O rancor aprisiona

Ela ainda não sabe o crime que cometeu, mas está encarcerada. A cela é fria e úmida. A comida é escassa e as visitas, cada vez mais raras. Seu grito ecoa num ambiente que não acolhe dores. Ela gasta o tempo que tem a pensar em tudo que a fez chegar até ali e planeja, minuciosamente, os próximos passos dentro daquele pequeno tártaro. Todos os dias a rotina se repete. Ela alimenta a história, cuida de cada detalhe para nenhum deles ser esquecido. Insano dizer, mas ela parece saborear cada dor, cada mágoa e todas as palavras frias, proferidas numa manhã de domingo, entre um gole de café e um baque de porta. Ela faz questão de recordar e remoer todas as nuances que a memória conseguiu preservar, tudo isso é uma forma de dar tons e cores sombrias para a vendeta desejada. Existem detalhes que se perdem com o tempo, mas estes ela sobrepõe com sentimentos que ganham força a cada dia. Cada hora de sono perdida é um motivo a mais para odiar e fazer com que o guarda passe em frente a cela e venha lhe dizer mais uma vez:

– Eu te avisei.

Conforme o tempo passa ela se vê mais próxima daquele guarda que cuida com zelo de sua cela fria. Ele se chama ‘rancor’ e a vontade de abraçá-lo lhe cobre por completo.

Cansa estar rodeada de todas aquelas grades, ela já não vê mais o sol nascer e o guarda “rancor” não a deixa sair. Ela já pediu e implorou por misericórdia, mas ele é implacável. A desistência a coloca numa posição ainda mais fria e ela, aos poucos, morre pra vida.

É irônico pensar, mas ela quem alimenta o próprio Guarda que a aprisiona. Quanto mais presa fica nesse sentimento de mágoa, rancor e vingança, mais se tranca dentro da prisão que ela mesmo construiu. Sente vontade de se libertar das amarras do sentimento, mas só consegue criar histórias traiçoeiras para ferir cada uma das almas que lhe feriu. Ela culpa as pessoas pela prisão em que se encontra, sem nem se dar conta que é ela quem se mantém presa.

Dessa forma, pouco a pouco, vai sendo consumida por essas coisas que a gente sente e não se policia por sentir. Coisas que se tornam normais, porém são tóxicas, sufocantes e a transformam de uma maneira ruim. Uma existência que poderia ser bela, mas que vira uma cadeia fria, suja e sem cor. Uma prisão feita de rancor onde ela é júri, juiz e executor. Condenada e aprisionada, sem interesse algum em lutar pela própria causa.

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Vim dizer que te amo

Chovia torrencialmente naquela tarde e não era apenas do céu que a água caía com força. Um temporal escorria dos meus olhos e inundava um peito destroçado. A notícia da sua partida havia partido o que restava inteiro por aqui. O Caio, seu melhor amigo, me disse que você embarca hoje para Londres. Londres é longe demais e você não podia ir embora assim, para o outro lado do planeta, sem conhecer a imensidão dos meus sentimentos. Eu precisava olhar para você para lhe dizer tudo que vivia aqui dentro.

Eu sei, eu lhe disse “não” quando você bateu na porta da minha vida, mas eu estava confusa demais para te deixar entrar e por isso te mandei embora. Eu já te amava, mas fui covarde para assumir um sentimento desse tamanho. Pouco tempo depois outra te disse “sim” e um imenso sorriso lhe brotou nos lábios. E ali, naquele sorriso, eu percebi, tarde demais, que você era o que eu tinha de mais precioso. Entendi que a confusão só fazia sentido porque você sempre esteve presente. Inocente, eu acreditava numa espera utópica que não fazia sentido nenhum. Covarde, resolvi me calar e assisti você ser feliz sem mim.

Durante todos esses anos, ensaiei minha declaração de amor, preparei um discurso, planejei a conquista, escrevi cartas, ameacei ligações, mas estava assustada demais para colocar qualquer coisa em prática. Desisti de tentar. Eu já tinha desperdiçado a minha oportunidade. A culpa era só minha. Eu não tinha o direito de despejar em você todos os meus arrependimentos. Escolhi esperar, esperar você estar liberto para assim lhe entregar meu amor num embrulho bonito. Esperar. Esperar. Não havia mais tempo. Você partiria sem data de retorno e eu não suportava a ideia de viver sem lhe dizer que o seu amor floresceu dentro de mim.

