Partidas e chegadas…

Não sei o nome daquela moça. Não sei de onde veio ou para que lugar estava indo. Não sei se era ela quem partia ou se estava ali somente para dizer adeus a alguém que, com a despedida, partiu em mil pedaços seu coração. Não a conheço e provavelmente nunca mais a veja. Não sei ao certo nem se ao menos lembraria a sua fisionomia. Mas ela me emocionou por tentar em vão conter suas lágrimas.

Fiquei sensibilizada com a tentativa inútil que ela travava consigo para não chorar em público. Não ali, num lugar que reúne tantas pessoas. Não em uma rodoviária qualquer. Não enquanto tentava se fazer forte para que ele (provavelmente seu amado) fosse ou a deixasse ir da maneira mais tranquila, menos dolorosa possível. Ela não queria. Ele igualmente não. Mas assim como a vida, o ônibus não esperaria. Nem o choro comoveu o motorista. E foi quando a despedida se deu. Triste como sempre é. Praticamente desumana para quem ama e não quer ficar longe.

Não sei o nome daquela outra mulher. Acredito que tenhamos a mesma idade, um ano mais, um ano menos. Ela estava na minha frente, em uma fila, em um aeroporto qualquer. O bilhete segurado nas mãos trêmulas denunciava seu nervosismo. Foi quando o telefone tocou. Ela atendeu e mesmo sem querer, invadi sua privacidade escutando a conversa. A pessoa do outro lado tinha acabado de deixá-la. Acredito que a despedida não tenho sido fácil. Nenhuma é. O rosto vermelho apontava o choro de outrora. Revelava novas lágrimas que teimavam a surgir. Ela só conseguiu responder que o avião ainda não tinha decolado. Disse que mesmo assim, ainda ali, já estava morrendo de saudades. Foi o suficiente para sua voz ficar embargada e ela desligar com um sufocado e doloroso “Eu te amo”.

Nos dois casos pensei em dizer algo. Mas me calei. Pensei em confortá-las. Mas nada que eu dissesse minimizaria a dor que elas sentiam. Por tabela, fiquei triste também. Pensativa. Perdida em minhas próprias partidas e chegadas. No fundo aquela moça e aquela mulher sabem que o reencontro será breve. E mesmo que não seja, sabem que elas deixam um pouco de si com eles e levam muito deles com elas.

Partir, quando se quer ficar, deveria ser terminantemente proibido. Ficar, quando se quer partir, da mesma forma.
Rodoviárias e aeroportos são palcos de encontros e desencontros. Revelam em suas correrias e personagens uma das tarefas mais difíceis que aprendemos ao longo de nossas vidas a lidar: dizer adeus, deixar partir. É uma luta de titãs entre a razão e a emoção. Não preciso nem dizer quem ganha. Como li um dia desses aeroportos e rodoviárias “são certeza de saudade, certeza de como é bom ser presente, mesmo estando de passagem”.

Dias de chuva também tem sua beleza

“Eu desejo que nos dias de chuva você se permita escutar a melodia dos telhados, que à mercê das mágoas busque lembranças que prezem pela alegria. Desejo que a vida lhe abrace no dia em que você precisar de companhia e que o vento lhe sopre pistas
sobre onde encontrar paixões e sonhos”, Carla Dias.

Eu gosto dos dias de chuva. Ficar olhando pela janela, com o pensamento divagando entre o tudo e o nada. Gosto também de dias mais frios, de sentir o arrepio na pele, de sentir-me viva. Gosto de dias bucólicos, nostálgicos. Dias assim me despertam a saudade dos que estão longe e dos que estão perto, porém, distantes. Daqueles que não consigo sentir a presença, a não ser no peito e na lembrança.

E não é de hoje que gosto de ficar assim, tranquila, contemplando as gotas que tentam agarra-se em vão a janela. Chega a ser quase hipnotizante. É como se eu pudesse me desligar por alguns momentos da correria do dia a dia. É como se o tempo parasse lá fora e, aqui, dentro de mim.

As pessoas apertam-se em calçadas, dividindo o espaço restrito com seus guarda-chuvas multicoloridos. Os passos são mais largos e descompassados. Buscam a segurança e o conforto da marquise mais próxima. Algumas crianças, sorriem encantadas, agradecendo a oportunidade de usar a bota nova de plástico que ganharam no Natal e que ainda não tinham usado.

As mulheres, mais vaidosas, tapam o topo de suas cabeças com o que tiver disponível, tentando proteger as madeixas alisadas recentemente no salão ou preservando a escova feita pela manhã, nos preciosos minutos que poderiam ter sido aproveitados degustando uma boa xícara de café e a leitura de um artigo. Ou, quem sabe, em alguns momentos a mais de sono, desfrutados embaixo do calor da colcha de retalhos.

O cinza do céu, que muitos não gostam, a mim cai tal qual uma luva. E o cheiro da grama molhada que invade as narinas mais aguçadas? Para mim, lembra melancia fresquinha, cortada em fatias delicadas, aquelas bem docinhas. E o som, aquele barulhinho que embala pensamentos e sentimentos? Quer sensação mais gostosa do que um filme escolhido a dedo, uma boa taça de vinho e a melodia lá fora, tornando o momento ainda mais introspectivo?

Enquanto alguns reclamam, eu agradeço. Afinal, assim como os dias de sol, os de chuva também tem seu encantamento. Basta que saibamos e estejamos dispostos a contemplá-lo. Pois, como tão bem poetizou Fernando Pessoa: “Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é”.

