Eu fiquei amigo da minha ex. E agora?

Antes de mais nada, gostaria de deixar bem claro que nunca, em momento algum, foi minha intenção deixar que tal situação acontecesse em minha já complicada vida. Acredito que, para quem leva o amor como sentido e direção de tudo o que faz, tais circunstâncias nada mais são do que ossos do ofício.

Vamos ao que interessa: hoje, exatamente às 06h11, dia 7 de abril de 2017, posso afirmar, sem medo de represálias, que sou um dos melhores (se não o melhor) amigo de minha ex-namorada. Alcançamos um patamar tão alto e tão intenso que aconselho aos que não têm corações e estômagos fortes para que deixem o recinto.

O início da história, acredito eu, é bem clichê: eu gostava dela, estávamos bem felizes, etecetera e tal, mas, um belo dia, ela resolveu dizer adeus e terminou. Justo, normal, vida que segue. Um velho dilema ressurge na cabeça dos abandonados toda vez que estes levam um pé na bunda: será que eu corto 100% a comunicação com a minha amada ou sigo falando com ela, mostrando que sou um rapaz assaz maduro e compreensivo, embora, por dentro, meu coração esteja mais rachado do que espelho estilhaçado? Bom, eu tentei os dois.

A fase do gelo não durou muito, mas serviu para uma espécie de compreensão do luto e me impulsionou em algumas viagens por lençóis nunca antes desbravados. Sentimento, sentimento mesmo, não rolou. O que é bom (ou ruim?). Depois de alguns meses, de forma quase natural, voltamos a conversar. E muito. Chegamos a um ponto em que, se bobear, estávamos nos falando mais do que quando dividíamos o mesmo edredom. Ó céus, que drama. Onde fui me meter?

O sentimento por ela, outrora adormecido e congelado, começou a receber, novamente, estímulos, cada vez mais fortes e intensos. Dentro de mim, uma voz mais sensata tratava de me avisar: “isso vai dar merda”. Enquanto a outra, que tenta ser mais otimista, me dizia: “você já superou isso tudo, mostre a ela como amadureceu e como podem ser dois belos e bons amigos!”.

Show de bola! Vamos ver no que vai dar essa bagunça. Pessoas que conversam sempre, uma hora, acabam por se encontrar; pessoas que se encontram sempre, uma hora, acabam bebendo: pessoas que bebem sempre juntas, uma hora… Bem, deu para entender que a vaquinha dirigiu-se ao brejo. Os beijos foram inevitáveis, o sexo também e os carinhos da mesma forma. Mas, como num choque necessário de realidade, no dia seguinte, ela me tratava como se absolutamente nada tivesse acontecido. Rolou algo sim, mas e daí?

Bom, hoje eu me encontro num limbo sentimental deveras complicado. Vou resumir: eu ainda a amo e não tenho como negar isso. Ela, pelo que transparece, curte minha companhia e, de vez em quando, não vê problemas em ficar comigo. Para bom entendedor, já deu para sacar que existe uma discrepância abissal entre sentimentos nessa situação. Embora não seja recomendável, quando se trata de amor verdadeiro, eu sou como uma pomba: contento-me com migalhas (pruu). Ao mesmo tempo, me reservo ao direito de me distrair e ocupar minha cabeça com outras coisas (escrever, por exemplo), para que essa nostalgia amorosa não me contamine por completo. Se eu deixar, amigo, o triplo Câncer do meu mapa astral me joga na vala.

Há alguns dias atrás, falei para ela, de forma indireta, que ainda a amava. Ela fez alguns comentários enigmáticos. Nossas conversas ficaram estranhas por algumas horas e, depois, como num passe de mágica, tudo voltou ao normal. Show de bola. Cá estamos de volta a estaca zero. Onde isso tudo vai dar? Não tenho a menor ideia. Não espere conselhos, advertências ou qualquer sorte de diretrizes de minha parte: sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no bolso, com 24 anos e um coração do tamanho do mundo. Beijos.

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Última carta ao meu ex-namorado

A verdade é que não existe saudade nos braços de outro alguém. Você não podia ter ido assim deixando tanto de você por aqui. Mas eu precisava seguir em frente, entende, eu não podia te esperar pra sempre. Eu te enxergava em cada rosto por cada esquina que cruzava, te sentia em cada abraço que costumava receber em dias carentes.

Por que não ficou? Eu fui tão péssima assim contigo? Eu me dei e me doei tanto. Injustiça tua ter deixado mútuas lembranças em cada canto que costumávamos passar. Hoje, meu “eu”, sem teu “você”, desconstruiu o “nós” que tanto precisava. Se não tinha intenção de ficar, nem batia na porta do meu coração revirando minha alma desse jeito. Garoto, você não sabe o quanto dói um Eu te amo jogado no mar a naufrágio.

Hoje, me livrei do teu travesseiro que ainda exalava seu cheiro por todo quarto, escondi nossa foto no porta-retrato que insistia em me encarar todos os dias de manhã. Arrumei a casa, a alma, e o coração. Meu erro, foi testar a profundidade do rio com os dois pés enquanto você nem os seus molhava. Foi me doar por inteiro, enquanto você queria metade. Eu quis amor, você, paixão. Eu quis fazer teu coração de morada, você, só quis alugar uns momentos do meu. Eu quis o infinito, você o efêmero.

Eu troquei uns móveis de lugar, e algumas certezas também. Pois o coração se faz de bobo, mas vez em quando, sabe a hora de renovar seus moradores.

Pedro