Tocando em frente

“Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe. Só levo a certeza de que muito pouco sei, ou nada sei.” A música de Almir Sater com Renato Teixeira vem fazendo parte da minha vida desde a infância. Meu pai, na roda de amigos, costumava cantá-la, enquanto eu ficava ali do lado,  somente ouvindo. A música tem uma influência enorme no nosso modo de agir e de ver as coisas. Naquele tempo, eu apenas me encantava com a letra e a melodia, como quem, lendo um livro, imagina que aquilo só se passa naquelas páginas, sem notar que o enredo pode te situar na realidade, servindo como paralelo para compreender a vida. No entanto, conforme vamos crescendo, passamos a ver que há mais sentido do que a nossa antiga inocência poderia enxergar.

Toco violão há bastante tempo, tenho uma raíz musical muito forte, que vem de família. Algumas vezes, me arrisco a compor, e noto a dificuldade de fazer a junção entre uma boa melodia e boa letra – bem como escrever um texto. E sinto uma enorme satisfação e felicidade quando acabo alguma obra, vendo o trabalho feito, depois de tantas tentativas de ir encaixando as peças e consertando os erros até montar um todo coerente. Realmente, “cada um de nós compõe a sua história. Cada ser, em si, carrega o dom de ser capaz, de ser feliz.”

A cada momento que chego em algum lugar novo, vejo o tanto de aprendizado que pode ser absorvido, e assim o faço; a partir das conversas com as pessoas de mais idade, procurando saber um pouco mais sobre esse mundo; dos diálogos com os homens de séculos passados através dos livros; e acabo percebendo que, como diz a canção, muito pouco eu sei.

Desse jeito, vou nessa longa estrada – ou melhor, sou a estrada. Diante dessa caminhada de muitas incertezas e angústias, como é natural do ser humano, confio na ajuda de Deus para manter-me firme, ainda que as pernas reclamem do peso da vida. O amor que Deus nos concede, e àqueles ao nosso redor, é o que nos traz paz para sorrir. Assim como “é preciso a chuva para florir”.

Hoje, apesar de ainda ser jovem e ter uma longa estrada além do horizonte, creio ter absorvido boa parte da mensagem. Mas, ao mesmo tempo, sei que há uma enorme experiência de vida contida na letra dessa música, e que mais adiante poderei apreender melhor sua essência, sempre tocando em frente.

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O laço da amizade

Um laço somente é posto à prova quando esticado. Isso demonstra a sua resistência. Distanciar uma relação confirma a sua duração. Aqui, me coloco diante da amizade. Até aonde resiste? Parte da minha vida, até então, foi construída em cima de mudanças locais. Então, sempre houve uma separação de todo laço que eu criava em cada lugar que havia passado. Ou melhor, sempre tive que esticar os laços em todas as mudanças. Hoje, me veio à mente que, às vezes, nossos laços são criados por palavras; outras vezes, pelas ações – sem que estas precisem de um adorno, pois os momentos vividos falam por si. Palavras sempre embelezam o momento, mas são as ações que fortificam um relacionamento. Construir nossas amizades baseadas em palavras é como montar um castelo de baralho. Muitas vezes, aumentamos a crença de que uma amizade é realmente forte pelo simples fato de falarmos isso, dizendo mais do que foi vivido e mais do que realmente significa. Como se quiséssemos projetar um amigo idealizado. Talvez por uma empolgação de momento. Assim, deixamos de notar a realidade do grau de importância que determinada pessoa tem em nossa vida. O que pode explicar o fracasso da relação quando os laços esticam, ou seja, quando um amigo se distancia do outro. Por outro lado, amizades duradouras, que resistem a distância, são construídas pelo que foi vivido e nada mais. Sem necessidade de grandes discursos pra confirmar algo que já foi confirmado pela vida. Esta tende a ser mais sólida. Rodeada de poucas palavras que demonstram a saudade, e que a distância somente reforça a importância. Não que estas estejam imunes ao fracasso. Já escrevi uma vez que nem sempre as relações acompanham as alterações, pois mudam os nossos gostos; a forma de pensar; a própria personalidade vai ganhando outras formas; e uma infinidade de coisas que alteram com o tempo. Com isso, alguns ciclos de amizade vão divergindo, e essas pessoas criam outros ciclos que estejam de acordo com a sua vida atual. Mas quando vivemos intensamente com alguém, o tecido do laço torna-se consistente, feito a partir da realidade de uma relação, com seus altos e baixos sendo superados, tendo assim mais resistência quando é esticado.  Segura daí que eu seguro daqui. Enfim, hoje, em um novo lugar, estiquei novamente os laços. E numa espécie de seleção natural da amizade, vou formando o ciclo de amigos que, provavelmente, permanecerá até o fim da vida.

