Outro avesso

Leia este texto ouvindo a sua trilha sonora, “Outro Avesso”, de Fernando Fyaman.

 

Meu bem, vem cá bem pertinho, que eu preciso te contar com todas as letras, o que está acontecendo aqui, porque eu não aguento mais essa falta que você me faz, eu não aguento mais esse coração apertado, reclamando da saudade de um dia e meio, quase dois! Volta aqui, você deixou o cheiro do teu perfume em alguns fios do meu cabelo, mas era para deixar em todos, isto não está certo.

Presta bastante atenção no segredo que eu vou te contar, feito melodia nova que a gente ouve, primeiro, bem baixinho… Eu me lembro das tuas piadas sem graça e passo o dia rindo pra toda sorte de ser vivo que cruzar o meu caminho, em qualquer lugar. Você não tem mais nenhuma para me contar? Eu aceito todo o teu repertório, se ele vier com as tuas pequenas gafes cometidas enquanto tenta me agradar, coisa que te deixa bem sem graça de uma forma encantadora… E… ô, meu bem, eu começo a achar que essa coisa toda não passa de amor puro e simples, enquanto você não me dá espaço para fuga e me mostra, uma vez mais, o quanto me quer onde você estiver. Me quer no teu sofá, me quer na cadeira ao lado da tua, no banco ao lado do teu, no passo compassado com o teu e eu te quero bem ao meu lado no teu sofá, na cadeira ao lado da minha, no banco e no passo compassado com o meu, não importa onde. Eu te quero comigo. Vem cá, meu bem, que eu tô passando um café. A mesa já está pronta. E a minha vida também.

Volta logo, porque o teu cheiro está na minha roupa e na minha pele, mas você não está aqui, o seu abraço, está apenas na memória e este é o tipo de tortura lenta e dolorida. E mais sério do que isto, eu me olhei por dentro, resolvi me virar do avesso, e encontrei você pintado em todas as paredes, em todas as janelas e até nos batentes de cada porta o teu nome está escrito com tinta neon. Eu me virei do avesso e acabei por ouvir a tua risada presa em algum lugar do meu âmago, junto com as tuas gírias, junto com as tuas expressões favoritas e a tua forma de olhar. Você está em todo lugar. E então, me virei do outro avesso, e te encontrei de novo. Descobri que você está nos meus lábios, nos meus olhos, nos meus braços e até em minhas mãos. Você está em tudo.  Inclusive nos meus pensamentos, que agora afetam a boca do meu estômago com tantas borboletas batendo insistentemente as suas asas.  Você está em tudo, inclusive na minha coragem em me abrir de novo para um alguém singular que tem tornado a minha vida plural. Você está em tudo, inclusive na paz do meu sorriso, por sorrir para alguém que também sorri para mim, e mais do que isto, sorri junto.

Ô, meu bem, eu começo a achar que essa coisa toda não passa de amor puro e simples, enquanto cada hora longe de você se torna mais pesada, se torna eternidade que não passa e aperto agudo no meio do peito. É isso que você faz, torna leve o que era pesado e, pesados, os outrora leves, dias passados sem você. Não sei se já te contei, mas me olhei por dentro e me espantei. Então resolvi me virar do avesso para ver melhor, e encontrei você em todos os cantos e paredes, até nos vasos de flores. E enquanto eu verso e entrelinho, meu celular vibra com mais uma notificação… Eu olho e graças aos céus, é você, me dizendo o que eu gritar, me fazendo querer correr pra te encontrar agora, assim, sem mais, no meio do dia. “Tô sentindo tanto a sua falta que você nem sabe”.

E agora, sorte da minha vida, que eu te contei bem certinho o que é que está acontecendo aqui, vem cá, que eu tô passando um café e tem um bolo no forno. A mesa já está pronta. E a minha vida, também.

 

Amar se aprende amando

Eu vejo corações secos. Vejo confusão mental. Vejo uma lei comportamental ditar passos que, em tantos casos levam à decepção. Coragem para virar mais uma dose sozinho e beijar a primeira boca que lhe parecer atraente, covardia para lembrar que tem um coração, e mais covardia ainda, para lembrar que este coração pode ser fiel à outro. Mas não chame de covardia. Chame de liberdade, conquistada no desapego total. Vejo desespero para preencher um vazio que grita a falta de alguém especial, mas que usa como desculpa o “eu não sei amar”, que usa como tentativa de preenchimento, o ato de sair com uma pessoa por dia, trocando ilusões, enquanto um sonho permanece no peito e no travesseiro: ter alguém especial para dividir a vida.

A verdade que todo mundo ignora, ou simplesmente nunca ouviu, é que “amar”, se aprende (vejam só!) amando. Essa coisa louca, que parece uma escadaria muito alta, íngreme e cansativa, que leva à um jardim estonteante com vista privilegiada, necessita de pequenos primeiros passos, de se atrever à apegar-se em alguém que faz o mundo ao redor desacelerar, enquanto traz paz para o peito da gente. Sabe, é preciso virar uma dose de coragem, e confiar em segurar a mão de alguém, sem medo do incerto, porque sim, há a possibilidade da decepção logo ali, virando a esquina… Mas também há possibilidade de uma felicidade eufórica que traz sentido às demais coisas dessa vida, logo ali, entrando por aquela porta.

Amar se aprende amando, se aprende não desistindo no primeiro percalço, se aprende perdoando as falhas, se aprende no diálogo compreensivo, na parceria diária, no “bom dia”, no “você chegou bem em casa?” ou no simples perguntar “como foi o teu dia?”, na conversa muda, por olhares que quase gritam. Amar se aprende na escolha constante pela sinceridade, no atrever-se à fazer um plano juntos, mesmo que seja algo pequeno, ver que isto é saudável, fazer mais um, ver que isto pode dar certo, e fazer mais outro, pelo simples prazer de permitir que o outro participe da vida da gente. Amar se aprende abrindo mão de algumas coisas que a gente costumava fazer no singular, para substituir por coisas plurais, pois trata-se da vontade de permanecer caminhando de mãos dadas. Amar se aprende amando, meu bem, e esta empreitada só é cansativa se a gente não estiver com o coração disposto, se a gente não despir o egoísmo da alma, a incompreensão da mente e o desespero do espírito. E é “empreitada”, pois se está construindo junto.

