Não namore um escritor

Mamãe sempre me disse: ‘Filho, conselho se fosse bom a gente não dava, vendia’ . Mas eu não pegava o casaco quando ela mandava, então mesmo assim vou dar esse conselho:
NÃO NAMORE UM ESCRITOR. Assim, em caixa alta mesmo, pra chamar sua atenção. Eu sei, vivemos numa democracia e cada um faz o que der na telha, mas por falta de aviso não foi.
Escritores como eu se encantam pelas coisas mais simplórias. São crônicas, textos, poesias, poemas e sonetos. Caso não queira ser protagonista de um, siga o meu conselho.
Tudo está em constante observação, desde a forma como prende seu cabelo, até o sorriso despretensioso, do olhar cheio de ternura e da forma como faz as coisas com zelo.
Namorar com um escritor é ter em sua aliança gravado ‘musa inspiradora’ e ter a certeza que a cada dia, coisas novas serão escritas a seu respeito. Não simplesmente para agradar, mas por acontecer naturalmente e pelo nosso prazer de ver o sorriso que se desenha nos seus lábios quando percebe que é você dentro de cada linha.
Não namore um escritor. Case-se com um! Junte seus medos às incertezas dele, dividam a casa, a cama e a vida. Tenham um quintal e reguem as flores com amor e poesia.

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Eu tive que fugir

Você não sabe garota, mas tão logo te vi, já fiquei fixado na tua. Você veio como a cereja do bolo, menina… Estava preparado para o que viria, mas não havia me preparado para esbarrar em você e, confesso, fiquei atordoado com a tua presença feminina e teu perfume importado. Tentei, a todo custo, desviar meus olhos dos teus e focar naquilo que me era importante, mas você ativou minha visão periférica de tal forma que me distraí consecutivas vezes, quase perdendo o fio da meada em cada uma delas.

Eu tinha muito mais por brigar e por dizer, mas me contive devido a tua presença ali, tão num canto e esquecida, mas que enchia a sala inteira. Era tudo você ali, cada milímetro daquele espaço, cada partícula de ar estava impregnada da tua presença. Meus olhos, ansiosos, me traíram algumas vezes, desviando-me ao encontro teu, carregando o ar com puro desejo.

Algumas vezes vi a graça com que você se escondia atrás dos cabelos e, ali, tive a certeza que cada olhadela minha não havia passado despercebido da intuição tua e o meu jogo ficou divertido. Era prazeroso ouvir as borboletas que se alvoroçavam em teu estômago e o leve tom rosado que corava tuas bochechas, ainda que involuntariamente.

Entenda, garota, eu tive de sair assim que pude. Estava a um fiapo de cometer algum tipo de insanidade e, sendo assim, fui longe. Longe do teu perfume, longe do teu sorriso, longe da tua voz arrastada e bonitinha. Sentindo muito, sentindo demais.

Eu me forcei a pôr a razão à frente de todas as coisas. E agora sozinho neste apartamento, remoendo cada pedaço teu que minha memória foi capaz de absorver, sinto a culpa evaporar dos poros…

Ah se eu tivesse me permitido…