Entrei no carro, enxuguei as lágrimas, respirei fundo e acelerei. Os radares não me impediram, o farol vermelho não me fez frear e eu larguei o volante assim que parei na porta do aeroporto. Eu corri. Corri o mais rápido que minhas pernas permitiram e busquei o Portão 3 com olhos secos e focados. Gritei seu nome, tropecei em malas alheias, busquei informações e encontrei o portão no exato instante em que seu avião levantava voo. De novo, tarde demais.

Outro temporal inundou meu peito e, no chão daquele aeroporto, entendi tudo. Eu não podia mais esperar. EU TE AMO. Te amo e preciso lhe dizer isso para desatar os nós que vem sufocando minha vida. Eu quero você com todo o meu viver, de uma maneira que você não faz ideia. O que sinto por você é lindo, intenso e forte o suficiente para me fazer deixar tudo para trás. Venho aqui para lhe entregar o que tenho de mais precioso: Meu amor por você. Venho cultivando tudo isso por anos e sei que essa é a hora de colocar para fora. Não sei qual será o resultado desse meu desatino, mas ele se faz necessário. Não importa se você vai correr para os meus braços ou para um Pub inglês. Não posso mais sufocar algo dessa importância. Esse amor não é só meu, também é seu. É justo que você tome posse.

Voltei para casa, fiz as malas, peguei o passaporte e entrei no avião cheia de coragem. Desembarquei em Londres numa noite quente e, com seu endereço no bolso, aluguei um carro. Dirigi por essa cidade estranha e mágica e parei na porta do seu novo apartamento. A luz da sua janela está acesa e já consigo imaginar a sua cara irritada por ter que desfazer as malas. Vou deixar essa carta e uma London Pride na sua porta. Beba a cerveja, leia com calma e, se ainda restar algum amor por mim aí dentro, me encontre no Starbucks da Nothing Hill Gate. Espero que não seja tarde demais.

Não quero mais brincar de distâncias

Cansa essa vida de viver longe de você. O coração fica pequeno cada vez que um abraço não é dado, que um beijo não é trocado, que a pele não roça. Sobra distância, falta toque. E com a falta do seu corpo junto ao meu, também cansa essa vontade de encurtar os quilômetros que nos separam, mesmo sabendo que os nossos corações estão perto demais para se perderem de vista.

Desgasta essa saudade que se acumula diariamente. A falta é sempre mais presente que a presença e é doloroso demais viver assim. Suas palavras alimentam o que ainda sinto, mas como competir com a falta de atitude? O desejo de agir até existe, mas fica só na intenção. De concreto temos apenas esse amontoado de vontades e saudades e não sei se eu estou disposta a colecionar essas dores todas.

Eu sei que tudo isso dói aí também e não é gostoso saber que sou motivo de aflição no coração que eu só queria afagar. Queria poder fazer mais, tocar mais, viver mais, mas como? Quilômetros me impedem e te impedem também. Na teoria é bonito dizer que o amor constrói pontes, mas na prática, a saudade massacra os planos e o projeto da ponte nunca sai do papel. Eu agonizo por proferir tais palavras, mas a verdade precisa ser dita agora, antes de nos ferir com as próprias mãos, antes de encontrarmos abrigo a centímetros de distância.

Não quero varrer nada para debaixo do tapete, prefiro rasgar o projeto da ponte antes de planejar a construção dela. Parece inviável, vê? Uma ideia louca de que um dia a gente possa, finalmente, estar lado a lado… Dói demais essa distância entre nós. Eu vejo os quilômetros aumentando, a gente se afastando e as nossas possibilidades virando poeira.​

Quanto você mente?

A gente cresce se acostumando com as mentiras, já reparou? Tudo começa de pequeno, quando a mãe oferece um remédio e mente dizendo que é bom. A gente toma na fé, mas se frustra, porque era uma mentirinha. Ou quando a mãe dizia que era ‘só dar um beijinho que passa’. O carinho aliviava o choro, mas a dor não passava não…

A gente acreditou nos contos de fada, no papai-noel, no coelhinho da páscoa e até na fada do dente. Quem dá dinheiro fácil assim? Os anos passam e a gente vai descobrindo que os mimos eram todas mentirinhas inocentes pra deixar a gente mais feliz e acabamos por acreditar que valeram a pena, não é mesmo? Assim a gente segue nesse ciclo de inverdades inocentes. Algumas são contadas para não magoar o outro, outras para não magoar a nós mesmos. Umas evitam atritos, outras trabalho. E aos poucos vamos colecionando um monte delas.

