Não adianta fugir

Eu consigo ver através da sua alma. Tudo que deixamos para trás e que voltou para nos assombrar está se tornando um peso praticamente insustentável sobre as minhas costas. Preciso de ajuda para carregar isso tudo e, sinceramente, você também tem culpa. O que é justo é justo, certo? Então pela justiça, que você sempre foi tão a favor, me ajude a carregar esta cruz. Sabe quando a gente está vivendo, mas dentro da mente só consegue lembrar do passado? Eu tenho a nítida sensação de que não pertenço ao lugar em que estou agora. Eu não pertenço ao corpo que habito, há algo me dizendo que estou num local completamente diferente de onde eu deveria estar. Se cada escolha que a gente faz traça resultados diferentes no futuro, teve alguma coisa que eu escolhi errada.

Será que foi te amar ou ter te deixado escapar? Fui eu quem errou conosco ou teria sido você? Essas perguntinhas malditas me sufocam durante a noite. Eu rolo de um lado para o outro e só pego no sono quando já é de manhã. Viver assim é um absurdo. Não sei se eu bebo ou malho, se fumo ou faço dieta. Se escrevo ou saio para a noite, se tento te esquecer de vez ou mando a milésima “última” mensagem. Qualquer coisa ajudaria se eu soubesse que te arrancaria do meu peito. No final, sou mesmo um poço de esperança. Eu realmente consigo ver através da sua alma. E você?

Será que essa tormenta toda também habita seu viver ou só o meu? Me pego imaginando o que você tem feito e se a cruz pesa nas suas costas. O longínquo tempo que dividimos ainda é presente aqui e desconfio que seja aí também. Eu te conheço, sei o que te aflige, o que te motiva e tudo que te causa insônia. Conheço suas expressões e posso distinguir o sorriso genuíno, do mascarado. Eu vi, quando te encarei mais cedo, que você também não está bem. Seus lábios estampavam um sorriso bonito, mas seus olhos suplicavam por ajuda. Já o vi assim outras vezes e tive o impulso de correr pra você, mas me contive. Não, não foi covardia, foi só o bom senso. Não posso atropelar o que você construiu ao lado de outra pessoa. Não sem a sua permissão.

Nunca entendi sua pressa em ocupar o lugar que deixei, mas hoje até consigo compreender. Talvez doa menos quando tem alguém acariciando a ferida aberta. Não é possível curar, mas ameniza o ardor, né? Eu tentei fazer o mesmo, busquei alívio em outras bocas e outros corpos, mas a ferida sangrava mais quando era tocada. Comigo não funcionou e talvez não esteja mais funcionando para você. O socorro que me pediu com olhos de clamor denunciou seu desespero. Ninguém percebeu, mas eu vi. Era claro como as águas de Noronha. Era tão latente quanto o que dói aqui. Não adianta fugir. Não posso e nem quero mais isso pra mim. Nem pra você. Deixa minha alma aliviar a sua? Vem e traz a sua pra abrandar a minha?

Anúncios

Eles: sempre e de novo

Dias, meses, anos se passaram e ela jamais esqueceu dele. Sempre que o sol aponta no horizonte e ela abre os olhos para mais um dia, a imagem dele vem em mente. Um sorriso largo lhe dá “Bom dia” e logo desaparece. É como um ritual que não se pode abrir mão. É a estampa desse amor que lhe fornece a energia necessária para enfrentar mais uma batalha diária. A imagem não lhe visita no restante das horas, mas na manhã seguinte está lá, sorridente e cativante. A história ficou no passado, mas o amor ainda reside dentro do peito. Não dói, não machuca, nem aflige. Apenas rememora um tempo bonito.

