Adeus à Cinderela

Eu planejei tua companhia como meu melhor lugar. Deixei escolher quais seriam os lugares perfeitos pra te encontrar. Encontrei as minhas melhores histórias pensando em te contar. Contei os dias para te ver e tive que ver a tua opinião mudar. Mudei os meus planos para não errar. Errado fui eu, que pensei que um sorriso puro não podia julgar.
Prefere procurar alguém que ainda não viveu, um livro que ninguém escreveu, um beijo que só conhece o teu e o cara que te chame de “primeiro amor meu”. Mas príncipe que espera a vida inteira para encontrar alguém, só existe na história da Cinderela, e tu não faz parte dos contos dela.
Na vida real, os objetivos são diferentes e têm mudanças frequentes. Então não confunde os teus sentimentos com teus mais antigos julgamentos. Na vida real, todo mundo erra e tem a licença poética de errar. Procurar alguém que nunca errou, só te deixa mais perto de achar alguém que contigo vai errar.
Se prefere assim, achou em mim o cara que vai aceitar ser desse jeito. Só não manda embora se sabe que na semana que vem vai pedir pra voltar. Porque tem gente que espera um pedido dessas para escapar. E depois que o tempo passa, não adianta dizer que resolveu parar para pensar.
A carta que me deu já amanheceu rasgada. E o sonho de te ter na minha vida ficou perdido logo atrás do lugar onde o meu passado fica esquecido. A pedra que me deu era colar, agora é poesia, porque ela foi parar bem perto de onde tu enxerga o primeiro raio de sol do dia.
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As verdades sobre ela

Ela é ansiosa. Ela é super agitada. Ela deita às 10 horas noite, mas não consegue dormir antes das 2 horas da manhã. Ela não escuta o despertador, porque quando pega no sono dorme feito pedra. E, mesmo assim, ainda acorda muito bem no dia seguinte. Para ela, poucas horas são mais do que o suficiente. E a história de 8 horas não é regra.

Poucas horas pra dormir, menos horas ainda pra comer, algumas pra trabalhar, outras poucos pra estudar e o resto é pra amar. Ela controla o relógio. E cada virada de ponteiro precisa ser uma novidade na vida. O papo comum vira passado. O que surpreende vira o presente, mas só até deixar de ser surpreendente.

Pode fazer um cafuné enquanto ela fica deitada no teu colo imaginando tudo que pode acontecer. Ela é o tipo de mulher que me deixa assim, o tipo que já deu nó em mim, que some sem me ver e, às vezes, ama sem dizer. Não faz poesia, embora saiba fazer. Não chama pra dar “bom dia”, mas não consegue te esquecer.

Ela investiu tempo com pessoas demais. No final, eram todas diferentes, mas com finais quase iguais. A maioria era de beijos, amores e transas normais. Até teve presentes legais, mas nenhum parecido com os dele, muito menos iguais. Só sente saudade de momentos que não se tornam banais. Ela é demais.

Ela pode ser complexa demais para tentar entender. Pode até ser difícil demais de conviver. Mas isso não é o que ela quer ouvir você dizer. A verdade é que ela quer ser ela junto com alguém fora do normal, porque ela cansou do habitual e de quem só tenta ser todo social. Ela é o que quer, não importa se para você é bom ou mau. Ela é ela e ponto final.

Ela é mulher do tipo HARD

Não é a idade, a roupa e o emprego dela. É a sinceridade do primeiro sorriso que eu vi nela. Não foi como eu vi ela, foi como ela falou comigo. Não é pelo português dela, é pela forma como ela respondeu as minhas perguntas na hora, sem pensar, criar ou planejar os próximos movimentos. Ela é do tipo que vive bem todos os seus momentos.

Não é só porque ela me olhou, é pela forma que ela olha. É como reagiu ao primeiro elogio e se demonstrou surpresa com o segundo. É pela forma como ela olha o mundo, como muda de repente e como odeia pessoa ausente. Ela é do tipo que planeja tudo que vai acontecer amanhã, mas não esquece de viver o hoje e valorizar o presente.

Ela é exatamente o que eu definiria como hard. Ou raridade. É o olho que eu quero olhar por horas, é a hora que eu quero transformar em dias e os minutos que eu quero transformar em meus. E não reclama se ela chegar atrasada, porque ela vai esperar por ti quando estiver se atrasando.

