Chegadas também são partidas

“A hora do encontro é também despedida”, já dizia Milton Nascimento. Se despedir dói, ? Em menos de um mês, alguns amigos juntaram suas coisinhas e resolveram cada um seguir seus novos rumos, ou nem tão novos assim. Me despedir de alguém é sempre difícil, não importa o cenário. Se existe algo que tenho plena certeza é de que em caso de dor em se despedir, é porque valeu a pena tê-la por perto em alguns vários momentos.

Não somos treinados a lidar com as idas que a vida nos impõe, o pior é que nem sempre é algo inédito, deveríamos encarar essa situação com mais naturalidade, afinal, um outro lado, receberá quem de alguma forma gostamos de ter encontrado no caminho da vida. Novo lugar, novas pessoas, novas experiências, a vontade de fazer dar certo lá noutro canto e a saudade que sente quem fica aqui a esperar o retorno.

Mudanças nos permite amadurecimento, evolução, portas abertas. Novos ares. Em mundo de Whatsapp ainda é possível sentir falta do face to face, do barulho dos copos se chocando no boteco no “saúde!”, do dia em que a falta de festa reunia a galera na casa de um amigo para contar piada sem graça, beber cerveja e tocar Raul. Em algum momento, quando decidem voar mais alto, vai se tornando menos frequente e o medo de nunca mais encontrar bate à porta incansavelmente até você perceber que entre quilômetros e afetos calorosos, o segundo sempre terá muito mais peso que o outro. Deixe ir, deixe encarar outro universo, outras avenidas, deixe voltar quando der, puder, quiser. Saia daqui e vá também. Para amenizar o desconforto de ter de se distanciar, tenha em mente que um outro espaço terá a alegria de receber quem foi. Milton Nascimento, realmente tem razão.

E assim todo dia era primavera

Ele acorda, dava – lhe um beijo na testa, “Bom dia minha linda”. E ia para a cozinha. Cheiro de café quentinho invadia a casa e entrava em suas narinas.

Ela se espreguiçavatoda na cama, olhava para o lado e sorria. As flores estavam balançando no jardim, ele já havia afastado as cortinas para o lado, sabia que ela gostava da claridade invadindo o quarto de manhã.

Seguia para a cozinha e lhe abraçava, dava – lhe um beijo, agora já com hálito de hortelã. “Bom dia meu amor”. A mesa estava pronta, café quente, leite morno, pães e a presença dos dois.

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Conversavam e riam. Assuntos sérios talvez, conversas bobas demais e um enorme sorriso no rosto. Ela cortava o pão inteiramente ao meio, sabia que era assim que ele gostava, já fazia centenas de dias que repetia esse gesto.

Se separavam pra trabalhar. Uma jornada diária de 8 horas de trabalho e saudades. Um ‘Oi’ na hora do almoço e um ‘Que o dia passe logo’.

Mas á tarde. Ah, a tarde.. Ela vinha radiante ao seu encontro. Um beijo demorado, abraço apertado e um brilho no olhar. Tomavam banho e se esticavam juntos no sofá. Mais conversas, mais risos tirados e sorrisos compartilhados.

O jantar era banquete, com fartura de amor. De sobremesa carinhos. Olhos nos olhos e vinho. Como desculpa a primavera se tornava inverno. Gostavam de dormir agarradinhos. E assim todos os dias se tornavam primavera.

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O que eu diria se o mundo acabasse hoje

Se o mundo acabasse hoje, provavelmente diria estas mesmas palavras que digo agora. Não posso explicar de onde elas vêm, nem pra onde irão depois da destruição, mas o fato é que preciso dizê-las. Contrariando a lógica comum, esperava o fim do mundo ― na verdade ansiava por este dia mais que qualquer outra criatura na terra. Afinal, o fim não pode ser isso tudo que dizem. Para ser sincero, nos últimos tempos, tenho vivido uma hecatombe a cada segunda-feira. Recomeçar, seja lá o que for, é desgastante e não há alma humana capaz de suportar tantos problemas reais. Sinto um enorme desconforto em admitir, mas tudo que queria agora era fugir: para o quinto dos infernos, talvez; qualquer lugar é melhor que aqui e agora. Enquanto escrevo, nenhum meteoro cruza o céu anunciando a desgraça geral; mesmo assim espero.

