Sobre a poesia que mora dentro da gente

Em memória de Rubem Alves

Todas as tardes, após sair do trabalho, passo por uma avenida repleta de árvores, entre elas, um grande ipê carregado de flores amarelas. Hoje sei bem sobre a cor e o tamanho desse monumento natural porque me permiti olhar para ele com o reparo merecido. Sei também sobre o ninho de passarinhos no seu mais alto galho e sobre o sorriso da criança que se encanta com a pequena flor que cai no chão, misturando-se às outras num verdadeiro tapete de cor. Sei da moça que, delicadamente, procura desviar-se dessas pétalas que tomam conta da calçada com pena de esmagá-las. Posso falar sobre quem, sempre tão ocupado em seu celular, passa e não vê, sobre quem olha, sorri e segue seu caminho e sobre quem não se cansa de olhar, mas devo confessar que só me dei conta da grandiosidade do ipê quando, um dia que parecia ser igual a todos os outros, minha pequena irmã diminuiu o passo, tocou docemente meu ombro e disse:
– Olha que coisa mais linda essa árvore!
E então a observei sem pressa e, finalmente, passei a entender o que Rubem Alves pretendia quando disse que “os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma”.Compreendi que o modo de ver das crianças é realmente mais eficaz na percepção do belo e que ele estava completamente lúcido quando escreveu que desejava conservar nos olhos o fascínio e a capacidade de se assombrar diante do banal, características típicas da infância, mas que são essenciais aos adultos que desejam tornar-se sábios. Foi preciso que um ser que, aparentemente, não sabe nada sobre a vida, me despertasse para a beleza que estava bem a minha frente. Assim são as mensagens de Rubem, leves toques no ombro do leitor, despertando sentimentos que já habitam em nós, mas que estavam adormecidos, instigando a inteligência e a percepção do simples como uma dádiva, uma maneira de provocar a vida. Distribuídas em mais de 146 obras sustentadas por uma linguagem simples e poética, são uma combinação de frases colhidas de um coração que acreditava que as palavras só têm sentido quando podem ajudar a ver o mundo melhor.
Adentrando o universo de simplicidade do escritor, passei a ter a certeza de que é que no coração disposto e apaixonado que está a verdadeira graça e quando usadas como alimento para a alma, as boas palavras tocam, instruem e nos ajudam a construir o que queremos ser. Ter a paixão em seu âmago não significa somente ser apaixonado por alguém, mas ter paixão por viver, essa é a poesia que está dentro da gente e é ela quem reconhece o belo. No mundo em que vivemos, o óbvio precisa ser dito porque muitos ainda estão cegos e surdos para o viver e ocupados demais para olhar para dentro de si e para o outro. Muitas vezes é preciso que alguém nos aponte a direção ou que algo aconteça para que enxerguemos o encanto e a magia de estarmos vivos. Tornando-se mestre na arte de perceber as maravilhas ao nosso redor, Rubem deixou um imenso legado que faz do amor ingrediente principal das relações verdadeiras e da alegria um agente transformador.
Como ele mesmo diria, “encantou-se” em 19 de julho de 2014 e, em respeito ao seu desejo, suas cinzas foram colocadas junto à muda de um ipê amarelo, tão citado em seus escritos, permanecendo vivo não somente por meio das muitas sementes lançadas no canteiro de tantas mentes dispostas à evolução , como também entre as raízes de sua árvore preferida. Sua maior e mais valiosa herança é a consciência de que o que realmente importa está em nós, pois ele sempre soube e fez questão de nos lembrar de que “é preciso que a gente escute a própria música,é nessa música que está a imagem da nossa felicidade”
Quanto a mim, desde o dia em que encarei verdadeiramente aquela manifestação da natureza de todas as tardes,fiquei mais atenta não só para o olhar que lanço sobre as coisas, mas agucei também os ouvidos, ouço a minha música e me permito ouvir a do meu semelhante. Prestar atenção no que aparenta ser singelo tornou-se minha magia e desafio diários, uma maneira de manter acesa a chama da poesia que mora em mim.
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A cena do retrato

(…) o que se ama é uma “cena”. “Cena” é um quadro belo e comovente que existe na alma antes de qualquer experiência amorosa. A busca amorosa é a busca da pessoa que, se achada, irá completar a cena. Antes de te conhecer eu já te amava… E então, inesperadamente, nos encontramos com o rosto que já conhecíamos antes de o conhecer. E somos então possuídos pela certeza absoluta de haver encontrado o que procurávamos. A cena está completa. Estamos apaixonados.”