Amar se aprende amando, meu bem, e esta empreitada só faz sentido se a gente dividi-la com alguém que nos faça sentir que finalmente encontrou aquilo que estava procurando, alguém que nos faça pensar “COMO EU TE QUERO!”, alguém cuja presença nos deixe à vontade para ser quem é, alguém que tenha princípios e propósitos semelhantes aos nossos, porque temperamento, jeito de ser, cada um tem o seu, e um pode ser complementar ao outro, sabe? É o tipo de coisa que se ajeita. Mas princípios e propósitos… estes são intrínsecos à alma da gente, à nossa criação, às nossas projeções. Se há algo importante, são os princípios e propósitos de vida. Estes não se confundem, são pilares do ser, sustentação de uma existência inteira. E é isto que O Amor une. É isto que faz uma existência ser grata à outra, que está entrelaçada à sua.

Amar se aprende amando, meu bem, se aprende entrelaçando uma existência à tua, e entrelaçando a tua existência à esta mesma que se atrelou ao teu ser. Em meio ao respeito, pelo outro e pelo laço, enquanto sente o coração sorrir ao se dedicar à outro coração, que o faz bater de forma tão bonita e pacífica!

Amar se aprende amando, meu bem! Se aprende pondo os escudos em desuso, deletando as estratégias de ilusão, ignorando outras vozes que também lhe pareçam atraentes, por mais difícil que este último ato possa ser, em alguns momentos. E não serão poucos momentos, então também se aprende a amar no ato de escolher.

Então, leitor, se quer um conselho, o meu é este: Se apega, sim! Dá um descanso para o Tinder, para o Happn, para os contatinhos, e tenta dar uma chance para o amor, já que todo mundo sabe que você voltou meio arrebatado da noite passada. Vire logo esta dose de coragem e ouse confiar em segurar a mão de alguém, sem medo do incerto, porque sim, há a possibilidade da decepção logo ali, virando a esquina… Mas também há possibilidade de uma felicidade euforicamente pacífica e certa, que traz sentido às demais coisas dessa vida, logo ali, entrando por aquela porta. Amar, se aprende amando, já falei. E você não vai saber se não tentar, se não der o primeiro passo, se não continuar a subir os degraus.

Não diga “Eu te amo”

Ele pensou que nunca fosse ouvir isso de sua boca, mas lá do âmago, ela disse com toda a sua decepção “não diga eu te amo”. E eu fico pensando quantos “ele” não há, espalhados por aí. E quantas versões femininas dele, também, todas travestidas em corajosas covardias cotidianas. Estas três palavras são muito significativas para serem ditas de boca vazia, de coração tresloucado, de alma obscurecida, pensamentos cheios de tramoias e a língua tão perspicaz quanto uma serpente. “Eu te amo” é para ser dito desde as vísceras, até cada movimento dos nossos dedos.

Portanto não diga “eu te amo”, por favor. Não diga estas palavras que estremecem o estômago da gente e perfuram o coração feito uma flecha, se vai colocar o seu celular em modo “silencioso” e dizer que estava em casa, dormindo, enquanto você sabe, é mentira. Não presuma tanto assim a inocência do outro, que foi pego em seu laço de paixão e graça, que envolvem tudo, feito uma fumaça espessa e entorpecente. Não se atreva.

Não diga “eu te amo”, se vai “matar” um parente próximo de um de seus amigos, para usar como disfarce de outra coisa que você vai fazer. Nem diga “eu te amo”, se vai “terminar” relacionamentos de seus amigos próximos, para sumir na noite de sexta-feira e só dar as caras no sábado, no meio tarde, e ao ouvir a pergunta “como o seu amigo está?”, ao se deparar com a falta de resposta, soltar um “estou cansado de falar sobre isso”. Todas estas desculpas caem por terra quando a gente, na tentativa de mostrar que também são relevantes as pessoas que importam para você, é bruscamente interrompida por um ataque de raiva e ciúme sem explicação alguma, em um “por que tanta preocupação com os meus amigos?”. Não se atreva.

Não diga “eu te amo”, se vai exigir compreensão da outra parte, mas jamais se esforçará para ser alguém compreensivo. Se você levará a outra parte à extremos o tempo todo, deixando sempre por um fio, mas não abandonará a sua preciosa zona de conforto, toda decorada com as suas ridículas cortinas imperiais em tons de rosa e seus sofás de 1830. Eu penso neste teu lugar e me dá uma vontade imensa de espirrar, com todo o pó e todos os ácaros aglomerados nestes panos velhos, que você insiste em não trocar.

Ah, não diga “eu te amo”, não. Não enquanto você distribuir estas palavras como cartas de poker, blefando em cada jogada, lendo o outro e escrevendo você acha que deve, como fica melhor para você e for mais vantajoso. Não se atreva à tanto.

Ei, guarde o teu “eu te amo”. Pare de dizer estas três preciosas palavras enquanto os ouvidos que a ouvirem lhe forem apenas um troféu. Eu já não lhe disse que isto deve ser dito desde as vísceras? Enquanto não lhe embrulhar o estômago em um choque frio que corre rapidamente pelo teu corpo ao ouvir um nome, não diga. Engula as tuas palavras. Segure a tua língua, que mais parece uma serpente.

Esqueça que há “eu te amo”. Esqueça. Ignore a existência desta frase dourada. E continue esquecendo, enquanto você não souber o que é real fidelidade, e mais do que isto, profunda lealdade ao amor e à quem se ama. Deixa estar, enquanto não aprender que o corpo só faz aquilo que a mente manda, que a gente escolhe querer e desejar. E vá deixando, enquanto não compreender que esta questão é além do que os teus olhos, hoje, podem ver.

CALE A SUA BOCA antes que diga “eu te amo”, se você não despiu a alma. E continue se emudecendo, enquanto continuar ansiando levar ao “eu te amo”, os teus títulos, a tua profissão, o teu carro, o teu sucesso precoce, a tua casa, os teus sapatos, os teus relógios, a marca do teu cigarro, a garrafa de vinho que já virou vinagre e você, de esnobe que é, nem sabe, ou a tua importância quando pisa em algum lugar. E o mesmo, referente à quem se ama. Que se dane essa coisa toda, se você não sabe se despir delas se desarraigar de tudo e até analisar no outro, ao dizer “eu te amo”.

E vá para o meio do inferno com a tua boca cheia desta frase, se vai continuar achando que o mundo gira em torno do teu umbigo enquanto você diz que não, se vai negar atenção, se não dará os teus ouvidos e nem emprestará os teus ombros; Se os teus modos forem continuar duros, e as tuas palavras, rudes… vá às favas. Amor não se convence no GRITO. AMOR SE CONVENCE NO silêncio das atitudes GRITANTES e gentis. Engula o teu egoísmo. Coma com farinha a tua prepotência. Passe uma banana na frigideira para acompanhar a tua arrogante surdez emocional. E não se atreva à dizer estas palavras. Não para ela, que já se cansou. E nem para mim, que te desprezo. E nem para um outro alguém, pois não há ser humano que mereça sentimento tão pífio, tão pobre, tão desnutrido, tão tóxico… tão mortal.