Na minha última noite insônia procurei por minha alma embaixo na cama ― só encontrei ácaros e um sapato velho, que já não cabe mais no meu pé 42, e que hoje serve de abrigo para um casal de baratas. Olhando para aquelas criaturinhas cascudas e asquerosas, senti pena delas. Li alguma coisa na internet que dizia que as baratas seriam as únicas sobreviventes da extinção em massa. “É um capricho de Deus!”, pensei furioso. De todas as criaturas na terra, por que escolher logo a barata? Um ser sem vida ― para muitos até sem alma ― e que passa a existência em busca de migalhas e rastejando na penumbra dos quartos vazios. É muita sacanagem! Além de suportarem tudo isso o direito de reclamar ― direito esse, aliás, que julgo necessário para qualquer ser vivente ―, estão condenadas a carregar, sozinhas, a ressureição da vida num planeta devastado e condenado ao nada. Acho que Ele pegou pesado desta vez. Ou não: quem sabe o Divino escreve certo por linhas tortas? Pode ser que Deus só seja um autor ruim mesmo, não é verdade? Vai que não sabe mais que fim dar aos nossos personagens e decide agora acabar com tudo, como quem embola uma página e recomeça a narrativa, e dar novo sentindo pras coisas, ou fazer tudo diferente. Como não sou dono de nada, nem mesmo deste nariz ― que tantas vezes julguei ser meu, mas que hoje vejo apenas como mais um de meus incontáveis defeitos físicos ― sinto-me aliviado de ter sido a barata do meu sapato-velho a escolhida para reconduzir a vida na terra! Se tivesse que reconstruir essa quiçaça de planeta, nem saberia por onde começar. Provavelmente por mim mesmo: um nariz menor, que seja verdadeiramente meu seria bom…

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Durante toda minha vida acredite no amor, é verdade! No entanto, foi vencido pelo exagero. Para mim era inconcebível se amar pelas metades, gostar só um pouquinho, ou trocar carinhos miúdos. Sempre queria mais, tudo no aumentativo, no plural. O problema é que quanto mais me multiplicava, sobrava menos de mim. Fui como uma ponte que depois de matar a sede de uma população inteira secou e tudo que sobrou foi um poço seco e vazio de pó. Como o mundo não acabou, talvez tenha tempo de aprender a dar o mínimo de mim e a receber menos ainda ― se é que ainda sobra em mim alguma coisa parecida com amor. Não sou perfeito, carrego comigo um sem-número de defeitos e imperfeições, mas sonhava em usar amor como um curativo, como um balsamo que seca ferida. A verdade é que só consegui me cortar ainda mais. É preciso admitir: amores certos em pessoas erradas são como veneno. Enveredam por cada canal sanguíneo e espalha suas pequenas farpas que matam, uma a uma, a esperança de sermos felizes ao lado daqueles que nos completam. Se o mundo acabasse hoje, essa seria a principal lição que carregaria para o outro mundo ― se é que ele existe.

Há tanto para ser dito, tanto para ser registrado, eternizado… Talvez inicie um diário daqui pra frente, já que o mundo não acabou. Registrar as dores, amarrá-las com papel e caneta pode ser sadio para o coração. Me senti tão pequeno e diminuído que nem mesmo quando desejei, desesperadamente, o fim de tudo, ele não me foi concedido. É assim mesmo que as coisas funcionam? Quanto mais se anseia por algo, mais nos distanciamos? O fato é que nada depende de nossa vontade diretamente. Não estou eliminando o pensamento positivo, nem as boas vibrações. Essas coisas podem até funcionar, mas têm de ser usadas na medida certa, com as coisas certas. Para fugir, como pude constar, de nada adiantará…

Bom, acho que já chega de devanear numa folha de papel, mesmo porque o mundo continua girando, girando… Não sei disse tudo que deveria dizer, não sei mais seria isso mesmo que diria se o mundo acabasse, mas eu já disse e ele não acabou. Se amanhã chegar tudo ao fim, com certeza terei novas coisas para compartilhar com o infinito. A vida, no fim das contas, são correntes infinitas, que dão num mar desconhecido, que um dia se evapora e se torna chuva e a chuva rega um novo recomeço. Como diria Shakespeare, “estar preparado é tudo”, seja lá por vier…