Um pouco sobre a caminhada

Certa vez, eu sentei e me perguntei: o que farei diante de tudo isso? Isso era o mundo. Naquele momento, eu estava numa transição. A responsabilidade me chamava, e eu ainda estava procurando me situar, ao mesmo tempo que começava a enxergar os tons escuros da vida. De lá pra cá foram inúmeras pancadas, sentidas da forma mais intensa possível. Pensava que aquilo era somente uma fase, e que logo passaria. E passou. Em seguida, a vida bateu com mais força, a fase ganhara mais intensidade. A barba foi crescendo, cheia de falhas, semelhante às minhas ações. Fui logo percebendo que nada iria mudar, exceto eu. Resolvi alterar a clave, definir o foco certo. Vi que a bola havia caído no meu pé. O que eu faria? Era a hora de agir – na verdade, toda hora é hora de agir. É difícil crescer, pois dói muito. E quanto mais você adia a missão de encarar a realidade e tentar compreendê-la, puxando a responsabilidade das mudanças pessoais, menos você enxergará o seu sentido da vida. E este é quem irá nos guiar e motivar diante da dureza de estarmos vivos. Uma vez,  um professor me disse: “Na vida, não busque segurança, sempre busque força.” Força para lidar com as quedas, pois a partir de um dado momento notamos que elas se tornam constantes em nossa vida. Confesso-lhes, ainda não sei lidar com algumas circunstâncias. Apenas sinto. Penso demais. Às vezes, caio na mania de culpar os outros por alguma crise. Mas logo caio na real, e vejo que eu sou o timoneiro. Tenho que saber enfrentar as tempestades no alto-mar. Ou eu moldo, ou serei moldado. Ali, sentado, eu me questionava, não somente sobre mim, mas sobre tudo o que nos rodeia. Hoje, as respostas estão aí, muitas vezes ocultas, esperando mais um passo meu para encontrá-las. Agora, a barba está mais cheia, revelando um pouco mais de experiência. Mas, olhando no espelho, vi que sempre haverá falhas.

Devaneios da mente de um escritor

“Saio da livraria, atravesso o sinal e paro na calçada, olhando para o mar. O vento frio, vindo do mar, no entardecer, nos abraça igual ao filho que, separado da mãe, volta a reencontrá-la. O sol, calmamente, vai se escondendo atrás do grande monte que fica no fim da cidade – ainda consigo ver algumas casas empoleiradas ao longo do gigante.

Muitos estão com seus aparelhos celulares registrando a paisagem. No impulso, como quem está acostumado com a tecnologia, coloco minha mão no bolso para pegar o celular – imagine quantos likes e visualizações este cenário terá nas redes sociais? No entanto, paro e repenso, resolvo absorver toda a imagem e guardar apenas na minha memória, abarcando cada detalhe.

Meu repertório de palavras é limitado para o que guardo na mente, mas garanto que é uma das mais lindas obras que Deus nos presenteou. Aqui, aprendi que as memórias que nutrem boas lembranças são aquelas que capturamos pelos olhos da alma.

Amanhã quero que seja um dia diferente, vou acordar dando uma piscada pra vida, gentileza gera gentileza, se ela recebe de ti sentimentos bons, pra ti ela devolverá sentimentos melhores ainda. Voltarei aqui, farei novamente o mesmo percurso, e irei observar tudo como se fosse a primeira vez que aqui meus olhos se perdessem. A beleza rara se encontra na camuflagem de uma circunstância, de gastarmos um pouco mais de tato para enxergar aquilo que não está a mostra, e podermos descobrir que nos bastidores existe um espetáculo tão incrível quanto o homem de sorriso forçado que no palco está a entreter a plateia.

