Como é difícil assumir o que é simples

Melhor ao som de “Eu preciso de você”, do Vanguart.

Depois que tu fostes, tive muito trabalho.

Não apenas pra tentar colocar as coisas no lugar, mas pra criar na minha mente todas as respostas possíveis a todo tipo de pergunta.

À tia distante que perguntasse “e a namorada?”, eu diria que não deu mais certo e que cada um seguiu o seu caminho, mas seguimos amigos e está tudo bem.

Aos colegas de trabalho que me obrigariam a ir a happy hours que eu detestava, diria que estava em outro momento da vida e que tinha projetos pessoais pra tocar.

E quanto a mim?

Bom, eu diria a mim mesmo que deu o que tinha que dar, que tudo é aprendizado, que a vida é isso mesmo, que vou partir pra outra.

Eu sou bom em inventar motivos. Quase todo mundo é.

Todo mundo tem medo de concluir o que é simples e, por isso, cria o complexo. Enreda uma teia detalhada cheia de teses e afirmações positivas para poder acreditar naquilo que a razão cria.

Esquece que se o coração não estiver bem, nada vai bem.

Eu sou capaz de ir muito longe pra não sentir. Pra não viver o luto de te perder. Mais que isso, eu prefiro qualquer coisa a ter que passar por cima do meu orgulho e assumir em voz alta o que meu peito grita há mais de sessenta dias:

Preciso de ti.

Tenho a clareza de entender que não é uma questão de necessidade desesperada, de falta de amor próprio ou humilhação. Eu preciso de ti porque sei que sou melhor contigo. Por ser inteira, tu és o exemplo perfeito que preciso pra ser melhor comigo.

Precisar de ti não configura um caso de dependência.

Preciso de ti porque te amo e escolhi te amar todos os dias. Quando a gente escolhe amar todos os dias, não há distração que arranque a dor da distância.

Minha boca fala que está tudo bem, o papel aceita qualquer justificativa, mas dentro do meu coração não há mentiras, omissões ou qualquer dificuldade de enxergar a realidade.

A verdade é clara e simples.

A omissão é turva e complexa.

A conta é simples, mas o medo de parecer fraco me obriga a resolver equações cheias de fórmulas e cujos resultados são verdadeiras dízimas periódicas.

Eu não precisaria inventar histórias tão grandes e mirabolantes se fosse capaz de dar um passo trás e dizer frases simples como “eu te amo”, “me ajude” e “vamos conversar?”.

Enquanto isso, sofro em silêncio por mentir não só para o mundo – todos continuam vivendo depois da minha mentira –, mas por mentir pra mim tão descaradamente.

É muito difícil assumir o que é simples.

Mas é melhor que passar a vida sem saber como seria se as palavras fossem ditas.

 

O que eu estaria vivendo se já tivesse clamado por ela?

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Eu e o meu medo de ser feliz

Hoje, sozinho, vejo quantas oportunidades eu perdi exclusivamente pela minha incapacidade de perceber que a fortuna tinha feito morada na minha vida. Cada tijolo colocado para a construção do castelo da minha sorte foi sumariamente devastado pela violência do meu medo de ser feliz.

Quantas vezes me prendi ao teu passado. Quantas vezes questionei o quanto aquele cara podia ter sido melhor que eu. Quantas vezes eu pensei que, a qualquer momento, tu voltarias atrás na tua decisão e retomaria uma vida que, nos meus olhos cegos de insegurança, era muito melhor.

Agora, longe, consigo perceber as coisas de forma mais clara. O tamanho do teu amor por mim. O olhar carinhoso que tinha para cada conversa. O abraço sincero que me acalentava nos dias tristes.

Eu não te perdi pra ele. Eu te perdi pra mim.

Fui idiota ao ponto de não acreditar que eu merecia o melhor. Estava condicionado a achar que o que era bom não era pra mim.

Tu seguiste tua vida, segura como sempre. Eu mantive o câmbio na segunda, com o motor chorando e com uma apatia que me tornou incapaz de acionar a embreagem e mudar a marcha da minha vida.

Me prendi ao teu passado e não vivi nosso presente. Me prendi ao teu passado e esqueci que tu eras, verdadeiramente, um presente, o meu presente. Me prendi ao teu passado e boicotei uma chance linda de ser feliz pra sempre.

