Eu fiquei amigo da minha ex. E agora?

Antes de mais nada, gostaria de deixar bem claro que nunca, em momento algum, foi minha intenção deixar que tal situação acontecesse em minha já complicada vida. Acredito que, para quem leva o amor como sentido e direção de tudo o que faz, tais circunstâncias nada mais são do que ossos do ofício.

Vamos ao que interessa: hoje, exatamente às 06h11, dia 7 de abril de 2017, posso afirmar, sem medo de represálias, que sou um dos melhores (se não o melhor) amigo de minha ex-namorada. Alcançamos um patamar tão alto e tão intenso que aconselho aos que não têm corações e estômagos fortes para que deixem o recinto.

O início da história, acredito eu, é bem clichê: eu gostava dela, estávamos bem felizes, etecetera e tal, mas, um belo dia, ela resolveu dizer adeus e terminou. Justo, normal, vida que segue. Um velho dilema ressurge na cabeça dos abandonados toda vez que estes levam um pé na bunda: será que eu corto 100% a comunicação com a minha amada ou sigo falando com ela, mostrando que sou um rapaz assaz maduro e compreensivo, embora, por dentro, meu coração esteja mais rachado do que espelho estilhaçado? Bom, eu tentei os dois.

A fase do gelo não durou muito, mas serviu para uma espécie de compreensão do luto e me impulsionou em algumas viagens por lençóis nunca antes desbravados. Sentimento, sentimento mesmo, não rolou. O que é bom (ou ruim?). Depois de alguns meses, de forma quase natural, voltamos a conversar. E muito. Chegamos a um ponto em que, se bobear, estávamos nos falando mais do que quando dividíamos o mesmo edredom. Ó céus, que drama. Onde fui me meter?

O sentimento por ela, outrora adormecido e congelado, começou a receber, novamente, estímulos, cada vez mais fortes e intensos. Dentro de mim, uma voz mais sensata tratava de me avisar: “isso vai dar merda”. Enquanto a outra, que tenta ser mais otimista, me dizia: “você já superou isso tudo, mostre a ela como amadureceu e como podem ser dois belos e bons amigos!”.

Show de bola! Vamos ver no que vai dar essa bagunça. Pessoas que conversam sempre, uma hora, acabam por se encontrar; pessoas que se encontram sempre, uma hora, acabam bebendo: pessoas que bebem sempre juntas, uma hora… Bem, deu para entender que a vaquinha dirigiu-se ao brejo. Os beijos foram inevitáveis, o sexo também e os carinhos da mesma forma. Mas, como num choque necessário de realidade, no dia seguinte, ela me tratava como se absolutamente nada tivesse acontecido. Rolou algo sim, mas e daí?

Bom, hoje eu me encontro num limbo sentimental deveras complicado. Vou resumir: eu ainda a amo e não tenho como negar isso. Ela, pelo que transparece, curte minha companhia e, de vez em quando, não vê problemas em ficar comigo. Para bom entendedor, já deu para sacar que existe uma discrepância abissal entre sentimentos nessa situação. Embora não seja recomendável, quando se trata de amor verdadeiro, eu sou como uma pomba: contento-me com migalhas (pruu). Ao mesmo tempo, me reservo ao direito de me distrair e ocupar minha cabeça com outras coisas (escrever, por exemplo), para que essa nostalgia amorosa não me contamine por completo. Se eu deixar, amigo, o triplo Câncer do meu mapa astral me joga na vala.

Há alguns dias atrás, falei para ela, de forma indireta, que ainda a amava. Ela fez alguns comentários enigmáticos. Nossas conversas ficaram estranhas por algumas horas e, depois, como num passe de mágica, tudo voltou ao normal. Show de bola. Cá estamos de volta a estaca zero. Onde isso tudo vai dar? Não tenho a menor ideia. Não espere conselhos, advertências ou qualquer sorte de diretrizes de minha parte: sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no bolso, com 24 anos e um coração do tamanho do mundo. Beijos.