Talvez você precise comprar um coração, pois eu não acredito que você tenha um. Ou compre um maçarico, e derreta todo esse maldito gelo, que te envolveu propositalmente, entre um lençol emaranhado e outro, entre uma máscara mal feita, usada com gente que tem 50% de cegueira em cada olho. E releia cada linha, enquanto eu vou embora da sua ingrata vida. Essa carta é para você, que diz “eu te amo” mas não entende o porque, não vê a profundidade do que está dizendo e nem se preocupa em saber. Mas faça um favor, imprima isto e leve com você. Distribua por aí, para todo o mundo saber, que enquanto for e viver como você, enquanto olhar e pensar com os teus olhos, enquanto não sentir o peito doer por alguém, não deve dizer. Então é isso. Não se atreva à tanto, não enquanto você gelo e latão.

Não diga “eu te amo”.

 

 

 

 

#Sisterhood: à minha amiga-irmã

A existência é um grande vai e vem de gente nos nossos dias e nos nossos planos, mas dizem que a nossa vida é com os que ficam. Bem, eu vi tanta gente chegar e ir embora, mas você fica há um tempo tão significativo e tão cheio de histórias pra contar, que eu só posso encher os meus pulmões de gratidão pelo fato de a sua existência ter sido ligada à minha de uma forma tão especial.

Dizem que não se faz amigos, mas reconhece-os, de forma que é o coração quem diz. E eu reconheci você. Eu reconheci  naquela primeira vez em que nós brigamos, e algumas horas depois, as duas estavam chorando e pedindo perdão. Eu reconheci na primeira vez em que você não me deixou sozinha. E eu venho reconhecendo, à cada nova semana, à cada vez em que a gente decide sair rapidinho e acaba fechando o restaurante japonês, porque a gente simplesmente não para de falar – aliás, eu andei pensando… e se a gente fizesse uma plaquinha, para indicar de quem é a vez de falar? Seria bem útil -. Eu reconheço a sua amizade à cada fato histórico, à cada gafe que a gente comete quando não deve e a outra sempre está lá, para rir junto. Eu reconheci em cada festa, em cada música que a gente cantou escandalosamente em cada bar que a gente foi. Eu reconheci quando o seu TOC se aliou ao meu, e me ajudou a pôr no lugar aquele quadro que estava torto, naquele bar que estava lotado. Eu reconheci a minha amiga quando eu consegui bloquear o meu cartão em plena madrugada, dentro de uma temakeria, e ela estava lá para ver a cena, rir comigo, e contar essa história melhor do que eu. Eu reconheci a minha amiga naquela viagem que a gente fez, para aquela cidade que a gente ama, para casar o nosso amigo.

Mas mais do que todas essas alegrias, e mais do que ter reconhecido a minha amiga, eu reconheci, na minha amiga, a minha grande irmã. Porque toda amiga é capaz de rir com você, toda amiga é capaz de suportar a sua tristeza, mas apenas a irmã confrontará a sua tristeza. Apenas a irmã irá te buscar para fazer compras, mesmo sabendo que você chorou, literalmente, a noite inteira, e chorará por mais algumas horas. Apenas a irmã te tira de casa quase à meia-noite, porque sabe que você precisa conversar. Apenas a irmã olha pra você e diz “tá ridículo, tira isso agora”, “nem pense em fazer isso no seu cabelo só porque é moda”, “eu estou muito feliz por você” (com o olhar mais sincero da vida). Apenas a irmã vai surtar em felicidade com você, e colocar os seus pés no chão ao mesmo tempo. Apenas a irmã fica enquanto outra leva de gente vai embora, e tem outra leva de gente chegando. A irmã fica, mesmo que às vezes ela precise de um tempo para ela. Porque é um coração ligado ao teu. A amiga-irmã é um presente especial. E se torna mais especial ainda, quando começam a perguntar se vocês são gêmeas.

Eu queria que todos tivessem a sorte de ter uma amiga como você, e reconhecer nela, uma irmã; porque eu é que sei o quão afortunada sou. Os meus pulmões é que sabem o quanto eles já se encheram de gratidão pela sua existência ligada à minha, pelos seus ouvidos que provavelmente xingam a minha falação de vez em quando, pelo seu abraço que sempre vem na hora certa, pelo seu olhar sincero e pelo companheirismo que não me deixa.

Você jamais estará só, porque você terá a minha irmandade para corresponder a sua. Não importa quando. Não importa onde. Não importa como. Mas você importará sempre…

Porque sis.

 

Deu match: O amor da vida

A gente cresce com a ilusão boba de que o amor tem lugar para nascer. A gente pensa tanto, e impõe tanta barreira, e se esquece apenas de acreditar que o amor pode estar bem ali, virando a esquina… A gente não cogita a hipótese de o amor ter a capacidade de acompanhar qualquer avanço tecnológico possível, limitando o coitado à cada vez que dizemos “não dá pra encontrar o amor em aplicativo de paquera”! Que estupidez, a nossa… Querer determinar o lugar onde o amor vai nascer, é o mesmo que querer confiar 100% nas previsões do tempo dos jornais.

Quem diria que as amigas dela estariam certas? Aquele download do aplicativo de paquera, foi uma das coisas mais certas que ela já fez em sua vida… E ele também. Entre um like e outro, um superlike, e o inesperado: deu match no amor da vida, e a parte de ser o amor da vida, se revelaria aos poucos. Porque é assim que o amor certo se revela: de forma lenta, porém vulcânica, tsunâmica, intensa em cada dia de sol ou de chuva. É a conversa que flui, é o assunto que rende infinito, é o primeiro encontro cancelado por um imprevisto, e a espera compreensiva do outro. Porque o amor… Ah, o amor! Ele é o primeiro olhar que faz a gente sentir que o outro sempre esteve à mercê da nossa vida… E mais do à mercê, nos faz sentir que o outro sempre esteve ao nosso lado. É o desconhecido olhar conhecido, que se reconhece à primeira batida descompassada do coração. É o beijo que a gente pede aos céus que não acabe, é o dar de mãos que demonstra o perfeito encaixe. Quando a gente ama, o passado do outro não importa, e de repente nos vemos pensando que não devemos julgar as pessoas, mas conhecê-las. São as pequenas coisas, que formam um tipo invisível de novelo, que tece a história dos desavisados atentos. Desavisados, porque foram pegos de surpresa. Quando a gente ama de verdade, não se contém. O amor sai pelos poros, se transforma no riso que nasce primeiro no coração. E de repente, planeja-se a vida à dois: não faz mais sentido caminhar sozinho, ou caminhar de mãos dadas em casas separadas, dormir e acordar sem o outro é muito vazio pra quem ama de verdade.