FIM…

flavio

Carta de adeus

Minha amada,

Não posso ir embora para sempre sem, antes, me despedir de você. Foram tantos anos juntos. Estive sempre tão presente na sua vida que não consigo imaginar como será após minha partida definitiva. Preciso dizer tudo que tenho engasgado aqui, tudo que me fez desistir de você assim, tão radicalmente. Estou abandonando você porque sei que sempre te fiz mal. Muito mal. Minhas intenções eram boas, eu queria te proteger. Te guardar de qualquer mazela ou dor que o mundo pudesse lhe causar. Cuidar de você sempre foi minha prioridade e fui cego ao não perceber que, na verdade, eu te impedia de lutar.

Você, linda, sempre se escondeu atrás dos meus braços e, mesmo aos prantos, sabia que ali estaria acolhida, mas com o tempo as coisas mudaram. Com o passar dos anos você descobriu que eu não era assim, tão imprescindível. Descobriu novas experiências, novos amores, novas sensações e aos poucos foi me afastando de você. Por vezes me revoltei com sua distância e lhe questionei com violência. Você ponderava meus argumentos e súplicas e sempre me deixava voltar, mas logo se afastava novamente. Essa batalha para permanecer no seu coração foi ficando difícil e desgastante.

Você não se importa mais comigo. Eu cansei. Cansei de nadar contra a sua coragem. Já não sou mais tão forte. Você me superou. Não me deixa mais participar das suas decisões, não me permite fazer visitas, não escuta mais meus gritos e menos ainda meus sussurros. Sei que faz de propósito, que quer que eu entenda, de uma vez por todas, que você não me quer mais. Dói, mas é bom saber que você me derrotou depois de tanto apanhar. Eu nunca lhe feri diretamente, mas te impedi de viver o que o universo lhe reservava. Isso lhe fez sangrar. Perdão.

Estou partindo da sua vida depois de partir, tantas vezes, o seu coração. Agora você pode jogar minhas correntes fora, está livre. Pode me apagar, me esquecer e pensar que eu realmente já não existo mais em você. Sei que você ainda vai pensar em mim e se lembrará de tudo que eu lhe disse um dia, mas não deixe que essas lembranças impeçam você de viver plena e ser feliz. Você merece. Me perdoe por toda dor e frustração. Te quero bem, sempre quis.

Agora é hora de ir, não quero mais rivalizar com sua doçura, seja feliz!

Ass: Seu medo

MONIKAJORDAO

Boa sorte

Pode ir, não quero manter você aqui contra sua vontade. Se você prefere assim, pode ir. Sem reciprocidade nada faz mais sentido. O olho não brilha mais, o encanto se acabou e a magia se perdeu, você está coberto de razão, tem que ir mesmo. Não precisa vir com mil desculpas e aquele papinho de “o problema sou eu” ou “você é a pessoa certa na hora errada”. Já somos adultos e sabemos o que aconteceu: Você não quer mais. Você!
Eu já previa seu discurso, a relação andava fria. Tentei reconquistar, aproximar, reestabelecer conexão, mas fui tudo em vão. Não posso dizer que estou surpresa, mas confesso que a esperança é, mesmo, a última que morre. Eu ainda esperava pela mudança e quis acreditar que era tudo coisa da minha cabeça. A gente sabe a verdade mas prefere fantasiar. Agora é oficial, você vai e eu estou livre. Livre dessa angústia, desse medo, desse aperto no peito. Chega! Acabou. Não vou mais fingir que estamos bem. Estou em cacos faz tempos e agora não vou mais estampar um falso sorriso.
Eu vou sofrer, a ferida aberta hoje vai arder, lágrimas queimarão meu rosto e o arrependimento vai rasgar meu peito. Vou chorar por ter deixado você partir, mas vai passar. Eu me viro, afogo as mágoas em algumas doses e em poucos meses estou recuperada. Talvez seja melhor pra mim.
Fique tranquilo. Não vou pedir para os nossos amigos falarem com você, não vou ligar para sua mãe e muito menos postar indiretas nas redes sociais. Não sou dessas. Vou seguir como fazia antes de você chegar. Porém, agora, com novas lembranças. Boa Sorte.