Mais triste do que acumular mentiras é aceitar outra porção delas. A gente sabe que a amiga não estava dormindo ou que o pneu do namorado não furou, mas a gente engole. Aceita para evitar o estresse de uma briga, para acalmar o coração ou só para se enganar e fingir que está tudo bem. Todos os dias são mentiras e mentiras que a gente aceita para evitar a fadiga. ‘meu celular não despertou’, ‘achei que você quem tinha me excluído’, ‘perdi a conversa, por isso não te respondi’, ‘oi amiga, me ligou? Estava ocupada’, ‘ah, que pena, já tenho compromisso’, ‘amanhã começo a dieta’… A gente sabe que as coisas não foram assim, a gente sabe que são mentirinhas e ok. Aceitamos. E, aceitando, a gente começa a evitar a fadiga de ter que se explicar e solta mentirinhas também. E a pessoa do lado de lá, digere a mentira e segue tudo bem.

Por que?

porque a verdade nem sempre acaricia o dia e de mazelas estamos saturados. A vida já bate o suficiente na gente, né? Melhor mascarar aqui e ludibriar ali. Assim a gente evita mais um monte de dores e guarda a paz no bolso. O que a gente esquece é que as mentiras pesam, maltratam e acorrentam.

Até quando a gente vai engolir mentirinhas porque ser sincero, ainda, dói?

Os caminhos que me lembram de ti

Hoje o trânsito me atrasou um bocado e fiquei maluca buscando um caminho alternativo para chegar ao destino a tempo. Ruas, alamedas, vielas e as curvas se repetiam na minha tentativa desenfreada de chegar onde eu queria por um caminho não convencional. De um jeito ou de outro, eu precisava chegar lá. A avenida principal estava cheia de carros e motos que passavam correndo e buzinavam na minha orelha sem dó. Quando todas as possibilidades se esgotaram e meu carro parou sem ter para onde ir, olhei para os lados e me deparei com seu prédio. Nem sei como eu cheguei aqui, mas reconheceria esse portão em qualquer lugar do mundo. Como, entre tantas possibilidades eu vim parar na sua porta?

Um filme lindo passou pela minha cabeça e pude rever a cena do dia em que cheguei ali pela primeira vez, o nervoso que eu sentia com aquele jantar, o risoto que queimou e a crise de risos que tivemos ao pedir a pizza. Me lembrei das incontáveis noites que passamos juntos e do amor que deixei do lado de dentro. Me recordo também da dor que senti ao partir e de como me arrependi. Mas a vida segue, né? Essa era a máxima que eu repetia pra mim mesma sempre que pensava em você. A vida segue, mas será que segue mesmo? Depois de me perder nesse trânsito louco da vida vim parar aqui de novo.

Sozinha, no carro, desliguei o som que nem mais escutava. Queria ouvir a tua voz. Fiquei aqui, parada, mas viajando na saudade. Queria poder entrar no prédio e subir até o seu apartamento como fiz diversas vezes durante meses. Te abraçar pra tirar toda a tensão dos meus ombros e, depois, ser conduzida por você até a cama onde fazíamos muito mais além do sexo. Era lá que ríamos dos casos engraçados do dia. Era na cama que comíamos a pipoca que você reclamava do pouco sal, mas comia mesmo assim. Na cama tivemos os melhores do melhor momento do nosso amor.

Aperto o volante com força. Com a força de quem queria acelerar e invadir o prédio só pra chamar a tua atenção e te pedir perdão depois. Aproveitaria pra pedir perdão por ter ido embora também. Faria tudo junto, um pacote só.

Então você surge na esquina sorrindo. Atrás de você, uma moça. Linda. Suas mãos estão entrelaçadas no pacote de alguma coisa que compraram no mesmo supermercado que íamos na tarde de sexta para abastecer o final de semana. Vocês são lindos juntos. E, com ela, você está vivendo tudo aquilo que neguei viver quando decidir sair da sua vida. As minhas mãos suão frio e escorregam enfraquecidas no mesmo volante.

Eu perdi o tempo, perdi o espaço e perdi você. E foi exatamente por isso que alguma força sobrenatural, talvez movida ao arrependimento, tenha me trazido até aqui. Pra constatar.

Ligo o som do carro, o motor, dou uma ré e faço a manobra antes que vocês entrem no prédio. Mas, não consigo deixar de olhar pelo retrovisor a linda moça sendo levada por você além do portão com aquela sacola possivelmente repleta de coisas gostosas.

Os carros e a loucura da cidade tomam a minha atenção. A lembrança, também. Tenho a certeza que comecei a te perder quando fui embora sem saber de nada e agora eu sei. Eu deveria ter ficado. Deveria.

