Carta àquela que não soube amar

Eu amei com todas as minhas forças.
Senti a coisa mais bonita da vida, mas já não me lembrava disso porque a intensidade do amor que vivi equivalia à metade da força com a qual o poder devastador da tua partida me atingiu.
A partir dali, construí uma vida dedicada a demonizar o amor e tudo que vinha com ele. Para mim, qualquer aproximação era um mecanismo torpe de ilusão para que, depois, essa divindade nefasta pudesse me ver definhar.
Os próximos me diziam que a amargura me levaria à lona. A verdade é que eles não sabiam o que eu sentia. O medo de amar me fez aprender a odiar o amor.
Você plantou uma semente de tristeza no meu coração que criou raízes, tronco e galhos. Tive de aprender a conviver com ela.

Descobri – ainda bem – que nenhum sentimento é eterno. No dia em que ela chegou, não se intimidou em derrubar violentamente a imponência da árvore que se alimentava do breu da minha alma.
Ela era o seu oposto. Ela me salvou.

A verdade – que hoje enxergo cristalinamente – é que eu nunca soube ao certo a correta dimensão do que é o amor. Por desconhecimento, apeguei-me a você com o mesmo desespero de um náufrago que se agarra por sua vida aos destroços de uma embarcação que se partiu. Alimentei-me de tão pouco por desconhecer o tamanho da fome do meu coração. Eu era um menino que achava o seu quintal maior que o próprio mundo, ou um peixe que, acostumado a viver em um aquário, desconhece a imensidão do mar.

Como posso culpá-la, me diga? Não poderia. Quando você me empurrou para longe, atravessei todas as barreiras da minha pequenez e me descobri gigante no amor. E foi vivendo o seu modesto afeto, seu parco amor, tão ordinário, tão comum, que hoje posso valorizar a mágica do extraordinário.

Você tinha palavras medidas, declarações planejadas, e eu tinha descontrole, palavras de amor que saltavam sem ordem do coração. Você assinava cartas apaixonadas com a frieza de seu nome completo, e eu rubricava desde os mais simples bilhetes com um “eternamente seu”. Você me oferecia horas contadas e apressadas; eu ofertava uma vida inteira.

Mas não te julgo, cada um dá o que tem dentro de si. Você tinha pouco, e eu, mesmo sem saber, nasci para o muito. Ao contrário, te agradeço, pois foi o poder da correnteza das lágrimas vertidas que rompeu o véu de ilusão que me fazia crer merecer tão pouco da vida. Hoje, de coração maduro, sou capaz de venerar a mágica desse novo amor.

Portanto, muito obrigado por ser tão pouco.

Foi conhecendo o total desamor que pude abrir caminho para receber com competência a imensidão do sentimento verdadeiro que a vida me guardava.

Eu não te conheci, mas te amei mesmo assim

Existe a possibilidade de amar profundamente uma pessoa que não se teve a oportunidade de conhecer?
Não sei se existem estudos a respeito, mas respondo pelo meu coração. Há sim.
Sempre me contaram histórias tão bonitas sobre ti que pude formar a imagem de uma pessoa incrível. Sei que também tiveste defeitos, mas consigo comprovar que tu foste alguém especial pelo fato de que muitas pessoas diferentes me falam de ti com brilho nos olhos. Aquele famoso “ah, ele? Nossa, era uma pessoa incrível”.
Me apontam características que temos em comum e me enxergo nas fotografias que ficaram. Somos de gerações bastante distantes, mas isso não me espanta: teu coração, pelo que me contam, sempre foi muito à frente do teu tempo.
Deixaste por aqui um filho que se tornou pai e que te deu um neto.
Nesse processo, eu aprendi a gostar de ti a partir das histórias que me contaram a teu respeito. Mas é mais que isso. Eu me identifico sem precisar saber de detalhes. Talvez conversemos pelo coração numa língua que, aqui nesse mundo, não dá pra entender direito.
De onde estás agora, podes ver com riqueza de detalhes o que ficou por aqui, mas insisto em documentar: tu estás de parabéns. Da tua passagem, só coisas boas ficaram, só pessoas boas permaneceram e o mundo ganhou muito, mas muito mesmo com a tua ação sobre ele.
Exemplo disso é o quanto tua existência transcende a tua própria vida.
Não precisei te conhecer pra saber quem tu eras. Eu sinto.
Não precisei conviver contigo pra saber no que acreditavas. Eu também acredito.
Não precisei ouvir tua voz pra saber do teu tom. Sempre estivemos afinados.
Ouvi de uma senhora muito simples que tu foste o amor da vida dela. Não exatamente com essas palavras, mas a emoção em cada fonema denunciou a verdade em meio à mistura de timidez e rigidez.
Ouvi dizer que teu canto era adorável. Que teu desejo pelo progresso alheio era sincero. Que teu amor pelos pequenos era bonito de ver.
Tu eras muito simples, mas sábio. Humilde, mas não simplório. Benevolente, mas não permissivo.
Tu eras o equilíbrio.
Não se preocupe pelas histórias que não pôde me contar.
Eu fiquei sabendo de todas, pela boca de mais de um contador.
Não fomos apresentados, mas tenho muito prazer em te conhecer.
Eu não te conheci.
Mas todos os dias soube de ti.

