Amanhã terminaremos tudo

Amanhã terminaremos tudo. 

Na próxima alvorada, nossos planos se extinguirão. Nossas promessas bonitas de mesas de bar e de poltronas de cinema virarão fábulas. Seus olhos, diante de mim, fecharão para sempre. Não riremos nem implicaremos mais um com o outro. É amanhã. Amanhã seus lábios recolherão seus desejos. Seus olhos olharão pra mim e avistarão um estranho. Ou um inimigo. Amanhã sua ausência passará  a ser dor. Uma dor que fará morada aqui dentro. Você não se preocupará mais em me lembrar de pagar as contas. Eu não lhe trarei mais café pela manhã. Não ouviremos nada mais além do eco de nosso adeus. 

Será amanhã. Nem um dia a mais. A noite será mais longa. A madrugada me aprisionará na cama. Suas costas viradas serão meus olhos implorando descanso. As paredes do meu quarto serão labirínticas. Não encontrarei saída. Enxergarei você na janela, no porta-retratos, no lado esquerdo da minha cama. Os restaurantes que frequentávamos e os bares onde sorríamos juntos serão punhais cravados em meu peito. É amanhã. Quando a noite adormecer, nada mais existirá. 

Essas são as nossas últimas horas. No próximo amanhecer nos desconheceremos. Haverá o receio de nunca termos caminhado. De nunca termos visto à frente. De nunca termos dado as mãos. Amanhã seremos apenas um. Seremos pontos extremos. Criaremos ilusões de que tudo pode mudar. Apenas ilusões. Procuraremos as respostas, mas estarão a milhas de nós. Nossos braços jamais alcançarão novamente um ao outro. Meus olhos perderão o brilho amendoado de você. Desconhecerei o verdadeiro gosto de sua pele. 

Passaremos dias em claro buscando compreender os motivos. Talvez não existam. Talvez estejam diante de nossos olhos. Vagaremos feito sonâmbulos em busca do  inexplicável. Notaremos  ter plantado passados sem colher futuros. Seremos nada além de recordação. De uma doída recordação. Nas recaídas choraremos dúvidas. As respostas serão nossas carnes vazias.

Meus olhos não enxergam nada mais além de ponteiros. Ponteiros de nossos últimos resquícios de tempo. Enxergo a velocidade com que são compassados. Os ponteiros são carrascos incansáveis. Despejam angústias ao apontar suas lanças. Os ponteiros arrancarão o derradeiro suspiro de nós dois. É amanhã. Amanhã terminaremos tudo. Amanhã terminaremos, talvez, o que nunca teve início. 
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Para você que está com o coração sangrando

Olha, eu sei que está doendo. Sei que a vontade de seguir em frente, nesse exato momento, esvaiu-se completamente. Sei que os olhos que antes brilhavam de sonhos e vontade, agora encontram-se embaçados pelas lagrimas que teimam em não cessar. Dia e noite, não importa o momento, a dor grita. O peito aperta. O corpo pede cama. Os pensamentos se embaralham e você não consegue mais saber para onde ir, o que fazer com tudo isso que acontece dentro de ti e, muito menos, se vai passar.

Eu sei…Eu sei o quanto tudo isso está sendo difícil. Sei do quanto você queria voltar no tempo e fazer algo diferente, achando que, de alguma forma, evitaria todo esse sofrimento que te assola. Sei que na sua cabeça, nesse momento, realidades paralelas teimam em se fazer presentes, te fazendo acreditar que se tivesse feito de tal forma, tudo isso seria diferente. E eu queria poder tirar tudo isso que te maltrata. Queria poder arrancar cada dor e ter em mãos o remédio para que tudo isso cicatrize em segundos. Eu queria muito.

Mas, por favor, presta atenção no que escrevo. Vou usar aquele clichê que você já deve ter ouvido muito na vida, principalmente nos últimos dias, mas não se chateie comigo. É que o famoso “vai passar” não pode ser esquecido por você nesse momento. Isso vai doer, estraçalhar, nocautear você, mas vai passar. Porque não há ferida nessa vida que não cicatrize, por mais marcas que deixem. Por mais que demore e que você insista em não acreditar, feridas se fecham, sim! Mas você também precisa se ajudar. Sei que não é momento para te pedir muita coisa. Mas eu só te peço isso, que você queira sair dessa e que deixe qualquer ajuda bem intencionada se aproximar de ti. Não precisa fingir que está bem, não queira tapar o sol com a peneira. Sinta a dor e deixe a lágrima cair, não há mal nenhum nisso.