Como eu sei disso tudo? O meu nome é Acaso, e eu recebi autorização divina para ajudar o Destino à cumprir, de forma perfeita, o plano escrito por Deus. E das histórias que eu mais gostei de ajudar a tecer e cumprir, essa à qual me referi o tempo todo, foi uma das que eu mais gostei: Deu match no amor, e “a bela e o fera” descobriram que este, é o amor

Precisamos falar sobre fidelidade

Ao abrirmos o dicionário e procurarmos a definição da palavra “fidelidade”, lemos que ela é “característica do que é fiel, do que demonstra zelo, respeito por alguém ou algo; lealdade; constância nos compromissos assumidos com outrem; constância de hábitos, de atitudes; compromisso rigoroso”. Mas e a prática dessa coisa toda? Como é que a gente faz, nesta época em que, em dez minutos e poucos cliques ou toques na tela do celular, a gente encontra pelo menos cinco pessoas novas pra fazer o que quiser? A famosa traição se configura apenas no ato do toque? São tantas dúvidas que a gente chega a se sentir confuso, né? Eu sei… Mas manter a saúde do relacionamento não é difícil, apesar de se exigir esforço, porque o amor que a gente sente pelo outro, ajuda a gente a se manter firme.

Talvez a gente nunca tenha se aquietado por uns segundos para pensar que “fidelidade” envolve “demonstrar zelo por alguém”, não é? Mas envolve, porque a partir do momento em que nós nos comprometemos com uma pessoa, temos o dever implícito de cuidá-la, afinal, querer bem a pessoa amada, faz parte de um dos efeitos do amor, por mais egoísta que a gente seja. Porque amar o outro é isto: é inseri-lo em sua lista de prioridades, dizer “bom dia” e “boa noite”, estar atento às suas necessidades, ao seu estado de espírito e humor, é ouvir todos os seus segredos, anseios, traumas, medos, compreender esta pessoa que sempre foi parte da sua essência sem que você soubesse, e agora, chegou em sua vida. Amar é crescer e construir ao lado de alguém que, por algum motivo, desperta o melhor de nós. Mas como crescer e construir ao lado de alguém que a gente não cuida, não zela, não ouve, não dedica tempo, paciência, compreensão, e amor, mas ao invés disso, dedica apenas o nosso tesão e a vontade de beijar a boca? Sabe, fazer isso é o mesmo que construir um prédio com material podre: está fadado à ruir. O amor não sobrevive apenas de beijos na boca e toques feitos de fogueira que se mantém acesa com querosene… Isto é consequência, é “bônus”. O amor vive e cresce através da forma de se relacionar, e é por isso que o zelo é tão importante, e deve partir de ambos os lados, porque não é apenas o outro que precisa de cuidados e atenção… a gente precisa também. E como precisa. E quando não tem, o amor se torna cansado, se vê entristecido e muito magoado, porque por mais que, ao amar o outro, o doar-se seja sem expectativa, todos possuem a necessidade do básico ser cuidado e amado, de saber que o outro pensou em você no meio do seu dia tão atarefado, de saber que apesar do tempo escasso do outro, sempre há uma maneira de encontrar tempo para você, porque você é importante; E isto não quer dizer que estejamos tratando de pessoas carentes ou imaturas, mas apenas de seres humanos normais, com sentimentos, emoções… assim como nós.  É sempre válido colocar em prática o exercício de pensar, por um minuto: eu gosto de me sentir cuidado pelo outro? Eu gosto de receber atenção do outro? Eu gosto que o outro tenha tempo para mim? E por quê eu não estou fazendo isto por ele também? Amor é dar e receber, é via de mão dupla.

“Fidelidade” é respeito por alguém, e para respeitar o outro, eu preciso, primeiro, saber qual é o meu caráter. “O quê?”, SIM! Porque caráter, é aquilo que eu sou quando ninguém está olhando. Eu posso ser vestida de bondade para todas as pessoas, mas quem eu sou quando sei que estou sozinha, que ninguém pode me ver? É neste ponto que eu descubro o meu caráter. E quem você é longe da pessoa que você ama e tem um relacionamento? Quem é você, quando esta pessoa não pode te ver ou te ouvir? Se é um relacionamento à distancia (não importa qual seja ela), quem é você quando não está conversando com esta pessoa, quando não estão em uma videochamada ou algo semelhante, você é capaz de lhe dizer a verdade absoluta, ou a distância é o tapete para onde você varre a sua sujeira?  Caráter, leitor, é “sim” ou “não”. Recentemente um leitor me perguntou “é errado eu namorar e continuar usando Tinder e outros aplicativos parecidos?”, e a minha resposta foi “se você precisa me perguntar se é errado ou não, então você já tem a sua resposta”. Ele se assustou com a minha fala, mas a verdade, é que ele apenas queria que eu não reprovasse a sua conduta. A não ser que você e a pessoa com quem você se relaciona, decidirem (JUNTOS) manter um relacionamento aberto, não é de bom tom que o uso de aplicativos de paquera continue, pois todos eles possuem o intuito de encontrar alguém, seja para ter um relacionamento sério ou para conseguir uma diversão para uma ou algumas noites. Veja bem, se você já encontrou alguém para si, qual é a necessidade de continuar procurando? Qual é a necessidade de seguir aqueles perfis que divulgam pessoas bonitas para você seguir ou adicionar (esta é uma das maiores reclamações dos leitores, tanto do sexo feminino quanto masculino), e efetivamente sair seguindo os caras que você achou maravilhosos, as moças que você achou atraentes, e, dando o nome certo aos bois, as pessoas que você olhou e pensou “nossa, que gostosa (o)!”?? Quando você age desta forma, está deixando de respeitar a pessoa que você diz amar, pois há malícia nos teus olhos. E não venha me dizer que o uso do tais “aplicativos”, é para fazer amizades novas, pois você sabe muito bem, lá no fundo da sua alma, que você não usa com este intuito. A lealdade não deve estar apenas nas suas atitudes públicas, mas também nas suas atitudes secretas, nos teus olhos… Quão leais os teus olhos têm sido à pessoa que você ama? Quão leais as tuas atitudes secretas têm sido à pessoa com quem você se relaciona? E os teus ouvidos? Quão leais eles têm sido? Hoje, já se considera discutível a “traição online”, através de conversas com quem, você sabe, não deveria estar conversando, muito menos acerca de determinados assuntos. Isto não é lealdade com você ama. Isto não é “compromisso rigoroso”. Esta questão é muito mais delicada do que parece, e muito mais profunda do que nós podemos ver.

