Decidi partir

Eu decidi partir numa manhã ensolarada de domingo. Tinha ensaiado uns discursos tortos para te dizer, mas não havia nada — de fato — para ser dito. Como que se diz adeus à um amor que deveria ser para sempre? Arrumei as malas enquanto você dormia. As coisas estavam todas sob controle. Eu tinha começado pelo supérfluo, sabe? Guardei as meias, as calças, uns pijamas velhos. Guardei meus sapatos e meu chinelo, embrulhado numa sacola qualquer. Eu tinha juntado tudo ali, naquela manhã de domingo, enquanto você dormia e, realmente, estava tudo indo bem… Até que esbarrei nas memórias. Até que esbarrei nas nossas fotografias…. Até que esbarrei no nosso ‘pra sempre’.

Foi então que descobri que arrumar as malas não seria a melhor forma de organizar a nossa história. Adiantaria se eu levasse embora todos os meus pertences, e deixasse para trás um amor que sempre nos pertenceu? E se você ficasse ali, ocupando todo o espaço da cama, o que sobraria do imenso espaço que você ainda ocupava dentro de mim? Logo eu que sempre te quis por perto, logo você que sempre quis ser par, logo nós que sempre fomos um?! Seria injusto, sabe? Seria injusto com você, comigo, seria injusto com esse nosso amor que não merecia partir, assim, de mansinho, a passos cuidadosos, como quem tem medo de acordar um sentimento que sempre esteve vivo dentro de nós…

Olhei para a mala semivazia aos meus pés. Olhei para teu sono tranquilo. Meu coração, ao contrário, estava cheio e palpitava descontrolado. Eu queria fugir, sabe? Queria carregar o que era meu, sair sem olhar para trás e seguir a vida sem esse sentimento louco gritando no peito… Era uma manhã ensolarada de domingo e eu, que acordei decidido a partir, percebi que ir embora também me deixaria partido.

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Como deixamos isso acontecer?

Acho que a ficha só foi cair realmente quando você bateu a porta. 
 
Eu, apenas com uma mochila nas costas, me vi sem chão. Sem apoio. Sem rumo. E então todo um filme me passou pela cabeça. 
 
Como deixamos tudo isso acontecer?
 
Como transformamos todo aquele amor em uma relaçãozinha fajuta?
 
Como perdemos nossa intimidade de carícias?
 
Muitas perguntas. Nenhuma resposta. 
 
Éramos felizes. Cumplicidade era algo que nunca nos faltou. Você adorava me contar o seu dia, e eu  a ouvia com toda atenção. Nada forçado, era puro interesse em saber tudo sobre você. Até os mínimos detalhes. E havia reciprocidade. 
 
Em qual parte do caminho deixamos de nos interessar pela vida do outro? 
 
Nossos gostos são incrivelmente parecidos. Pearl Jam, Engenheiros do Hawaii, Tarantino, Bukowski, Alan Poe, estrogonofe. Cerveja importada, praia no verão, serra no inverno. 
 
Fazíamos das coisas simples o pilar da relação. 
 
Por que tudo isso foi deixado pra trás?
 
Foram incontáveis vitórias contra esses obstáculos da vida. Trabalho, faculdade, provas, cursos nos finais de semana. Sempre que nossos horários nos desafiavam, dávamos um jeito de driblá-los e vencermos. Ainda que fosse um encontrozinho de dez minutos, já teria um valor enorme pra nós dois. 
 
Tempo resumia-se à eternidade quando repousávamos no peito do outro. 
 
Onde foi que abandonamos toda essa cumplicidade?
 
Amigos chegados a uma boa cerveja eu tenho aos montes, mas você sempre foi minha melhor parceira de copo. Não havia frescuras. Fosse em um bom pub ou em qualquer boteco de esquina. Voltávamos pra casa abraçados, depois um bom banho e o merecido descanso. 
 