Mas não desista. Porque a vida não desistiu de você. Deixe que a tristeza fique por um tempo, mas, aos poucos, vá se entendendo com essa danada e fazendo-a entender que ela não pode ficar por tanto tempo. Comece a perceber que, embora você não tenha controle cem por cento do que sente, em algum momento você é capaz de controlar o que pode ser feito com tudo isso. E é aí que as coisas começam a se ajeitar. Ficar na fossa faz parte, perder a vontade e o ânimo durante um tempo é normal. Mas isso não pode perdurar. Externe o que sente, não guarde para você. Converse com Deus, Ele te ouve. Escreva, cante, dance. Peça a presença dos seus amigos. E aos poucos vá se permitindo… Comece a fazer aquela dieta que há tanto tempo está sendo adiada. Vá para aquele show que tanto desejava e que finalmente vai acontecer em sua cidade. Vá, aos poucos, mas vá.

Entregue nas mãos da vida quem te magoou. Quem te feriu. Lave sua alma e tire todos os rancores, dessa forma você irá conseguir sentir-se mais leve. Não é fácil, mas não é impossível.

O que eu diria se o mundo acabasse hoje

Se o mundo acabasse hoje, provavelmente diria estas mesmas palavras que digo agora. Não posso explicar de onde elas vêm, nem pra onde irão depois da destruição, mas o fato é que preciso dizê-las. Contrariando a lógica comum, esperava o fim do mundo ― na verdade ansiava por este dia mais que qualquer outra criatura na terra. Afinal, o fim não pode ser isso tudo que dizem. Para ser sincero, nos últimos tempos, tenho vivido uma hecatombe a cada segunda-feira. Recomeçar, seja lá o que for, é desgastante e não há alma humana capaz de suportar tantos problemas reais. Sinto um enorme desconforto em admitir, mas tudo que queria agora era fugir: para o quinto dos infernos, talvez; qualquer lugar é melhor que aqui e agora. Enquanto escrevo, nenhum meteoro cruza o céu anunciando a desgraça geral; mesmo assim espero.

Na minha última noite insônia procurei por minha alma embaixo na cama ― só encontrei ácaros e um sapato velho, que já não cabe mais no meu pé 42, e que hoje serve de abrigo para um casal de baratas. Olhando para aquelas criaturinhas cascudas e asquerosas, senti pena delas. Li alguma coisa na internet que dizia que as baratas seriam as únicas sobreviventes da extinção em massa. “É um capricho de Deus!”, pensei furioso. De todas as criaturas na terra, por que escolher logo a barata? Um ser sem vida ― para muitos até sem alma ― e que passa a existência em busca de migalhas e rastejando na penumbra dos quartos vazios. É muita sacanagem! Além de suportarem tudo isso o direito de reclamar ― direito esse, aliás, que julgo necessário para qualquer ser vivente ―, estão condenadas a carregar, sozinhas, a ressureição da vida num planeta devastado e condenado ao nada. Acho que Ele pegou pesado desta vez. Ou não: quem sabe o Divino escreve certo por linhas tortas? Pode ser que Deus só seja um autor ruim mesmo, não é verdade? Vai que não sabe mais que fim dar aos nossos personagens e decide agora acabar com tudo, como quem embola uma página e recomeça a narrativa, e dar novo sentindo pras coisas, ou fazer tudo diferente. Como não sou dono de nada, nem mesmo deste nariz ― que tantas vezes julguei ser meu, mas que hoje vejo apenas como mais um de meus incontáveis defeitos físicos ― sinto-me aliviado de ter sido a barata do meu sapato-velho a escolhida para reconduzir a vida na terra! Se tivesse que reconstruir essa quiçaça de planeta, nem saberia por onde começar. Provavelmente por mim mesmo: um nariz menor, que seja verdadeiramente meu seria bom…