É na solitude em que nos encontramos…

Amar-se e gostar de estar consigo é o primeiro passo para ser feliz. É tão simples como a matemática que nos mostra que dois e dois, são quatro. É a equação da própria aceitação, para que depois, seja possível somar-se aos outros.

Muitas pessoas têm verdadeiro temor de estar momentaneamente sozinhas. É como se o silêncio fosse perturbador. Ignoram que existe uma diferença gritante entre solitude e solidão. Telma Nogueira explica perfeitamente tal discrepância ao definir que: “Solitude é a capacidade de se amar ao ponto de estar sozinho e mesmo assim, se sentir inteiro e feliz. Sem a obrigatoriedade de procurar complementos e naturalmente ser preenchido de uma paz absoluta”.

Quando gostamos de estar em nossa própria companhia, nos entregamos por completo na busca de quem somos de verdade. E tal introspecção, torna-se necessária e prazerosa. Quem não se ama e não se considera merecedor das bênçãos da vida, se sabota, passo a passo, gradativamente. Melhorar a cada dia, jamais esquecer de onde viemos, pensar sempre positivamente para onde queremos ir. Respeitar a si e ao próximo. Isso se chama positividade. Isso é o que todos esperamos para nós e para os nossos.

Nada como o silêncio ouvido quando se está sozinho, quebrado pela melodia que embala nossos devaneios e diz um pouco daquilo que somos. Não adianta tentarmos abraçar o mundo, se nossos braços não são capazes de nos envolver em aceitação. Buscar amor no outro é em vão quando amarmo-nos parece absurdo.

Amar ao outro é um movimento de dentro para fora. Para que seja oferecido o que temos de melhor, nosso interior deve estar bem cuidado. Não podemos dar aquilo que não temos, ou seja, amor. E para que estejamos inteiros, precisamos passar momentos a sós, dialogarmos com nossas fraquezas para que a nossa força pessoal seja recarregada. Clarice Lispector explica a necessidade que estejamos bem conosco para que possamos entrar de cabeça em qualquer relação: “Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu”.

É na solidão que percebemos que a nossa paz espiritual só pode ser encontrada dentro de nós mesmos. Quando temos esta consciência, somos acalentados pela certeza que somente duas pessoas inteiras conseguem se amar e se relacionar de forma saudável. Afinal, estar bem consigo, é estar preparado para lidar com o caos de estar em meio a tantos outros, incompletos e descontentes. E, mesmo assim, estar feliz, pois se o que restar for solidão, será transformada sem problema algum em solitude.

Ah, Maria. Que alegria!

Maria pensou dias seguidos em não tirar o pijama. Não queria ver a luz do sol e nem sair do sofá. Acomodou-se em naquele canto e ali se deixou ficar. Dos espelhos, fugia. As pessoas, temia. Não queria conversar. Na verdade, nem mesmo pensar se atrevia. Chorou baixinho e rezou em voz alta, como há muito tempo não fazia.

O encantamento que tinha, desencantou. Logo ela, cheia de vida, pura energia, enfraqueceu. Como uma planta em um vaso, sentiu-se esquecida no apartamento desocupado. O violão ficou mudo. O livro, empoeirado. O celular, desligado. Sem bateria alguma, assim como ela.

Se pôs feia, por dentro e por fora. Esqueceu a maquiagem, o salto alto, onde estava a cabeça. Não lembrou nem mesmo de sua essência. Perdeu-se por completo. Desconfigurou-se e despertou monstros adormecidos. Perdeu o sono. Dormiu em demasia. Revirou-se de um lado para outro. E no balanço do desconforto, renasceu.

Maria jogou o pijama sujo de tanto uso num canto. Abriu as janelas, escancaradamente. Deixou o sol iluminar seu rosto opaco e sua alma abatida. Saiu do sofá e foi para vida.

Ficou orgulhosa de si. Olhou-se no espelho, por várias e várias vezes. Achou-se como não fazia há muito tempo, bonita.

Tirou forças, não sabe nem ao certo de onde. Enfrentou as pessoas. Procurou todos aqueles de quem se escondeu. Monopolizou papos e rodas de conversas. Fez-se ouvir num tom bem acima de sua média. E encantou aqueles que estavam ao seu lado e quem nem ao menos conhecia. Voltou a ser ela, cheia de vida, pura energia, fortaleceu.

Deixou de ser planta em vaso, virou floresta ainda não desbravada, mata virgem por completa. Pegou o violão e entoou sua própria melodia. Escreveu sua história, sem precisar de autor e coautor, se fez pura trilogia.

Ligou o celular, voltou para as redes sociais, fez contatos, reconectou-se. Sua beleza passou a iluminar. Maquiou-se, colocou o vestido guardado para uma ocasião especial. Pintou o rosto e o cabelo, de cores que antes não ousava. Atreveu-se além da conta e tatuou-se.

Passou a relembrar os outros de suas essências, pois a dela, sabia do avesso. Matou monstros com sua arma mais poderosa: sua autoestima. Com ela, ninguém podia. Dormiu menos que devia, não queria perder o tempo que ontem acreditou que não mais tinha. E quando amanheceu mais um dia, novamente, renasceu.

Maria, Maria. Ah, que alegria te saber assim! Sabia que tua história parece tanto com a minha?