É o que Rubem Alves explicou lindamente em seu livro “Retratos de Amor”, mostrando sua sua visão sobre o que se busca quando se deseja viver um amor, ou seja, ter alguém para compartilhar o que ele chamou de “cena”, que nós podemos compreender como os momentos que consideramos importantes em nossas vidas.

Sempre haverá algo que queremos dividir com alguém, porque sabemos que aquela pessoa, por sua relevância, pode tornar o acontecimento ainda mais bonito, complementando e dando ainda mais sentido ao que vivemos, desfrutando do mesmo instante de sentimento profundo. Uma ida ao cinema, um passeio de barco, de bicicleta, uma foto no jardim, o momento do brinde… tudo isso são cenas que nos tocam, não de maneira passageira, mas de forma que faz com que possamos nos lembrar daquele momento que se congela no espaço por toda nossa existência.

Quem nunca se imaginou vivenciando uma dessas situações com alguém, um dia há de imaginar e mesmo que esse dia esteja muito distante, chegará a ocasião em que verá a si mesmo numa cena que não seria a mesma sem a pessoa ao lado, mesmo sem nunca ter imaginado aquela presença. No entanto, antes de mais nada, é preciso que tenhamos acontecimentos só nossos, que saibamos sermos sós, que paremos por alguns instantes para as nossas fotos e cenas solo, que possamos sentir sozinhos, viver bem desacompanhados para vermos a beleza e sentir o prazer de sermos alguém antes de querermos abraçar outro ser para a eternidade de um retrato.

Para que a companhia seja bem desfrutada e receba seu devido valor,  é preciso que, com a nossa própria companhia, também saibamos viver para que assim a base do relacionamento, que ainda não chegou, se torne sólida o suficiente para apoiar os porta retratos que a vida trará e que as fotos ostentem sorrisos verdadeiros e não aquele forçado cerrar de dentes no instante em que o fotógrafo aperta o botão.

Aprender a ser feliz consigo mesmo antes de pensar em construir a felicidade com outra pessoa, é um exercício diário que nos eleva, porque é assim mesmo, de grão em grão, que conhecemos o caminho do autoconhecimento, que chegamos ao nível do amor sem exageros, sem esperar demais pelo que o outro pode nos dar, sabendo que somente nós podemos dar à nós mesmos o que necessitamos e para que aquela pausa para o retrato registre não somente a aparência de um rosto feliz, mas de uma alma que se une ao sorriso de lábios e peito abertos.

Para quem sonha em reproduzir o retrato que viu na sala de estar do amigo, ou algum outro conhecido, dou meu aviso de marinheiro de segunda viagem: É impossível realizar o retrato que o outro arquitetou e nos encaixar numa cena que não foi feita para nós, porque a nossa verdadeira cena é o que vem de dentro, aquela que, sem saber, já possuímos em nossas mentes influenciadas pelas coisas do coração.