É do tipo de mulher que não tem medo de xingar o pai quando ele está errado. É ela que abraça a mãe chorando quando sente medo ou saudade de abraçar.

O meu erro foi deixar o relógio falhar e inverter os ponteiros, por isso só agora eu vi ela passar. Porque se eu soubesse que a encontraria aqui, teria esperado um pouco antes e da forma mais justa para a receber. Com todas as piadas prontas para transformar as suas indiferenças em sorrisos. E com todas reações, olhares e arrepios.

Mais uma das histórias de amor que eu vi virar

Ele cansou da rotina do dia-a-dia. Filme no cinema não era legal, a pipoca queimada, o refrigerante sem gás e não era mais tão boa a companhia. É mais uma história de um amor de uma vida que virou água em ralo de banheiro. E esse é o momento que você vê quebrar em pedaços o que parecia inteiro.

Ela lembra de cada detalhe daquele dia. O dia que ele colocou a mão em seu ombro direito pra me pedir um favor simples. Ir embora. Pediu com tranquilidade e sem uma gaguejada sequer. Não hesitou, não repensou, não pediu desculpa, não beliscou para lhe acordar do pesadelo e nem fingiu que era tudo uma grande piada. Ele só pediu pra que ela fosse embora, declarando com uma firme certeza que não desejava ver ela voltar um dia.

E não confunde a história deles com um dos clichês que você já viveu ou ouviu falar. Porque ele amou depois que não teve mais. É o que chamamos de “amor platônico”, se eu for citar algo que li na Filosofia. Você ama o que deseja e deseja o que não tem. Ou seja, quando passa a ter, o desejo acaba e amor passa a não existir também.

Então, a vida dele agora é isso. Quando ela foi para longe, ele teve que aprender a esperar sozinho na fila do banco, do mercado e do hospital. É essa a hora que o desejo volta e o amor vem. Mas essa hora já está atrasada há tanto tempo que nem o ponteiro do relógio gira mais. A pilha desse amor acabou e não pode recarregar.

Essa história começou com ela na sacada e ele na balada. Ela saindo. Ele voltando. Ela querendo. Ele fugindo. Ela insistindo. Ele mentindo. Até que tudo mudou e enquanto ela desistia, ele estava voltando. Ela ficou sorrindo. Ele amou chorando.

Última ligação

Eu liguei agora para dizer que esses são nossos 2 últimos minutos. Não vai mais ter chimarrão na praça com dois ou três casais de amigos nossos. Não vai ter fotos antigas para olhar junto comigo nos sábados à noite. Não vai ter texto sincero para te desejar bom dia. Não vai ter pizza de confete, convite para o cinema, ou visita surpresa na terça-feira.

Vai ser como carta rasgada, como passado vivido, como pessoa encontrada e cinza apagada. Não muda, não conserta e não volta mais.

O que a gente viveu são as horas que passaram e não pedem para voltar. Mentiras que eu cansei de escutar. Foi o tempo perdido da música do Legião. E os planos que sobraram agora nem existem mais. Todas as noites e dias que já passaram. Tudo o que me contaram. Todas as lamentações que começaram no passado e agora terminaram.

Tem um pouco mais de 1 minuto para escutar. Não grita, não reclama e não chora. É impossível negar a realidade quando chega a hora. E acredita, eu não queria que tivesse chegado, mas chegou. O que não era pra ser, se tornou. O que eu pensei que ia virar meu tudo, em nada virou. O dinheiro que eu gastei, eu perdi. O que eu não queria viver, eu vivi. Agora, a última coisa que eu quero é estar aí.

Só mais 30 segundos. Então aproveita essa última ligação para lembrar do melhor que viveu comigo. Ah, esquece a história de continuar amigo. Eu cansei de te ver virar as costas. Por isso, agora eu te dou as minhas de presente. Vê se da próxima vez tu repensa a opção de ser sempre ausente.

Tudo que a gente viveu, viveu pela última vez. Não tem mais domingo com a família, nem a quinta-feira das amigas. Agora a tua satisfação é toda tua, e a minha não é de mais ninguém. Não tem mais mensagem na madrugada pedindo explicação. E essa, que era pra ser só mais uma, é a nossa última ligação.

