Carta ao amor que partiu!

Você me deixou jogada e nem ousou em voltar para trás para observar o estrago danado que fez, não se importou se estava quebrando o meu coração e tão pouco me deixando sem que eu pudesse absorver tudo que estava prestes a acontecer – simplesmente não se importou e partiu.

Passei algum tempo buscando explicações, logicas ou qualquer coisa que justificasse, fiquei tempo demais escondendo os machucados e os arranhões para não ter que dar explicações a ninguém, quando me questionavam sobre você, as únicas palavras que saiam da minha boca é “Ele partiu”, não era necessário nada além disso, somente isso bastava e causava um grande impacto.

Minhas amigas me xingavam e alegavam que eu deveria te expor, fazer textão e postar no facebook, desfilar na sua rua com um cara mais gato que você e te mostrar o que realmente você percebeu, eu sorria e observava as ideias mirabolantes delas, como se isso fosse capaz de cicatrizar os benditos arrombos que você deixou no meu peito.

Juro que tentei te odiar e confesso que até poderia, porém eu não quis me humilhar, fazer exposição e muito menos gritar para o mundo o quanto você fudeu com meu psicológico, preferi viver aquilo ali guardado dentro de mim e chorando nas minhas noites em claro.

Você é um perfeito idiota e eu deveria ter notado isso na primeira vez que te vi, porém não notei, não me dei conta em todos os alertas que pareciam que piscavam em cima da sua cabeça, fui me abrindo para você aos poucos, abri minha boca, meus botões, minhas pernas, minha casa, minha vida e meu coração, quando eu me dei conta já era tarde, estava completamente arreganhada para você – porém não me arrependo, me abri porque precisava viver aquele momento.

Partiu sem que eu pudesse entender e nem tivesse tempo para questionar, eu fiquei ali largada, chorei por longos dias seguidos, porém sobrevivi, como sempre sobrevivia as nossas discussões, mas dessa vez foi diferente, no outro dia você não veio e nem no resto da semana e foi assim que eu entendi que o meu “amor “partiu, sem que eu pudesse dizer nada, fui obrigada a conviver com sua ausência e a curar o coração machucado.

O amor partiu e eu nem tive tempo de pedir que ele permanecesse, ele partiu pois com certeza não entendeu que ali existia amor!

Quero que a vida seja hoje

Caro amigo,

Resolvi seguir o conselho escondido nas linhas de uma carta que não foi endereçada a mim e que não era pra todo mundo ter acesso. Ela em nada se parece com os contos que eu adoro ler e nem mesmo traz conselhos, na verdade, fui eu que entendi assim e que fiquei petrificada segurando a página daquele livro . Foram os meus pensamentos que pareciam se ajustar àquelas palavras e não o contrário, como era de costume.

Tudo fazia um absurdo sentido para mim naquele momento e foi assim que me permiti perseguir o  parágrafo​ e repeti-lo como um mantra e, quando dei por mim, isso havia se tornado um hábito que eu não mais me esqueci de pôr em prática:

“Quero que daqui pra frente a vida seja hoje. A vida não é adiável.”

O contexto destas palavras era outro e como todo bom leitor, por vezes egoísta, as tomei para mim, dei de presente para o que eu sentia e encaixei seus sentidos no que antes eu não encontrava explicação.

Como um ser humano cru e visceral, tomado por alguma paixão inexplicável, se contaminando por essa doce doença que chega de mansinho, eu me apossei daquelas frases que conversaram comigo e que me mostraram o que talvez eu não quisesse ver.

Eu precisava entender que não há como viver de futuro, que é preciso experimentar cada página desse romance do qual somos personagens, nem sempre donos de nossos próprios destinos, mas completamente aptos a escolher a quem ou a que nos prender e por quanto tempo isso deve durar. Cabe a nós mesmos o basta.

A simples afirmação que encontrei entre as linhas de umas das cartas escritas por Caio Fernando Abreu – sim, essa carta era dele – me ajudou a viver, ou pelo menos tentar viver como se esse fosse o último segundo.

Talvez Caio F. também precisasse entender justamente isso naquela época e focar suas atenções ao que ele tinha de mais próximo, o momento presente e, ao escrever estas palavras, que hoje me servem como mantra, e que são um pouco do muito que ele deixou, quisesse dizer exatamente o que eu havia pensado.Que não podemos nos arriscar brincando de adivinhação, sacrificar dias e dias a espera do que não sabemos se virá ou quando virá. Cada detalhe importa e pode ser uma nova chance, possibilidades que deixamos passar se olharmos somente para o que está lá na frente.

