinha e lhe abraçava, dava – lhe um beijo, agora já com hálito de hortelã. “Bom dia meu amor”. A mesa estava pronta, café quente, leite morno, pães e a presença dos dois.

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Conversavam e riam. Assuntos sérios talvez, conversas bobas demais e um enorme sorriso no rosto. Ela cortava o pão inteiramente ao meio, sabia que era assim que ele gostava, já fazia centenas de dias que repetia esse gesto.

Se separavam pra trabalhar. Uma jornada diária de 8 horas de trabalho e saudades. Um ‘Oi’ na hora do almoço e um ‘Que o dia passe logo’.

Mas á tarde. Ah, a tarde.. Ela vinha radiante ao seu encontro. Um beijo demorado, abraço apertado e um brilho no olhar. Tomavam banho e se esticavam juntos no sofá. Mais conversas, mais risos tirados e sorrisos compartilhados.

O jantar era banquete, com fartura de amor. De sobremesa carinhos. Olhos nos olhos e vinho. Como desculpa a primavera se tornava inverno. Gostavam de dormir agarradinhos. E assim todos os dias se tornavam primavera.

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Até onde vale a pena correr atrás de um amor?

 

Até onde vale a pena correr atrás de um amor?
Até onde é possível traçarmos planos pra que a pessoa amada nos enxergue como gostaríamos?
Qual seria o momento exato de olharmos pra nós mesmos e dizermos que ela ou ele está em outra e nada mais podemos fazer?
Às vezes temos a impressão de que a outra pessoa pode se apaixonar por nós apenas pelos dois gostarem das mesmas bandas ou dos mesmos filmes, das mesmas festas ou dos mesmos potes de sorvete.
Tentamos manter a pessoa amada perto de nós perdendo noites buscando descobrir seus gostos pelo facebook, pelo Instagram ou por qualquer indireta fantasiosa que recebamos. Imaginamos que um sorriso educado pode ser uma deixa pra um convite ao cinema no sábado, que um abraço carinhoso pode ser algo muito perto de uma declaração de amor à la “dez coisas que eu odeio em você”.
Ora, é nítido que o amor é um dos sentimentos mais bonitos que podemos ter, que estar apaixonado significa enxergar o mundo de uma forma mais bonita, coisa e tal. Mas a verdade é uma só. O amor é difícil.
Sim, é difícil, Difícil pra cacete. Já imaginou se todos as paixões fossem recíprocas? Claro que haveria suas vantagens, mas sei lá, talvez vivêssemos algo perto de uma monotonia amorosa, onde o amor seria tão simples que perderia sua essência.
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Por vezes é normal acharmos, instintivamente, que as coisas podem ser assim. Então pensamos: “Nós dois gostamos de sushi, de Arctic Monkeys, preferimos barzinhos a baladas e nunca fomos ao Cristo Redentor apesar de moramos no Rio de Janeiro. Se isso não é a verdadeira definição de ‘almas gêmeas’, o que mais seria?”
E assim nos enganamos. E feio.
O amor não precisa ser igual. Mais: o amor quase nunca é igual.
É complicado admitir, mas é preciso. A pessoa não quer. É exatamente isso. Ela simplesmente não quer. Quem quer, meu amigo, dá um jeito. Não inventa que trabalhou até tarde ou que não curte beber dia de semana. Não diz que vocês estão longe demais quando apenas um bairro os separa. Não inventa que precisa levar o gato ao veterinário exatamente na hora da sessão de cinema.
Quem quer de verdade pega dois ônibus a uma da manhã, vai  a show de rock quando preferiria um barzinho e um violão, assiste a filmes de terror quando na verdade morre de medo de filmes desse gênero. E ainda tem até uma boa desculpa pra assistirem abraçados.
E no fim das contas, acredite. Os dois se completam mais do que meros gostos em comum. Muito mais.
 A questão é que se permitir a esse sentimento é uma virtude, depositar em alguém seus sentimentos mais verdadeiros é buscar também a sua felicidade, mas nem sempre as coisas andarão como desejamos. Nem sempre haverá a tão bonita e buscada reciprocidade, e isso é mais comum do que imaginamos.
O segredo é admitir que ainda não é essa a pessoa que dará um sentido novo na sua vida, e isso não é uma coisa ruim, afinal o amor precisa ser, antes de tudo, verdadeiro. Nessas horas o tempo é o melhor remédio,  tratará de cicatrizar possíveis feridas e, mais cedo ou mais tarde, cruzar seus rumos com alguém que curta macarronadas ou frutos do mar, praia ou cachoeira, canções líricas ou rocks pesados, não importa, afinal tudo soara de forma bonita pra vocês.
 brunno-leal