Não, a traição não se configura apenas no ato do toque. Esta, é apenas a consumação. Para chegar até o toque, trilhou-se um caminho. Deixou-se a lealdade de lado no exato momento em que despertou-se o interesse por outra pessoa. Este interesse pode ter simplesmente surgido, mas ele pode ter nascido de uma provocação vinda da outra pessoa, e não freado como deveria, não foi impedido, como deveria ter sido. Neste momento, você já traiu a pessoa que você ama, porque você se permitiu ser envolvido por outro alguém. A simples cogitação de estar com outra pessoa, já é uma traição. Porque você cogitou, e no momento desta cogitação, você não levou em consideração o seu relacionamento. E mais do que trair a pessoa que você namora ou é casado, você traiu a si mesmo, traiu os seus sentimentos, mentiu para si dizendo “tudo bem, isso não quer dizer nada”. A nossa mente é poderosa demais para dizer que uma cogitação feita por ela “não quer dizer nada”. É nesta parte que o caráter deveria ter entrado, mas não o fez, por ser extremamente falho e corrompido. De que é feita a realidade, se não de uma imitação de sonhos e pensamentos? Faz-se aquilo que se pensa. Trair o outro é colocar uma lança no meio do peito do amor.

A tal “constância de hábitos, de atitudes”, está na lealdade e no ato de cuidar e se fazer presente. Esta é a real fidelidade ao amor. O segredo está no relacionar-se, e manter o amor sempre bem vivo e animado, ao invés de fazer com que ele se sinta cansado. O segredo está em manter o seu coração, os seus olhos e os seus ouvidos, leais à pessoa que se ama. Honrar o amor e a pessoa amada, em um “compromisso rigoroso”, mas não pesaroso. O amor, em si, é doce, mas o amar precisa ser adoçado, e temperado. Não se esqueça do que é importante. Se faça presente. O amor vale todas as penas do mundo inteiro.

Não se esqueça.

 

Auto amor

Há algumas semanas, em uma rede social qualquer, entre tantas que a gente tem, eu vi um post sobre uma famosa “x” – que eu concordo, é maravilhosa -, uma frase me chamou a atenção: “INCRÍVEL COMO ATÉ DESARRUMADA, ELA CONSEGUE ACABAR COM A NOSSA AUTOESTIMA”.
Essa declaração me chocou e continuou me chocando, porque, sinceramente, acho que é este, um dos grandes problemas da nossa sociedade, ou das gerações mais jovens: possuir uma autoestima TÃO BAIXA, a ponto de tê-la “acabada”, porque um famoso saiu desarrumado, mesmo que este “desarrumado”, envolva um look no valor de um carro popular. Sabe, “autoestima” é “autoaceitação”, ou seja, uma postura positiva com relação a si mesmo como pessoa, estar satisfeito e de acordo consigo, ter respeito a si próprio, ser “um consigo mesmo” e se sentir em casa no próprio corpo, possuir “autoconfiança”, ou seja, uma postura positiva com relação às próprias capacidades e desempenho. Então, onde foi que a gente errou?
Talvez, esta, seja a era em que mais se fala sobre amor próprio, e menos se vê pessoas “amando a si próprias”. Este autoamor que tanto se bate no peito, cai a cada momento, e a tendência, é colocar a culpa em alguém. A tendência é colocar a culpa no outro porque ele é negro, branco, pardo, índio, rico, de classe média, roots, boho, seguidor de tendências, afro, europeu, asiático, árabe, latino, magro, gordo, hetero, homossexual, passivo, babaca, sem caráter, bonzinho, de palavra… coloca-se a culpa no outro por diversos motivos que, muitas vezes, pode-se soar quase como estupidez. A culpa tem que ser sempre de alguém, e como essa pessoa fez, ou faz, eu me sentir inferior… Mas a culpa nunca é minha, por não me amar como eu deveria, por não cuidar do meu “eu”, como eu deveria. A culpa nunca é minha, por endeusar uma pessoa que jamais vai saber da minha existência, e está pouco se importando se eu estou viva ou morta, e se importa apenas se eu a faço lucrar de alguma forma. Diz-se não ter padrão, mas criam-se novos padrões “despadronizados”, e você está errado se não aplaudir e jogar flores.

A verdade é esta: nós criamos doentes emocionais, e sustentamos a doença deles. E nós estamos no meio, viu?
A geração atual é fraca, briguenta (pelos motivos errados), extremamente hipócrita, e é feita de marionete a cada segundo. O problema está em não ensinar às pessoas a se amarem e ponto final. O problema está em jogar as pessoas umas contra as outras, por que “olha lá, ele está te oprimindo com o padrão dele”, “ele está te oprimindo com a cor dele”, “ele está te oprimindo por causa da classe social a qual ele pertence”, “ele está te oprimindo porque é mais bonito que você”, “ela acaba com a minha autoestima, porque ela é uma deusa”, mas na verdade, eu a coloquei naquele pedestal, e eu a julgo melhor do que eu. Mas espera um pouco… EU não sou o suficiente para MIM?
Entre tantas urgências existentes por aí, esta é gritante: aprender a se amar, a se perdoar e a perdoar os outros, e então, levar o amor próprio adiante, ensinando os outros a se amarem também. Não precisa ser formador de opinião para ensinar alguém que ela é digna de seu próprio amor, que ela é a primeira pessoa à quem deve amar. Sou eu comigo e você consigo. E o outro, com ele mesmo. E qualquer um de nós, com um psicólogo, porque algumas dores são difíceis demais pra gente superar sozinho, e talvez, sejam estas dores que travam a nossa autopercepção, e isso não é vergonha. Então, no exercício e aprendizado do autoamor, tenha isto bem formado na sua mente, para repetir para si a cada manhã:
Eu apenas sou oprimido pelo outro, se eu permito. O outro só me atinge, se eu deixo. Eu só sou colocado para baixo, porque eu deixo. Nem sempre a postura do outro é para me oprimir, me alfinetar, me abalar, me calar, me chatear ou me diminuir. Eu sou especial. Eu sou digno de amor. Eu sou amável. Eu sou querido. Eu sou alguém. Eu sou inteligente. Minha opinião é importante. Eu sou bonito. Eu sou vitorioso. Eu sou legal. Eu sou cheio de boas características. As minhas dores não são frescura, e eu vou superá-las! Os meus sonhos não são besteira. Eu consigo. Ninguém é melhor do que eu. E eu NÃO SOU melhor do que NINGUÉM!