Por que eu mudei?

Já fiz as malas todas. Minha casa está encaixotada e até pra tomar um copo d’água eu preciso fazer uma baderna enorme. A bagunça é grande. Inversamente proporcional ao meu coração.
Essa casa já foi milimetricamente organizada. Meu TOC não permitiu que uma só xícara não estivesse no lugar. Era pra compensar. Era pra compensar a desordem profunda que fazia morada no meu peito.
A minha primeira mudança foi muito alegre. Foi pra morar contigo.
Era o dia da independência, o passo a mais numa estrada que só estava começando.
Os dias foram bonitos. Mas o peso da rotina chegou com seus boletos, monotonia e falta de encantamento. Depois de pensar muito, eu concluí que a gente tinha dado errado.
Eu precisei ir embora. Cada lágrima tua na minha partida foi um punhal que me atravessou o peito, mas eu não podia te dar menos que o máximo.
O problema é que dois dias depois da segunda mudança, eu entendi que a minha vida não fazia mais muito sentido sem nós. Dois dias depois da minha partida, eu pensei que talvez eu não precisasse ter ido embora, mas sim me esforçado junto contigo pra mudar o que não estava bom. Dois dias depois da minha partida, o partido era eu.
Não tive coragem de chamar por ti. Sabia o quanto tinha machucado teu coração.
Foram dois anos de uma prisão domiciliar, mas o domicílio era o meu peito. Assim como um confinado, eu tive a oportunidade de olhar cada aspecto de nós que eu não conseguia ver quando eu ainda era 50% dessa relação. Quando se está preso em si mesmo, é mais fácil olhar pela janela quadrada e pensar em tudo o que poderia ter sido feito.
Eu nunca vou entender essa maldita dinâmica da vida em que a gente tem que perder pra perceber. Viver miseravelmente pra perceber o quanto a vida era boa. Chegar ao fundo do poço pra entender que a água pura e cristalina estava na superfície. Era só se esforçar um pouco pra pegar.
Foram dois anos horríveis. Duas semanas depois daquele dia, eu te liguei. Eu quis voltar. Mas o teu coração ainda estava magoado demais pra nós dois. E eu entendi.
Eu tentei partir, eu tentei ir pra outro coração. Eu tentei ser o que a gente era com outra pessoa.
Impossível.
No fundo do meu coração, eu sabia que o teu me entendia, sabia que eu precisava ir, mas também sabia que eu precisava voltar.
Você sempre soube que eu não fiz por mal.
Eu aprendi.
Eu aprendi que o amor real é muito diferente do que se vê nos filmes mamão-com-açúcar.
Eu aprendi que a rotina vai chegar com força, mas que o amor é uma escolha.
E eu quero te escolher, todos os dias.
O caminhão da terceira mudança já vem chegando.
E junto com os móveis, roupas e utensílios, eu carrego a certeza de que essa será a última.

Quanto tempo você passa fingindo que é feliz?

Invalidar o amor dos outros.

Torcer o nariz para cada demonstração de afeto.

Gritar aos sete ventos que você é que sabe verdadeiramente das coisas.

Quem mostra segurança o tempo todo assina o atestado público de que é muito inseguro.

Quem mostra insegurança de vez em quando admite que é humano.

Quem mostra segurança o tempo todo perde a oportunidade de conhecer a magia que mora dentro de um sorriso empático.