Tua passagem por mim foi tão linda que, ainda que eu sofra por ter feito tudo errado, sinto um calor no coração que me diz que tu deixaste o teu melhor comigo.

Eu me prendi ao teu passado, não vivi nosso presente, mas a tua existência pode ter criado o meu futuro.

Eu ainda te quero pra sempre mas, ainda que isso não aconteça, sei que te trago comigo em cada momento em que julgo não merecer a felicidade. Tu és o anjinho que surge no meu ombro esquerdo e diz que eu mereço, sim. Mereço muito. Mereço mais que ninguém.

Foi perdendo os dias mais felizes da minha vida que percebi o quanto ela é efêmera.

Foi te perdendo que eu percebi quantas vezes a alegria bateu na minha porta e eu, antissocial, lhe bati a porta na cara.

Foi te perdendo que eu me afundei no lamaçal desse tal medo de ser feliz.

Te achei no meio das minhas coisas

A vida ia muito bem, obrigado.

Foi aí que eu resolvi fazer aquela faxina no quarto, que a gente só faz de dez em dez anos. Aquela em que a gente tira tudo do armário, se arrepende por ter tirado, mas aí é obrigado a colocar de volta e não tem mais jeito: melhor fazer a seleção do que fica e do que vira lixo.

Foi assim que você ressuscitou em mim. Um caderno velho, voando para o lixo, disparou um projétil dez por quinze com uma foto nossa, juntos, sorrindo. Nos cinco dos últimos dez anos, eu tinha te erradicado do último neurônio que ainda se apegava à tua imagem. Com aquela foto, você voltou à ativa em todos eles.

Não resisti. Fui às redes sociais e te achei lá, com um alguém aí, com uma miniatura sua de bochechas rosadas e uma felicidade que parecia fazer teus olhos brilharem de forma intermitente, quase me cegando. Você não perguntou. Mas no meio dessa loucura, me deu vontade de dizer como estou.

E estou bem, obrigado. Quer dizer, estava tudo indo bem até eu resolver faxinar minhas memórias e encontrar uma foto tua lá. Estava tudo indo bem até eu te procurar para saber como você tem passado. Não sei o que eu esperava encontrar mas, definitivamente, não era esse sorriso tão genuíno. Não era essa família tão nova. Acho que ver uma miniatura tua desestabilizou tudo aqui dentro.

Passou um filme antigo diante dos meus olhos. Nós dois, aquela viagem para a Argentina, aqueles dias tão brancos e azuis. Tão recheados de abraços, beijos e cumplicidade. Até que a gente se perdeu numa esquina e foi cada um para um lado, carregando os planos e histórias na bagagem. Tinha tanto de nós dois comigo. Deixei tanto de nós dois contigo. Nossos sonhos e planos foram nos acompanhando, daqui e daí – o casamento na serra, a casinha com varanda, as crianças no gramado…

Vasculhar você foi trazer de volta nossa história. Vi nossos planos estampados no teu riso frouxo, nos teus olhos que brilhavam naquela fotografia digital, nos bracinhos miúdos da mini-você. Nossos planos estavam ali, vívidos e concretos – mas não eram mais meus.

Praticamente nada saiu como o planejado. Eu mudei muito, você mudou muito, mas algo aqui permaneceu: minha crença de que nada é por acaso.

Eu ainda sou o sonhador irremediável.

E é por isso que ainda acredito que, um dia, eu serei de novo o causador dos teus sorrisos e você a causadora dos meus.

Por enquanto, guardo com zelo e carinho o projétil em forma de foto que, há menos de cinco minutos, me fez voltar dez anos.

Voltar ao tempo em que eu me sentia vivo.

Quero pegar o ônibus que me leva embora da tua vida

O ônibus chegou à estação rodoviária e eu já o esperava ansiosamente. O cobrador me ajudou com a bagagem física mas, a da minha cabeça, eu tive que carregar só. Nem sabia direito qual era o destino, eu só queria ir. No fim do trajeto, eu pegava outro ônibus, e mais outro, e mais quantos fossem necessários pra ficar o mais longe possível de tudo.

A estrada irregular, o veículo trepidando, e meu choro deslizando caprichoso pela janela completavam o cenário. A face acomodada sobre o vidro me permitia a sensação visual de estar voando pela rodovia. Era terapêutico. Era o que eu precisava.

Enquanto o coletivo avançava corajoso por retas longas e perfeitas, meu coração recuava amedrontado por caminhos tortos e defeituosos.

