Samba, canção e malandragem

Ela chega e logo se encarrega de tirar o sapato de salto e a calça jeans que a apertaram o dia todo no trabalho e na faculdade, toma um banho e pega o meu shorts em baixo do travesseiro. Ela se sente confortável daquele jeito.
O bumbum redondo e as coxas grossas preenchem todo o espaço, fazendo com que minha simples bermuda de dormir se transformasse numa lingerie da Victoria Secrets.
Ela passeando pela casa descalça, na ponta dos pés, só de sutiã e com minha samba canção é a composição mais linda de todos os tempos. É algo como se os mestres do samba como Cartola, Nogueira, Adoniran, Arlindo e Zeca tivessem se reunido pra compor o samba mais incrível e, esse samba fosse ela.
Ela é incrivelmente linda de todas as formas e qualquer coisa abaixo disso seria uma ofensa. Quando quer surpreender e coloca um conjunto transparente com rendas e cinta-liga, ou quando dorme só de calcinha, com uma blusa larga, das que cabem duas dela dentro e as mangas chegam a escorregar quando ela ergue os braços pra se espreguiçar e coçar os olhos.
Ela é música para os meus olhos. Sim, desse jeito sem sentido mesmo.
Ela é samba de roda, o partido mais alto que põe qualquer malandro no bolso, mas ela preferiu me colocar no peito. Puta malandro de sorte eu sou!

Escrevendo

Hoje estive pensando em escrever. Mas escrever sobre o quê? Os pensamentos estão tão acelerados que fica até difícil colocá-los em um parágrafo coerente. Escrever de modo aleatório? Até pode ser, e é o que alguns escritores nos dão como as primeiras lições da escrita, mas até para escrever dessa forma fica difícil quando tudo trava. É mais cômodo observar os pensamentos passarem na mente do que traduzi-los em escritos. No entanto, não quero cair no comodismo. Quero escrever, preciso escrever, preciso colocar todo aprendizado extraído do cotidiano. Descrever todas essas cenas do nosso filme chamado vida. Como farei para destravar minhas mãos? Como farei para canalizar meus pensamentos até elas, automatizando-as para descrevê-los? É uma tarefa difícil.
Muitas vezes me sinto assim, travado, diante de um texto que quero produzir. Sinto como se tudo fugisse da minha mente na hora de explicar de forma escrita meus pensamentos, parece que o esforço que disponho não é o suficiente. Deixo-me ser levado pela visão de não ser capaz. Travo na frente do computador e procuro um raciocínio que possa me interessar, além de ser algo produtivo para outrem. Leio textos de grandes escritores e fico imaginando como seria discorrer sobre a vida de forma tão simples. São nessas horas que penso nas palavras de J. K Rowling citadas em um dos livros da saga Harry Potter: “Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia… ” E, lendo essas palavras, vejo a profundidade delas de forma tão rasa. Chego a pensar se eu seria capaz de produzir grandes frases, relevantes para o leitor.

Mas sou ciente de que a primeira coisa a fazer é “meter a cara”, ter a atitude e colocar em prática a escrita. Pois, se não consigo escrever, o único capaz de destravar tudo sou eu mesmo, para poder traduzir tudo aquilo que penso. Isso tudo requer esforço, por mais difícil que seja. Além do mais, todos nós temos a capacidade de desenvolver habilidades iguais a de grandes escritores. Então, acreditar em si e se pôr a trabalhar é o único caminho. E tudo isso pode até ser comparado com o modo que devemos viver: colocar nossos projetos em prática. Ou melhor, tirar nossos sonhos da mente e projetá-los na vida.

Então, para que eu consiga traduzir minhas ideias em escritos, preciso ter a atitude de pegar a folha e o papel – ou qualquer material disponível -, e escrever tudo o que vier à mente. Posso começar com pequenas frases, mesmo que sejam sem sentido. O importante é praticar até desenvolver habilidades tão apreciáveis nos grandes escritores: a facilidade com que os pensamentos fluem em suas obras. Sim, tanto na vida quanto no processo da escrita temos que dar o primeiro passo, e diversos se possível, para que tudo se torne da forma como desejamos. E quando nos depararmos, o texto estará pronto, de forma simples e natural, bem como na vida.