E vá ser feliz, independente de quem o outro é, porque todos nós somos especiais à nossa maneira, de forma peculiarmente autêntica, com todas as nossas estranhezas, nossas belezas, nossa forma de vestir e andar. Você é um diamante, extremamente valioso e brilhante: PERCEBA-SE!

Saudades do futuro

Eu sempre chamei de “patéticas”, as pessoas que diziam sentir saudade do futuro… Até encontrar você. Eu também não acreditava em destino, mas parece que até mesmo os ponteiros dos relógios se ajustaram por nós, como se uma linha invisível, nos amarasse, cada um em uma ponta, e nos puxasse para perto. A relação entre tempo e espaço também olhou para nós, e parece ter se readequado, e então, se apropriado de duas histórias. Linhas inteiras de causalismos. Efeito borboleta. Coincidências significativas. Sincronicidade. Como duas ondas, que se chocam e formam uma só. Elas viajam o oceano inteiro, por anos à fio, através de gerações, para chegarem na coordenada geográfica exata, no mesmo dia, no mesmo horário, em que até os segundos são os mesmos. E elas colidem, se chocam, formam uma só e voltam para o mar, iniciando novamente a busca de uma pela outra. Se há outra explicação melhor do que esta, eu desconheço.

Não vou começar a fazer contas, e tentar definir em exata precisão quantas vezes o meu coração foi quebrado, mas me parece que, de uma só vez, você reestabeleceu toda a ordem que foi perdida, e, como um desfibrilador, você fez com que eu me sentisse viva novamente. Porque a gente vive de pensar que o amor chega no momento perfeito, quando estamos em estado impecável, apenas esperando para que ele chegue… Bem, o amor chega quando bem entende. Aqui, ele chegou quando o meu coração parecia uma enorme e antiga ruína de guerra, cheio de buracos de balas e paredes derrubadas por bombas, com raízes de árvores o abraçando, que mais pareciam os templos de Ta Prohm e Ta Som, do complexo de Angkor, no Camboja. As minhas ruínas recebiam turistas, que fotografavam a beleza trágica do que um dia havia sido uma suntuosidade. Então, o amor me salvou; acabou com toda essa balbúrdia instaurada, reconstruiu os meus muros, cortou todas aquelas raízes de árvores enormes, e as transformou em móveis lindos. E, de certa forma, parece que eu fiz o mesmo com você. Eu, que sempre estive à mercê do teu caminho. Você, que sempre rondou a minha vida sem saber.

Dizem que o tempo é relativo, e eu só acreditei agora. Porque antes, o tempo parecia se arrastar, mas depois de você, cada segundo da sua ausência parecem várias eternidades que correm feito cavalos de corrida. E é por isso que a mais nova patética sou eu: porque eu sinto saudades de tudo que nós ainda não vivemos. Sinto saudades enormes do nosso futuro juntos. Sinto saudades de todas as viagens que vamos fazer, para todos os destinos que já escolhemos. Eu sinto saudades do futuro, desde que ele seja com você, desde que estejamos de mãos dadas, os seus olhos estejam me contando segredos e nossos abraços residam um no outro. O mundo acabou de se tornar minúsculo como um amendoim, e qualquer distância, por mais culpada que seja, acabou de se tornar um novo fator encorajador.

Vem aqui, me tira logo para dançar que o resto do mundo está esperando. Me tira logo para dançar, do seu jeito tão diferente do meu, que eu prometo, vou deixar que o mundo inteiro veja. Mas o faça depressa, porque eu já estou morrendo de saudades do próximo minuto, da próxima hora, dos próximos dias, anos… Eu já estou morrendo de saudades do nosso futuro, e de tudo aquilo que nós temos para viver, ver e conhecer, lado a lado.

As ondas que colidiram enquanto o destino era tecido, viajaram o oceano inteiro procurando uma pela outra, e, enfim, colidiram. A linha invisível do destino, finalmente se tornou laço.

O nosso futuro, enfim, chegou.

Antes que seja tarde

Quantas vezes a gente já deixou para depois, algo que poderia ter feito instantaneamente? Quantas palavras a gente abafou, porque achou que “dava tempo de falar mais tarde”? Quantos cafés quentes a gente tomou frio, ou simplesmente não tomou, porque tinha tanta coisa mais importante do que tomar o café enquanto estava quente, não é? E se a gente parar para pensar, há tanta xícara de café frio na nossa vida, que chega a ser vergonhoso. Porque é essa mania pecaminosa que o ser humano tem: a de misturar as importâncias, e pensar que uma pode ser colocada acima da outra, sem que algo fique para trás, sem que algo se perca, sem que algo se quebre, sem que alguém parta.

Antes que seja tarde, pare de ser idiota. Pare de dar muita importância à quem não mostra que é recíproco. O desgaste pode ser excessivo ao amar por dois, seja este amor, de amigo ou de amante. As suas noites sem dormir não vão voltar. O cansaço por caminhar demais, e por dois, não terá validade alguma. Vai ser apenas cansaço, no final das contas. Não há razão que justifique manter um relacionamento suicida.

Antes que seja tarde, diga de uma vez que você sente. Sabe, a pessoa que você ama, pode ser aquela que se vê em um relacionamento suicida, que ama e sofre por dois, e, enquanto você pensa se vale a pena, essa pessoa pode simplesmente ir embora. E aquela cena do metrô, que acontece em quase todos os filmes românticos, nem sempre é possível na vida real, sabia? Porque chega uma hora em que a gente cansa de carregar uma placa enorme, de neon, com a frase “o que falta em você, sou eu”, e é aí que a gente parte, e deixa um bilhete escrito “eu estava aqui o tempo todo, só você não viu”. Então a ficha cai: você perdeu a pessoa da sua vida, porque achou que ela estaria ali para sempre, e colocou tudo na frente. Colocou profissão, sonhos, objetivos, metas, dores, pesadelos, traumas… E de “espera mais um pouco” e “eu ainda não posso assumir nada agora, é um momento complicado”, você perde alguém que jamais poderá recuperar. Então, antes que seja tarde, passe a mão no telefone, vá até a pessoa, dê os seus pulos, faça o que for preciso, mas diga o que você sente. Essa cena dos filmes, ainda é possível. Amor é via de mão dupla, não deixe o amor da sua vida ir embora por mero egoísmo teu.

Antes que seja tarde, supere os finais dos seus relacionamentos. Viver no passado, é algo cruel demais consigo e com os outros, assim como comparar pessoas pode ser equivocado, e se privar de viver por ter medo dos traumas pode ser sufocante. Pense bem, quantas vezes por semana você pensa nos relacionamentos passados? Quantas vezes você visita os perfis de “pessoas antigas”? Quantas noites você já estragou falando da mesma coisa ou das mesmas pessoas? Então, antes que seja tarde, busque a superação dos relacionamentos e das pessoas. Deixe o preconceito de lado, e procure um psicólogo se necessário, mas pare de sofrer (e fazer os outros sofrerem junto) por algo que você não consegue deixar para trás. Saúde e inteligência emocional são urgentemente necessárias.

