O veneno da memória

Eu deveria esquecer; sim, esquecer, ou talvez, retroceder ao que eu era antes de você. Minha cabeça, carregada de pequenas mazelas e confusa, não consegue mais organizar as ideais. Até mesmo um ato involuntário de meu corpo, como por exemplo, respirar, me traz uma lembrança sua. Ainda posso te ouvir suspirando e dizendo que eu lhe tomava o fôlego; ou quando nos atracávamos um no outro e sua respiração ofegante invadia-me os tímpanos. Você não se lembra, mas eu sim – e todos os dias! Já pensei em me matar e te devolver, talvez em dobro, a dor que me tem causado nesses últimos anos, mas sou covarde, quisera eu ter sua fúria, sua força. Ainda mais eu que tantas vezes fugi, mas você não! Você lutava, retrucava, debatia e batia se preciso fosse. Cheguei a um ponto desastroso e vergonhoso para um ser humano: perdi o amor próprio; amo-te mais que amo a mim.

Vou dar uma volta, ver a cidade, gente nova, sorrisos. Que maçada! Aquele prédio branco, o da esquerda, ali na avenida, foi lá que senti pela primeira vez o seu perfume. As paredes brancas são testemunhas, elas não me deixarão mentir! Vão dizer, em juízo, se preciso for, que eu, naquele dia, era o homem mais apaixonado do universo. “A ponto de comer por ti um crocodilo”. Uma declaração de amor um tanto estranha, mas a senhorita sabe do que estou falando. Nossas longas conversas sobre dramaturgia e literatura passaram por essa frase. Viu só? Estás em tudo que faço: no café tomo, no ar que respiro, nos livros que leio, nas palavras que pronuncio ou escrevo, nos meus pensamentos.

Tudo que queria, em verdade lhe digo, era esquecer. Queria por fim a esse sofrimento que há tanto me retira o sono, e converte em lágrimas minha amargura. Sou infeliz. Desaprendi a sorrir, pois só tinha o seu sorriso como parâmetro, como espelho, como modelo. Ah se os Deuses soubessem o demônio que criaram com esse seu sorriso, matar-te-iam no ventre de sua mãe!

O dia já está para clarear; devo me levantar em breve. Como já sabe, não preguei os olhos nesta noite. Fiquei atormentado com sua presença: vi, por tanto canto, a imagem de seu rosto; ouvi, em todos os lugares, o timbre de sua voz e senti, por todo o meu corpo, os toques de suas brancas e delicadas mãos. Cyrano de Bergerac? Sim! “Como acontece a alguém que fita o sol dourado, e vê depois em tudo um círculo encarnado, tal eu, quando não estás e o meu sol é posto, vejo, em tudo que vejo, o brilho do teu rosto.” Lembra-se de quando li esse trecho para você? Acho que não, mas eu sim.

Você, “tigresa de unhas negras e íris cor de mel”, não sabes a falta que faz em mim. Você foi como um relâmpago: trouxe a luz a minha tempestade, pena que o durou tão pouco. Como o tolo da colina na canção, espero sozinho o próximo clarão. (Perdoe-me a rima tosca, mas estou fadigado demais para alterar; pensar em você a todo instante consome minhas energias).

Já é dia, preparo um café. Lembro-me de que você não gostava (e acho que ainda não gosta), prefere chá. Dou risada na cozinha me lembrando da forma como se embrulhava naquela minha camisa velha que você adorava e sorrindo me dizia um caminhão de besteiras de amor. Acreditei em todas.

A memória pode ser um dom, para muitos, mas para mim é uma maldição, uma desgraça sem fim. Quisera eu ter amnésia, bater com a cabeça, ter uma convulsão nervosa, sei lá, qualquer coisa, mas que me traga o esquecimento. Quero te esquecer, sim juro! Não me venha com desculpas dizendo que eu alimento minha dor, que não quero mudar. É mentira! Deus, que um dia há de me condenar ao quinto dos infernos pelos devaneios malucos, sabe como lutei para te apagar, para extirpar e exorcizar seu espirito do meu. Já chega por hoje, já chega. Vou recomeçar a vida, lentamente. Tem sido assim nos últimos anos: um dia de cada vez.  Peço a Deus todos os dias para que sua memória seja falha, que guarde só momentos bons e alegres. Que a memória não seja para ti o veneno que é para mim.

flavio

Escrever é deixar na memória um momento que quero esquecer.

Escrever é bom demais, é terapêutico e motivador. É deixar registrado um momento ou um sentimento. É libertar-se, é ter um caderno ou um computador amigo pra conversar.
Quem escreve sente o quão bom é servir um pote de imaginação para quem está lendo, conta detalhes que despertam a curiosidade alheia. Detalhes inventados. Detalhes reais.
Quem não escreve tem uma vida sem fatos e ausência de histórias. Pois escrever, no sentido mais completo da palavra é pra quem tem audácia e muita coragem.
Escrever é encher de opinião um balão com ar, se o fôlego é realmente bom o balão torna-se cheio e bonito, se já não é, fica murchinho e sem vida.
Mas, além de tudo isso, escrever é tão bom porque mostra quem somos, uma opinião e principalmente um caráter.
Escrever é bom, mas ter um leitor é melhor ainda, o leitor é alguém que pensa junto, que pensa diferente, mas que pensa sobre o mesmo assunto.
Escrever é deixar de ser um pouco menos solitário, mas não menos triste. É também mudar de opinião e trocar de página pra quem sabe se encontrar, em qualquer livro ou folha de jornal, qualquer coisa que talvez consiga descrever o que sentimos.
Um texto bom é um texto sem falso moralismo e completamente repleto de sentimento. É um texto particular, mas sincero. Porque é a sinceridade que causa a identificação nos olhos de quem lê com a alma.
O que é mais íntimo é mais universal.
Somos todos diferentes, mas a essência é a mesma.
Todo texto escrito com amor, vai cativar os leitores que leem também com amor.
Escrever é terapia. Mas receber palavras autênticas sobre um sentir, uma dor, uma felicidade ou um amor, é conquistar sorrisos de reconhecimento e encontro daquilo que é particular, mas também faz parte das sensações de todos nós.
A melhor inspiração para um escritor é estar triste ou feliz na mesma intensidade. Um texto pode ser útil e mediador, e está entre o que se deve fazer ou dizer.
Um texto é uma porta de escape da solidão.
E eu nasci com um mal danado, eu amo escrever. Na verdade, nasci com algo bem pior, eu amo argumentar.
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