Não é feio pedir ajuda

No período mais difícil da minha vida eu entendi que não é feio pedir ajuda.

Estava no fundo do poço das minhas lamentações, vivendo um momento difícil, dolorido, angustiante. Eu que sempre quis ser autossuficiente, desci do pedestal que eu criei com todos os meus egos para pedir. Correr atrás dos seus sonhos não significa que você fracassou, não significa que nada deu certo e não significa que não existam pessoas dispostas a ajudar e a interceder por você.

E eu pedi, sem medo ou receio, com dor, mas com um coração cheio de vontade de fazer o bem, de doar esforço e dedicação em prol de um ideal, em prol de uma luta de anos, em prol de fazer algo por mim mesmo. Eu estava na lama, me lamentando por tudo que ainda não havia conquistado, enquanto o mundo inteiro esperava por mim, por mais um golpe nessa luta que é viver.

E fui, tomada por bons sentimentos, por pessoas amorosas, empáticas que compreendem que o verdadeiro sentido da vida é poder fazer o bem, sem olhar a quem, ou a o quê. Essas pessoas mesmo sem saber, mesmo fazendo o mínimo que lhes cabia, me ensinaram um mundo de novas sensações, de vontade de ser melhor, de sede por caridade. Cada uma delas, e suas palavras de conforto, de auxílio tocaram meu coração e me motivaram ainda a mais a não desistir de tudo o que batalhei pra chegar até aqui.

As vezes a gente não sabe o quanto nossas palavras podem mudar a vida de outras pessoas, para o bem, para o mal também. Palavras são gatilhos de uma arma que mata ou impulsiona. Arma ou foguete. Resta a quem profere, saber colocar o seu alvo em baixo ou em cima do foguete. O caminho das estrelas é de quem está em cima e só quem cuida do que diz pode proporcionar um bem a outro alguém.

Nada mais bonito que o sentimento de gratidão!

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Durante todos os dias do ano, eu quero é ser dona de mim