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Durante toda minha vida acredite no amor, é verdade! No entanto, foi vencido pelo exagero. Para mim era inconcebível se amar pelas metades, gostar só um pouquinho, ou trocar carinhos miúdos. Sempre queria mais, tudo no aumentativo, no plural. O problema é que quanto mais me multiplicava, sobrava menos de mim. Fui como uma ponte que depois de matar a sede de uma população inteira secou e tudo que sobrou foi um poço seco e vazio de pó. Como o mundo não acabou, talvez tenha tempo de aprender a dar o mínimo de mim e a receber menos ainda ― se é que ainda sobra em mim alguma coisa parecida com amor. Não sou perfeito, carrego comigo um sem-número de defeitos e imperfeições, mas sonhava em usar amor como um curativo, como um balsamo que seca ferida. A verdade é que só consegui me cortar ainda mais. É preciso admitir: amores certos em pessoas erradas são como veneno. Enveredam por cada canal sanguíneo e espalha suas pequenas farpas que matam, uma a uma, a esperança de sermos felizes ao lado daqueles que nos completam. Se o mundo acabasse hoje, essa seria a principal lição que carregaria para o outro mundo ― se é que ele existe.

Há tanto para ser dito, tanto para ser registrado, eternizado… Talvez inicie um diário daqui pra frente, já que o mundo não acabou. Registrar as dores, amarrá-las com papel e caneta pode ser sadio para o coração. Me senti tão pequeno e diminuído que nem mesmo quando desejei, desesperadamente, o fim de tudo, ele não me foi concedido. É assim mesmo que as coisas funcionam? Quanto mais se anseia por algo, mais nos distanciamos? O fato é que nada depende de nossa vontade diretamente. Não estou eliminando o pensamento positivo, nem as boas vibrações. Essas coisas podem até funcionar, mas têm de ser usadas na medida certa, com as coisas certas. Para fugir, como pude constar, de nada adiantará…

Bom, acho que já chega de devanear numa folha de papel, mesmo porque o mundo continua girando, girando… Não sei disse tudo que deveria dizer, não sei mais seria isso mesmo que diria se o mundo acabasse, mas eu já disse e ele não acabou. Se amanhã chegar tudo ao fim, com certeza terei novas coisas para compartilhar com o infinito. A vida, no fim das contas, são correntes infinitas, que dão num mar desconhecido, que um dia se evapora e se torna chuva e a chuva rega um novo recomeço. Como diria Shakespeare, “estar preparado é tudo”, seja lá por vier…

FIM…

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Segui em frente e não vou mais lhe esperar

Esperei pelo beijo depois da briga, só tivemos brigas, esperei na porta do cinema para a estreia daquele filme que você sabia o quanto eu estava ansiosa para assistir, um balde de pipocas amanteigada fora minha única companhia. Esperei que me convidasse para irmos de mãos dadas ver o sol se pôr, e me encontro nas areias da praia contemplando solitariamente, mais um luar, você? “- Deve estar atrasado, mas em breve irá chegar”.

Esperei tanto, que a espera se tornou pesada e tediosa, então eu esperei pelas suas desculpas, algo haveria de justificar tanto descaso, porém nem me iludir mais você se dava o trabalho, o trânsito estava cheio, meu patrão me fez fazer hora extra, o periquito da minha tia avó precisou de cirurgia cardíaca, quis sua companhia e ao invés disso, sua ausência se fez notar, juntamente com o silencio brutalmente intragável, de namorados passamos a dois tristes estranhos solitários.

Esperei que me amasse, lidei com o seu desprezo, esperei pelo seu sorriso, encontrei um rosto fechado e distante, esperei pelo pedido de casamento, você me apresentou sua amante.  Chorei por dias a fios, esperei que a dor passasse, em mim ela decidiu fazer morada, sem pressa alguma de partir, esperei por um pedido de desculpas, tive que encarar a sua felicidade estupidamente estampada em todos os cantos para onde quer que eu olhasse.

Esperei por nosso futuro, tive que conviver com você se transformando em passado. Esperei pelo seu arrependimento, lidei com suas vanglorias. Esperei pelo dia que eu te esqueceria, e de repente recebo algo totalmente inesperado. Você em minha porta, me pedindo para voltar.