Inversamente proporcional

Não é fácil admitir que eu fico esperando tu me chamar quando acorda. E que eu acordo pensando em te dizer “bom dia”. Tu me tira a pressa de ir embora e me explica com os olhos o que é sentir saudade de alguém que ainda não saiu do teu lado. Tu é o que o meu eu de hoje quer pra sempre, mesmo que o pra sempre do hoje seja só 24 horas.

Não queria que te querer fosse tão fácil assim, e que te ter fosse inversamente proporcional à minha vontade de estar contigo. Eu só queria poder te ver mais do que eu posso. E isso dá saudade. Isso dá vontade. Isso mostra como cada detalhe de um sorriso teu não é só um passatempo, é minha nova necessidade.

Tu faz parte dos meus erros bons, aqueles que eu queria cometer todos os dias. É o meu erro que beija bem, que morde ainda melhor e que abraça de um jeito que eu não quero soltar. O erro que fala pouco, mas que sempre fala como é bom me ouvir. O erro com a respiração que eu quero sentir. O erro que chega e eu torço para não sair.

Embora escolha errado os dias de ir pra aula e já tenha errado demais ao decidir o que queria estudar. É tu que mostra como três ou quatro traços muito parecidos podem ser um desenho lindo. Embora seja difícil te encontrar, teu lado é o lugar onde eu quero estar. E já te vi em dia de chuva e na falta da lua, mas nunca de frente pro mar.

Tu é a minha dúvida. E a minha dúvida é se eu vou ter que me contentar só com o cheiro que ficou na minha roupa. Quero saber se algum dia te querer vai ser sinônimo de te ter. Porque o meu “eu” de amanhã, o da semana que vem e o dos próximos cinco anos já me disseram que ainda te querem pra sempre. Cada um dentro do seu próprio sempre, que pode ser só 24 horas, ou mais de 365 dias.

História de quem não tá inteiro em nada

Sabe qual é o meu medo como profissional? É simples. É correr tanto atrás das conquistas, que no final das contas vou perceber que abracei mais do que eu sou capaz abraçar. Se quer um exemplo mais “palpável”, aí vai ele.
Imagine que as suas principais funções e as que você melhor executa no trabalho são a sua “namoradinha” da escola. Mas você é um garotão de 17 anos, cheio de amor pra dar e é o que mais chama a atenção pelo físico e intelecto na sua sala, tanto que tem a admiração da maioria das suas colegas. Então, começa a combinar um dia para ver cada uma delas.
Na terça, a Patrícia. Na quarta, a Paula. Na quinta, a Gio. Na sexta, a Jô. No sábado, a Jú. No domingo, a Jú de novo, porque ela era a namoradinha. Na segunda, tinha folga, até que apareceu a Lê.
Então, na quinta-feira, depois da aula a Jú apareceu pedindo companhia na volta pra casa. A Gio, que era a menina da quinta, surgiu vindo de longe. A Paula, que não devia nem estar na escola, apareceu de surpresa.
E aí, o que o garotão de 17 anos fez? Foi pra casa sozinho. Ele achou que era capaz de abraçar o mundo e esqueceu de abraçar quem queria ser o mundo pra ele.
A história até continuou por umas cinco semanas, ou cinco meses, ou cinco anos. Não lembro. O problema é que lá no final, e só no final, ele percebeu que não fez o melhor pra ninguém. Ele fez por fazer. Cumpriu a rotina. Terminava a tarefa simples de ser a presença de alguma delas em cada um dos dias.
Pra ele, o desafio foi conciliar as seis meninas nos sete dias. Não foi surpreender alguma delas. E, por isso, ele virou página virada na vida de cada uma delas. Foi só mais uma distração, mais uma companhia, mais um alguém que deu menos que poderia dar e desperdiçou a oportunidade de ser a nota 10 na vida de alguém, para tentar ser a média na vida de cada uma.
E o garotão que abraçou mais do que podia, é o homem ou a mulher que quase dorme à luz do dia. É quem faz de tudo o tempo inteiro, mas não tá inteiro em nada. É quem diz “sim” pra tudo, mas em tudo faz quase nada. É quem lê todos os livros e não tira sequer o melhor conteúdo deles. É quem responde uma pergunta apenas digitando, não pensando na resposta.