Não adianta fugir

Eu consigo ver através da sua alma. Tudo que deixamos para trás e que voltou para nos assombrar está se tornando um peso praticamente insustentável sobre as minhas costas. Preciso de ajuda para carregar isso tudo e, sinceramente, você também tem culpa. O que é justo é justo, certo? Então pela justiça, que você sempre foi tão a favor, me ajude a carregar esta cruz. Sabe quando a gente está vivendo, mas dentro da mente só consegue lembrar do passado? Eu tenho a nítida sensação de que não pertenço ao lugar em que estou agora. Eu não pertenço ao corpo que habito, há algo me dizendo que estou num local completamente diferente de onde eu deveria estar. Se cada escolha que a gente faz traça resultados diferentes no futuro, teve alguma coisa que eu escolhi errada.

Será que foi te amar ou ter te deixado escapar? Fui eu quem errou conosco ou teria sido você? Essas perguntinhas malditas me sufocam durante a noite. Eu rolo de um lado para o outro e só pego no sono quando já é de manhã. Viver assim é um absurdo. Não sei se eu bebo ou malho, se fumo ou faço dieta. Se escrevo ou saio para a noite, se tento te esquecer de vez ou mando a milésima “última” mensagem. Qualquer coisa ajudaria se eu soubesse que te arrancaria do meu peito. No final, sou mesmo um poço de esperança. Eu realmente consigo ver através da sua alma. E você?

Será que essa tormenta toda também habita seu viver ou só o meu? Me pego imaginando o que você tem feito e se a cruz pesa nas suas costas. O longínquo tempo que dividimos ainda é presente aqui e desconfio que seja aí também. Eu te conheço, sei o que te aflige, o que te motiva e tudo que te causa insônia. Conheço suas expressões e posso distinguir o sorriso genuíno, do mascarado. Eu vi, quando te encarei mais cedo, que você também não está bem. Seus lábios estampavam um sorriso bonito, mas seus olhos suplicavam por ajuda. Já o vi assim outras vezes e tive o impulso de correr pra você, mas me contive. Não, não foi covardia, foi só o bom senso. Não posso atropelar o que você construiu ao lado de outra pessoa. Não sem a sua permissão.

Nunca entendi sua pressa em ocupar o lugar que deixei, mas hoje até consigo compreender. Talvez doa menos quando tem alguém acariciando a ferida aberta. Não é possível curar, mas ameniza o ardor, né? Eu tentei fazer o mesmo, busquei alívio em outras bocas e outros corpos, mas a ferida sangrava mais quando era tocada. Comigo não funcionou e talvez não esteja mais funcionando para você. O socorro que me pediu com olhos de clamor denunciou seu desespero. Ninguém percebeu, mas eu vi. Era claro como as águas de Noronha. Era tão latente quanto o que dói aqui. Não adianta fugir. Não posso e nem quero mais isso pra mim. Nem pra você. Deixa minha alma aliviar a sua? Vem e traz a sua pra abrandar a minha?

Não posso me apegar

“Não posso me apegar, boy”, foi o mantra que recitei, meses antes de encostar minha boca na tua. Você vinha com frases bonitinhas, enchendo de chamego e de esperança um coração que tinha desaprendido a acreditar no amor e nas coisas bonitas da vida. Eu repeti, incontáveis vezes, que eu não poderia me apegar – porque eu não queria. Eu sempre soube que, assim que viesse o apego, as coisas estariam fadadas à agonia: um querer por perto, todo dia.

Dito e feito.

Sem nem mesmo perceber eu já estava projetando um futuro com você. Primeiro erro. Não se pode projetar o futuro com alguém que a gente nem sabe se vai estar aqui pra sempre. Provavelmente não. Mas eu só pensava em sentir esse turbilhão de emoções pelo resto dos dias. Com você não tinha céu nublado ou tempestade. Eu era sempre sol nascente.

Percebi que estava perdida quando me peguei desenhando corações no espelho embaçado. Erro número dois. Quando tudo sai do controle a gente volta a ser criança e fantasia o príncipe no cavalo branco, mas depois descobre que era tudo de mentirinha.

Minhas certezas desmoronaram quando senti as entranhas se contorcerem de ciúmes. Ver outros olhos grudarem em você me fez desejar o inferno. Não era possessividade, era medo. Eu temi perder você para qualquer um daqueles cílios piscantes.

Eu não precisava de novos sinais. Apegada estava. Eu falhei, mais uma vez, na tentativa de me convencer que sou mais forte que meus sentimentos, que sou mais forte que nosso destino mal traçado. Eu repeti o mantra como um disco arranhado, mas mal sabia que já estava mais que apegada. Era tarde demais, sabe?

Quando encostei a boca na tua, quando nossa história virou bagunça, eu já estava mais que apegada – nos olhinhos brilhavam o semblante de uma garota mais que apaixonada.