Analise o cenário e deixe se seduzir pela alma do palhaço e não unicamente pelas suas peripécias em um trapézio. A humanidade se perde na cobiça e no poder, enquanto a vida é construída de simplicidade e momentos impagáveis. Hoje, aqui fora, o céu está dando um show de boniteza. Onde está a sua verdadeira admiração?

Estou aqui, a selva é de pedra, o desejo é de mar, o pôr do sol convidativo me traz a nostalgia que vivo tentando deixar pra lá. Abstinência de momentos que ficaram apenas no filtro da lembrança. A esperança de um novo nascer do sol vêm e me traz na bagagem novos sentimentos bons. E que seja sempre assim, um novo espetáculo ao cair do luar, e que a fé chegue com o sol nos seus primeiros vestígios ao raiar.”

Uma carta aberta

Se eu pudesse te recuperar da tristeza que te consome, ou mesmo tomar uma parte da dor para mim, o faria. Sei que os momentos difíceis, e com eles os sentimentos confusos, chegam sem permissão, desmontando tudo à frente. São as fases em que nos perguntamos sobre o sentido de estarmos aqui no mundo. Mas sempre há um propósito, o qual não enxergamos de forma imediata. Muitas vezes, Deus quer que encontremos o sentindo da vida nestes momentos; na turbulência, longe do conforto da vida. A natureza nos dar inúmeros exemplos de que a bela forma vem depois de um árduo e desconfortável trabalho de aperfeiçoamento. Por quê seria diferente com os seres humanos? Os vales escuros nos serve para isso; para nos aperfeiçoar na caminhada. Eu sei que palavras não tem um poder imediato de tirar da tristeza que te consome. Mas se você passar a refletir diariamente a partir delas, mudanças significativas podem vir. Se eu pudesse, te traria para cá, pois é um lugar calmo e tranquilo para viver, longe de toda essa bagunça diária que você vive. Por isso só posso lhe oferecer minhas palavras – o que me deixa um pouco inconformado, pois eu queria te dar um abraço e passar um bom tempo com você, te ajudando de uma forma mais efetiva. A gente sempre quer ter por perto aquela pessoa que amamos. E saber que você precisa de apoio aumenta a vontade de te colocar sob os cuidados que posso lhe oferecer. Por hora, te entrego aos cuidados de Deus, pois Ele sabe como tratar uma alma ferida; sabe como curar uma dor. E, com a intenção de te fazer refletir ainda mais, te deixo com as palavras de C.S. Lewis: “Imagine-se como uma casa. Deus vem e reconstrói a casa. A princípio, você compreende o que Ele está fazendo. Ele está tapando os buracos e consertando o telhado para que não haja mais goteiras, e assim por diante. Você sabe que esse tipo de trabalho precisa ser feito, portanto não se surpreende. Mas de repente, Ele começa a atingir a casa de um jeito que dói tremendamente e não faz sentido algum. O que Ele está fazendo? A explicação é que Ele está construindo uma casa muito diferente do que você esperava, colocando um compartimento extra aqui, mais piso ali, construindo torres, fazendo jardins. Você pensou que se tornaria numa pequena, porém decente casa de campo; mas Ele está construindo um palácio. Ele mesmo pretende morar no palácio.”

Na ansiedade do diálogo

Hoje, amanheci no alto do edifício vendo o sol espalhar seus raios timidamente sobre o horizonte. Faltou energia no bairro, mas nem reclamei, pois a vista do nascer do sol quando tudo está apagado é uma das melhores coisas que o ser humano pode desfrutar: uma pequena bola de luz vai surgindo na linha entre o céu e o rio, soltando raios que vão tomando conta de todo cenário. A luz toca as nuvens desenhando detalhes e criando formas no céu – Hoje eu vi a forma de um monte. O rio, como de costume, tem o prazer de espelhar todos os movimentos do nascer, redesenhando a cena como um pintor faz em seu quadro. Gravei essa imagem na mente, e ela foi tão espetacular que essas poucas palavras não descrevem fielmente o que foi aquilo. Então, cuidem de ir curtir o nascer do sol.