Teu ódio gritado, repetido, ruminado e mastigado provoca em mim um único desejo. O de perguntar, do fundo do meu coração, algo que possa te ajudar a pensar em si mesmo:

Quanto tempo você passa fingindo que é feliz?

Assuma suas tristezas. Viva sua dor. Admita que você não pode ser forte sempre.

Isso não te faz um fraco. Faz com que seja, simplesmente, uma pessoa crível. Alguém de verdade. E quando encontramos alguém de verdade, dá vontade de ser amigo, dá vontade de se aproximar e entender quais fantasmas afligem para que esse alguém também nos ajude com os nossos.

Você não é uma máquina. Se tentar ser, em algum momento, dará defeito como todas elas.

Se questione, ao menos por um instante, se toda essa raiva do mundo não é mais de dentro pra fora do que de fora pra dentro.

Eu sei que é difícil. Eu sei que demonstrar segurança a qualquer custo é um processo tão automático que a gente nem se dá conta.

Mas tente se questionar.

Se libertar das amarras de perfeição e do instinto de negação quando o desconhecido chega é um processo de um alívio inacreditável.

Veja beleza no amor dos outros.

Entenda que cada demonstração de afeto é parte de um sentimento muito pessoal.

Grite aos sete ventos que você, definitivamente, sabe muito pouco.

Parar de julgar é uma carta de alforria que a vida te dá.

Isso te ajuda a aprender.

Isso te ajuda a ser melhor.

Acima de tudo, te ajuda a ser quem você sempre foi, mas esqueceu que era.

Talvez só passando por isso a gente seja capaz de se dar conta de quanto tempo fingiu ser feliz só pra não expor a própria essência pro mundo.

Como é difícil assumir o que é simples

Melhor ao som de “Eu preciso de você”, do Vanguart.

Depois que tu fostes, tive muito trabalho.

Não apenas pra tentar colocar as coisas no lugar, mas pra criar na minha mente todas as respostas possíveis a todo tipo de pergunta.

À tia distante que perguntasse “e a namorada?”, eu diria que não deu mais certo e que cada um seguiu o seu caminho, mas seguimos amigos e está tudo bem.

Aos colegas de trabalho que me obrigariam a ir a happy hours que eu detestava, diria que estava em outro momento da vida e que tinha projetos pessoais pra tocar.

E quanto a mim?

Bom, eu diria a mim mesmo que deu o que tinha que dar, que tudo é aprendizado, que a vida é isso mesmo, que vou partir pra outra.

Eu sou bom em inventar motivos. Quase todo mundo é.

Todo mundo tem medo de concluir o que é simples e, por isso, cria o complexo. Enreda uma teia detalhada cheia de teses e afirmações positivas para poder acreditar naquilo que a razão cria.

Esquece que se o coração não estiver bem, nada vai bem.

Eu sou capaz de ir muito longe pra não sentir. Pra não viver o luto de te perder. Mais que isso, eu prefiro qualquer coisa a ter que passar por cima do meu orgulho e assumir em voz alta o que meu peito grita há mais de sessenta dias:

Preciso de ti.

Tenho a clareza de entender que não é uma questão de necessidade desesperada, de falta de amor próprio ou humilhação. Eu preciso de ti porque sei que sou melhor contigo. Por ser inteira, tu és o exemplo perfeito que preciso pra ser melhor comigo.

Precisar de ti não configura um caso de dependência.

Preciso de ti porque te amo e escolhi te amar todos os dias. Quando a gente escolhe amar todos os dias, não há distração que arranque a dor da distância.

Minha boca fala que está tudo bem, o papel aceita qualquer justificativa, mas dentro do meu coração não há mentiras, omissões ou qualquer dificuldade de enxergar a realidade.

A verdade é clara e simples.

A omissão é turva e complexa.

A conta é simples, mas o medo de parecer fraco me obriga a resolver equações cheias de fórmulas e cujos resultados são verdadeiras dízimas periódicas.

Eu não precisaria inventar histórias tão grandes e mirabolantes se fosse capaz de dar um passo trás e dizer frases simples como “eu te amo”, “me ajude” e “vamos conversar?”.

Enquanto isso, sofro em silêncio por mentir não só para o mundo – todos continuam vivendo depois da minha mentira –, mas por mentir pra mim tão descaradamente.

É muito difícil assumir o que é simples.