A história de alguém invisível

O que leva alguém a abandonar a própria vida?

 

Irremediavelmente apunhalado pelas costas, seguia em frente, cruzava, rua por rua, a cidade pequena demais para os próprios sonhos partidos. Era inevitável sua caminhada, já não havia mais o que pudesse fazer a não ser notar escorrer entre os dedos o castelo que se empenhava em construir durante os doze anos em que viveu ali. Era como se ele mesmo tivesse partido ao meio junto às paredes rachadas dos sonhos que desmoronaram bem à sua frente.

Naquele bairro não cabia mais a sua fantasia e era necessário partir, simplesmente partir, sem despedidas ou qualquer tentativa de explicação, porque nada do que dissesse faria sentido a quem não vivia o mesmo assombro que o perseguia.

Quem leria sua carta se a deixasse sobre a mesa, escrita em letras de forma, tortas, com caneta quase sem carga, cansada, marcada feito ele mesmo? A essa altura já não sabia mais o porquê havia escrito se o papel continha apenas duas frases desconexas que, provavelmente, complicariam ainda mais o entendimento. Ao longo do caminho, foi que ele se esqueceu do conteúdo da carta e o real motivo de tê-la escrito, mas agora não importava mais. Estava consumado e o que haveria de acontecer cedo ou tarde, aconteceria e de alguma forma ele sabia, carregava a certeza de que não tinha volta.

As bolhas que se formavam nos pés começaram a incomodar o desbravador da própria tristeza, tanto que resolveu parar e se sentar no meio fio. Ficou descalço e sentiu, não um alívio comum, mas um alívio seco. A carne não reclamava mais, mas havia outra ferida que nem mesmo ele poderia alcançar agora.

Os gritos e risadas em alto volume das crianças em seu caminho para a escola começaram a incomodar tanto quanto as bolhas dentro do sapato velho. Era o esquerdo que tinha incomodado mais. Era sempre com ele que pisava primeiro, como se contrariasse todas as crendices e superstições, gostava de fazer parte da margem, mas não poderia prever que seu futuro seria o mesmo de tantos outros. Não sabia que seria parte daquele retrato do cotidiano de forma definitiva.

Um andarilho, cujos sonhos foram assassinados pelas circunstâncias, sentado no meio fio, sujo e sem itinerário. Um ser humano que agora coçava a cabeça como quem procura respostas para perguntas que ainda não conseguiu formular, pois prefere não pensar mais sobre o que o trouxe até aquele destino.

Há cinco dias não conhecia a sensação da água escorrer pelo corpo. Por um instante, que pode ter durado horas, sentiu um frescor descer pelo pescoço e algumas gotas penetrarem sua camisa surrada. Despertou-se do delírio com um grito. Se viu sentado em frente à escola das crianças barulhentas.

O grito era da menina que bebia a água fresca do bebedouro do pátio  e se assustou com o homem maltrapilho que a observava sem piscar os olhos negros e cansados. Era tarde para explicações, ela já havia corrido de medo. Acaso sua figura era capaz de causar tamanho espanto?

Já não lhe bastavam os açoites dos flashes de pequenas memórias que o perseguiam a cada maldito dia de sua insistente existência? Como fugir de si ? Como não ser visto como alguém que traz o mal?.Fugiu do mundo e agora o mundo era quem começava a fugir dele e uma simples garotinha, depois de tanto tempo, finalmente o enxergou e ele podia ver que ainda era de carne e osso, mas sua aparência era como uma ameaça aos olhos de alguém que pouco sabe da vida e suas realidades tão doentes. Ele era então uma figura assustadora e feia. Havia ainda forças para oferecer perigo à alguém? Trapo humano que se transformou ainda não era visível. Não como desejava.

Me conta mais sobre teus sonhos

Pois sabendo dos teus sonhos, eu realizaria todas as tuas vontades, eu juro. Quem me dera saber o que tu sonhas e fazer parte de todos os teus sonhos também. Assim, sabendo dos teus desejos noturnos e fazendo parte deles, eu visitaria teu coração nas noites frias e vazias fazendo morada infinita. Quem me dera entender todas as tuas vontades, menina. Então me conte mais sobre tua vida, e me deixe fazer parte dela também. Preencha os meus ouvidos com teus dizeres adocicados e não sinta vergonha de me falar o que sente, quero te entender um pouco mais.