Tempos depois…

Saudade? Está arrependido e quer voltar?
Esqueça. Já funcionamos juntos, mas isso foi há muito tempo atrás. Eu sofri horrores, passei noites em claro, me senti a pior mulher desse planeta e agora, que estou recuperada, você quer uma nova chance? Não dá. O mundo deu suas voltas e nós fizemos curvas diferentes. Você, com seus desejos efêmeros seguiu sozinho e eu, romântica, fui em busca do meu mundo. E nesse mundo atual não há espaço para você. Não mais.
Nosso fim não abreviou meus sonhos, não ameaçou meus planos, não arruinou meus sorrisos e não encurtou meus passos. Chance foi o que você me deu quando se afastou e me libertou do caos que vivíamos juntos. Quer um conselho?
Siga em frente sem olhar para trás. Foi o que eu fiz para superar você.

Mais uma vez, Boa Sorte.

monika

Hoje eu acordei e senti sua falta

 

Hoje eu acordei procurando por você na cama, o olhar meio embaralhado não deixou que eu te encontrasse, meus braços se sentiam vazios, sem o seu peso sobre eles e eu, preocupado e sozinho, sem condição alguma, decidi levantar da cama.

Levantei porque queria ter você aqui, queria sentir o teu perfume, seus lábios tocando a minha bochecha e seu corpo sendo envolvido pelo meu abraço logo após um bom dia, dito espontaneamente bem no seu ouvido. Eu queria te ver usando a minha camisa, que foi a primeira coisa que você encontrou no quarto antes de sair para ir até a cozinha e preparar o nosso café como forma de agradecimento por algo que, na verdade, era eu quem deveria ter te agradecido.

É como diz aquela música do Detonautas, sabe? Hoje eu acordei e te quis por perto. Mas foi difícil, eu não dormi ao seu lado, não arrumei seu travesseiro junto ao meu e nem tive aquele carinho sobre o meu corpo antes de dormir, enquanto você escora a cabeça aqui, colado do meu ombro. Eu queria a maciez do seu toque e a pureza que o seu olhar me traz, mas querer, meu bem, querer não é poder e disso, nesse momento, eu tenho certeza.

Então, eu decidi voltar.

Voltei para a cama para poder sonhar.

Afinal, eu preciso te dizer, convenhamos:

Nem todos os sonhos que realizamos dormindo são fáceis de se realizar depois que acordamos.

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Adeus, menina

Oi. Surpresa ao me ver? Sei que deve achar estranho eu reaparecer agora, aqui na sua frente, sem avisar. Mas preciso tirar esse peso de mim e te livrar dessas amarras que não te deixam seguir em frente.
É, eu sempre fiquei calado enquanto você se descabelava e não parava de me procurar, com seus discursos intermináveis. Eu fugia, confesso. Quantas vezes te deixei falando sozinha mesmo?! E você sempre voltava. Mas agora preciso falar, mesmo que doa. Está preparada?
Eu não te amo.
Na verdade, acho que nunca te amei. Você apareceu em um momento em que eu estava apagado, desanimado e trouxe luz. Sim, é verdade. Mas não era amor que eu sentia. Eu gostava de você, gostava da sua companhia, do seu beijo, dos carinhos. Mas não era amor, era carência. Você me ofereceu com tanta vontade, o que eu não tinha… não pude recusar.
A gente se divertiu bastante, quebrou algumas regras, arriscamos nossas cabeças, nos entregamos. Mas não era amor, era fetiche. Quem não se excita ao viver assim? Fizemos planos, falamos de futuro, de encontro de almas. Mas não era amor. Era da boca pra fora, no calor do momento. Eu sempre soube que não ia vingar. E você sonhou demais, pra variar. Que segurança você tinha pra mim? Você não sabe o que quer, nem pra onde vai. Eu já estou nessa vida há tempos.
Calma. Não me odeie por te dizer tudo isso. Eu não disse antes, porque era cômodo tê­-la por perto, confesso. Sempre esperando por mim e se derretendo quando eu dizia que estava com saudades ou que você era única. Mas não era amor. Era ego. E todos esses joguinhos no momento certo, te fisgavam e te faziam ficar.
Sei que errei. Vi você cada vez mais envolvida, apaixonada e completamente vulnerável. Te vi desmoronar com o fim, vi a luz que trouxe, se apagar. Achei até que estava louca. E ainda sim mantive suas esperanças, porque isso me fazia sentir mais forte. Mais poderoso. Desejado.
Desculpa levar tanto tempo para finalmente te dizer tudo que já deveria ter dito. Desculpa por todas essas lágrimas. Desculpa pelo sofrimento. Essa dor eu realmente não queria ter levado a você, mas foi consequência do seu amor doentio. E da ausência do meu retorno.
Espero que agora consiga enxergar que não temos futuro. Era qualquer coisa, mas não era amor. Essa é a verdade que você tanto quis ouvir e eu evitei dizer.
Depois de tudo isso, talvez não acredite, mas você é linda e me inspirou. Siga sua vida. Foi isso que fiz e muita coisa mudou por aqui, sabe?! Faça o mesmo.
Adeus, menina. Agora posso voltar ao silêncio.
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Passaporte