Mas é melhor que passar a vida sem saber como seria se as palavras fossem ditas.

 

O que eu estaria vivendo se já tivesse clamado por ela?

Eu e o meu medo de ser feliz

Hoje, sozinho, vejo quantas oportunidades eu perdi exclusivamente pela minha incapacidade de perceber que a fortuna tinha feito morada na minha vida. Cada tijolo colocado para a construção do castelo da minha sorte foi sumariamente devastado pela violência do meu medo de ser feliz.

Quantas vezes me prendi ao teu passado. Quantas vezes questionei o quanto aquele cara podia ter sido melhor que eu. Quantas vezes eu pensei que, a qualquer momento, tu voltarias atrás na tua decisão e retomaria uma vida que, nos meus olhos cegos de insegurança, era muito melhor.

Agora, longe, consigo perceber as coisas de forma mais clara. O tamanho do teu amor por mim. O olhar carinhoso que tinha para cada conversa. O abraço sincero que me acalentava nos dias tristes.

Eu não te perdi pra ele. Eu te perdi pra mim.

Fui idiota ao ponto de não acreditar que eu merecia o melhor. Estava condicionado a achar que o que era bom não era pra mim.

Tu seguiste tua vida, segura como sempre. Eu mantive o câmbio na segunda, com o motor chorando e com uma apatia que me tornou incapaz de acionar a embreagem e mudar a marcha da minha vida.

Me prendi ao teu passado e não vivi nosso presente. Me prendi ao teu passado e esqueci que tu eras, verdadeiramente, um presente, o meu presente. Me prendi ao teu passado e boicotei uma chance linda de ser feliz pra sempre.

Tua passagem por mim foi tão linda que, ainda que eu sofra por ter feito tudo errado, sinto um calor no coração que me diz que tu deixaste o teu melhor comigo.

Eu me prendi ao teu passado, não vivi nosso presente, mas a tua existência pode ter criado o meu futuro.

Eu ainda te quero pra sempre mas, ainda que isso não aconteça, sei que te trago comigo em cada momento em que julgo não merecer a felicidade. Tu és o anjinho que surge no meu ombro esquerdo e diz que eu mereço, sim. Mereço muito. Mereço mais que ninguém.

Foi perdendo os dias mais felizes da minha vida que percebi o quanto ela é efêmera.

Foi te perdendo que eu percebi quantas vezes a alegria bateu na minha porta e eu, antissocial, lhe bati a porta na cara.

Foi te perdendo que eu me afundei no lamaçal desse tal medo de ser feliz.

Te achei no meio das minhas coisas

A vida ia muito bem, obrigado.

Foi aí que eu resolvi fazer aquela faxina no quarto, que a gente só faz de dez em dez anos. Aquela em que a gente tira tudo do armário, se arrepende por ter tirado, mas aí é obrigado a colocar de volta e não tem mais jeito: melhor fazer a seleção do que fica e do que vira lixo.

Foi assim que você ressuscitou em mim. Um caderno velho, voando para o lixo, disparou um projétil dez por quinze com uma foto nossa, juntos, sorrindo. Nos cinco dos últimos dez anos, eu tinha te erradicado do último neurônio que ainda se apegava à tua imagem. Com aquela foto, você voltou à ativa em todos eles.

Não resisti. Fui às redes sociais e te achei lá, com um alguém aí, com uma miniatura sua de bochechas rosadas e uma felicidade que parecia fazer teus olhos brilharem de forma intermitente, quase me cegando. Você não perguntou. Mas no meio dessa loucura, me deu vontade de dizer como estou.

E estou bem, obrigado. Quer dizer, estava tudo indo bem até eu resolver faxinar minhas memórias e encontrar uma foto tua lá. Estava tudo indo bem até eu te procurar para saber como você tem passado. Não sei o que eu esperava encontrar mas, definitivamente, não era esse sorriso tão genuíno. Não era essa família tão nova. Acho que ver uma miniatura tua desestabilizou tudo aqui dentro.