Vez ou outra, torno a  repeti- las não apenas para mim, mas também para quem me pede algum conselho. E pensar que eu mesma quase me esqueci de que já morava em mim o que julgava estar lá fora. Passava os dias a pensar numa maneira de “passar de fase” quando, na verdade, a vida estava apenas começando a se abrir, mas era inútil tentar convencer aquela menina tola que eu era, sempre mirando o que estava longe. Mal sabia ela que seus dias estavam contados, o mês passaria, o ano passaria e então só lhe restaria o que sempre fez: olhar, o esperar sem ter vivido. Quase me perdi junto a ela, mas  o reflexo que apontava meus olhos naquela janela, me fizeram ver que eu precisava de  mais, e no mundo das palavras, me encontrei e hoje tem pressa a minha travessia, mas não é uma pressa comum. É a pressa do sentir e do não esperar pelo amanhã. Uma pressa inimiga do relógio e que contempla a existência dos seres e acontecimentos vistos como insignificantes.

O que o mundo passou a ignorar me fascina e o meu melhor sorriso é para quem enxerga o que vejo: a beleza da vida agora, o instante.

E se amanheceu chovendo como ontem, decidi que eu vou é dançar na chuva. Não tenho o porquê esperar pelo sol do céu se eu guardo um igualzinho dentro do peito e, muito além de telhados e ruas, hoje eu vou deixar que as gotas lavem a minha alma no ritmo que eu escolhi viver.

Sou capaz de me permitir pisar delicadamente no chão repleto de folhas secas, trazidas pelo outono, prestando atenção no barulho e na sensação que isso me provoca. Me sento à sombra da árvore mais bonita e assisto as pessoas passarem apressadas para o trabalho. Sinto a brisa fresca tocando o meu rosto e então desperto sabendo que também devo ir trabalhar, mas é um despertar diferente, um despertar cheio do agora e seus​ aromas. Um elixir infalível para atravessar o resto da estação sorrindo, porque é preciso sentir com a alma e colocá-la em cada detalhe do dia, mesmo que não seja tão fácil, mas com a plena certeza de que assim é mais bonito viver.

O líquido quente e negro que desce em minha garganta cotidianamente aquece não somente o corpo, mas o meu olhar sobre o dia. Nem mesmo a pessoa mais fria será capaz de me penetrar a alma, pois ofereço meu café e amor mais quentes como ingredientes​ principais no preparo de um dia que, entre seus possíveis altos e baixos, vale a pena ser vivido. Os pequenos desânimos da rotina não são capazes de amargar toda uma história, porque cada pessoa é um mundo a parte, um mundo que gira a medida em que evoluímos e nada justifica abandonar toda a imensidão do que somos por causa de expectativas não atendidas.

O vento costuma levar as folhas das árvores e dos papéis descartados pelo chão, ele não escolhe o que arrasta pela frente. Já o tempo, senhor tão implacável e sábio, escolhe muito bem as palavras que levará para o futuro, como as de Caio, atemporais, e as que se perderão pelas esquinas e isso se aplica também à jornada de cada um.

Percorremos todos os dias estradas que não sabemos onde ou quando vão terminar e é exatamente aí que está a graça em viver: o inesperado.

Que não adiemos o agora por medo do depois, também eu quero que a vida daqui pra frente seja hoje, o agora e o que não se pode adiar. Me perdoe, se isso tudo o que escrevo lhe parecer insano. Tanta gente vive esperando pelo fim de semana, pelas férias, pela resposta daquele e-mail ou por um telefonema para ser feliz que eu já nem sei mais o que é normal, mas o que eu quero eu sei muito bem. O maravilhoso agora, com todas as suas surpresas, hábitos e infinitas possibilidades que só precisam de uma chance para fazer de nós o que realmente somos capazes de nos tornar e realizar.

“A vida não é adiável” e isso é tudo o que precisamos saber para irremediavelmente viver.

Com amor, C.B.M

*A carta de Caio F. citada neste texto está presente no livro “Cartas”, uma coletânea, lançada em 2002 e organizada por Ítalo Moriconi, que traz algumas das muitas correspondências do escritor Caio Fernando Abreu.