Me conta dos teus medos e seremos medrosos juntos, eu prometo. Me fala das tuas alegrias e compartilharemos boas histórias lado a lado. Me diz que precisa mais um pouquinho de mim e me doarei todos os dias mais e mais pra ti. Me pede um colo aconchegante, um par de braços envolventes e beijos no pescoço. Quero te envolver nos meus abraços – considerados por aí – os mais seguros do mundo.

Mas não se cale – ou se tranque –  em paredes brancas e tetos escuros. Pois eu quero saber mais dos teus sonhos antes mesmo de você fechar tuas retinas castanhas. Me fala um pouco sobre o amor que passeia sobre teu peito, e te prometo mostrar um pouco dele. Quero saber mais das tuas verdades e vontades do mundo. Quero conhecer teus defeitos e me adequar à todos eles. Quem me dera saber exatamente o que se passa agora vendo teus olhos fechados e teu sorriso alegre.

Quisera eu saber de tudo o que você sente. Mas só de saber metade, já sei que eu te quero por inteiro.

Aos beijos nossos de cada dia

Se existe um termômetro do desejo, esse termômetro é o beijo. Que arde e arrepia tirando qualquer agonia do nosso peito. Movimentando vinte e nove músculos do corpo e acendendo mais de mil luzes que iluminam a nossa alma. E, quando acaba, deixa os nossos olhos brilhando.

Brilha o fogo de um beijo bem dado. Que, de tão quente e farto, faz perder até nossas calorias. Beijo bom, bem forte. Com mordida, lambida ou apenas um selinho que sela a cumplicidade e parceria dos casais mais tímidos. Beijo é beijo.

Beija, gente. Beija mais, beija muito. Beija todo dia. A mesma boca, várias bocas. Troca essa energia da forma que achar melhor. O beijo do outro, quando beijado com vontade, transforma boca em mãos e nos agarra pela cintura, fazendo a gente voar pra qualquer lugar. Tem beijo que é maior que a gente.

Beijo é troca. É saliência. É a porta de entrada para o desejo. Beijo bem dado, bem arrumado. Beijo que encaixa como se fosse ele uma peça importante do quebra cabeça num primeiro encontro onde tudo parece perfeito. Falta saber do beijo. E se encaixar bocas, línguas e dentes… Já era.

Beijo é universal. Pode ser do casal. Mas, tem o beijo de mãe que eternizamos na memória afetiva mais carinhosa. Beijo da amizade forte e companheira. Beijo solidário. Afinal, o beijo e o abraço confortam tanto que podem até ser dados separados. Mas, se for tudo junto, vira colo que consola os nossos medos. Beijo, nos contos de fada, faz até ressuscitar.

Esses beijos que colecionamos na vida. Que esquecemos quando encontramos beijos com encaixes mais perfeitos. Beijos que nos tornam amantes. Fiéis, mesmo que somente na memória enquanto tentamos voar em outras bocas.

Beijo é rotina. E, quando a rotina de beijos acaba, o brilho no olhar vira pisca alerta. Algo vai errado. Pode desmoronar. Beijo é sinal de vida. De amor.

Ou na saudade de quem não mais podemos beijar.

Aquele beijo que damos no travesseiro numa noite fria e sombria, por saber que nosso encaixe se encaixotou numa peça de quebra cabeça diferente da nossa.

Que beijo dolorido de se dar esse beijo em pensamento, meu Deus.

Mas, ainda assim é beijo. Mesmo que bocas não se encontrem. O gosto e a vontade fazem o mesmo movimento como se ela estivesse ali, salivando em nosso abraço de lábios molhados.

E não é só na boca. Pode ser dos pés à cabeça. Beijo que passeia pelo corpo e inunda a alma de prazer.

Beijo nosso de cada dia. Beijo bom neste dia. E que os nossos beijos sejam cada vez mais troca positiva de boas energias.