Você na minha frente, dizendo que estava cansado das porradas do mundo, e implorando pelos meus cuidados, você que estava cansado de prazeres banais ali estava desejando o meu amor, você que se sentia perdido, voltou me dizendo que eu era o seu cais, você que sempre debochou de todos as minhas declamações, estava ali, de joelhos em minha porta jurando que queria que eu fosse o seu par.

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Você que eu já não lembrava mais da cor dos olhos, ou da intensidade do sorriso, do afago das mãos e muito menos da sensação de casa preenchida, me explicava incansavelmente a quanto estúpida tinha sido as suas escolhas, você que me virou as costas e me negou o seu amor, hoje me suplica dizendo que sou a mulher de sua vida, que fez besteiras e que eu preciso lhe perdoar.

A você que tanto me pediu para que eu seguisse em frente e viesse a te esquecer, sinto lhe informar, mas não te quero mais por aqui.

– Não me ama mais?

– Esperei por esse dia, incontáveis vezes, inventei tantas desculpas para o seu desdém, que chegou ao ponto de eu não saber mais qual era a minha realidade, e notei que as desculpas são apenas a nossa válvula de escape, sempre estivemos quebrados, eu que demorei para notar. E hoje eu sei que o tempo que nos ajuda a superar e seguir em frente independentemente de termos aprendido a lição, ou recomposto os pedaços de nosso coração, não está à venda.

Assim como um pedido de desculpas depois de algo que realmente nos feriu tem a mesma utilidade que um peixe usando uma bicicleta. Cuidado. Todos pedem perdão, mas não são todos os “vamos passar uma borracha no que passou”, que realmente são encontrados numa gôndola de supermercado, ou nas minhas vontades.

Existem marcas que nem o mais sincero pedido de desculpas é capaz de surtir o efeito, aprecie, cuide, nem tudo que se quebra é favorável a um conserto, e no nosso caso Pedro, me desculpa, mas eu cansei de te esperar, então eu lhe superei.

Adeus!

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Eu sei que dói

Finais felizes, começos tristes… Começos tristes, finais felizes… Com o tempo tudo sendo bom ou ruim, passa! Ajudando você a se tornar talvez, uma pessoa mais esperta e fazendo daquele presente um passado. E sabemos disso porque são, inevitavelmente, nos momentos ruins que sempre nos deparamos com aqueles famosos textos de autoajuda, mas a questão é… E durante toda essa crise, angustia e duvida?

Dói. Meu Deus, como dói. Se ver sozinho no meio de tantas pessoas, triste em qualquer ocasião e saber que só é da sua parte todo esse sofrimento. Dói entregar-se e perceber que no final não recebeu nem metade do que um dia depositou. Chorar talvez vire algo rotineiro por alguns dias e a cada choro ira sentir-se mais vazio, ou melhor, cheio. Cheio das boas lembranças que virão à tona, dos sorrisos dados e dos momentos memoráveis cheio de esperanças futuras que momentaneamente nenhuma outra pessoa seria capaz de realizar. Arrisco-me a dizer que essa parte é a mais dolorosa. Porque no fim aceitamos a decisão, mas ainda nos martirizamos involuntariamente, perguntando incessantemente “por que não eu?”.

Pessoas que se julgam especialistas te dirão que isso é fase ou até mesmo loucura, mas não se deixa influenciar. Porque cremos que não existe tempo para amar, muito menos para esquecer alguém.

Eu sei que terá dias difíceis e em outros que mantê-la em sua mente será a única forma de ajudá-lo a passar o dia. Mas eu acredito em você, e digo com toda certeza que a cada amanhecer existe uma chance para ser feliz, e só você pode escolher como será a sua historia a partir de agora. Saiba escolher os caminhos proveitosos e não desperdice a sua vida! 

PS: Estamos juntos nessa!

A mensagem que eu não mandei

Eu sei, já está tarde. Quase 4h da manhã. Você deve estar dormindo e sonhando com seus amores platônicos do mundo das celebridades. Mas é que eu queria tanto te acordar com o barulho de uma mensagem… O barulho é suave, prometo não te assustar. É que a madrugada está me torturando e a insônia não está querendo ir embora, são 3h15 da manhã de uma sexta-feira e meus seriados já não são capazes de apaziguar minha ansiedade.