Antes que seja tarde, seja o amigo que você quer ter. Porque a gente cobra muito do outro, a gente exige uma amizade perfeita, mas nem sempre somos o amigo que queremos ter. Nem sempre damos o companheirismo que cobramos. Nem sempre somos tolerantes como exigimos do outro. Nem sempre perdoamos o outro como exigimos que ele nos perdoe. Nem sempre somos boa companhia, nem sempre somos o ânimo ou a luz do outro, e fazemos questão de receber a coisa toda. Não adianta querer ser cercado de gente linda e querida, quando se é um poço de azedume, desânimo e escuridão. A amizade, assim como o amor à dois, é via de mão dupla. Então lembre-se que, da mesma forma que nós precisamos do outro, o outro precisa de nós. Dê presença, dê carinho, dê bom humor, dê abraços e cuidados, dê um pouquinho de esforço e um pouquinho de si também, para variar, para fazer com que o outro veja que você também dá valor à esta (às vezes árdua) caminhada.

Antes que seja tarde, valorize a sua família. Valorize o esforço dos seus pais para fazer o melhor para você, porque por mais que este melhor não seja, aparentemente, o “melhor que há”, é o melhor que eles podem fazer agora, com os recursos que possuem e as ferramentas que têm em mãos… Você já pensou que, sendo assim, este, é mesmo “o melhor que há”? Provavelmente não. Então, antes que seja tarde, não vire as costas para isto, não vire as costas para os seus pais, que têm um amor incondicional por você, por mais que eles demonstrem de uma forma meio torta. E não se esqueça dos seus irmãos, e que, talvez, eles também achem você insuportável… Alguém tem que ceder, e não é vergonha nenhuma se você for aquele que dá o primeiro passo. Os nossos irmãos podem ser os nossos melhores amigos para a vida inteira, mesmo com a diferença de idade. Antes que seja tarde, valorize os seus tios. Os irmãos dos seus pais, podem ser mais do que apenas a nomenclatura de “tio”, que você vê duas vezes por ano, nas festas de família. Você pode se abrir com os seus tios também, e você pode encontrar neles, grandes amigos também… Basta que você queira. E antes que seja tarde, valorize os seus avós. Eles também tiveram a sua idade, viveram muito mais do que você, então não seja o imbecil que bate boca com a avó quando ela diz que você está sendo arrogante ou imprudente com a sua vida. Os tempos mudam, todo mundo sabe disso, mas a arrogância sempre será arrogância, a imprudência sempre será imprudência, a imbecilidade sempre será imbecilidade, e os avós sempre serão pessoas dignas do respeito que talvez você não tenha nem consigo. Respeite-os, ame-os, ouça as suas histórias, ouça todos os seus dizeres e ensinamentos… eles valem ouro, e, amanhã, talvez eles já sejam uma peça que não se pode valorar, porque os seus avós se foram. E aí? Então, antes que seja tarde, abrace os seus pais, os seus avós, os seus irmãos, os seus tios, e não se esqueça dos seus primos. Não existe família perfeita, porque nós não somos perfeitos. Não espere a perfeição para dar valor e amor.

Antes que seja tarde, perdoe e peça perdão. Discussão nenhuma vale a raiz de amargura que vem com a falta de perdão. Discussão nenhuma vale a prisão de alma, o nó de fel que se forma entre você e a outra pessoa. A leveza do perdão livre é muito melhor do que a prisão do nó de fel, que te torna uma pessoa extremamente crítica, insaciável, raivosa, arrogante, inflexível e infeliz. Muitas vezes, o outro já nos perdoou e já pediu perdão, mas nós é que não queremos dar o braço a torcer, e ficamos remoendo algo que já está mais do que liberado do outro lado. O outro segue livre, enquanto nós nos amarramos cada vez mais, tomamos uma dose de veneno à cada manhã, e acompanhamos cada passo que o outro dá, botamos defeito em tudo, e nos tornamos o mais rabugento de toda a existência humana. Gritamos que gostamos da solidão, mas por dentro tudo dói, porque o silêncio só, pode ser cruel demais, e gritar em nossos ouvidos tudo aquilo que nos magoa porque não perdoamos da boca pra dentro. Portanto, antes que seja tarde, dê liberdade e se faça livre. Talvez, o perdão seja o que falta para te fazer alcançar o sucesso que você almeja, enquanto está preso demais (em uma gaiola construída por você) para voar livre e o mais alto que puder.

Antes que seja tarde, se ame. Se resgate. Se conheça. Cuide da sua essência. Se olhe no espelho, e repita tudo o que você sempre quis ouvir das pessoas, e talvez seja uma vontade ou necessidade reprimida, não saciada. Olhe nos seus olhos, e diga que se ama, que você é linda(o), que você é importante, que você é brilhante, que você é capaz, que Deus te fez de maneira especial, que você merece ser feliz. Estas palavras, este “autoamor”, vão gerar a autoconfiança que te falta, ou restaurarão a autoconfiança que está quebrada por tantos motivos que só você sabe. Antes que seja tarde, se resgate. Você pode ser incrível, se confiar que pode.

Antes que seja tarde, pare de pensar que o outro vive para te atingir, ou que as atitudes do outro são para te diminuir, te alfinetar, te “cutucar” de alguma forma… O mundo não gira nem ao meu, e nem ao seu redor. Antes que seja tarde, desligue o seu celular e veja o sol se pôr, observe o céu, veja as primeiras estrelas nascerem, observe a lua e as constelações que surgirão ao anoitecer. A gente perde muito tempo olhando para todas as nossas telas, e se esquece de contemplar aquilo de belo que nos cerca diariamente. Além do mais, este exercício abaixa o nosso nariz empinado, e tira a nossa visão do próprio umbigo… Aos poucos, mas tira.

Antes que seja tarde, dê atenção ao seu cachorro, ao seu gato, ou seja lá qual for o seu animal de estimação. A gente vive achando lindo os vídeos de animais Facebook a fora, mas e os nossos companheirinhos? Eles podem ser tão autênticos quanto os dos vídeos, basta que recebam atenção e amor.

Antes que seja tarde, viva. Antes que seja tarde, diga que sente saudades, ligue, abrace. Antes que seja tarde, se faça presente. Antes que seja tarde, acarrete valor à sua existência, e das existências que te cercam. O depois pode não chegar, ou talvez até chegue, mas seja amargo, porque você não fez o que podia e como podia.