Leia ouvindo Mulher – Ana Cañas. (https://www.youtube.com/watch?v=mnQiEqKReas)
Hoje é dia da mulher, certo? Dia de lembrar-nos o quanto nós somos lindas e delicadas e loucas e neuróticas.
Hoje é dia de receber flores e chocolates, desconto em produtos de beleza, aparelhos domésticos e mensagens vazias sobre o que acham que somos.
Hoje é dia da mulher, mas eu não tenho o que comemorar, porque hoje é o dia da mulher midiático, superfaturado, comercial, capital, brutal.
Hoje é o dia da mulher que nos outros dias é chamada de louca porque não se cala pra abuso.
Hoje é o dia da mulher, que apanha nos outros 364 dias e chora calada porque vive sem amparo, sem espaço, sem rosto, sem voz.
Hoje é o dia da mulher que assiste calada, homens de terno e gravata decidirem sobre o seu corpo. Muitos pais abortam sem a menor consciência, simplesmente vão embora… Mas hoje estamos falando do dia da mulher que não pode tomar essa decisão, que não pode falar sobre isso, que não pode escolher sobre isso, que não tem direito a vida.
Hoje é o dia da mulher que, sozinha, luta pra criar os filhos sem ajuda do pai que acha que é menos responsável só porque não teve uma gestação em seu corpo.
Hoje é o dia da mulher, que quando livre é chamada de puta, vagabunda, imoral, indecente, promíscua, vadia, vaca… a lista é longa!
Hoje é o dia da mulher que aparece na tv, na capa dos jornais, nas histórias mais curiosas sobre super mulheres sofridas que tem mil e uma utilidades para a sociedade machista ao qual está inserida. Dia da mulher que lava, passa, cozinha, cuida da casa e dos filhos e ainda exerce uma grande profissão.
Mas não é dia da mulher real que está de fora da tv, que não tem acesso a jornais ou internet.
Dia da mulher que é subjulgada, esquecida, maltratada, humilhada, hostilizada, condenada e desrespeitada durante todos os outros dias.
Só por hoje a mídia esquece de nos condenar ou nos menosprezar, apenas para cumprir seu papel social de uma data. Aliás, mulher não é sinônimo de competência nos outros dias do ano.
Hoje é dia da mulher e só por hoje eu quero sair na rua, sem ter que ouvir meu corpo ser sexualizado por homens ou pela mídia.
Só por hoje eu quero usar uma saia, sem ter fiscal de medida “tá curta demais” “tá parecendo uma crente”.
Só por hoje eu quero não ser chamada de puta só porque falo o que penso ou porque fui pra cama com os caras que eu quis.
Só por hoje eu quero ser vista com um ser humano igual, que sente e que tem desejos também. O meu desejo não tem que ser menos porque eu nasci mulher e “preciso me dar ao respeito.”
Só por hoje eu quero andar pelas ruas sem o medo de ter meu corpo invadido, sem o medo de ser agredida.
Só por hoje eu quero conduzir um país e ao tomar decisões erradas, ser chamada de incompetente e não de puta, vadia e vagabunda.
Só por hoje eu quero ocupar um cargo e receber um salário justo ou deixar de escutar piadas sobre ter dormido com meu chefe, quando for promovida.
Só por hoje eu quero dar de mamar ao meu filho na rua sem ter alguém banalizando o meu ato ou propondo que eu me cubra.
Só por hoje eu quero decidir sobre o meu corpo e sobre a vida que eu quero ter.
Só por hoje eu quero ser mãe solteira sem ser julgada. Porque hoje o que mais se vê é a realidade das mulheres que criam seus filhos sozinhas. Criam meninos e meninas que nunca souberam sobre seu pai, que nunca o conheceram nem por fotos, muito menos receberam um telefonema no dia do aniversário.
É confuso estar do lado de quem sente, de quem fica do lado daqui, de quem assume o peso de gerar e colocar um filho no mundo. Sozinha.
Virou estatística a quantidade de caras que vão embora viver suas vidas e esquecem de quem deixaram pra trás. Eu sou estatística, você também. Sou mais uma criança com a certidão de nascimento com um milhão de Xs no nome do pai.
Só por hoje eu quero decidir não ter filhos, sem precisar ouvir que “toda mulher nasceu pra ser mãe” até o fim da vida.
Só por hoje eu não quero ser presa por quebrar um contrato com um cara que me violentou, nem que duvidem do abuso alheio.
Só por hoje eu quero não ser chamada de louca. Aliás, dia desses eu li no facebook: “Os homens têm muitas histórias sobre as ex loucas. As mulheres normalmente não. Porque mulher que tem ex louco, geralmente está morta”.
Só por hoje. 8 de março. Por um único dia. O meu dia, não é mesmo?
Mas por todos os outros dias também! Quero que me deixem ser o que quiser, porque durante todos os dias do ano, eu quero é ser dona de mim.
Hoje é muito mais do que flor, hoje é dia de resistência e de luta. Dia de avisar pra todo mundo que viemos para cada vez mais ocupar os espaços que ainda nos são negados. Dia de silenciar assédios e não se calar para eles. Dia de divulgar dados cruéis, porque é complicado lidar com a peteca de saber que 86% das mulheres brasileiras sofrem ou já sofreram assédio na rua, que 80% delas, já sentiu ser assediada no trabalho e se calou por que duvidou da ação que sofreu. Vivemos a banalização do assédio. Muitos homens e mulheres (infelizmente) ainda acham que é normal, natural do homem, assediar. Principalmente de maneiras sutis que só nos constrangem cada vez mais, afinal, o machismo está enraizado.
Sete a cada dez mulheres são agredidas ao longo de sua vida. É triste lidar com uma sociedade que se nega a reconhecer seus defeitos de caráter e é mais triste ainda não conseguir assumir que o machismo é um problema real e histórico. E mesmo quem fala tanto, quem estuda, se desconstroi, ainda não consegue lidar quando é vitima de machismo e agressão. A gente sempre acha que tem bagagem o suficiente pra saber contornar as coisas, principalmente quando acontece dentro de casa. A gente sempre acha, mas não tem. Um muro desmorona todas as vezes em que uma mulher é agredida. Todas as mulheres sofrem junto quando uma mulher é agredida e violada.
É importante falar sobre o machismo de todo dia. Falamos muito sobre literaturas, pensadores, conteúdos e ramificações. Mas a realidade do machismo está na rua. Está no jornal. Está dentro de casa. Nas nossas escolhas que não são tao nossas.
A descriminalização do aborto, por exemplo, é justamente pra que mulheres possam escolher. Tem muita mulher pobre, classe baixa, sem nenhum tipo de acompanhamento psicológico, morrendo por não ter acesso ao aborto. A legalização do aborto deve ser uma questão de saúde pública, saúde da mulher e mais do que isso, uma questão de sororidade e empatia. E é importante entender o lado de quem sofre, de quem morre, de quem sente a dor de realizar um aborto clandestino, sem amparo médico. Mas também é importante entender o lado do feto, que se torna um ser, uma criança que nasce pra morrer, pra ser violentada dentro de casa, pra não ter acesso à saúde e educação, pra virar bandido, pra morrer depois pela bala da polícia.
Só por hoje eu quero o meu direito de decidir sobre o aborto, de decidir ser a favor, de decidir ser contra.
8 de março, mais um dia internacional das mulheres! Dia das mulheres, num mundo que ainda mata 5 mulheres a cada hora por causa de machismo?
Rosas só se for pra colocar sobre o corpo das 119 mulheres assassinadas diariamente por seus parceiros e parentes. Feliz dia da mulher, pra que mulher?