Carta de perdão

Ele sempre foi tão alegre e espontâneo que essa inquietude tem me preocupado. Me estranha ver o quanto anda aflito. Ele pouco falava comigo, mas sempre compreendi os desenhos que fez por aqui. Ele tinha o traço forte e definido e muitos eram até divertidos, mas faz tempo que não rabisca nada. Anda de um lado pro outro nesse quarto e tem dormido mais do que o normal. Nunca foi de dormir muito. Esticava as manhãs na cama só quando ela vinha dormir aqui e faz tempo que ela não aparece. Chegou bêbado em casa algumas noites atrás e dormiu de roupa e tudo. Tem alguma coisa errada com ele e eu não sei como ajudar.

Hoje, particularmente, ele tá mais angustiado, dá pra sentir no ar. Ele está sentado na cama olhando pra tela do celular sem piscar. Digita algumas coisas e continua a olhar pra ele. Quando a primeira lágrima caiu, tive certeza: algo muito errado está espremendo seu coração. Nunca o vi chorar antes. Ele sempre foi tão forte e valente que o ver desmoronar assim me despertou. Chamei por ele. Ele me olhou rápido e logo voltou os olhos para o celular, que acendera. Chamei novamente, mas ele parecia concentrado demais na troca de mensagens. Chamei mais uma vez, outra e outra. Ele me olhava, pensava e voltava a trocar mensagens.

Quando ele soltou o celular na cama e veio até mim, sorri. Sei que eu poderia ajuda-lo de uma maneira que o aparelho não era capaz. Sou mais velha e comigo é mais fácil dizer o que sente. Eu não julgo, não condeno e nem questiono. Eu escuto tudo calada e aceito qualquer argumento ou confissão. Ele pegou uma caneta e me olhou hipnotizado. Seus olhos marejados entregavam a dor e sua mão trêmula o impedia de iniciar. O sofrimento era não nítido que chegava a ser palpável. Ele estava se martirizando e precisava desabafar. “Siga em frente, meu amigo. Estou aqui para isso”. Ele ouviu e escreveu as primeiras palavras.

Me perdoa, Melissa

Agora estava tudo mais claro. Ele falhara e precisava se desculpar. A culpa é um sentimento que corroe as entranhas com tamanha força que apenas o perdão é capaz de aliviar. Depois da súplica inicial ele escreveu sem parar e entre um soluço e outro, respirava fundo. Transbordar os sentimentos estava lhe fazendo um bem danado e era possível ver que seu coração já não sangrava tanto. As palavras foram saindo com fluidez e seus dedos, conectados direto com seus sentidos, foram confidenciando tudo que sentia e nunca tinha admitido a ninguém. Nem a ela. Nem a mim.

Algumas lágrimas caíram e mancharam trechos como “Eu negligenciei nosso amor”, “você foi a melhor coisa que me aconteceu” e “ eu sempre te amei”. Quando terminou, ainda ofegante, releu, reparou nas manchas e pensou em reescrever, mas lhe expliquei que era assim que ela deveria receber e ele aceitou a sugestão.

Eu, sendo apenas a folha papel, seria a mensageira de uma carta de perdão e não poderia estar mais honrada. Levar a ela as confissões mais sinceras de seu amor seria, no mínimo, notável. Fui levada junto à uma caixa de bombons e assumo que sentia certa ansiedade. Ela nos recebeu bem e se nem olhar para os doces, me abriu. Conforme foi passando os olhos pelas palavras que eu carregava comigo foi se emocionando também e deixou em mim suas manchas.

Melissa entendeu e perdoou as falhas de seu homem e puder testemunhar o beijo de reconciliação. Cumpri meu papel e acabei guardada no fundo de uma gaveta, que é onde vivem as cartas de amor e virei história. 