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Auto amor

Há algumas semanas, em uma rede social qualquer, entre tantas que a gente tem, eu vi um post sobre uma famosa “x” – que eu concordo, é maravilhosa -, uma frase me chamou a atenção: “INCRÍVEL COMO ATÉ DESARRUMADA, ELA CONSEGUE ACABAR COM A NOSSA AUTOESTIMA”.
Essa declaração me chocou e continuou me chocando, porque, sinceramente, acho que é este, um dos grandes problemas da nossa sociedade, ou das gerações mais jovens: possuir uma autoestima TÃO BAIXA, a ponto de tê-la “acabada”, porque um famoso saiu desarrumado, mesmo que este “desarrumado”, envolva um look no valor de um carro popular. Sabe, “autoestima” é “autoaceitação”, ou seja, uma postura positiva com relação a si mesmo como pessoa, estar satisfeito e de acordo consigo, ter respeito a si próprio, ser “um consigo mesmo” e se sentir em casa no próprio corpo, possuir “autoconfiança”, ou seja, uma postura positiva com relação às próprias capacidades e desempenho. Então, onde foi que a gente errou?
Talvez, esta, seja a era em que mais se fala sobre amor próprio, e menos se vê pessoas “amando a si próprias”. Este autoamor que tanto se bate no peito, cai a cada momento, e a tendência, é colocar a culpa em alguém. A tendência é colocar a culpa no outro porque ele é negro, branco, pardo, índio, rico, de classe média, roots, boho, seguidor de tendências, afro, europeu, asiático, árabe, latino, magro, gordo, hetero, homossexual, passivo, babaca, sem caráter, bonzinho, de palavra… coloca-se a culpa no outro por diversos motivos que, muitas vezes, pode-se soar quase como estupidez. A culpa tem que ser sempre de alguém, e como essa pessoa fez, ou faz, eu me sentir inferior… Mas a culpa nunca é minha, por não me amar como eu deveria, por não cuidar do meu “eu”, como eu deveria. A culpa nunca é minha, por endeusar uma pessoa que jamais vai saber da minha existência, e está pouco se importando se eu estou viva ou morta, e se importa apenas se eu a faço lucrar de alguma forma. Diz-se não ter padrão, mas criam-se novos padrões “despadronizados”, e você está errado se não aplaudir e jogar flores.

A verdade é esta: nós criamos doentes emocionais, e sustentamos a doença deles. E nós estamos no meio, viu?
A geração atual é fraca, briguenta (pelos motivos errados), extremamente hipócrita, e é feita de marionete a cada segundo. O problema está em não ensinar às pessoas a se amarem e ponto final. O problema está em jogar as pessoas umas contra as outras, por que “olha lá, ele está te oprimindo com o padrão dele”, “ele está te oprimindo com a cor dele”, “ele está te oprimindo por causa da classe social a qual ele pertence”, “ele está te oprimindo porque é mais bonito que você”, “ela acaba com a minha autoestima, porque ela é uma deusa”, mas na verdade, eu a coloquei naquele pedestal, e eu a julgo melhor do que eu. Mas espera um pouco… EU não sou o suficiente para MIM?
Entre tantas urgências existentes por aí, esta é gritante: aprender a se amar, a se perdoar e a perdoar os outros, e então, levar o amor próprio adiante, ensinando os outros a se amarem também. Não precisa ser formador de opinião para ensinar alguém que ela é digna de seu próprio amor, que ela é a primeira pessoa à quem deve amar. Sou eu comigo e você consigo. E o outro, com ele mesmo. E qualquer um de nós, com um psicólogo, porque algumas dores são difíceis demais pra gente superar sozinho, e talvez, sejam estas dores que travam a nossa autopercepção, e isso não é vergonha. Então, no exercício e aprendizado do autoamor, tenha isto bem formado na sua mente, para repetir para si a cada manhã:
Eu apenas sou oprimido pelo outro, se eu permito. O outro só me atinge, se eu deixo. Eu só sou colocado para baixo, porque eu deixo. Nem sempre a postura do outro é para me oprimir, me alfinetar, me abalar, me calar, me chatear ou me diminuir. Eu sou especial. Eu sou digno de amor. Eu sou amável. Eu sou querido. Eu sou alguém. Eu sou inteligente. Minha opinião é importante. Eu sou bonito. Eu sou vitorioso. Eu sou legal. Eu sou cheio de boas características. As minhas dores não são frescura, e eu vou superá-las! Os meus sonhos não são besteira. Eu consigo. Ninguém é melhor do que eu. E eu NÃO SOU melhor do que NINGUÉM!