Pois é …

Atônito pelo que via, nem percebi que havia mais alguém no edifício, também olhando o amanhecer. Era um jovem rapaz. Parecia vir de uma festa de formatura, estava vestido formalmente. Apesar do ambiente promover sentimentos positivos, ele estava triste. O olhar ia distante – deduzi que o pensamento ia no mesmo rumo. No entanto, percebendo minha observação, prontamente ele falou:

“Hoje a tristeza chegou como um papai Noel não tão esperado, trazendo na sacola milhares de lembranças amargas. Todas fazem minha estrutura tremer. Lembranças que realimentam meus traumas passados; resgata tudo e joga em cima das minhas certezas. A confiança cai sem paraquedas. Aliás, meu caro, se tua confiança ainda não foi quebrada várias vezes – e isso de inúmeras formas –, sinta-se privilegiado. Pois, uma das piores sensações é ver uma estrutura construída por você desabar em segundos. É ver um trabalho que foi desenvolvido diariamente ser jogado no chão, quebrando em pedaços. E a tristeza faz questão de te deixar assim, despedaçado.

Sabe, aqueles lances de “fantasmas do passado” que a gente tanto vê nos filmes? Pois é, os meus vivem reaparecendo. Voltar ao cenário no qual passei por momentos difíceis me traz todas as antigas sensações. E quando vou para um lugar novo, tudo vem acompanhado. A gente muda de casa, mas traz a mobília, mesmo não querendo. Isso me deixa fraco, sem expectativa de que eu vá superar tudo algum dia. Já me recuperei algumas vezes, até cheguei a pensar que esses traumas não voltariam a me assombrar. Mas quando menos espero, a tristeza toma conta dos meus pensamentos, me mostrando tudo que possivelmente perdi por conta da fraqueza que me travava diante das situações. Desculpa por eu estar falando de forma não muito específica sobre o que passei e quais são os meus traumas. É que ainda não consigo falar isso abertamente. Ainda não me tornei aquela pessoa que superou tudo o que passou de ruim.

Eu tenho uma mania não muito correta: algumas vezes paro tudo que faço e deixo essa dor tomar conta de mim. Eu sei, ela me trava e me impede de aproveitar mais um dia. Aliás, hoje o dia está surgindo de forma maravilhosa – queria que isso tomasse conta de mim. Mas não consigo potencializar minha energia positiva através dessas maravilhas. O sentimento negativo surge dentro de mim sem avisar. Não tenho nem reação pra lutar. Minha vontade é só de dormir e esperar que no outro dia as coisas mudem de forma mágica. Certamente um grande erro meu. Alguns podem me julgar como um fraco, mas nem ligo para o que pensam, quero é que se foda. Talvez se estivessem me olhando por dentro não julgariam de forma equivocada.

Enfim, não quero prolongar essa conversa chata. Depois eu vou pra casa ficar socado no quarto esperando algum pingo de luz surgir na minha escuridão. ”

Falou tudo com um tom de indignação, como se a vida fosse totalmente injusta com ele. Não o julgo, pois já briguei também com a vida em determinados momentos. É meio louco esse lance de brigar com a vida, não? É como se ela fosse uma pessoa. No fim, acho que estamos brigando com nós mesmo.

Em certo momento, vi algumas lágrimas perpassarem o seu rosto, e entendi a dor daquele jovem. É uma dor que ultrapassa qualquer outra física: é a dor do ferimento na alma. Esperei que toda aquela carga fosse liberada para poder convencê-lo que, apesar de o mundo ser competente para nos entristecer, vale a pena viver.