Passou um filme antigo diante dos meus olhos. Nós dois, aquela viagem para a Argentina, aqueles dias tão brancos e azuis. Tão recheados de abraços, beijos e cumplicidade. Até que a gente se perdeu numa esquina e foi cada um para um lado, carregando os planos e histórias na bagagem. Tinha tanto de nós dois comigo. Deixei tanto de nós dois contigo. Nossos sonhos e planos foram nos acompanhando, daqui e daí – o casamento na serra, a casinha com varanda, as crianças no gramado…

Vasculhar você foi trazer de volta nossa história. Vi nossos planos estampados no teu riso frouxo, nos teus olhos que brilhavam naquela fotografia digital, nos bracinhos miúdos da mini-você. Nossos planos estavam ali, vívidos e concretos – mas não eram mais meus.

Praticamente nada saiu como o planejado. Eu mudei muito, você mudou muito, mas algo aqui permaneceu: minha crença de que nada é por acaso.

Eu ainda sou o sonhador irremediável.

E é por isso que ainda acredito que, um dia, eu serei de novo o causador dos teus sorrisos e você a causadora dos meus.

Por enquanto, guardo com zelo e carinho o projétil em forma de foto que, há menos de cinco minutos, me fez voltar dez anos.

Voltar ao tempo em que eu me sentia vivo.

Quero pegar o ônibus que me leva embora da tua vida

O ônibus chegou à estação rodoviária e eu já o esperava ansiosamente. O cobrador me ajudou com a bagagem física mas, a da minha cabeça, eu tive que carregar só. Nem sabia direito qual era o destino, eu só queria ir. No fim do trajeto, eu pegava outro ônibus, e mais outro, e mais quantos fossem necessários pra ficar o mais longe possível de tudo.

A estrada irregular, o veículo trepidando, e meu choro deslizando caprichoso pela janela completavam o cenário. A face acomodada sobre o vidro me permitia a sensação visual de estar voando pela rodovia. Era terapêutico. Era o que eu precisava.

Enquanto o coletivo avançava corajoso por retas longas e perfeitas, meu coração recuava amedrontado por caminhos tortos e defeituosos.

É que pelo caminho que percorri houveram ventos que me afastaram um pouco de mim. Que fizeram a minha cabeça querer mudar de rumo, na direção de algo que eu não tinha certeza se deveria viver. Mas eu vivi. E agora, enquanto olho pela janela, vejo tudo passando e a minha vida sendo levada junto enquanto eu sinto uma dor que parece não passar, que parece não querer curar. Embora cicatrizada, a ferida ainda dói. Dói como se tivesse sido ontem que ela se abriu. Dói como se a cada dia ela estivesse sendo magoada – assim como o meu coração está.

E, por mais que tentasse evitar, parecia que quanto mais o tempo passava, mais tortos os caminhos ficavam. Era como se a vida tivesse me mandando uma mensagem: “aguenta aí, vou bater mais.”. E eu só apanhava. Eu via a vida passando pela janela enquanto eu seguia com o medo de viver e me machucar outra vez.

Por agora, vou tentar a máxima de me concentrar no momento presente. Quem sabe assim a minha vida deixa de ser rodovia – parada, rígida e conformada – pra se transformar em ônibus: firme em seu propósito, capaz de ir a qualquer lugar e, principalmente, dono de seu próprio caminho.

Você ainda vai ser a cidade para a qual eu nunca vou voltar.

Queria ter tirado uma foto, mas eu estava vivendo

Se eu fechar o olho, deixar o vento bater e respirar bem fundo, me transporto pra lá de novo.

Depois que você se foi, eu mudei de cidade, mudei de emprego. Depois que você se foi, eu mudei.

Reconstruí minha vida passo a passo, fui vendo a sua imagem esmaecer na minha memória, mas é inevitável que às vezes tudo volte como um sonho bom. Afinal de contas, é assim que a gente vê o passado, né? Guardamos o que foi bom como verdade absoluta e esquecemos as dores pra poder dizer, como uma boa desculpa, que o presente não faz sentido.

Ainda assim, não acho que seja esse nosso caso. O que vivemos foi mesmo um sonho bom.

Você acabou com a gente de uma hora pra outra.

Não deu tempo de sentir raiva, não deu tempo de gritar que tudo aquilo era loucura, não deu tempo de criar uma mágoa capaz de facilitar o processo de te deixar pra trás.

E assim eu permaneço até hoje. Minha vida é olhar pela janela e fazer recortes fotográficos de cada momento incrível que a gente viveu. As cores são vívidas na minha memória. Brilho, contraste, luminosidade, tudo é absolutamente equilibrado. O que você deixou em mim foi uma marca profunda e muito, mas muito clara.