Na manhã amarga de segunda, juntei o resto de vontade que me restava e fui em busca do que ainda faltava na mala. Durante todo o trajeto, refiz diálogos em minha cabeça, revi todo nosso tempo juntos em um piscar de olhos. Até estacionar em frente ao número 23. Aquela rua simpática já não era mais tão acolhedora. Olhei de dentro do carro, sabendo que seria a última vez que entraria naquela casa.
Respirei fundo e fui. Abri a porta com cuidado e quando menos esperava, você estava lá. Não deveria estar no trabalho? Escolhi essa hora justamente para que a gente não precisasse passar por isso. Desculpa não ter avisado antes, mas queria evitar mais uma dor. Vim só buscar algumas coisas que deixei pra trás e que agora vou precisar. Vai ser rápido. Ficaram alguns sorrisos aqui na sala, de quando a gente se sentava no chão para contar nossas histórias e planejar aventuras pelo mundo. Tem aquelas receitas de carinho na cozinha… eram elas que salvavam nossos dias cinzas e tristes. Uma pitada de cuidado e muita coisa mudava né?!
Deixei também uns sais energizantes pra alma, ali no banheiro. Lavavam não só a pele, mas tudo que nos pesava depois daqueles dias intensos. Banhos de renovação e esperança. Limpeza de sentimentos. Agora, no quarto, talvez demore um pouco. Tem mais coisas do que eu imaginava. Esse armário cheio de desejos que construímos juntos… aquela gaveta das nossas descobertas instigantes. Na estante, caramba! Quanta paixão materializada e nossos mimos comemorando o amor.
Ah, o amor… está nessa cama.
Nela e em tudo que vivemos aí: da primeira à última vez, das lágrimas seguidas do abraço confortante, das gargalhadas na guerra de travesseiro ao sussurro no pé do ouvido. Dias e noites compartilhando espaço, alegrias, medos, sonhos… debaixo da coberta e da vida. Ela com certeza é nossa melhor amiga, guardando os segredos mais íntimos que tivemos.
Tantas lembranças que não estão cabendo na mala. Vou deixar algumas com você, ok? Acho que peguei tudo que precisava e que era meu por direito. Sejamos justos!
Ah! Já tava me esquecendo! Dentro da escrivaninha estão nossos passaportes e preciso pegar o meu. Vou embora em três dias. Meu visto pra reconstrução da vida já foi liberado. Agora deu certo e é definitivo.
O país ficou pequeno, sabe? Parece que você está em cada esquina. Em cada café da avenida. Em cada lugar que vou. A solução é ir pra longe, bem longe.
Se eu estou fugindo? É… pode ser que sim. Mas é uma fuga consciente de quem já não aguenta mais esse vício. É a cartada final. Com tudo novo, espero não ter tempo de ficar revirando o passado. Sem culpa, nem peso. Entendi seu lado, então agora, entenda o meu. Enfim, preciso ir. Apesar de tudo, agradeço por quem fomos. Não foi antes e provavelmente não será agora. Mas com a distância, é mais fácil ter licença para recomeçar. Ela está em nossas mãos.
Boa vida que virá! Bom futuro! Boa nova versão de si, meu bem! Pelo menos uma coisa boa ficou: a gente aprendeu que é preciso viver.
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Ressaca do adeus

Oi…Primeiramente, lhe peço desculpas. Sei que costumava habitar as profundezas de vossos lençóis e era frequentador assíduo de sua cama. Infelizmente, devo lhe dizer que este tempo acabou.