É que pelo caminho que percorri houveram ventos que me afastaram um pouco de mim. Que fizeram a minha cabeça querer mudar de rumo, na direção de algo que eu não tinha certeza se deveria viver. Mas eu vivi. E agora, enquanto olho pela janela, vejo tudo passando e a minha vida sendo levada junto enquanto eu sinto uma dor que parece não passar, que parece não querer curar. Embora cicatrizada, a ferida ainda dói. Dói como se tivesse sido ontem que ela se abriu. Dói como se a cada dia ela estivesse sendo magoada – assim como o meu coração está.

E, por mais que tentasse evitar, parecia que quanto mais o tempo passava, mais tortos os caminhos ficavam. Era como se a vida tivesse me mandando uma mensagem: “aguenta aí, vou bater mais.”. E eu só apanhava. Eu via a vida passando pela janela enquanto eu seguia com o medo de viver e me machucar outra vez.

Por agora, vou tentar a máxima de me concentrar no momento presente. Quem sabe assim a minha vida deixa de ser rodovia – parada, rígida e conformada – pra se transformar em ônibus: firme em seu propósito, capaz de ir a qualquer lugar e, principalmente, dono de seu próprio caminho.

Você ainda vai ser a cidade para a qual eu nunca vou voltar.

Queria ter tirado uma foto, mas eu estava vivendo

Se eu fechar o olho, deixar o vento bater e respirar bem fundo, me transporto pra lá de novo.

Depois que você se foi, eu mudei de cidade, mudei de emprego. Depois que você se foi, eu mudei.

Reconstruí minha vida passo a passo, fui vendo a sua imagem esmaecer na minha memória, mas é inevitável que às vezes tudo volte como um sonho bom. Afinal de contas, é assim que a gente vê o passado, né? Guardamos o que foi bom como verdade absoluta e esquecemos as dores pra poder dizer, como uma boa desculpa, que o presente não faz sentido.

Ainda assim, não acho que seja esse nosso caso. O que vivemos foi mesmo um sonho bom.

Você acabou com a gente de uma hora pra outra.

Não deu tempo de sentir raiva, não deu tempo de gritar que tudo aquilo era loucura, não deu tempo de criar uma mágoa capaz de facilitar o processo de te deixar pra trás.

E assim eu permaneço até hoje. Minha vida é olhar pela janela e fazer recortes fotográficos de cada momento incrível que a gente viveu. As cores são vívidas na minha memória. Brilho, contraste, luminosidade, tudo é absolutamente equilibrado. O que você deixou em mim foi uma marca profunda e muito, mas muito clara.

Dentre todos esses momentos, há um que sempre me transporta de imediato pra perto de ti.

Não é um gesto espetacular, nem um acontecimento mirabolante. É bem simples. E talvez seja isso que tanto me cativa.

Foi um dia que a gente viu o sol nascer depois de uma madrugada inteira conversando no último andar do prédio e eu, já exausto, recostei minha cabeça sobre teus ombros. Depois, deitei no teu colo e fiquei te olhando sem dizer nada. E é desse momento meio dormindo/meio acordado que se faz esse clique perfeito de nós dois. Teus olhos acompanhavam o nascer do sol e nasciam junto, vivos, reluzentes, transbordando de forma tal que reluziam também a minha vida.

A gente se dava tão bem que os celulares ficavam num canto, a TV não tinha mais graça, a música parecia ruído perto da melodia dos nossos corações.

É por essas e por outras que não temos a nossa música, nem nosso programa favorito e, lamentavelmente, nenhum registro de nós dois.

Lamento pelas duas primeiras faltas, mas, sobre a última, me permito uma reflexão.

Tenho certeza que a imagem que minha mente traz daqueles minutos é muito mais precisa, expressiva e verdadeira do que qualquer coisa que a lente do fotógrafo mais talentoso do mundo poderia captar.

Naquele nascer do sol, eu queria ter tirado uma foto sua, mas eu não tinha tempo pra isso.

Eu estava vivendo.

Sobre as coisas que você acha que eu não sabia

Você não me deve nenhuma satisfação. Só que depois de tudo que aconteceu, esse relacionamento merece uma carta póstuma com algumas verdades.

Eu sabia de tudo.

Sei que o universo de possibilidades flutuando na sua mente agora é vasto. Não renegue nenhuma. Eu provavelmente sei de todas. De todas as realidades.