Dentre todos esses momentos, há um que sempre me transporta de imediato pra perto de ti.

Não é um gesto espetacular, nem um acontecimento mirabolante. É bem simples. E talvez seja isso que tanto me cativa.

Foi um dia que a gente viu o sol nascer depois de uma madrugada inteira conversando no último andar do prédio e eu, já exausto, recostei minha cabeça sobre teus ombros. Depois, deitei no teu colo e fiquei te olhando sem dizer nada. E é desse momento meio dormindo/meio acordado que se faz esse clique perfeito de nós dois. Teus olhos acompanhavam o nascer do sol e nasciam junto, vivos, reluzentes, transbordando de forma tal que reluziam também a minha vida.

A gente se dava tão bem que os celulares ficavam num canto, a TV não tinha mais graça, a música parecia ruído perto da melodia dos nossos corações.

É por essas e por outras que não temos a nossa música, nem nosso programa favorito e, lamentavelmente, nenhum registro de nós dois.

Lamento pelas duas primeiras faltas, mas, sobre a última, me permito uma reflexão.

Tenho certeza que a imagem que minha mente traz daqueles minutos é muito mais precisa, expressiva e verdadeira do que qualquer coisa que a lente do fotógrafo mais talentoso do mundo poderia captar.

Naquele nascer do sol, eu queria ter tirado uma foto sua, mas eu não tinha tempo pra isso.

Eu estava vivendo.

Sobre as coisas que você acha que eu não sabia

Você não me deve nenhuma satisfação. Só que depois de tudo que aconteceu, esse relacionamento merece uma carta póstuma com algumas verdades.

Eu sabia de tudo.

Sei que o universo de possibilidades flutuando na sua mente agora é vasto. Não renegue nenhuma. Eu provavelmente sei de todas. De todas as realidades.

Só não tive coragem de pôr fim a isso antes porque me alimentei de um amor que só existiu pra mim, de um respeito que só eu tive por você, de uma vontade de fazer dar certo que partiu só de um dos lados.

Na sua ânsia por uma vida intensa e cheia de aventuras, não teve tempo pra aprender sobre mim, sobre tudo o que eu desejo e sou, sobre a vastidão que existe dentro do meu peito. Como a minha proposta era outra, fui capaz de te enxergar por dentro. Não foi a melhor das visões. Não era tão bonita quanto a do teu exterior. Ainda assim, eu tentei.

Viagem a trabalho? Eu sabia que sua função não exigia isso. Mas deixei ir. Dizem que o que é nosso volta. Você sempre voltou. Seu coração, nunca.

Meu olhar apaixonado se perdia no teu olhar perdido. Minhas palavras sinceras se despedaçavam nas tuas frases feitas. Minha vontade de ser batia o nariz na sua vontade de ter.

Dez, vinte, não sei quantos caras como eu caíram na sua conversa. A diferença é que, depois de uns poucos dias, eu percebi de verdade quem você era.

Essa relação durou mais do que deveria, mas, no fim das contas, aprendi como nunca.

Eu amei de verdade. Amei teus defeitos. Te amei ao ponto de acreditar no que você me dizia olhando nos olhos.

Mesmo enganado e devastado, perguntando porque eu não me dei conta antes, tenho uma certeza: quem mente olhando nos olhos não pode ser boa gente.

Meu erro foi amar até mesmo o teu jeito de mentir.

De mim, você extraiu amor, energia, algum tipo de admiração e grande parte dos meus sentimentos bons. E isso te sustentou por um tempo. Depois, veio o desafio que te move: equilibrar pratos. Ver quanto tempo consegue enganar muita gente sem que ninguém descubra.

Não interprete o que direi a seguir como uma frase pronta, como uma negação ao que me aconteceu, como algum tipo de superioridade que eu queira mostrar mesmo estando em frangalhos. Eu choro, mas dentro de mim existem convicções importantes. E uma delas é que, no fim, valeu muito a pena.

Foi um intensivo. Um curso de trinta anos em doze meses. Uma lição rígida, mas sem rodeios.

De uma vez, aprendi tudo o que eu não quero pra minha vida.

Eu sigo buscando amor, como sempre. Só que dessa vez recíproco.

E você, daqui dez, vinte anos, vai estar buscando o quê?