É clichê, mas é inevitável: o problema sou eu e não você! A frase é piegas, mas seu significado é puro e verdadeiro. Estou numa fase “surfista” de relacionamentos. Todos os dias, eu me levanto, pego a minha prancha preferida na prateleira e vou atrás de “picos” novos, surpreendentes e desafiadores. Por muito tempo, você foi minha praia secreta, meu paraíso particular, minha Pipeline sem “haoles”.

Surfei, dropei, peguei tubos no seu corpo. Dentro de seus aposentos, fui campeão mundial, não só uma, como várias vezes. E foi sublime. Enquanto deslizava pelos seus cabelos, te tomava com a delicadeza de uma marola e te devorava com a voracidade de um tsunami. O gosto salgado do seu corpo me lembrava o mar. E o que mais poderia ser?

Como todo surfista, há a alma do ser humano nômade dentro de mim. Depois de um tempo, o swell já não era mais o mesmo. A sua pele, que me servia de john, já não era suficiente para me aquecer. Era chegada a hora de procurar outro spot.

Não fique triste, meu doce pedacinho de areia. Os caldos que levei durante todos esses anos no oceano me fizeram provecto. Sei reconhecer, com todas as nuances, quando o mar já não me desperta desejo. Sou solitário e surfista.

O grande Tim já fez às vezes de minhas explicações:

“Eu bem que te avisei pra não levar a sério

O nosso caso de amor

Eu sempre fui sincero e você sabe muito bem

Eu não te prometi nada

Não venha me cobrar por esse amor

Pois esse sentimento eu não tenho pra te dar”

Quem sabe um dia eu volto, apenas para surfar nas curvas magníficas de suas ondas. Por enquanto, decreto lay day e lhe deixo. Cuide bem de seus olhos de ressaca.

  

Eu não vou voltar

Me desculpe se o que eu vou falar agora vai parecer forte, seco e como se tivesse uma faca atravessando teu coração, mas por favor, presta atenção: Eu não vou voltar, ponto.

Ponto não, desculpa, era “pronto”, pra dizer que eu tenho convicção e não quero que isso tome uma grande proporção, pra tornar tudo isso mais fácil de aceitar e menos doloroso pra ti. Eu preciso dizer que não nasci pra ficar do teu lado, que nós não podemos viver acreditando que tudo o que você quer voltar a viver vai ser igual ao nosso passado. Sabe, é que eu já me encontro tão bem em outro lugar, tão amado, tão dedicado e recebo tanta atenção, que esse amor que estou vivendo agora (acho que é o primeiro, antes era só “acho que é amor”, agora tenho certeza) tirou tudo aquilo que um dia me fez sofrer e machucou meu coração.

Sabe, eu não carrego mais você aqui e quero que você tire isso da tua mente, tire de dentro do teu coração. É que vai te machucar ainda mais ficar alimentando uma falsa esperança, uma ilusão. Me perdoa se um dia nós dois confundimos com amor, o que era tesão. Mas eu preciso te dizer: Eu não vou voltar, não.

Não vou voltar para ver o seu ciúme, não vou voltar para aguentar suas crises, não quero mais uma discussão e uma irritação por minuto, pelo amor de Deus, alguém veio, me trouxe de volta ao chão, me puxando pelos pés e, agora que sei o quanto é bom aproveitar a vida, quero ficar longe desse stress. Agora, desiste de mim, você ainda tem muitas coisas para aprender lá fora.

“E se a saudade bater? ”

– Saudade é que nem gripe, um dia passa.

“Que nem gripe, me explica isso agora!”

– Feche os olhos, não adianta ficar acordada.

Gripe, durante a noite, só piora.

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