E vá ser feliz, independente de quem o outro é, porque todos nós somos especiais à nossa maneira, de forma peculiarmente autêntica, com todas as nossas estranhezas, nossas belezas, nossa forma de vestir e andar. Você é um diamante, extremamente valioso e brilhante: PERCEBA-SE!

A primeira vez que te vi

Na ânsia de viver a intensa busca pelo tempo bem aproveitado e vivido, entre casos e acasos, a sede de interações, temos preguiça de acumular, mas jamais queremos abrir mão de tê-las. Refém desse momento, dei a sorte de, fazendo o uso da linguagem atual, viver os espaços de realidades e fantasias do mundo do match desbravado.
Foi como ter voltado há alguns anos e, com os peitos estufados, ressignificado algumas coisas que por diversos momentos pensei que não traria na mala para o hoje. E trouxe, vivi tudo de novo de modo e em momentos aleatórios. No meio de tudo isso, reconheci a beleza do respirar fundo, do frio na barriga e no coração acelerado enquanto o tempo de te encontrar está chegando, é tudo como se fosse pela primeira vez. Sem medos, dando tempo ao tempo e disposta a virar a ampulheta quantas vezes for necessário. A deliciosa essência do que é ser paciente.
Te ver pela primeira vez foi me despir de toda timidez e chegar mais perto, foi me livrar da insegurança, conseguir pensar na possibilidade do “de novo”, dos mesmos riscos, das mesmas vontades, do prazer de ter alguém para caminhar compartilhando histórias. Foi relembrar que tem cheiro que fica e no meio de alguma festa vou senti-lo e vai me despertar a saudade de você. Foi me perceber na coragem de dizer que estou preparada mesmo apesar dos pesares de tempos atrás. Foi reviver enquanto borboletas preparavam o vôo em meu estômago. Foi estar em verdadeiro estado de poesia.

O amor não acabou

Esqueça essa ideia de que ele não gosta de você ou, pior, de que talvez ele nunca tenha gostado. Esqueça qualquer pensamento que o leve a crer que a pessoa com quem dividiu a cama um dia, hoje lhe deseja mal ou que simplesmente decidiu te dar as costas e seguir sozinho. Não tem nada de simples no fim de uma história, não é fácil jogar fora os planos, sonhos conjuntos e seguir em frente. Deixar para trás algo que foi e ainda é bom, é muito difícil. Terminar uma relação não significa, necessariamente, que o amor acabou.
Às vezes acontece de a gente olhar para frente e perceber que aquele não é mais o caminho que queremos seguir. Acabou a vontade de continuar na mesma direção, então, nesse momento, é muito difícil fazer as malas e partir, mas é também necessário.
Então, você me pergunta se o amor acabou. Eu, na minha ignorância sobre esse sentimento tão pleno, percebo que não, que ainda existe um brilho no olhar quando ele te olha, um carinho e afeição, mas percebo também que amar é deixar livre. Percebo que não precisa ficar ruim para acabar.
Amar é entender que o seu amor não é suficiente para que alguém fique e, por isso, é também ver tantas partidas dolorosas de pessoas com quem não imaginamos ficar sem.
Por isso o amor é para os corajosos, é como uma aposta de pôquer onde, a cada partida, você sempre está fadado a perder tudo de uma só vez.
Sempre vi essas reportagens com casais de senhores onde o casamento alcançara as bodas de ouro, a pergunta mais óbvia sempre era feita: qual o segredo para um casamento duradouro como esse?
Já vi as mais diversas respostas. Mas, para mim, a resposta sempre me pareceu óbvia. Observando de perto o casamento dos meus pais, entre sorte e revezes, brigas e reconciliações, o segredo me parecia óbvio demais.
Ano passado eles completaram 25 anos juntos. Para mais 25 anos, eles só precisam de uma única coisa: permanecer juntos.
Todos os dias meus pais escolhem permanecer juntos no mesmo caminho. Mas sei que eles já partiram da vida de alguém e já viram, também, partir alguém que queriam que ficasse. Sei que eles amaram outras pessoas antes de se conhecerem, sei que deram o melhor para elas.
Um dia os dois escolheram ficar na vida um do outro e permanecer juntos, esse dia se repete há 25 anos. Estão, há 25 anos, apostando todas as fichas um no outro, mesmo tendo visto tantos blefes, conhecendo o jogo, as cartas marcadas e o risco de perder tudo.
Como humanos, somos condenados a falhar todos os dias. Meus pais e esses casais não são diferentes, eles falharam um com o outro. Então, esses são os ingredientes essenciais para o amor que fica: perdoar e recomeçar.
O amor não acabou. Talvez acabe a vontade de caminhar na mesma direção. Paciência. Mas, para a nossa sorte, a gente sempre está prestes a cruzar com aquele que decidirá, como você, ficar, perdoar e permanecer juntos.
E aí? Você está pronto para perder e recomeçar? O amor não acabou, mas são poucas as pessoas corajosas o suficiente para apostar nele todas as fichas. Você é corajoso o suficiente?

