A premissa do provisório pra sempre

Tenho em casa um relógio que não funciona. É de parede e esta na parede, sem funcionar. Me dei conta que já faz algum tempo que ele está lá com seus ponteiros imóveis, corretos em apenas dois momentos do dia. Até troquei as pilhas, sacudi, mas continuou parado. Como presente de uma pessoa querida, sempre foi estimado e o achei bonito,a parede precisando de algum detalhe e ele foi ficando, ficando e simplesmente não sei dizer porque ainda está lá. O certo é que o deixei na parede e já me acostumei com ele, sem funcionar. Meu relógio de parede que não funciona está lá, provisório. Provisório pra sempre.
Essa importante premissa do “provisório pra sempre” esta intrinsecamente relacionada às características da vida simples, que nos apresentam peculiaridades que só quem é (ou foi) do ramo conhece e pode referendar. Lã de aço na ponta da antena para melhorar imagem de televisão. Sobra de feijão congelado em pote de sorvete. Frasco de shampoo com a tampa virada para baixo, a fim de aproveitar todo conteúdo. Apertar o máximo possível o creme dental, para tirar tudo que puder de conteúdo. Tijolo escorando pé da cama quebrado. Prego para segurar tira de chinelo arrebentado. Tanque utilizado como cooler a fim de gelar trago. São tantos exemplos que faltariam laudas para registrar, todos prodigiosos em soluções provisórias pra sempre. Tomo aqui a liberdade de salientar uma combinação “provisória pra sempre” deveras peculiar, muito praticada por um amigo em tempos remotos: fusca e arame.
Carro velho – assim como esse que vos escreve, estimado leitor – tem lá suas manias para funcionar e precisa delas pra subsistir. Ciente disso, relembro um amigo que tinha um fusca, o carro mais popular do mundo e o mais propício para se praticar o provisório pra sempre. Problema elétrico? Um arame fazia uma “ponte”. Para-lamas solto, torto ou com alguma avaria? Arame resolvia. Algum revés na porta, farol ou motor? O bom e velho arame solucionava. O tal arame estava presente fixando o painel e cabo do freio de mão, além de servir como importante fator de segurança ao veículo, pois prendia o cinto de segurança e dispensava o uso de chave. Com um arame (e o importante auxílio de uma fresta no vidro) levantava-se a trava, a porta era aberta e com uma ligação direta saia andando o querido carrinho. Apenas em uma situação o arame não adiantava: quando precisávamos empurrar o automóvel com ele teimando em não arrancar. Manutenção pra que? Arame era a solução provisória pra sempre do VW Fusca motor 1200 ano 1963 de cor branca.
Em esferas politico partidárias são várias as manifestações desse pressuposto do provisório pra sempre. A combinação políticos e estradas (mal acabadas) é profícua em promover ações embasadas no provisório pra sempre. Lembro da visita de um governador para inaugurar uma rótula composta de blocos de concretos pintados, nada de tachões ou sinalização. Passados diversos anos como esta? Blocos de concretos pintados, nada de tachões ou sinalização. Passo todo dia por uma rodovia mal sinalizada, onde circulam veículos e pedestres sem nenhuma segurança, para ambos. E como esta ano após ano? Mal sinalizada, onde circulam veículos e pedestres sem nenhuma segurança, para ambos. Na rodovia que leva o nome do maior poeta gaúcho e é uma das principais ligações da região metropolitana com o litoral, obras paradas e o título de rodovia campeã de acidentes com mortes no Rio Grande do Sul. E como estão as obras que se arrastam por mais de dez anos? Obras paradas e o título de rodovia campeã de acidentes com mortes no Rio Grande do Sul. E o que dizer da rodovia Transamazônica, inaugurada a mais de 40 anos e ainda sem asfalto em sua maior parte? Inaugurada a mais de 40 anos, e ainda sem asfalto em sua maior parte. Bem mais chato que repetir as sentenças é saber que será difícil mudar as situações precárias e provisórias que se encontram essas rodovias. Todas com soluções provisórias pra sempre.
Há que se considerar que estamos de passagem nessa coisa doida chamada vida, e a provisoriedade se apresenta e permanece sempre em nosso cotidiano. Todavia, caríssimo leitor, há aí um interessante paradoxo a se refletir em mesa de bar, redes sociais ou em crônicas de desocupados como eu: ao mesmo tempo que o provisório é relacionado a ideia de algo que ocorre num curto espaço de tempo e, por conseguinte, temporário, o “pra sempre” acaba se impregnando provocando uma complexa antítese em relação ao provisório, sendo o suprassumo do pode qualquer coisa para encaminhar a improvisação temporária de algo permanente. Pode até fazer parte, mas que não seja subterfúgio para incompetência ou omissão. Que seja, pelo menos, como o provisório pra sempre que desperta coisas boas, como o Soneto da Felicidade do Vinícius de Moraes: que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure.