Eles viveram o que muitos buscam durante uma vida inteira. Um amor do início ao fim. Fim? Amor de verdade morre? Eles dividiram sorrisos, noites quentes e muitas doses de vodca. Compartilharam medos, dúvidas e sorrisos bobos. Repartiram sonhos, planos e algumas tardes de preguiça. Trocaram beijos, angústias e deleite. Habitaram o mesmo paraíso e foram expulsos por morderem a mesma maça. Não foi só ela, não foi só ele, foram ambos. Não foi por falta de amor, nem ausência de companheirismo, menos ainda por omissão de sentimentos. Foi o mundo. O gigante que dá voltas e mais voltas e acaba por desencontrar almas que desejavam caminhar juntas. Eles se despediram e desejaram sorte um ao outro. A vida seguiu, o gigante deu mais algumas voltas e aqui estão eles. Diante um do outro mais uma vez.

A respiração falta para ele, que prende o ar e sente o coração parar. É um gelo na espinha, como eram as primeiras noites em que ela visitou sua casa.
A respiração sobra para ela, que tem tanto ar saindo de seus pulmões que parece que não vai dar conta de soprar tudo para fora de tão acelerado que está seu coração. É um calor no peito, como eram as primeiras noites em que ela adentrou na residência dele.
Adentrou na residência, no quarto, na cama, na história. Se aninhou nos seus braços, no seu corpo inteiro, na sua alma. Todas essas lembranças vem a tona quando depois de tanto tempo sem sequer trocarem olhares eles voltam a se ver frente a frente.
O vento pela rua assobia uma canção. Dentro dele é gelo que derrete. Dentro dela é fogo que consome. E a vontade de ambos é irracional e impulsiva. Se passam alguns segundos e ele abre os abraços para lhe agarrar. Ela se move como quem corre para mais um último beijo, que nunca acaba sendo o último. Eles se tocam, se abraçam e há um beijo tímido no rosto.

– Oi, tudo bem? – ela diz e ele rebate.
– Tudo bom? – ele responde atropelado.

Se soltam, trocam mais um olhar e cada um segue seu caminho. Ele solta o ar que havia prendido e fecha os olhos para não esquecer. Ela inspira o ar que havia perdido e deixa uma lágrima tímida escorrer.
Desejam no fundo mais uma chance de se verem por acaso na rua qualquer dia desses. Enquanto isso a vida segue, o gigante que é o mundo vai girando e numa volta dessas, quem sabe, eles voltam a se encontrar.

Eu realmente tenho muito o que aprender

Eu nunca deixei de sonhar com intensidade.

Eu nunca deixei de acreditar que posso conseguir o que eu quiser.

Eu nunca deixei minha vontade de desistir ser maior que meu desejo de a desafiar.

Mas mesmo assim andei desanimado, fora de órbita e do meu caminho. Como se tivesse acordado de um sonho profundo, agora tenho a impressão que passei os últimos tempos mais gastando tempo do que aproveitando, mais me desviando do que me encontrando. Foi inevitável me questionar com veemência, colocar o dedo na cara do meu próprio reflexo no espelho e tentar arrancar do peito uma resposta que trouxesse também pra fora essa agonia maldita que me faz me sentir perdido e muito longe de qualquer coisa concreta. Eu realmente passei esse tempo todo tão errado e ainda achando que estive certo? Céus, não sei se é pior saber disso só agora ou se era pior continuar cego. A ignorância é uma benção, já ouvi dizerem por aí. E não é que agora eu acredito!?

Eu sempre passei por cima dos “nãos” da vida.

Eu sempre acreditei que eu podia fazer o que eu quisesse.

Eu sempre preferi ver a vida pela ótica do otimismo.

