Você não é o que dizem de você

Estamos vivendo desde sempre como alvo de olhares de quem está disposto a nos apontar em algum momento. Não tem como escapar. Temos que nos acostumar com o ‘achismo’ que mora em outras pessoas, que acabam por nos colocar em caixas que cabem dentro do universo-do-eu-acho-e-falo-o-que-quiser. Mas não somos isso. Não somos nada disso. Não somos o que falam de nós e não somos obrigados a nos limitar por automaticamente já estarmos envolvidos no que as pessoas acham que somos.

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Cresci ouvindo dos meus pais que eles eram as únicas pessoas que me conheciam de trás pra frente e do avesso. Acreditei por um momento. Ou melhor, por vários momentos. Os ouvi falar de mim para seus amigos e até para o vizinhos algumas vezes, coisas a respeito de quem eu sou. Logo na primeira vez que pude acompanhar toda a conversa, tive a maior certeza de que não, eles não me conhecem o quanto pensam. Não que eles tenham falado coisas absurdas e totalmente erradas, mas porque claramente falaram as versões de suas interpretações a meu respeito. E é assim, cada um vai contar o que viram de e em nós a partir da forma com que vão nos interpretar. Natural, nada inédito por aqui.

Passei a pensar nisso desde que comecei a perceber o que diziam de mim até mesmo nas mesas de bares entre amigos onde eu estava presente, ou seja, isso não acontece necessariamente quando as pessoas se dispõem a falar apenas coisas negativas de você, acontece de todas as maneiras possíveis. As pessoas podem conhecer suas preferências, vontades, segredos, seus pontos fracos e até seus defeitos, mas nunca saberão quem você realmente é. Às vezes, essa resposta muitas vezes foge até de nós mesmos, mas, quando olhamos para dentro, temos a verdadeira e impecável interpretação do nosso ‘eu’. Portanto, nunca se deixe envolver pelo achismo exacerbado que sempre estarão disponíveis para te fantasiar positiva ou negativamente. Seja quem você sabe que é, se despeça dos rótulos que vão grudar em sua testa, afinal você não é o que dizem de você.

Thais

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A gente espera do mundo e o mundo espera de nós.

Quando acontece alguma coisa no mundo a gente se sensibiliza, sente dor e em todos os lugares se fala sobre isso. O sensacionalismo dos jornais, os comentários vazios nas esquinas, as correntes de whatsapp que viralizam sem embasamento ou veracidade, as opiniões do facebook e o grande martelo que é batido por cada um em nome da justiça.
A gente se sente um pouquinho desconfortável quando somos envolvidos por tragédias e massacres. A gente se sente compactuante de um crime apenas por estar em sociedade e ser um boneco dentro de todo esse sistema feito pra matar pobre sem piedade, sem empatia, sem sensibilidade pela vida humana.
E a gente quer saber, destrinchar a história inteira pra alguma coisa fazer sentido na cabeça. Buscar culpados ou pelo menos algum Judas a ser apedrejado em nome da justiça que a gente nem em sonhos um dia já possuiu. A gente quer a paz, mas vive imerso numa guerra moral que nem em 100 viradas de ano conseguiremos reverter. A gente quer amor ao próximo, menos ao próximo marginalizado… A escória da sociedade que nasceu pra morrer na maior das crueldades.
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Uma noite de crime pra gente mataria bem menos do que todos os dias de crime onde quem não pode pagar segurança, padece. Mas vivemos de uma moral forjada por uma religião qualquer que abomina essas atrocidades. Quando não pode ver, quando acontece nas favelas, bem distante de você, nos presídios que são fonte de renda pra político corrupto que todo ano disputa eleição e vence, porque o crime só é crime pro pobre. Rico sustenta essa máfia chamada corrupção há milênios. Político destrincha leis pra se beneficiar e encontra amarras onde pode sustentar seus vícios, sua ganancia e sua sede de poder.
Quem detêm poder não se preocupa com o próximo, quem está sentado na cadeira cravejada de privilégios das prefeituras não se sensibiliza com o mínimo que é se doar por outro ser humano, não se preocupa em destinar acesso e conforto pra quem espera horas por um ônibus, por um atendimento médico, por uma vaga na universidade, por uma vida melhor e menos sofrida.
Nós compactuamos com a crueldade todos os dias. Mas somos juízes de todas elas e nunca culpados. O negro marginalizado é a culpa. Aliás, a expressão “negro-marginalizado” é redundância no mundo inteiro. Sangue de pobre escorre todos os dias nas periferias, nos barracos sem saneamento básico.
Matar é horrível quando o sangue escorre sem a gente ver, sem a gente se chocar com a realidade de que tem muito mais sangue na mão de rico, do cidadão de bem e do policial que devia defender e não matar, do que a gente pode imaginar.
Nossa sociedade é um filme de terror censurado para menores de 18. 18 nada! Tem que reduzir a maioridade penal. Se matou, foi porque escolheu matar e não porque faltou educação, saúde e valores.
Somos minideuses povoando a terra. Somos instigados a dilacerar comentários como os mesmos martelos que batem na mão de juízes.
Nos indignamos com o sistema de justiça, mas esquecemos que burlamos leis para nos beneficiar quando precisamos minimizar nossas falhas de caráter. No nosso mundo ganha quem já nasceu trapaceando, quem já nasceu na posição da frente de uma fila de calda onde habita os excluídos.
Camila