O relógio não para, e, na verdade, ele corre mais velozmente a cada segundo. Os dias não voltam, mas marcam para sempre. Tudo passa, tudo é finito. Não vá pensar nisso quando for tarde demais. Está ouvindo o “tic-tac”? Então é bom correr… antes que seja tarde.

Sem filtro

(Você pode ler este texto ouvindo “Live It Well”)

Um dos últimos shows em que eu fui, me assustou muito, e me fez abrir os olhos para algo muito importante: viver o momento, ao invés de capturá-lo, transformá-lo em InstaStorie, Snap, Live no Instagram e no Facebook, e depois, mais uma quantidade absurda de fotos sobre a mesma coisa, o mesmo lugar, a mesma experiência. Por que é que a gente precisa capturar tudo? Eu me assustei com os outros, mas também me assustei comigo, depois de chegar em casa, ver as 15 selfies que eu havia tirado com as minhas amigas, as 57 fotos do mesmo palco, as 5 Lives que eu fiz no Facebook, os 11 vídeos de músicas que eu amava… Mas eu não havia mergulhado em nenhum destes momentos. A minha música favorita tocou, e eu arranquei o celular do bolso pela centésima vez (!), para fazer mais um vídeo, e fiquei enlouquecida quando a minha bateria acabou justamente no refrão; Esbravejei por mais uns 30 segundos, e então, mais da metade daquela música já havia ido embora! Eu não imergi minha alma na letra ou na melodia. Eu não me conectei… com o momento. E quantas vezes a gente já não fez isso, né? Vale tudo por uma selfie, até ser mordida por um tubarão em Fernando de Noronha. Vale tudo por um like, até se expôr em excesso e usar tantos filtros na foto, que quem vê a gente na rua, acaba por não nos reconhecer.

A gente vive, praticamente, uma “ditadura dos filtros”, em que a gente se sente quase que na obrigação de registrar tudo o que faz, do acordar ao deitar-se novamente, a gente registra cada piscar de olhos, enche de filtro, e posta em cada rede social que possui. Quanto mais likes, melhor, e se vierem acompanhados de elogios, nosso ego agradece. Quanto mais seguidores, então, melhor ainda! E quando a gente se torna figura pública, a coisa aumenta de tamanho, porque as pessoas pedem para acompanhar a nossa rotina, pedem por vídeos no Snapchat e InstaStories, e nem pense em parar de postar! E em que momento a gente pausa o virtual e vive o agora? Aquela Arara-Azul voando, livre, rasgando os céus em beleza e graça, naquele dia, naquele horário, a gente não vai ver mais. A gente não vai mais sentir a brisa do vento tocar o nosso rosto, e nem sentir o cheiro do lugar em que estávamos. O momento passou, e ao invés de se entregar à imersão, pusemos os nossos celulares em riste e registramos cada bater de asas, acreditando que não perdemos aquele momento. A gente põe os aparatos para mergulhar, e já leva a GoPro em uma das mãos, e sai filmando tudo o que vê; uma tartaruga marinha nada graciosamente ao meu lado, mas eu não nado com ela… eu a persigo, enquanto filmo tudo. Eu tiro uma foto, mas antes de colocar na internet, passo nela pelo menos uns 4 filtros, responsáveis por coisas como afinar o rosto e aplicar uma maquiagem (que fica ridiculamente artificial, mas a gente usa o aplicativo mesmo assim) sobre a que a gente já está usando, e ao postar a bendita foto, estamos ou irreconhecíveis ou extremamente artificiais. Que ponto estranho é este, ao qual chegamos?

Não é errado registrar o momento, não é errado corrigir uma coisinha ou outra em uma fotografia… Mas estamos todos exagerando na dose, “errando a mão” como diria a minha avó. Sabe, a vida não possui filtros. E a gente está deixando com que ela passe, enquanto colocamos mais um filtro, tiramos mais uma foto, fazemos mais um vídeo. Você pode sair várias vezes para jantar com a pessoa que você ama, mas uma vez nunca será igual à outra, por mais que vocês se direcionem sempre ao mesmo restaurante… A comida pode estar linda dessa vez, mas você já perguntou à esta pessoa bem à sua frente, como ela realmente está? Você já beijou esta pessoa hoje, já pegou a sua mão, já disse o quão especial ela é? Você já olhou nos olhos desta pessoa, e ouviu tudo o que eles têm para te dizer hoje? Você está curtindo o momento com esta pessoa, está imerso à experiência à dois, ou está mais preocupado em fotografar e postar o prato de comida bem à sua frente, porque ele está muito bem elaborado? Quantas fotos conceituais formam o feed do seu Instagram, e quantos momentos especiais fazem parte da composição da sua história? Quantas pessoas você abraçou para caber ou ficar melhor na foto, e quantas pessoas você abraçou mesmo, com toda a sinceridade do teu ser? Você curtiu mesmo a sua família, ou apenas fez mais uma pose legal para colocar nas redes sociais e manter a sua boa imagem (irônico o uso dessa palavra agora, né?) para as pessoas e ganhar mais uma tonelada de likes? Você vivenciou cada segundo da sua viagem, ou ficou procurando mais lugares legais para fotografar e fazer uma pose diferente? Você sentiu e ouviu toda a atmosfera da viração do dia, ou apenas tirou outra foto do Sol se pondo no horizonte?

A gente só vive uma vez, nosso tempo de vida é um suspiro, e estamos puxando o ar pela metade, porque o restante do tempo, estamos segurando a respiração… e o celular. A vida passa rápido demais, e estamos perdendo, ao menos 30 segundos para cada vídeo que fazemos para postar no Instagram. A vida é uma só, e estamos correndo atrás do vento e entupindo as nossas veias de vazio. Almas aprisionadas. Mentes obsessivas. Celas de prisões em nossas peles. Felicidade instantânea em formato de “joinhas” ou “coraçõezinhos” nas telas de nossos celulares. Fotografias deletadas se os likes não chegam em cinco minutos. Nós podemos fazer melhor.  A vida é mais do que isso.

Pode registrar o momento, sim. Mas não esqueça de que, mais do que registrá-lo, você precisa vivê-lo. O ontem não volta. A hora que passou, não volta. Cada momento é único em suas singularidades e particularidades… Não se esqueça de valorizar isto mais do que os likes que você pode receber na próxima postagem.

A vida acontece sem filtro, enquanto você está preocupado em registrá-la, excessivamente. A vida acontece lindamente imperfeita, enquanto você está procurando o próximo filtro para deixá-la impecável. Lembre-se de viver, ao invés de meramente existir… Eu vou me lembrar também, constantemente.