Bem sei que traumas são difíceis de esquecer, ainda existem alguns que insistem em me rodear. Isso acontece principalmente quando você passa muito tempo por alguma situação desagradável. Seus reflexos, pensamentos, forma de agir, tudo passa a ser controlado por esses traumas. Eles te travam diante de pequenas coisas. A confiança, que é tão importante na vida do ser humano, se fragmenta. Aliás, virei especialista em reconstruir minha confiança. É como construir e reconstruir um muro, e quanto maior a altura, maior a queda quando o mundo vem com sua marreta. Há quem diga que estamos construindo de forma errada, que temos que blindar nossa confiança para que ela não possa vir a se quebrar diante das porradas. Mas aí eu pergunto: você sabe o que a vida tem guardado pra você lá na frente? Sim, diante de situações que você já passou, é fácil lidar. E quando a porrada vem de outra direção, ao qual não esperava? Já vi grandes pessoas trabalhadas na confiança ficarem como crianças perdidas diante das inéditas circunstâncias que a vida impôs.

Entendo o jovem de todas as formas. Algumas coisas pude superar, mas, assim como ele, os meus “fantasmas do passado” ainda me assombram. Hoje lido de outra forma, o que não quer dizer que não me afete ainda. Podemos falar que o inimigo é o mesmo, mas minhas armas são diferentes. Me conhecer melhor foi um fator decisivo para que eu não sucumbisse em outros ataques. Descobri minhas fraquezas e atitudes que não contribuíam para a minha evolução, o que também me ajuda a mudar.

No entanto, mais do que ajudar o jovem a achar respostas, é achar soluções para mim também. Pois ainda tenho muito trabalho pela frente. Então, aproveitei a oportunidade e tratei de começar pelo diálogo, uma das ferramentas que podemos usar para achar pistas que ajudam desvendar os nossos mistérios. O sol já aparecia por inteiro quando comecei:

“Sabe, cara, o autoconhecimento é muito importante pra quem lida com esse tipo de dor. Eu poderia te dar alguma resposta aqui, mas são minhas respostas. Estas vêm de coisas que eu passei. Então, só servem pra mim. Mas a partir desta conversa você pode procurar se conhecer, ver o que te leva a agir de forma destrutiva. Busque na raiz dos seus traumas as melhores soluções. Penso que, se a gente olhasse para a bagunça que há dentro de nós, não perderíamos nosso tempo olhando para vida de outras pessoas, pois estaríamos ocupados demais tentando consertar tudo. Então, terá que encontrar dentro de você as melhores maneiras lidar com tudo isso. Não tenho fórmulas prontas pra você, a vida não permite viver através destas. O que posso te indicar como um apoio, além dos verdadeiros amigos, é a boa e velha leitura. Ler me ajudou muito nesses vários processos de reconstrução.

Outra coisa que posso te falar é que, já que todo sofrimento teu seu lado bom, passar por esses vales escuros me tornou uma pessoa menos egoísta, e mais solidária. Quando sente a dor, você passa a ter mais compaixão pelo próximo. Irá querer levar ajuda àqueles que precisam de apoio, dando o seu ombro amigo. Claro, a pessoa não vai virar o Papa Francisco da noite pro dia, mas você passará a ponderar antes de julgar, e dará a mão ao invés de omitir socorro, pois sabe o que é ter uma ferida na alma. Às vezes ainda me pego julgando certas atitudes, porém, procuro ver as circunstâncias, o que levou a pessoa a agir de tal forma. E se eu achar certo ou errado, procuro guardar só pra mim. Quando é alguém próximo, a gente bate um papo tentando reparar os erros. Portanto, todos temos um calabouço, onde estão nossos traumas e medos. Mas como você vai encará-los é o que vai mostrar a força que você tem. A partir de tudo isso, o que eu quero perguntar é: como você lidará com as consequências dos seus sofrimentos? Vai optar por fazer o bem por aqueles que também sofrem? Ou vai se revoltar porque a vida foi injusta, e optar pelo lado ruim?