Vou te levando comigo

A censura bateu em minha porta e eu que jurei que não escreveria frases dúbias, deixo o recado perdido nas entrelinhas. Não cito essas revelações — as deixo reservadas para silêncios em céu azul, onde o corpo conta mais que a fala e os gestos se completam, feito velhos e bons dançadores clássicos. Sin-cro-nia. E me calo. Acrescento um ponto final, mas sem antes dizer — como se você não soubesse — que gosto do gosto das estrelas na ponta da língua e do sorriso que escapa quando as sensações fogem do controle.  Recomeço. E, apesar de, te revelo que isso é “detalhe”, um bônus extra da tua companhia próxima.

Digo que gosto de. E, depois do ponto, caberiam muitas frases, muitos segredos — meus — e algumas das muitas cumplicidades. Conto que gosto da companhia e ponto. Sem esperar demais, nem desesperar também. Apenas o sentir-se bem com a proximidade, com as palavras doces que vem no vento, com a risada que flui quase sempre e com os olhos que sorriem e revelam e se escondem. Gosto do mistério que tu carrega em cada folha não lida, em cada lágrima engolida e em cada silêncio que te foge do controle e confesso que não tento adivinhar aquilo que tu esconde, pois se assim você prefere, talvez porque assim seja o melhor para o momento. Já me contaste tanto de vida que, penso, sei aquilo que devo saber e saberei se assim você quiser. E descobri que posso lidar com isso. Revelações e segredos. E eu.

Assim, te levo comigo enquanto puder te carregar. Te levo pelos cantos, por me fazer bem te ter em letras, linhas e ladainhas. Levo nas músicas que ouvia e nas que passei a ouvir. Levo naquilo que te lembra, seja num pôr do sol que virou poema, numa taça de vinho que bebo sozinha, numa barra de chocolate que me oferecem ao acaso, na música que começa a tocar no rádio e naquela, doce, que impregna na cabeça. Levo no riso pendido no canto dos lábios, no gosto do churros, no filme que ainda não vi, mas que você prometeu me mostrar. Levo nos desafios vencidos, no algodão-doce-nuvem, na sensação de equilíbrio, na vogal pouca. Te levo comigo, enquanto puder te levar. E enquanto você deixar que te leve.

Meu primeiro amor

Soube que não me reconhecia mais quando acordei e meu primeiro pensamento foi te desejar bom dia. Percebi que deixei de ser emocionalmente independente, quando ouvi seu nome e senti que você me pertencia. Mas só me dei conta do quanto te amava, quando deitei para dormir e meu sono foi embalado por pensamentos meus contigo e por mais que eu tentasse evitar, era um ato involuntário e finalmente neste momento a ficha caiu. Eu estava apaixonada.

Sempre te amei. Diferente de como eu imaginava, mas era amor. Era mais forte, mais intenso e me dominou sem aviso prévio, simplesmente fazendo-me ser levada por um mar de sentimentos que eu não conhecia. Sensações que você me apresentou e eu nem sabia.

Depois de algum tempo sem nos vermos, quando te olhei senti. Senti que nada seria igual antes. Enxerguei teu sorriso a metros de distância e ele parecia refletir cada raio de sol presente no céu. Foi simplesmente inexplicável a comoção daquele momento. Soube que sonharia com aquela cena e me encontraria eternamente afeiçoada por aquele rosto lindo, aqueles olhos azuis aos quais se encontravam me olhando, provavelmente sem nem imaginar o que se passava dentro de mim, sem ter a mínima noção do que me causava, achando que sabia de tudo, mas sem saber que aquela menina ingênua parada em sua frente na verdade tanto lhe amava.

Te abracei e desejei. Desejei de todos os modos que aquele momento fosse eterno. Planejei durante alguns segundos todas as estratégias necessárias para te fazer viver ali, evolvido nos meus braços, sentindo o calor do meu corpo se misturando com o seu e me protegendo do mundo sem teu carinho, mundo esse que sinceramente, não faço questão de aceitar. Forma de viver que simplesmente, dispenso. Recuso porque sei que com você tudo tem mais graça, vejo que ao seu lado o preto vira branco, o frio vira verão, o amor aumenta e meu coração despedaçado une-se com uma só percepção, te pertencer e fazer assim renascer uma vontade de deixar o singular de lado e me tornar plural. Faz meus sonhos antigos serem quase nada perto das minhas perspectivas de um futuro nosso, juntos, colocando em prática todos os desejos que um dia tivemos separados.