Você me pediu para não lhe procurar e eu disse que não o faria, mas entende o quão difícil isso é para mim? É torturante não acordar com uma mensagem tua no meio de um cochilo no sofá da sala. É estranho sair do trabalho no meio da noite e não poder te ligar para perguntar se você vai querer a pizza de sempre ou vai preferir mudar o cardápio.

Eu queria poder sair daquele balada sem graça e aproveitar a bebedeira para te ligar e me declarar. Queria te mandar áudios das nossas músicas ou te recitar um poema do Vinícius. Queria poder te encontrar no meio da noite, bater na sua porta de madrugada e te pedir que me proteja do frio. Queria deitar contigo, olhando um filme qualquer, gargalhando e se acarinhando. Queria acordar com teus carinhos em meus cabelos e com seus olhos atentos esperando eu acordar. Queria te ter ali, em minha frente, ao menos mais uma vez.

E olha só que coincidência, amanhã sua banda preferida toca numa cidadezinha aqui perto e eu aposto que você está louca de vontade de ir. E se eu te ligar e te disser que eu te levo, que eu vou contigo, pulo, danço e até canto aquelas músicas que você me fez enjoar de tanto ouvir? E se eu te disser que eu não vou me importar com seus gritos desesperados por aquele cantor estranho que você insiste em chamar de lindo? É que eu só queria ver teu sorriso mais uma vez.

Eu só queria poder te escrever uma daquelas minhas mensagens longas e cheias de sentimentos que só você entende e aguenta. Queria te dizer tantas coisas, mas a cada vez que começo a escrever, sua foto do Whatsapp parece me perguntar: “Não lembra do acordo que fizemos?”. E isso me tortura. Dói não poder te procurar…

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Merecida dor

Pela quinta noite consecutiva você se senta neste mesmo balcão e pede um Scott. As doses se acumulam assim como as bitucas de cigarro. A brasa queima o dedo, o lábio e o peito. Você foi capaz de beber, em um único gole, toda a tenebrosa escuridão. Encher a cara dentro de casa não foi alento. Todos os cômodos, móveis, cantos, tudo te lembrava ela. A solução foi fugir, todas as noites, para embriagar-se pelos botecos da região.

Ela te trocou por outro e essa afirmação dilacera suas entranhas. Ainda é possível ouvir o bater da porta e o silencio gritante que ela deixou para trás. Dói, eu sei. Nada faz a ferida arder menos e isso é mesmo uma grande ironia do destino. Como pode, agora você, sentir tamanha dor? Como pode queimar a pele de maneira tão cruel quando, na verdade, era você quem feria?

Sombrio e desolado você já não vê luz no fim do túnel e pensa que chegou ao fim da linha. Jamais imaginou que ela faria as malas e partiria para os braços de outro alguém. Aquela casa está vazia demais sem ela e você, desorientado, não consegue seguir em frente. Eu entendo. Perder um amor assim: deixa a gente estarrecido. Os dias se tornam noite e a lua, maldita, ilumina quando você não quer, nunca mais, encarar a realidade. As ruas não te levam a lugar nenhum e a chave já não abre mais a mesma porta. São calabouços que abrigam frio e vazio. Dói, queima, arde.

Ela era sua. Cuidava da sua casa, das suas roupas e das suas noites. Massageava seus pés e seu ego. Te fazia um cafuné e, ao acordar, preparava um café quente. Aceitava seus porres, suas mentiras e até os desaparecimentos repentinos. Sempre acabava te recebendo de braços abertos. Era amor, não era? Ou era medo?

Hoje ela sorri nos braços de outro e não pensa em você. É justamente isso que te deixa possesso. Ela teve coragem, meu amigo. Ela resgatou as forças do fundo do poço, onde você a arremessou, e voou para longe. Para um abraço que a abrigasse. Ela não permitiu que seu punho tocasse seu rosto novamente. Ela cansou de apanhar e encerrou a sessão de golpes e pontapés. Cansou de remediar as feridas e fazer novos curativos a cada rompante seu. Ela desistiu de implorar para que você parasse. Todo sangue derramado foi em vão. Ela não permite mais abusos. Toda a violência que você despejou nesta mulher a transformou em fortaleza. Nos braços do amor ela superou a dor de toda a tortura. A brutalidade, então se findou. Ela assinou a própria carta de alforria e, hoje, é você o escravo a dor.

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