Nada é fácil, pelo menos aquilo que tem valor, então vamos ter muitos momentos entristecedores em que o mundo nos jogará no chão sem qualquer pena, nos ferindo. Mas existem os intervalos das bancadas, aos quais chamamos de felicidade. Eu sei, às vezes a vida nos deixa vulneráveis às tristezas do mundo, mas ela é também um espetáculo, e ser feliz é estar sensível para notar as melhores cenas que são apresentadas no dia a dia, como um nascer do sol. Busque nas coisas simples. Diariamente podemos tomar o melhor remédio da vida. O perfume que só os atentos, e sensíveis, notam sua fragrância a cada respirar. A felicidade é a cura para as nossas dores, ainda que momentaneamente. E por este fato, de ser momentâneo, é que vale a pena viver. Pois vamos ter sede desta cura, o que nos leva à uma busca incessante até o nosso último respirar.

São nesses momentos que você encontrará as respostas que tanto procura. A motivação para lutar a cada dia, tendo em vista o espetáculo, mesmo que a tristeza venha como um papai Noel não tão desejado com sua sacola cheias de lembranças amargas. Enfim, é tudo o que tenho a dizer.”

Depois conversamos sobre a festa de formatura da noite anterior, na qual ele estava antes de vir para cá. Era o baile dos que estavam se formando em Psicologia. Aliás, uma área do conhecimento que me agrada. Assim, ia chegando às oito horas da manhã quando resolvi descer do edifício para ir à parada de ônibus. É, amigos, temos que estar sempre atentos naqueles que nos rodeiam.

Detalhes diários

Um dia monótono com tempo nebuloso. A chuva cai sem pressa pela manhã de hoje, dando a impressão de que estamos parados no tempo. Tenho a sensação de três dias durarem três meses. Mas é assim o cotidiano de uma pequena cidade: simplicidade e calmaria, onde a vida caminha vagarosamente.

Levantei da cama cedo, não consegui compensar o sono perdido na madrugada. Fui para varanda da casa, olhar aquele tempo que aparentava alguns traços noturnos. Um dia frio – um bom lugar para ler um livro – sempre proporciona boas sensações. Minha vontade é de morar em um lugar em que o frio nos acompanha diariamente. Além disso, o dia começou com o batuque agradável da chuva caindo no telhado, e combinar esse som com uma cama e um edredom confortável, deixa qualquer movimento corporal custoso. Mas dessa vez eu estava na varanda olhando toda aquela cena, ouvindo aquela pequena voz na minha mente falando que o contato com a natureza é o melhor tranquilizante para quem tem uma vida em meio à confusão.

É, minha vida está uma confusão: término de namoro; fui demitido do emprego no qual estava há um bom tempo; falta de confiança no que posso produzir, parece que nenhuma ideia é boa o bastante; um turbilhão de sentimentos negativos. Junto à barulheira que é morar em uma grande metrópole, os pensamentos em busca de soluções ficam sufocados. Sem contar que não tenho visto meus amigos. Mas nem reclamo, porque o único que tive uma breve conversa me indicou o lugar no qual estou agora.

Essa viagem apareceu em uma boa hora, além do lugar que me surpreendeu desde a chegada – e eu ainda não queria vir para cá. Aqui é tão tranquilo que podemos resolver boa parte de nossos problemas. A correria da cidade grande e a enxurrada de informações que é atirada em nós nos empata de raciocinar com mais cautela.

Pois é, estou aproveitando cada segundo neste ambiente agradável. A chuva deu uma amenizada, bem na hora em que os alunos passavam para ir à escola. Engraçado, quando eu estudava, e caía esses “toró”, algumas vezes a chuva parava bem no horário de ir à aula. Podia está caindo um dilúvio, mas quando chegava o horário de sair de casa o sol aparecia bonito – o que me dava muita raiva. Eu, crente de que iria faltar aula para ver desenho, era decepcionado com o grito da minha mãe: “Bora, já passou a chuva. Vai pra aula! ”. Agora a saudade da minha época escolar bateu forte, vendo esses alunos passarem todos uniformizados.