Eu vi que era amor quando te soltei e senti uma vontade imensa de voltar para o teu aconchego. Distingui que precisava ser você quando nada mais me fazia tão feliz quanto a tua mensagem inesperada de boa noite em um dia frio, ou simplesmente naqueles momentos em que você dizia sem motivo algum: ‘’se cuida, eu te amo’’. Acordei e vi que na minha vida muitas pessoas tinham importância, que eu almejava diversas coisas e desejava alcançar milhares de objetivos, mas no momento você era minha prioridade e minha maior vontade era te fazer sorrir, te ver sorrir e por fim, sorrir por ti.

Você mudou minhas rotas, me fez ter novos planos e despertou algo adormecido no meu peito. Me fez ver graça em um mundo fosco e sem sentido, me trouxe a esperança de dias melhores, mas eles só chegarão se for ao teu lado. O resto de tudo, da vida e do mundo só terá graça se for contigo. Nada me deixa mais feliz e ao mesmo tempo tão confusa quanto você, e para falar bem a verdade, eu gosto de enlouquecer por tua causa, ao teu lado ou simplesmente pela tua falta, pensando em nós.

Eu gosto de ti, de quando estamos juntos. Das trocas de carinho discretas e do silêncio que invade causando aquele suspense no ar. Arrepio-me com o toque inesperado das nossas mãos ao se chocarem por acidente e sinto meu coração pular quando você me olha, encarando-me como se fosses capaz de enxergar minha alma e tudo que meu coração queria te dizer e que morrendo de medo, teimava em esconder.

Tudo isso porque me apaixonei sem perceber, sem saber para onde ir, para onde correr… Enxerguei seus braços abertos e abriguei-me no seu calor, fazendo jus ao meu irrecusável primeiro amor.

 

 

Eu fiquei amigo da minha ex. E agora?

Antes de mais nada, gostaria de deixar bem claro que nunca, em momento algum, foi minha intenção deixar que tal situação acontecesse em minha já complicada vida. Acredito que, para quem leva o amor como sentido e direção de tudo o que faz, tais circunstâncias nada mais são do que ossos do ofício.

Vamos ao que interessa: hoje, exatamente às 06h11, dia 7 de abril de 2017, posso afirmar, sem medo de represálias, que sou um dos melhores (se não o melhor) amigo de minha ex-namorada. Alcançamos um patamar tão alto e tão intenso que aconselho aos que não têm corações e estômagos fortes para que deixem o recinto.

O início da história, acredito eu, é bem clichê: eu gostava dela, estávamos bem felizes, etecetera e tal, mas, um belo dia, ela resolveu dizer adeus e terminou. Justo, normal, vida que segue. Um velho dilema ressurge na cabeça dos abandonados toda vez que estes levam um pé na bunda: será que eu corto 100% a comunicação com a minha amada ou sigo falando com ela, mostrando que sou um rapaz assaz maduro e compreensivo, embora, por dentro, meu coração esteja mais rachado do que espelho estilhaçado? Bom, eu tentei os dois.

A fase do gelo não durou muito, mas serviu para uma espécie de compreensão do luto e me impulsionou em algumas viagens por lençóis nunca antes desbravados. Sentimento, sentimento mesmo, não rolou. O que é bom (ou ruim?). Depois de alguns meses, de forma quase natural, voltamos a conversar. E muito. Chegamos a um ponto em que, se bobear, estávamos nos falando mais do que quando dividíamos o mesmo edredom. Ó céus, que drama. Onde fui me meter?

O sentimento por ela, outrora adormecido e congelado, começou a receber, novamente, estímulos, cada vez mais fortes e intensos. Dentro de mim, uma voz mais sensata tratava de me avisar: “isso vai dar merda”. Enquanto a outra, que tenta ser mais otimista, me dizia: “você já superou isso tudo, mostre a ela como amadureceu e como podem ser dois belos e bons amigos!”.

