Eu tive que fugir

Você não sabe garota, mas tão logo te vi, já fiquei fixado na tua. Você veio como a cereja do bolo, menina… Estava preparado para o que viria, mas não havia me preparado para esbarrar em você e, confesso, fiquei atordoado com a tua presença feminina e teu perfume importado. Tentei, a todo custo, desviar meus olhos dos teus e focar naquilo que me era importante, mas você ativou minha visão periférica de tal forma que me distraí consecutivas vezes, quase perdendo o fio da meada em cada uma delas.

Eu tinha muito mais por brigar e por dizer, mas me contive devido a tua presença ali, tão num canto e esquecida, mas que enchia a sala inteira. Era tudo você ali, cada milímetro daquele espaço, cada partícula de ar estava impregnada da tua presença. Meus olhos, ansiosos, me traíram algumas vezes, desviando-me ao encontro teu, carregando o ar com puro desejo.

Algumas vezes vi a graça com que você se escondia atrás dos cabelos e, ali, tive a certeza que cada olhadela minha não havia passado despercebido da intuição tua e o meu jogo ficou divertido. Era prazeroso ouvir as borboletas que se alvoroçavam em teu estômago e o leve tom rosado que corava tuas bochechas, ainda que involuntariamente.

Entenda, garota, eu tive de sair assim que pude. Estava a um fiapo de cometer algum tipo de insanidade e, sendo assim, fui longe. Longe do teu perfume, longe do teu sorriso, longe da tua voz arrastada e bonitinha. Sentindo muito, sentindo demais.

Eu me forcei a pôr a razão à frente de todas as coisas. E agora sozinho neste apartamento, remoendo cada pedaço teu que minha memória foi capaz de absorver, sinto a culpa evaporar dos poros…

Ah se eu tivesse me permitido…

 

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Por que a fuga?

(Você pode ouvir ao som de Always)

Desligo a luz, te desejo boa noite – mesmo que em pensamento –  e desabo sobre o travesseiro. Vou dormir com aquele sentimento de que deveria deixar pra lá, parar com isso, esquecer um pouco o martírio ou evitar que tudo imploda dentro de mim mais uma vez. Talvez se eu deixasse pra lá a ferida ardesse menos, entende? Bobagem, porque não tem fuga quando a coisa da qual a gente tenta fugir mora dentro da gente. Acho que é por isso que eu não consigo nem quero te esquecer.

Te desejo bom dia e logo depois passo por você. Talvez você não tenha percebido que eu sempre te desejo em todas as coisas que eu faço. Você abana e sorri e o mundo fica mais bonito nos quinze minutos seguintes, até que passa o efeito de êxtase com morfina que o teu sorriso me traz. É incrível essa tua forma de me ter mesmo sem fazer esforço, mesmo sem fazer nada, sem mover um pé, enquanto eu moveria montanhas pra quebrar essa barreira de nós dois. Já passou pela tua cabeça que é burrice fugir daquilo o que te faz bem?

Se você deixasse de lado esse jeito comedido de viver a vida, esse medo que você tem de se arriscar e se ferir de novo, talvez a gente pudesse ser feliz. É que eu também já me feri bastante, meu bem, já sofri pra caramba e por um monte de gente menos importante que você. Mas o amor é isso, não é? A gente encarar as feridas, encarar qualquer possibilidade de sofrer e encontrar no outro alguma coisa que justifique a entrega, que justifique todos os fracassos anteriores e faz imaginar que talvez a gente não tenha dado certo com ninguém antes, porque o nosso abrigo é aqui.  Eu entendo o teu medo, o teu receio, mas não entendo a fuga, a reclusão. Se trancar daquilo o que faz bem é auto-sabotagem, meu bem.

Talvez dia desses você perca essa mania boba de se trancar do mundo por medo de sofrer. Talvez perceba que entre o oito e o oitenta existem setenta e duas possibilidades de ser feliz. Talvez perceba que essa fuga necessária nem é tão necessária assim, e que eu tô aqui, sou diferente de todos os caras que passaram pela tua vida. Como eu sei disso? Eu não teria passado, teria ficado por você. Ficaria agora se você deixasse, ficaria até o café ficar pronto e ficaria pra sempre. Ficaria até você não me aguentar mais e ai sim eu entenderia a fuga; até arranharia um trecho de Bon Jovi pra te fazer rir e te contar que é pra sempre, até as estrelas não brilharem, os céus explodirem e as palavras não rimarem.

Eu sei que eu preciso aprender a caminhar sozinho, mas se não tiver você, vou caminhar pra onde, entende? Dia desses  você me olha de canto e percebe que se trancar do mundo e fugir de mim  talvez não seja o melhor pra você. Sabe por que, meu bem? Porque como eu te disse, eu sou diferente dos outros caras que passaram pela tua vida. Eu não teria ficado por você. Eu fiquei.

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