Só não tive coragem de pôr fim a isso antes porque me alimentei de um amor que só existiu pra mim, de um respeito que só eu tive por você, de uma vontade de fazer dar certo que partiu só de um dos lados.

Na sua ânsia por uma vida intensa e cheia de aventuras, não teve tempo pra aprender sobre mim, sobre tudo o que eu desejo e sou, sobre a vastidão que existe dentro do meu peito. Como a minha proposta era outra, fui capaz de te enxergar por dentro. Não foi a melhor das visões. Não era tão bonita quanto a do teu exterior. Ainda assim, eu tentei.

Viagem a trabalho? Eu sabia que sua função não exigia isso. Mas deixei ir. Dizem que o que é nosso volta. Você sempre voltou. Seu coração, nunca.

Meu olhar apaixonado se perdia no teu olhar perdido. Minhas palavras sinceras se despedaçavam nas tuas frases feitas. Minha vontade de ser batia o nariz na sua vontade de ter.

Dez, vinte, não sei quantos caras como eu caíram na sua conversa. A diferença é que, depois de uns poucos dias, eu percebi de verdade quem você era.

Essa relação durou mais do que deveria, mas, no fim das contas, aprendi como nunca.

Eu amei de verdade. Amei teus defeitos. Te amei ao ponto de acreditar no que você me dizia olhando nos olhos.

Mesmo enganado e devastado, perguntando porque eu não me dei conta antes, tenho uma certeza: quem mente olhando nos olhos não pode ser boa gente.

Meu erro foi amar até mesmo o teu jeito de mentir.

De mim, você extraiu amor, energia, algum tipo de admiração e grande parte dos meus sentimentos bons. E isso te sustentou por um tempo. Depois, veio o desafio que te move: equilibrar pratos. Ver quanto tempo consegue enganar muita gente sem que ninguém descubra.

Não interprete o que direi a seguir como uma frase pronta, como uma negação ao que me aconteceu, como algum tipo de superioridade que eu queira mostrar mesmo estando em frangalhos. Eu choro, mas dentro de mim existem convicções importantes. E uma delas é que, no fim, valeu muito a pena.

Foi um intensivo. Um curso de trinta anos em doze meses. Uma lição rígida, mas sem rodeios.

De uma vez, aprendi tudo o que eu não quero pra minha vida.

Eu sigo buscando amor, como sempre. Só que dessa vez recíproco.

E você, daqui dez, vinte anos, vai estar buscando o quê?

 

Dança, linda

Naquela noite tu estavas especialmente linda. As luzes coloridas que percorriam sem medo o teu rosto transformavam teus olhos verdes em faróis hipnóticos. Teus olhos são assim, sabe? Quando encontram os meus, parecem emitir força magnética. É uma mirada que não se ignora. Foi assim desde a primeira vez que teus olhos cruzaram, sinceros, com os meus.
A noite estava bonita, os amigos eram muitos e a gente parecia conectado como nunca.
Foi então que a música começou. E eu te convidei pra dançar. E tu fizeste aquela cara de “ah, hoje não” que te deixa mais linda ainda. E duas músicas depois, estávamos juntos na pista.
Ainda que estivesse próximo de ti, me permiti abrir bem os olhos pra te entender inteira. Me dar conta da sorte que eu tinha em compartilhar mais aquela dança, aquela noite, aquela vida contigo.
Desejei que tu fizesses de mim tua pista e a desbravasse com teu sorriso que dança com uma limpeza de movimentos inacreditável.
Fechei os olhos pra sentir cada fragmento daquelas horas. Em prece silenciosa, eu repetia:
Dança, linda.
Deixa as luzes te revelarem sorrindo pra mim, dizendo sem palavras que está feliz de estar comigo. Feliz de estar. Feliz.
Dança, linda.
Eu te leio sem escrita. Não por ter habilidade especial. É que tua alma é transparente o suficiente para que a mais precária sensibilidade te detecte.
Dança, linda.
Fica bem junto de mim e transforma essa dança num abraço. Longo. Demorado. Sincero.
Dança, linda.
E faz eu sentir que a minha vida é tão precisa e perfeita quanto os compassos pelos quais eu te carrego nos braços, em círculos exatos, na festa linda que tu fizeste no meu coração.
Dança, linda.
Pra sempre.
Em mim.