E todos aqueles planos para o futuro? Já havíamos pensado em dois ou três amigos para serem nossos padrinhos. Recorda? Eu me simpatizo com uma cerimônia na praia. Você não abria mão da igreja. Gato ou cachorro? Casa ou apartamento?
 
Todas essas expectativas foram vividas ao teu lado. 
 
E agora, ao ouvir o barulho da chave trancando a porta, tudo isso se transforma em dolorosas lembranças. 
 
Nos perdemos pelo meio do caminho. Havia toda uma mistura de sentimentos em nossos olhos marejados.

Será que daqui a algum tempo encontraremos as respostas?

Será que um dia conversaremos sobre tudo isso?

Será que quando as emoções estagnarem, conseguiremos entender nossos palavrões e nossas frases impensadas?

Ao bater o portão do seu prédio, torci pra que você estivesse me olhando pela janela. Não virei pra trás. Mas torci.  

Eu te vi ir embora

Já faz tempo que não te vejo mais. Você partiu em direção ao mundo dos seus sonhos, me deixando em outro, completamente diferente.

Soube que você me esperou aquele dia, no aeroporto. Que me odiou ao perceber que eu não iria me despedir. Acontece que eu já havia me despedido, porque eu te vi ir embora.

A cada resposta curta. A cada diálogo monossilábico. A cada beijo gelado. A cada silencio no jantar. A cada furo na hora de sair. A cada olhar distante. Eu vi cada pedaço do teu amor por mim se esvair. Eu te vi deixar de se importar, então eu decidi não te ver partir fisicamente. Porque a sua alma já havia partido muito antes.

Você me amava, mas dormiu bem naquela noite. E eu que jurava não sentir tanto assim, senti tanto que não consegui pegar no sono. Parece que no fim nós realmente descobrimos a verdade. 

Você jurava que não conseguia sem mim. Conseguiu. Eu dizia que seria pra sempre. Não foi. Você dizia que sempre estaria aqui. Não está. Você disse que sempre lembraria de mim. Não lembra mais. Você jurou que a amizade não acabaria junto com o amor. Foram embora de mãos dadas. Você dizia não mentir. Mentiu todas essas vezes. Eu jurei que jamais escreveria um texto desses pra você. Escrevi.

Sabe, aqui já passou de meia noite. Ontem fez um ano. Repeti todos os passos, inclusive fui naquele lugar. Aquele, onde te conheci. E me perdi.

Não sei ao certo, mas a ferida ainda existe. Coloquei meu melhor vestido e minha sapatilha nova. Faz frio, mas não tanto como naquela vez. Ainda bem, porque agora você não está mais aqui pra me abraçar.

Rostos conhecidos me empurram nessa multidão, mas nenhum deles se parece com o seu. E por mais que eu saiba que isso não vai mais acontecer, sinto um frio na barriga ao pensar na chance de te encontrar de novo. Saudade. Antes era tudo tão diferente. Seu cheiro e seu corpo faziam tudo parecer melhor. Mais bonito.

Um vazio cheio de tristeza me deixa aqui, parada. Voltando para casa no mesmo carro em que voltei no passado, com um sorriso gigante no rosto. Esperando que um dia você fosse se lembrar de toda nossa história mágica e maluca. Faz um ano e eu ainda espero.

Amanhã terminaremos tudo

Amanhã terminaremos tudo. 

Na próxima alvorada, nossos planos se extinguirão. Nossas promessas bonitas de mesas de bar e de poltronas de cinema virarão fábulas. Seus olhos, diante de mim, fecharão para sempre. Não riremos nem implicaremos mais um com o outro. É amanhã. Amanhã seus lábios recolherão seus desejos. Seus olhos olharão pra mim e avistarão um estranho. Ou um inimigo. Amanhã sua ausência passará  a ser dor. Uma dor que fará morada aqui dentro. Você não se preocupará mais em me lembrar de pagar as contas. Eu não lhe trarei mais café pela manhã. Não ouviremos nada mais além do eco de nosso adeus. 