Mas mesmo assim isso não me privou de tomar porrada. Mais até: fui acusado de ser quem eu sou. Assim mesmo, como se isso fosse um crime. Como se eu tivesse culpa de tentar revolucionar tudo. Pelo simples motivo de que amar e mudar as coisas me interessa mais. E não é que é igual pra todo mundo? Me surpreende eu ter pensado que seria julgado pelas minhas boas intenções enquanto julgo o resto do mundo pelas suas atitudes finais. Não ia ser apenas com boas coisas que iria conseguir me blindar. Para não se queimar com qualquer coisa, a gente precisa conhecer o fogo. Para não ter medo do escuro, a gente precisa ter visitado as sombras e passado um tempo por lá. Ir à luta e conhecer a dor, pra assim valorizar como justa toda forma de amor. E não é que o poeta aquele era sábio mesmo!? Não esse que aqui escreve. Este que vai aos poucos jogando sua alma no teclado e, dessa forma, encontrando sua verdade, tem feito pouco. Nós temos feito pouco, você sabe que sim. Nós temos tanto para deixar nesse mundo, um legado para ser construído! Um legado de exemplos e atitudes, de palavras e saudades… E para levar então? Nem se fala. Dizem que da vida a gente não leva nada quando parte, mas eu discordo. A gente leva tudo aquilo que ficou na nossa alma. Tudo que marcou, que tocou, que nos modificou. A gente deixa um pouco de tudo e leva de tudo um pouco, isso sim.

Mas te lembra que eu falei: a gente tem feito tão pouco…

Como se eu fosse criança descobrindo o mundo mais de perto, invento mais uma dança pra fugir de tudo que é incerto.

Eu realmente ainda tenho muito o que aprender.

paulinho

Paulinho Rahs

O meu melhor amigo

Já tive amizades de todos os tipos. Daquelas que vieram intensas e se foram muito rapidamente, daquelas que pareciam que não iam dar em lugar nenhum e ficaram para sempre, algumas que resistiram ao tempo e ao distanciamento e outras que se mostraram mais frágeis que copo de um e noventa e nove.

Com todas as formas de amigos troquei algum tipo de confidência, falei até mais do que deveria, expus minhas mais internas consternações e expectativas. Acabei encontrando sempre algum tipo de decepção. Sabe como é… Dizem por aí que segredo entre três, só matando dois. E olha que eu tenho muitos segredos para simplesmente cair matando. Cada pequena ferida aberta por revelações de minhas personas ocultas foi me trazendo apreço pelo individualismo. Hoje já não ouço essa palavra armado até os dentes e encolhendo os ouvidos como se fosse algo cruel. Demora pra gente entender que nem tudo é como pintam por aí. Individualismo. Olha aí, lê de novo. Não é tão ruim assim…

In-di-vi-du-a-lis-mo. Substantivo masculino. Tendência a não pensar senão em si.

Tá, parece ruim. Eu sei. Soa egoísta, frio, egocêntrico. Mas calma, lê de novo, eu também pensava assim.

Individualismo. Tendência a libertar-se de toda solidariedade com seu grupo social, a desenvolver excessivamente o valor e os direitos do indivíduo.

Ok, isso é o que diz o dicionário. Tá, dane-se ele também. Quer dizer, isso soou meio individualista mesmo. Vamos só abrir então um pouquinho de interpretação aí. Libertar-se de solidariedade, desenvolver valor e direitos do indivíduo… E se eu te falar que às vezes é bom mesmo?

É bom se colocar em primeiro lugar. Todo mundo já faz isso de qualquer jeito. A diferença é que despir-se de hipocrisia é uma das coisas mais lindas e solidárias que se pode fazer. É muito coletivo, pra ser sincero. Cultivar um pouco de individualismo sem medo de ser uma ilha arrogante no meio de um mar de gente faz um bem danado, vou te falar. Até porque tem gente que tem tantos amigos, pessoas queridas ao seu redor, que é benquisto e agradável que acaba esquecendo uma coisa importantíssima da vida: o melhor amigo.

Todo mundo precisa de um. Que te conheça cem por cento, sem uma vírgula fora. Que saiba cada minúcia de seus sonhos e pensamentos. Que entenda até seus preconceitos e burrices, que passe horas te acompanhando e te ajudando a evoluir. Mais ainda: que te ame do fundo do coração, veja a tua beleza e tudo que o mundo ainda não viu de você.

O detalhe, meu velho, é que antes de procurar isso em alguém, nós todos deveríamos encontrar quando nos olhamos no espelho.

Que a solidão te seja cada vez mais prazerosa. Que você goste da sua própria companhia.

Que te aconteça como me aconteceu, quando olhei no espelho e vi meu melhor amigo.