Eu quero me apaixonar por você

Eu não deveria, mas eu quero me apaixonar por você. A gente sabe que seria muito mais fácil fingir que nada disso aconteceu, que a gente não existiu. A gente sabe também que eu sou um aquariano teimoso que dificilmente vai pelo caminho mais fácil e, como diria o Chorão, ‘mas você me conhece e eu faço tudo errado’…
E nessas horas eu percebo que o nosso jeito errado é o certo. Você tentando manter tudo no lugar assim, esquece que a melhor parte da festa é arrastar os móveis pro canto da sala e dançar sem se preocupar se tem alguém olhando. Desculpa, gata, mas eu vim pra bagunçar mesmo.
Tua casa tava muito arrumadinha pro meu gosto. Manda a conta do vaso que quebrou que eu faço teu reembolso (qualquer coisa eu digo que foi o cachorro).
Eu gosto de você assim, com esse cabelo bagunçado depois da festa que só a gente sabe fazer.
Tu achou mesmo que eu acreditei em uma palavra daquela conversa fiada de ‘vamos ser só amigos’ ? Não fode. Aliás, fode sim!
Eu aceito ser teu amigo, teu confidente mas sem condicionais. Sem essa de ‘só’. Eu quero transbordar em você e ser tudo o que a gente quiser ser.
Me chama do que tu quiser. De amigo, amante, namorado, ficante ou o caralho a quatro, mas me chama de ‘meu’, porque é assim que eu me sinto hoje. Todo teu.  E eu tô vendo o desejo no teu olhar de ser toda minha também.
Descruza esses dedos que você tá escondendo nas costas e desfaz essas promessas vazias. Todo mundo sabe que você é uma péssima mentirosa.
Agora vem aqui e cruza tua vida com a minha. A tua agenda com a minha. As tuas pernas nas minhas…
Eu escolhi me apaixonar por você, menina, e das promessas possíveis, só prometo que amanhã você vai receber o meu bom dia e um beijo outra vez.
E depois de amanhã também. E depois. E depois…

A gente se preocupa à toa

Andava aborrecido, sem motivo, por qualquer coisa ultimamente. Tinham sido semanas corridas em que, devido outras prioridades, esquecia-me fortuitamente de cuidar da saúde, pulava refeições e dormia pouco. Apenas por precaução resolvi fazer um check-up com o doutor. Terminada a consulta e a bateria de exames, pensei não ter mais nenhum compromisso pelo resto da tarde.

Foi então que ligaram do Pet Shop, estranhei que tivessem notícias sobre mim, de fato não tinham. Todavia, Lola -uma buldogue francês- já estava liberada: pronta e de banho tomado. O pet fica a uma quadra do meu condomínio. Pensei que se a soltassem, ela bateria aqui em casa na certa, sem erro. Viria às pressas, uma vez que odeia tomar banho

Também pudera, quem aguenta a histeria daqueles shih-tzus mimados da high society que moram abaixo da linha do equador?! Talvez minha cachorra tenha adquirido a personalidade rabugenta do dono. A moça da loja me aconselhou a buscá-la. Era o mais prudente e o mínimo que poderia fazer depois de tê-la abandonado em má companhia canina. Mas não poderia ter feito de forma diferente, a danada fedia há uma semana e insistia em subir na cama.

Peguei as chaves do carro -não se antecipe me chamando de comodista!- o sol estava quente pra ir a pé- nem de fresco- não me referia aos meus pés, protegidos e reconfortados num par de sandálias, mas sim para as patas dela. Cheguei ao pet, paguei a conta salgada, recebi o troco mirrado e quase ia esquecendo a encomenda que fui buscar.

