Filosofia de bar

Mas é claro que não só de coisas boas vive um bar. Ao longo dos anos, posso dizer que a grande maioria dos momentos são felizes, é claro, mas há sempre aquele momento em que alguém precisa afogar um pouco as mágoas.

Ele veio aqui, semana passada. Estava feliz e orgulhoso com o novo relacionamento e ela também parecia bem feliz. Juntos, formavam um belo casal, desses de novela – a gente nunca sabe o que está acontecendo por trás do que vê, mas quando olha acha que vai ser amor eterno; não foi.

“Boa noite, meu amigo”, disse fingindo não ver que não estava muito bem. “Blanche de Bruxelles, como sempre?”. Ele me olhou e por alguns instantes não disse nada. “Traz algo mais amargo dessa vez…”, falou tomando ar.

O que quer que fosse tinha sido sério. Ele não admirava sabores mais amargos em suas bebidas. Salvo em momentos de profunda tristeza, em que bebia algo mais alcóolico, como um drink a base de Campari ou Gyn, era extremamente raro vê-lo pedir algo amargo. “Mas que seja cerveja”, completou deixando-me ainda mais preocupado.

Servi a ele uma de minhas cervejas favoritas, Sculpin da americana Ballast Point.  Não demorou muito e logo pediu outra, deixando claro que a noite seria bem longa. E foi. Já passava de 1 da manhã quando mudamos para a estação de Jazz e Blues, costume daqui do bar para atender a todos os públicos.  E ele ainda bebia. Olhou para mim e me chamou à sua mesa.

“Pode se sentar por alguns minutos? O bar já está vazio e preciso conversar com alguém…”, perguntou. De fato, era o último cliente e já havíamos organizado muito do que era preciso para fechar o bar. “Claro, pois não.”, respondi tentando ser menos formal.

Então me contou toda sua história.

Nos últimos meses, tinha saído de um relacionamento. “Nada sério. Mas, às vezes o amor simplesmente acaba… Sabe como é?”, acenei que sim. Pelo que dizia, o trabalho e a rotina do dia-a-dia os tinha afastado de tal forma, que ambos começaram a conhecer outras pessoas e se apaixonaram fora do relacionamento. Terminaram por respeito mútuo e ninguém sofreu, coisa rara nos dias de hoje.

Entre uma cerveja e outra, chegamos ao que de fato tinha trazido ele aqui. “Eu sou apaixonado por ela. Ela sabe disso. Mas, me apaixonei por ela e outra pessoa ao mesmo tempo.”, disse quase chorando.  O álcool tem dessas coisas; como dizemos por aqui “O álcool entra; a verdade sái.”. Parecia muito sincero, embora um tanto inusitado. Sendo sincero, não sei se acredito em se apaixonar por várias pessoas ao mesmo tempo. Mas, acho que não é impossível.

“Eu não sei exatamente como, mas isso aconteceu. Amo as duas. Ela não entende isso. Não que eu queira ter um relacionamento com as duas, mas talvez tivesse com a outra também, se tivéssemos tido mais contato.”

Aquilo soou ainda mais estranho para mim, mas não quis me meter. Ora, estava claro que a atual namorada tinha descoberto esse segundo amor e não se sentia segura – quem sabe até mudando seu status para ex-namorada. Pensando bem, quem se sentiria seguro em um relacionamento em que o parceiro ama outra pessoa, também? Mas, por outro lado, ele já havia feito uma escolha. Estavam felizes semana passada. Se completavam perfeitamente e não parecia de forma alguma que o mundo de um seria completo sem o outro.

“Não sei como vou resolver isso.”, disse como se quisesse minha ajuda. Sugeri que sentassem e conversassem o máximo que pudessem sobre. Por aqui, vejo que muitas vezes o que falta na verdade é um bom jogo, com cartas claramente distribuídas sobre a mesa, entre amigos, parceiros de negócios, casais e até amantes. “Nada melhor que um bom diálogo para deixar tudo claro, meu amigo. Posso trazer mais uma e a conta?”, já era hora de fechar o bar. Ele fez que sim, “Traz sem copo que eu levo a garrafa e vou andando. Desculpe tomar seu tempo”. Sorri e apenas disse, “se todo problema do mundo fosse uma conversa com um amigo…”.

Ele pagou e foi embora, meio cambaleante com sua cerveja. Deixou para trás, em minha cabeça uma inquietação. Amar é bom. Mas, na situação do meu amigo, sinceramente não sei dizer se é bom ou ruim. Nunca pensei nisso. Bom, já é hora de ir embora e hoje não vou sozinho. Iremos a três para casa: minha cerveja, eu e a nova dúvida. “Afinal, quantas pessoas se pode amar ao mesmo tempo?”.

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