A gente espera do mundo e o mundo espera de nós.

Quando acontece alguma coisa no mundo a gente se sensibiliza, sente dor e em todos os lugares se fala sobre isso. O sensacionalismo dos jornais, os comentários vazios nas esquinas, as correntes de whatsapp que viralizam sem embasamento ou veracidade, as opiniões do facebook e o grande martelo que é batido por cada um em nome da justiça.
A gente se sente um pouquinho desconfortável quando somos envolvidos por tragédias e massacres. A gente se sente compactuante de um crime apenas por estar em sociedade e ser um boneco dentro de todo esse sistema feito pra matar pobre sem piedade, sem empatia, sem sensibilidade pela vida humana.
E a gente quer saber, destrinchar a história inteira pra alguma coisa fazer sentido na cabeça. Buscar culpados ou pelo menos algum Judas a ser apedrejado em nome da justiça que a gente nem em sonhos um dia já possuiu. A gente quer a paz, mas vive imerso numa guerra moral que nem em 100 viradas de ano conseguiremos reverter. A gente quer amor ao próximo, menos ao próximo marginalizado… A escória da sociedade que nasceu pra morrer na maior das crueldades.
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Uma noite de crime pra gente mataria bem menos do que todos os dias de crime onde quem não pode pagar segurança, padece. Mas vivemos de uma moral forjada por uma religião qualquer que abomina essas atrocidades. Quando não pode ver, quando acontece nas favelas, bem distante de você, nos presídios que são fonte de renda pra político corrupto que todo ano disputa eleição e vence, porque o crime só é crime pro pobre. Rico sustenta essa máfia chamada corrupção há milênios. Político destrincha leis pra se beneficiar e encontra amarras onde pode sustentar seus vícios, sua ganancia e sua sede de poder.
Quem detêm poder não se preocupa com o próximo, quem está sentado na cadeira cravejada de privilégios das prefeituras não se sensibiliza com o mínimo que é se doar por outro ser humano, não se preocupa em destinar acesso e conforto pra quem espera horas por um ônibus, por um atendimento médico, por uma vaga na universidade, por uma vida melhor e menos sofrida.
Nós compactuamos com a crueldade todos os dias. Mas somos juízes de todas elas e nunca culpados. O negro marginalizado é a culpa. Aliás, a expressão “negro-marginalizado” é redundância no mundo inteiro. Sangue de pobre escorre todos os dias nas periferias, nos barracos sem saneamento básico.
Matar é horrível quando o sangue escorre sem a gente ver, sem a gente se chocar com a realidade de que tem muito mais sangue na mão de rico, do cidadão de bem e do policial que devia defender e não matar, do que a gente pode imaginar.
Nossa sociedade é um filme de terror censurado para menores de 18. 18 nada! Tem que reduzir a maioridade penal. Se matou, foi porque escolheu matar e não porque faltou educação, saúde e valores.
Somos minideuses povoando a terra. Somos instigados a dilacerar comentários como os mesmos martelos que batem na mão de juízes.
Nos indignamos com o sistema de justiça, mas esquecemos que burlamos leis para nos beneficiar quando precisamos minimizar nossas falhas de caráter. No nosso mundo ganha quem já nasceu trapaceando, quem já nasceu na posição da frente de uma fila de calda onde habita os excluídos.
Camila