Show de bola! Vamos ver no que vai dar essa bagunça. Pessoas que conversam sempre, uma hora, acabam por se encontrar; pessoas que se encontram sempre, uma hora, acabam bebendo: pessoas que bebem sempre juntas, uma hora… Bem, deu para entender que a vaquinha dirigiu-se ao brejo. Os beijos foram inevitáveis, o sexo também e os carinhos da mesma forma. Mas, como num choque necessário de realidade, no dia seguinte, ela me tratava como se absolutamente nada tivesse acontecido. Rolou algo sim, mas e daí?

Bom, hoje eu me encontro num limbo sentimental deveras complicado. Vou resumir: eu ainda a amo e não tenho como negar isso. Ela, pelo que transparece, curte minha companhia e, de vez em quando, não vê problemas em ficar comigo. Para bom entendedor, já deu para sacar que existe uma discrepância abissal entre sentimentos nessa situação. Embora não seja recomendável, quando se trata de amor verdadeiro, eu sou como uma pomba: contento-me com migalhas (pruu). Ao mesmo tempo, me reservo ao direito de me distrair e ocupar minha cabeça com outras coisas (escrever, por exemplo), para que essa nostalgia amorosa não me contamine por completo. Se eu deixar, amigo, o triplo Câncer do meu mapa astral me joga na vala.

Há alguns dias atrás, falei para ela, de forma indireta, que ainda a amava. Ela fez alguns comentários enigmáticos. Nossas conversas ficaram estranhas por algumas horas e, depois, como num passe de mágica, tudo voltou ao normal. Show de bola. Cá estamos de volta a estaca zero. Onde isso tudo vai dar? Não tenho a menor ideia. Não espere conselhos, advertências ou qualquer sorte de diretrizes de minha parte: sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no bolso, com 24 anos e um coração do tamanho do mundo. Beijos.

Auto amor

Há algumas semanas, em uma rede social qualquer, entre tantas que a gente tem, eu vi um post sobre uma famosa “x” – que eu concordo, é maravilhosa -, uma frase me chamou a atenção: “INCRÍVEL COMO ATÉ DESARRUMADA, ELA CONSEGUE ACABAR COM A NOSSA AUTOESTIMA”.
Essa declaração me chocou e continuou me chocando, porque, sinceramente, acho que é este, um dos grandes problemas da nossa sociedade, ou das gerações mais jovens: possuir uma autoestima TÃO BAIXA, a ponto de tê-la “acabada”, porque um famoso saiu desarrumado, mesmo que este “desarrumado”, envolva um look no valor de um carro popular. Sabe, “autoestima” é “autoaceitação”, ou seja, uma postura positiva com relação a si mesmo como pessoa, estar satisfeito e de acordo consigo, ter respeito a si próprio, ser “um consigo mesmo” e se sentir em casa no próprio corpo, possuir “autoconfiança”, ou seja, uma postura positiva com relação às próprias capacidades e desempenho. Então, onde foi que a gente errou?
Talvez, esta, seja a era em que mais se fala sobre amor próprio, e menos se vê pessoas “amando a si próprias”. Este autoamor que tanto se bate no peito, cai a cada momento, e a tendência, é colocar a culpa em alguém. A tendência é colocar a culpa no outro porque ele é negro, branco, pardo, índio, rico, de classe média, roots, boho, seguidor de tendências, afro, europeu, asiático, árabe, latino, magro, gordo, hetero, homossexual, passivo, babaca, sem caráter, bonzinho, de palavra… coloca-se a culpa no outro por diversos motivos que, muitas vezes, pode-se soar quase como estupidez. A culpa tem que ser sempre de alguém, e como essa pessoa fez, ou faz, eu me sentir inferior… Mas a culpa nunca é minha, por não me amar como eu deveria, por não cuidar do meu “eu”, como eu deveria. A culpa nunca é minha, por endeusar uma pessoa que jamais vai saber da minha existência, e está pouco se importando se eu estou viva ou morta, e se importa apenas se eu a faço lucrar de alguma forma. Diz-se não ter padrão, mas criam-se novos padrões “despadronizados”, e você está errado se não aplaudir e jogar flores.

