Passaporte

Na manhã amarga de segunda, juntei o resto de vontade que me restava e fui em busca do que ainda faltava na mala. Durante todo o trajeto, refiz diálogos em minha cabeça, revi todo nosso tempo juntos em um piscar de olhos. Até estacionar em frente ao número 23. Aquela rua simpática já não era mais tão acolhedora. Olhei de dentro do carro, sabendo que seria a última vez que entraria naquela casa.
Respirei fundo e fui. Abri a porta com cuidado e quando menos esperava, você estava lá. Não deveria estar no trabalho? Escolhi essa hora justamente para que a gente não precisasse passar por isso. Desculpa não ter avisado antes, mas queria evitar mais uma dor. Vim só buscar algumas coisas que deixei pra trás e que agora vou precisar. Vai ser rápido. Ficaram alguns sorrisos aqui na sala, de quando a gente se sentava no chão para contar nossas histórias e planejar aventuras pelo mundo. Tem aquelas receitas de carinho na cozinha… eram elas que salvavam nossos dias cinzas e tristes. Uma pitada de cuidado e muita coisa mudava né?!
Deixei também uns sais energizantes pra alma, ali no banheiro. Lavavam não só a pele, mas tudo que nos pesava depois daqueles dias intensos. Banhos de renovação e esperança. Limpeza de sentimentos. Agora, no quarto, talvez demore um pouco. Tem mais coisas do que eu imaginava. Esse armário cheio de desejos que construímos juntos… aquela gaveta das nossas descobertas instigantes. Na estante, caramba! Quanta paixão materializada e nossos mimos comemorando o amor.
Ah, o amor… está nessa cama.
Nela e em tudo que vivemos aí: da primeira à última vez, das lágrimas seguidas do abraço confortante, das gargalhadas na guerra de travesseiro ao sussurro no pé do ouvido. Dias e noites compartilhando espaço, alegrias, medos, sonhos… debaixo da coberta e da vida. Ela com certeza é nossa melhor amiga, guardando os segredos mais íntimos que tivemos.
Tantas lembranças que não estão cabendo na mala. Vou deixar algumas com você, ok? Acho que peguei tudo que precisava e que era meu por direito. Sejamos justos!
Ah! Já tava me esquecendo! Dentro da escrivaninha estão nossos passaportes e preciso pegar o meu. Vou embora em três dias. Meu visto pra reconstrução da vida já foi liberado. Agora deu certo e é definitivo.
O país ficou pequeno, sabe? Parece que você está em cada esquina. Em cada café da avenida. Em cada lugar que vou. A solução é ir pra longe, bem longe.
Se eu estou fugindo? É… pode ser que sim. Mas é uma fuga consciente de quem já não aguenta mais esse vício. É a cartada final. Com tudo novo, espero não ter tempo de ficar revirando o passado. Sem culpa, nem peso. Entendi seu lado, então agora, entenda o meu. Enfim, preciso ir. Apesar de tudo, agradeço por quem fomos. Não foi antes e provavelmente não será agora. Mas com a distância, é mais fácil ter licença para recomeçar. Ela está em nossas mãos.
Boa vida que virá! Bom futuro! Boa nova versão de si, meu bem! Pelo menos uma coisa boa ficou: a gente aprendeu que é preciso viver.
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Ressaca do adeus

Oi…Primeiramente, lhe peço desculpas. Sei que costumava habitar as profundezas de vossos lençóis e era frequentador assíduo de sua cama. Infelizmente, devo lhe dizer que este tempo acabou.

É clichê, mas é inevitável: o problema sou eu e não você! A frase é piegas, mas seu significado é puro e verdadeiro. Estou numa fase “surfista” de relacionamentos. Todos os dias, eu me levanto, pego a minha prancha preferida na prateleira e vou atrás de “picos” novos, surpreendentes e desafiadores. Por muito tempo, você foi minha praia secreta, meu paraíso particular, minha Pipeline sem “haoles”.

Surfei, dropei, peguei tubos no seu corpo. Dentro de seus aposentos, fui campeão mundial, não só uma, como várias vezes. E foi sublime. Enquanto deslizava pelos seus cabelos, te tomava com a delicadeza de uma marola e te devorava com a voracidade de um tsunami. O gosto salgado do seu corpo me lembrava o mar. E o que mais poderia ser?

Como todo surfista, há a alma do ser humano nômade dentro de mim. Depois de um tempo, o swell já não era mais o mesmo. A sua pele, que me servia de john, já não era suficiente para me aquecer. Era chegada a hora de procurar outro spot.

Não fique triste, meu doce pedacinho de areia. Os caldos que levei durante todos esses anos no oceano me fizeram provecto. Sei reconhecer, com todas as nuances, quando o mar já não me desperta desejo. Sou solitário e surfista.

O grande Tim já fez às vezes de minhas explicações:

“Eu bem que te avisei pra não levar a sério

O nosso caso de amor

Eu sempre fui sincero e você sabe muito bem

Eu não te prometi nada

Não venha me cobrar por esse amor

Pois esse sentimento eu não tenho pra te dar”

Quem sabe um dia eu volto, apenas para surfar nas curvas magníficas de suas ondas. Por enquanto, decreto lay day e lhe deixo. Cuide bem de seus olhos de ressaca.

  

Eu não vou voltar

Me desculpe se o que eu vou falar agora vai parecer forte, seco e como se tivesse uma faca atravessando teu coração, mas por favor, presta atenção: Eu não vou voltar, ponto.

Ponto não, desculpa, era “pronto”, pra dizer que eu tenho convicção e não quero que isso tome uma grande proporção, pra tornar tudo isso mais fácil de aceitar e menos doloroso pra ti. Eu preciso dizer que não nasci pra ficar do teu lado, que nós não podemos viver acreditando que tudo o que você quer voltar a viver vai ser igual ao nosso passado. Sabe, é que eu já me encontro tão bem em outro lugar, tão amado, tão dedicado e recebo tanta atenção, que esse amor que estou vivendo agora (acho que é o primeiro, antes era só “acho que é amor”, agora tenho certeza) tirou tudo aquilo que um dia me fez sofrer e machucou meu coração.

Sabe, eu não carrego mais você aqui e quero que você tire isso da tua mente, tire de dentro do teu coração. É que vai te machucar ainda mais ficar alimentando uma falsa esperança, uma ilusão. Me perdoa se um dia nós dois confundimos com amor, o que era tesão. Mas eu preciso te dizer: Eu não vou voltar, não.

Não vou voltar para ver o seu ciúme, não vou voltar para aguentar suas crises, não quero mais uma discussão e uma irritação por minuto, pelo amor de Deus, alguém veio, me trouxe de volta ao chão, me puxando pelos pés e, agora que sei o quanto é bom aproveitar a vida, quero ficar longe desse stress. Agora, desiste de mim, você ainda tem muitas coisas para aprender lá fora.

“E se a saudade bater? ”

– Saudade é que nem gripe, um dia passa.

“Que nem gripe, me explica isso agora!”

– Feche os olhos, não adianta ficar acordada.

Gripe, durante a noite, só piora.

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