A incrível atração mãos de criança x coisas a derrubar em supermercados

A relação criança versus coisas não viáveis de serem compradas em supermercados permite a quem por ventura passa por tal embate – segundo meu parco, raso e furado juízo – incríveis estudos, divagações e, principalmente, fiascos públicos. Há de existir algum entendido ou desocupado qualquer que explique a atração (eletro, magnética, nuclear, por bluetooth, wifi ou coisa que o valha) para mãos de criança e objetos que não constam de nossa lista de compras, em especial os frágeis e que custam caro. Notoriamente, a escolha de qualquer coisa passível de destruição considera majoritariamente algumas decisões: o que é chamativo, inútil, artificial, colorido, engorda, estraga e, como já foi dito, muito caro.
Nesse contexto, manifesto aqui minha solidariedade aos pais que contemplava diante de árduas contendas em supermercados até tenros tempos, confesso que nem ligava para aquelas pobres almas, sofrendo com as agruras dessa complexa relação. Registro minhas escusas, compartilhando momentos de tensão enfrentados recentemente: ao escapar do meu raio de visão por um micro milionésimo de segundo, eis que minha exemplar de filhote humano opta pela garrafa mais cara do destilado mais nobre da parte mais alta da seção mais chique do supermercado, com a cena passando em slow motion na minha frente, antevendo e temendo um final nem um pouco feliz.
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Felizmente, a garrafa saiu ilesa a tempo pois, sei lá como, obtive êxito em colocar minha mão no trajeto mãozinha/garrafa/chão, com a garrafa escapando ilesa. Quanto a mim, é provável ter alcançado algo próximo a mil batimentos cardíacos por minuto, após evitar o sumário fim da garrafa que custava quase um salário-mínimo e a despesa não programada em meu orçamento. Tão logo esse meu heroico ato findou, fez-se necessário o uso de todas as técnicas de relaxamento possíveis, passíveis e impossíveis para com minha filha, obviamente sem lograr nenhum resultado prático tendo em vista o intuito dela de destruir mesmo, sem dó. Além disso, manifestações efusivas e contrárias ecoaram por um raio de dezenas de metros e em algumas centenas de decibéis, combinadas ao choro forçado digno de interpretação holiwodiana. Todavia, bravamente venci aqueles corredores que pareciam não ter mais fim e cheguei até o caixa nessa penosa situação, com as devidas atenções de todos os presentes voltadas à minha árdua contenda.
A rendição teve um preço: o investimento financeiro em uma barra de chocolate. Minha aplicação mostrou-se extremamente exitosa, na medida em que fez cessar todo berreiro e, tão logo abriu-se a embalagem, voltou o sorriso em mim e nela. E assim, sacolas em uma mão e mãos dadas na outra além das bocas lambuzadas de chocolate, a paz voltou a imperar na saída do supermercado.
Sem explicação. E com muito amor.
mateus