A verdade é esta: nós criamos doentes emocionais, e sustentamos a doença deles. E nós estamos no meio, viu?
A geração atual é fraca, briguenta (pelos motivos errados), extremamente hipócrita, e é feita de marionete a cada segundo. O problema está em não ensinar às pessoas a se amarem e ponto final. O problema está em jogar as pessoas umas contra as outras, por que “olha lá, ele está te oprimindo com o padrão dele”, “ele está te oprimindo com a cor dele”, “ele está te oprimindo por causa da classe social a qual ele pertence”, “ele está te oprimindo porque é mais bonito que você”, “ela acaba com a minha autoestima, porque ela é uma deusa”, mas na verdade, eu a coloquei naquele pedestal, e eu a julgo melhor do que eu. Mas espera um pouco… EU não sou o suficiente para MIM?
Entre tantas urgências existentes por aí, esta é gritante: aprender a se amar, a se perdoar e a perdoar os outros, e então, levar o amor próprio adiante, ensinando os outros a se amarem também. Não precisa ser formador de opinião para ensinar alguém que ela é digna de seu próprio amor, que ela é a primeira pessoa à quem deve amar. Sou eu comigo e você consigo. E o outro, com ele mesmo. E qualquer um de nós, com um psicólogo, porque algumas dores são difíceis demais pra gente superar sozinho, e talvez, sejam estas dores que travam a nossa autopercepção, e isso não é vergonha. Então, no exercício e aprendizado do autoamor, tenha isto bem formado na sua mente, para repetir para si a cada manhã:
Eu apenas sou oprimido pelo outro, se eu permito. O outro só me atinge, se eu deixo. Eu só sou colocado para baixo, porque eu deixo. Nem sempre a postura do outro é para me oprimir, me alfinetar, me abalar, me calar, me chatear ou me diminuir. Eu sou especial. Eu sou digno de amor. Eu sou amável. Eu sou querido. Eu sou alguém. Eu sou inteligente. Minha opinião é importante. Eu sou bonito. Eu sou vitorioso. Eu sou legal. Eu sou cheio de boas características. As minhas dores não são frescura, e eu vou superá-las! Os meus sonhos não são besteira. Eu consigo. Ninguém é melhor do que eu. E eu NÃO SOU melhor do que NINGUÉM!

E vá ser feliz, independente de quem o outro é, porque todos nós somos especiais à nossa maneira, de forma peculiarmente autêntica, com todas as nossas estranhezas, nossas belezas, nossa forma de vestir e andar. Você é um diamante, extremamente valioso e brilhante: PERCEBA-SE!

A primeira vez que te vi

Na ânsia de viver a intensa busca pelo tempo bem aproveitado e vivido, entre casos e acasos, a sede de interações, temos preguiça de acumular, mas jamais queremos abrir mão de tê-las. Refém desse momento, dei a sorte de, fazendo o uso da linguagem atual, viver os espaços de realidades e fantasias do mundo do match desbravado.
Foi como ter voltado há alguns anos e, com os peitos estufados, ressignificado algumas coisas que por diversos momentos pensei que não traria na mala para o hoje. E trouxe, vivi tudo de novo de modo e em momentos aleatórios. No meio de tudo isso, reconheci a beleza do respirar fundo, do frio na barriga e no coração acelerado enquanto o tempo de te encontrar está chegando, é tudo como se fosse pela primeira vez. Sem medos, dando tempo ao tempo e disposta a virar a ampulheta quantas vezes for necessário. A deliciosa essência do que é ser paciente.
Te ver pela primeira vez foi me despir de toda timidez e chegar mais perto, foi me livrar da insegurança, conseguir pensar na possibilidade do “de novo”, dos mesmos riscos, das mesmas vontades, do prazer de ter alguém para caminhar compartilhando histórias. Foi relembrar que tem cheiro que fica e no meio de alguma festa vou senti-lo e vai me despertar a saudade de você. Foi me perceber na coragem de dizer que estou preparada mesmo apesar dos pesares de tempos atrás. Foi reviver enquanto borboletas preparavam o vôo em meu estômago. Foi estar em verdadeiro estado de poesia.