Saindo do sentimento nostálgico, notei que no começo da rua, em direção oposta aos alunos, vinha um padeiro – padeiro dos moldes antigos. Aliás, já vi que aqui ainda existem pessoas que vendem pão de casa em casa. Além disso, eles têm um “single” tradicional: “Padeiro! Padeiro! Padeiro! ”, e entoando este som percorrem todas as ruas com muita naturalidade. Suas ferramentas de trabalho são: uma bicicleta e uma cesta apinhada de pão na garupa. Há quem só carregue a cesta e cumpra seu trabalho caminhando. Então resolvi parar aquele estava vindo para conversar um pouco.

Chamei o senhor, aproveitei para comprar pão, e de pronto indaguei a ele como era a vida ali e se ele já tinha morado em outras cidades maiores. Perguntei também se o mesmo não tinha vontade de ir em busca de outras coisas e lugares, já que o mundo nos oferece várias possibilidades de vida.

Sempre que vejo as pessoas, penso que cada uma é um mundo cheio de aprendizados, portanto, um ser humano qualquer que goste de uma boa conversa já é um atrativo e tanto pra mim. Então, esse senhor que vende pão, e que aparenta ter uma idade avançada, seria o primeiro a ser abordado por mim – pessoas de mais idade sempre são sábias na hora de falar sobre a vida.

Com uma simpatia e alegria de quem vive bem, ele respondeu com toda simplicidade:

“Meu jovem, já rodei por algumas dessas grandes cidades, e até me senti tentado a morar nos lugares onde passei. Enormes espaços de concreto; edifícios magníficos com suas tecnologias; enfim, uma variedade de coisas prontas para lhe servir. E você tem tudo o que deseja, só precisa trabalhar, claro. Aliás, muitos vendem o seu tempo no trabalho para obter o que desejam, e muitas vezes não gostando do que faz. Tudo em troca de coisas que não são essências para uma vida sadia, em todos os aspectos. Não estou falando que trabalhar para ter aquilo que quer seja errado. Me refiro aos que são infelizes no seu trabalho, e assim doam seu tempo para aquilo que não traz satisfação. Tudo em troca de condições financeiras para comprar o que não precisam, e se encaixarem no “estilo cidade grande”. E, apesar de terem a impressão de estarem felizes, dificilmente as pessoas que ali moram conseguem enxergar o simples, ou valorizar mais as pequenas coisas. Sempre tentam achar a felicidade na aparência, no olhar de exaltação do outro, com bens materiais, demonstrando um bem-estar de fachada.

As pessoas vivem dizendo que a felicidade está nas pequenas coisas, mas vivem ambicionando coisas de grande valor material. Ah, meu jovem, ainda tem o estresse da correria. E é tanta informação com essa tal de internet agora. A mente fica entulhada com tudo isso.

Ainda tem outra coisa: pagam para desfrutar de coisas que estão aí gratuitamente para nós, como a natureza. Olha, eu pego minha canoa e rodo boa parte desse rio sem pagar nada. Meu filho me disse que lá pagam 40 reais para ficar em uma prancha com um remo. Meu jovem, aqui eu ainda volto com peixe pro jantar. Então pra quê eu vou querer viver em um lugar que vai me induzir ao sacrifício do meu precioso tempo por causa de coisas não preciso?

Vivo aqui, trabalhando no que eu realmente gosto e me sinto bem, por isso sei que andar todas as manhãs por essas ruas não é em vão. Trabalho pelo o que é necessário para se levar uma vida boa, além de viver em um lugar tranquilo. Claro que deve haver aquelas que são felizes com o estilo de vida que levam nesses lugares, mas não é algo atrativo para mim.

Tá certo, as pessoas tem a liberdade de rumar o caminho que achar conveniente. Assim como eu, que escolhi o simples, a calmaria de um lugar. Mas o que quero dizer é que quanto menos criarmos expectativas de que o mundo nos trará felicidade com seus produtos pouco duráveis – o que as grandes cidades oferecem –, mais vamos apreciar aquilo que é belo. Por exemplo: experimente ver o nascer do sol de frente pro rio, e me diga como se sente. Simplicidade autêntica, onde mora a felicidade. Mas poucos param pra ver que os ‘produtos’ que realmente precisamos, Deus já criou há tempos. Estão aí para quem quiser, e nem precisa pagar. ”

Depois da conversa, somente refleti sobre a vida que levo.