A moça pediu que eu aguardasse, estavam terminando apesar de me ligarem dizendo que ela estava pronta. Explicou que o banho tinha sido dado, faltavam apenas os adereços. Enfeites que não sei pra quê, pois nunca vi cachorro algum aumentar a autoestima por estar todo enfeitado. Disse que não era preciso. Foi tarde, me entregaram a cachorrinha que aos prantos implorava-me para nunca mais fazer isso com ela, prometeu se comportar e fazer o xixi no local certo e nunca mais subir na cama. Aceitei a oferta e fomos pra casa.

Ela agora se coça com a pata dianteira, e não pretende parar temendo não consegui arrancar todas as lantejoulas coladas em seu pelo curto, enquanto eu coço a cabeça aguardando notícias da saúde. A gente se preocupa à toa.

O caminho para um destino fabuloso

Um destino fabuloso, quem não quer? Mas atenção, eu não me refiro aqui ao destino de viagem, embora, de uma maneira bem clichê, a vida possa ser comparada à uma espécie de “jornada” em que a gente pode mudar o roteiro sempre que necessário, mas, como se sabe, por mais que se planeje tudo nos mínimos detalhes, imprevistos acontecem e podem virar sua vida de ponta cabeça e te levar para outros rumos, alguns, nunca imaginados.  

O destino que aqui menciono é o sinônimo de sina, sorte, fado, aquilo que vem pela frente e que, em muitos casos, é descrito como os acontecimentos que estão predestinados. Não são poucos os que não acreditam na existência de um futuro “programado” e cada ser humano, correntes filosóficas e religiões têm concepções distintas sobre seu significado. Alguns consideram que é uma força misteriosa que determina os acontecimentos vivenciados pelas pessoas, outros que cada ser possui o livre arbítrio, ou seja, há liberdade de escolha e cada qual deve arcar com as consequências de seus atos e forma de vida.

Na literatura, um indivíduo descrito como “senhor ou dono do seu próprio destino” é uma pessoa livre, que tem consciência de suas responsabilidades, e que não tem medo de arriscar. Segundo Dalai Lama, “a verdadeira transformação espiritual dos seres está nas pequenas e fundamentais atitudes do dia a dia, independente do credo, do estilo de vida, das preferências sexuais ou políticas que possa ter”.

Todos nós queremos que o que está pra chegar seja bom, queremos ser felizes, sentir que as escolhas que fizemos valeram a pena. Encostar a cabeça no travesseiro aliviados, sem remorsos ou preocupações, mas acontece que, muitas vezes, esquecemos que não temos o poder de controlar toda e qualquer situação.

Há dias em que estamos tristes porque alguma notícia ruim chegou de supetão e roubou nosso sorriso. Em outro estamos de pé, sentindo o agradável gosto da gratidão e há aqueles que correm sem aviso prévio e, quando menos se espera, já é Natal e muita coisa ficou por fazer. Aquele amor não veio, não comprei sapatos novos, não mandei o cartão de aniversário para aquela pessoa querida que não vejo há anos, mal completei a longa lista de afazeres do dia e não cumpri as promessas de fim de ano que escrevi naquele papel que nem me lembro onde guardei.

Bem sabemos que não há como permanecer em eterno estado de poesia sem que nada nos surpreenda para o pior, mas existe uma forma, ou melhor, várias, de fazer com que a vida se torne cada vez mais prazerosa de ser vivida, reduzindo os problemas à pedras no caminho, que acabam auxiliando no nosso processo de aprendizado. Daquelas que nos fazem tropeçar, mas que nos dão a chance de sacudir o pó, continuar ou dar meia volta e escolher outro caminho.

Sempre que penso em contornar o rumo da vida para o lado positivo e transformador, me lembro de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001), filme de Jean-Pierre Jeunet, que conta a história de Amélie (Audrey Tautou), que viveu uma infância reclusa, afetada pela trágica morte da mãe e a distância afetiva do pai, em seu solitário universo povoado de criatividade e imaginação. Tímida, já adulta, passa os dias a observar o cotidiano alheio e o próprio, sem saber que é uma mulher sábia porque, apesar de se esconder porta adentro, possui um modo de vida simples, mas revolucionário: ela cultiva os “pequenos prazeres”.