Será amanhã. Nem um dia a mais. A noite será mais longa. A madrugada me aprisionará na cama. Suas costas viradas serão meus olhos implorando descanso. As paredes do meu quarto serão labirínticas. Não encontrarei saída. Enxergarei você na janela, no porta-retratos, no lado esquerdo da minha cama. Os restaurantes que frequentávamos e os bares onde sorríamos juntos serão punhais cravados em meu peito. É amanhã. Quando a noite adormecer, nada mais existirá. 

Essas são as nossas últimas horas. No próximo amanhecer nos desconheceremos. Haverá o receio de nunca termos caminhado. De nunca termos visto à frente. De nunca termos dado as mãos. Amanhã seremos apenas um. Seremos pontos extremos. Criaremos ilusões de que tudo pode mudar. Apenas ilusões. Procuraremos as respostas, mas estarão a milhas de nós. Nossos braços jamais alcançarão novamente um ao outro. Meus olhos perderão o brilho amendoado de você. Desconhecerei o verdadeiro gosto de sua pele. 

Passaremos dias em claro buscando compreender os motivos. Talvez não existam. Talvez estejam diante de nossos olhos. Vagaremos feito sonâmbulos em busca do  inexplicável. Notaremos  ter plantado passados sem colher futuros. Seremos nada além de recordação. De uma doída recordação. Nas recaídas choraremos dúvidas. As respostas serão nossas carnes vazias.

Meus olhos não enxergam nada mais além de ponteiros. Ponteiros de nossos últimos resquícios de tempo. Enxergo a velocidade com que são compassados. Os ponteiros são carrascos incansáveis. Despejam angústias ao apontar suas lanças. Os ponteiros arrancarão o derradeiro suspiro de nós dois. É amanhã. Amanhã terminaremos tudo. Amanhã terminaremos, talvez, o que nunca teve início. 

O que sobra depois que o amor acaba? 

Para muitos, se acabou, não era amor. Papo furado. É preciso entender que o que acaba não é o amor, e sim a velha forma com que amamos a pessoa quando a conhecemos. Todo o resto continua. A convivência corrói e constrói ao mesmo tempo; passamos a gostar dos defeitos e cansar da rotina que tanto nos fazia bem. É um rito de passagem que quase sempre traz grandes aprendizados, mas que também pode ser responsável pela volta de grandes amores. E isso só você pode escolher. 

Os que escolhem tirar algum aprendizado de todo o tempo vivido juntos fazem questão de deixar claro que mesmo no fracasso, não foi uma perda de tempo. Na verdade, tiveram muitos momentos bons. É um termo muito usado pelos que desistiram de tentar por algum motivo. Não julgo. Desistir é muito mais difícil do que se parece e exige muito mais coragem do que se imagina. Ao desistir, não desistimos da pessoa. Desistimos dos sentimentos que costumávamos ter em relação à ela. Não quer dizer que o muro todo tenha desabado. Você só trocou alguns tijolos de lugar, diminuiu alguns espaços. Mas sabe que ainda resta muita coisa construída. Muitos sentimentos que farão você voltar lá sempre, para ver se ele ainda está de pé.

A segunda opção sempre me atraiu mais, sempre escolho aquilo que ainda necessita de reparos para seguir em frente. Nunca gostei de ter ou conviver com algo que já estivesse pronto. Gosto de ter trabalho, de me sujar, de me cansar, de tomar porres pensando na solução do problema, principalmente nos que não têm solução alguma. É uma falsa esperança, mas que ainda faz o nosso coração pulsar muito mais do que a certeza de um caminho em linha reta. Mas é um caminho difícil, pode significar solidão, suor, e provavelmente, o fim do que ainda lhe restou de paciência. É apenas mais um desses casos em que os fins justificam os meios. Com uma diferença, esse fim pode ser a continuação de algo que nunca deveria ter terminado, e que após ter sido reparado, vai ficar mais forte do que nunca.

Independente do caminho escolhido você vai ver que muita coisa sobrou. E o que realmente era amor, não chegou nem perto de acabar. Nunca acaba.
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