MONIKAJORDAO

Carta ao amor da minha vida

Caro amor da minha vida, tome, de mansinho, o seu espaço em mim.
Me ganhe aos pouquinhos, de forma que, quando eu perceber, já
esteja, há um bom tempo, em um lugar só seu e meu. Não precisa ser incisivo. Não precisa ser selvagem. Não precisa ser aquela loucura.
Só precisa me trazer aquela porção de paz, que só um amor certo é capaz de trazer. Você não precisa tomar meu coração de uma vez, não. Isso é para os desesperados, para os que não tem coragem e autocontrole o suficiente pra dar um passo por vez… encha, da forma mais sutil que puder e da forma mais Transcendental que for capaz, o meu coração de você. Seja como o bom vinho, que enche o paladar aos poucos, perfuma e acaricia a alma em diferentes níveis… Todos maravilhosos, todos peculiares. E, quando eu me perceber neste lugar tão bonito e tão nosso, me encha de certezas, de músicas significativamente marcantes, e filmes em dias chuvosos.
Querido amor da minha vida, é preciso que você entenda… Eu falo
demais. E quando estou nervosa, falo o dobro. Sabe, já melhorei um bocado. Mas quando se nasce amante das palavras, é bem difícil contê-las, seja na mente, na ponta dos dedos, ou nos lábios… Bem, elas estão sempre ali, e talvez eu tropece no meio delas, talvez eu escolha antecipadamente meia dúzia delas, mas quem sabe você possa entender isto, não é? Tenho mais “uma dúzia menos um” de defeitos.
Mas defeito é algo que todos possuem, inclusive você, eu espero.
Afinal de contas, gente perfeita demais é cansativa. Eu,
sinceramente, não ligaria se a sua chatice fosse similar à minha; e
mesmo que não fosse similar, eu não ligaria para o fato de você ter chatices. Trata-se do amor da minha vida, e dizem por aí, que o amor se encanta com os defeitos do outro… bem, eu espero me
encantar pelos seus. Espero que você se encante pelos meus. E
espero que nos encantemos pelos nossos.
Acima de me ganhar aos poucos e aceitar os meus defeitos como um bom amante, seja meu melhor amigo. Seja presente mesmo nas ausências do dia-a-dia, mesmo naquela saudade gostosa que se sente de quem se ama. Aliás, deixe que eu sinta saudades, mas não deixe que eu me sinta esquecida ou deixada de lado por um dia inteiro.
Faça com que eu me sinta querida, estimada, e muito bem cuidada. Espaço é bom, mas esquecimento… nem tanto. Eu sei bem que as distâncias, eventualmente, se fazem necessárias. Quando isso acontecer, me conte aquelas histórias engraçadinhas – pra não dizer bobas – de viagens. Me conte como aquele rapaz estranho, no meio da rua, parecia em outra dimensão ao olhar para o céu, e como você riu ao ver aquela cena. Me conte da história que aquela senhora idosa lhe contou. Conte-me o que você quiser… mas me conte. Eu sempre vou gostar de saber. Sempre vou prestar atenção nos detalhes. E não é por se tratar de detalhes, mas é porque são detalhes contados por você.
Caro ser peculiar e pertencente à minha alma, fale de mim para
Deus. Sussurre uma oração à meu respeito. Eu vou sussurrar orações à seu respeito também. Eu vou falar com Deus sobre você. Afinal de contas, é uma história que já foi escrita, provavelmente, há milênios, e eu serei grata ao Autor dela todos os dias.
Não tente me impressionar. Não sou do tipo que se apaixona ao ser impressionada. Seja diferente, eu não sou comum. Não seja como esses caras padronizados que se vê por aí… Eles me dão nojo e uma pontada de raiva. Não sou esse tipo de garota que entrega o coração à qualquer um. Aliás, este pobre coitado está guardado há um bom tempo. Não empoeirado e mal cuidado… Eu faço questão de cuidar bem dele. Mas meu coração permanece guardado, e, por mais irônico ou clichê que esta história toda possa soar, só há três chaves para abri-lo: uma está com Deus, a outra, comigo. A terceira chave, eu
joguei de um penhasco bem alto num dia desses, e soube que foi você quem a encontrou, caída no chão, e a guardou, até que ela tivesse serventia. Pois bem!
Por fim, meu estimado amor da vida, não vou lhe dar todas as
direções para chegar até mim… Até as portas trancadas do meu
coração. Já lhe disse o básico, ou o mais importante. Deixe, agora, que o próprio Amor seja a sua bússola. E quando chegar, fique.
Entre para tomar um café, e, por um descuido poético nos meus
olhos, decida ficar. A centelha de esperança continua acesa.
Exista. E não demore para chegar, ou tomar este importante lugar,
que é, e sempre foi só seu.
Com amor,a pessoa que espera por você.
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