Do francês: Les petits plaisirs, esses pequenos prazeres são, de uma forma resumida, o contentamento que se sente nos simples fatos do dia, em cada gesto, que traz cor ao cotidiano, como: mergulhar a mão em sacas de grãos, partir a camada de açúcar queimado do crème brûlée com a ponta da colher, fazer ricochetes na água do Canal St. Martin ou prestar atenção nos sons da cidade.

Para Amélie Poulain, esses costumes são sua fonte de alegria. Sensações aparentemente banais, que esquecemos de reparar, e que nos mostram que a vida é mais doce e verdadeira quando nos atentamos aos seus detalhes.

Por mais estranho que possa parecer, e apesar do nome, a simplicidade não é algo tão fácil de se cultivar, já que vivemos em uma sociedade de exageros, onde ter mais dinheiro, mais roupas ou mais curtidas é sinônimo de felicidade e sucesso.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain vem para quebrar com essa ideia, exaltando a naturalidade da vida. Seus personagens são apresentados de acordo com as coisas que eles mais e menos apreciam em suas trajetórias, nos mostrando que nós, muitas vezes, caímos na rotina sem prestar atenção no que vivemos de fato e passamos a achar que não há sentido em existir sem os “grandes feitos” que o mundo admira e que envolvem poder, mas que pouco acrescentam à nossa alma.

Amélie é uma pessoa que aprecia as singelezas da vida, mas que ainda precisa conhecer mais do mundo, pois não se permite arriscar e conhecer o novo.

A oportunidade de mudar de direção bate à sua porta quando, certo dia, encontra uma caixa escondida em seu banheiro e, pensando que pudesse pertencer ao antigo morador, decide procurá-lo ­e encontra Dominique (Maurice Bénichou). Vendo sua alegria ao reaver o objeto, fica impressionada, e acaba construindo um novo ponto de vista e, a partir de pequenos gestos caridosos, ela passa a ajudar as pessoas que a rodeiam, dando um novo sentido para sua existência.

O enredo nos mostra que não importa o quanto estejamos seguros no nosso mundinho, apreciando as coisas belas somente pelo lado de dentro, nós não estamos isentos das surpresas e  necessidades humanas. Somos de carne e osso e, portanto, perecíveis e, se deixarmos, a vida correrá junto ao tempo e não conseguiremos mais alcançá-la. Amélie sempre soube que o que é, de verdade relevante, está nas coisas simples, mas necessitava de mudanças, já que apreciava a riqueza escondida na rotina, mas, ao mesmo tempo, estava presa a ela e era chegada, então, a hora de agir.

Ao encontrar a enigmática caixa e sentir profunda curiosidade em saber a quem pertencia, ela entendeu o momento como um aviso, um chamado para embarcar em uma situação completamente nova que acabou por se tornar sua mais emocionante e transformadora aventura. Mas, e se ela não tivesse se interessado em saber sobre a história da caixa? E se a tivesse deixado no mesmo lugar, sua vida passaria por todas essas reviravoltas?

Todos os dias recebemos sinais, mas se não estivermos abertos para vê-los, eles de nada servem. Ao procurar o dono do objeto misterioso, Amélie aceita o desafio e então percebe que há no cotidiano, não só a beleza que nos encanta, mas o inédito, a novidade que nos aparece através de pequenos sinais escondidos que nos convidam a conhecer e encontrar outros propósitos para se viver.

Assim como diz uma das mais importantes mensagens do filme: “são tempos difíceis para os sonhadores”, mas o fato é que, muitas vezes, quem acaba por deixar o dia a dia mais complicado do que realmente é, somos nós mesmos e a nossa falta de coragem e sensibilidade. A vida convida, mas somos nós quem fazemos acontecer, saindo da nossa zona de conforto. É importante que nós enxerguemos os encantos do cotidiano, mas não é justo conosco que nos percamos ali. Os nossos pequenos prazeres dizem muito do que somos e isso significa que o mundo depende mais dos inúmeros pequenos atos do que dos grandes para ser transformado, pois o caminho para um destino fabuloso vem do sonho e da vontade de evoluir, mas também da simplicidade e disposição para enxergar o que realmente importa.