Amamos a cena, como disse Rubem, porque nossa vida toda é repleta de uma porção delas: os momentos que se eternizam em nós. O momento em que recebemos o primeiro presente, um abraço apertado por termos realizado algo bonito, um elogio, um sorriso sincero, quando pegamos em nossas mãos o nosso diploma tão suado, quando ganhamos a luta entre as baixas probabilidades e nossa vontade de continuar, o encontro com o outro ser que tanto sonhamos para dividir nossos dias…Todos esses momentos são nossos e, por mais que tenham suas semelhanças, ninguém pode reproduzi-los, pois cada um registra a sua cena a seu modo, tornando nossos momentos em algo único e intransferível. Nossas cenas são apenas nossas, são instantes, momentos que se eternizam na retina, antes da foto, antes da legenda que será escrita logo abaixo naquele grande álbum de recordações, mas que fique claro, não só de coisas que já aconteceram vive o nosso “fazedor de cenas”. Há também aquelas que estão lá, prontinhas, no quentinho do peito, só esperando para serem reproduzidas e se tornarem carne, osso e sentimento. Essas são aquelas a quem chamamos de sonhos, os motivos pelos quais continuamos e encontramos forças para insistir que a vida vale a pena em todos os seus detalhes, mesmo que o sonhado “click” demore a chegar.

Existem também as cenas que nós não construímos nem em nossas cabeças, muito menos em nossos corações, mas que acontecem e ficam gravadas, senão na foto, mas em nossas mentes, essas são aquelas pelas quais jamais desejaríamos passar, mas que nos são necessárias por alguma razão que ainda não compreendemos. Essa é a vida tomando seu curso fora de nosso controle, mostrando que não podemos planejar tudo e que não podemos seguir acreditando que tudo será sempre da forma que sonhamos, mas que, por mais que demorem a sair de nossas memórias – às vezes nunca saem – são necessárias e que, assim como os bons retratos, servem para nos lembrar do que somos feitos, que somos frágeis e falhos, e que nós temos tudo o que precisamos para transformar essas situações em cenas de superação, convertendo as nossas sofridas lembranças em desafios vencidos, nos tornando assim mais fortes, tendo a certeza de que nos tornamos mais fortes e, colocando- o na nossa estante de memórias, recebemos de lá do fundo do que somos, a mensagem de que novas e felizes cenas hão de surgir.

Rubem Alves também disse que “é mais fácil amar o retrato”, afinal, ele já está ali, pronto e acaba nos auxiliando na tarefa de elevar esse sentimento à um outro nível, transpondo o significado não ao objeto, mas àqueles que fizeram daquela cena uma realidade e ao momento que se tornou eterno.Temos uma infinita capacidade de amar dentro de nós, e não amamos somente as memórias, mas também as possibilidades de momentos felizes, o que está por vir, o que acreditamos que será nosso novo motivo de alegria.

O retrato pode nos trazer a tona cenas que já não são mais possíveis hoje, mas ele também é, para nós, seres dotados de sentimento, a certeza de que a cena que já amamos em segredo antes de ser realidade, é possível e é por isso que seguimos, mesmo sem saber, em busca de cenas novas. Elas nunca se desfazem, estão sempre vivas no retrato e dentro da gente, mas o mais importante a saber é que mesmo que elas possam acontecer a qualquer momento, hoje, amanhã ou daqui a duas horas, nós temos o poder e a escolha de amá-las e possuí-las, porque é delas que são formados os nossos verdadeiros tesouros, tudo aquilo que nem mesmo a morte pode tirar de nós.

Nossos silêncios

De todas as coisas que fizemos juntos, com toda a certeza que carrego no peito junto às minhas lembranças, pessoas, e afins, a mais bonita foi ficar em silêncio. Dentre tantas palavras que poderiam ter sido ditas, ainda assim, escolhemos ficar em silêncio. Um silêncio tão bonito quanto o nascer dos dias, a vida correndo e parando entre um prazer e outro e o carinho que fica, insiste em permanecer porque nada do que chegou a ser dito antes poderia ser capaz de superar a força de um entendimento entre olhares, aquele último encontro entre olhos totalmente dispostos ao recomeço e que, de alguma forma, já se fazia possível imaginar que seria realizado em direções opostas.

Aqueles últimos cinco ou dez minutos – quem andou contando? – de mãos que, evidenciando a já tomada decisão, não se tocaram mais, da ausência de explicações que não deixou ferida alguma que não pudesse ser cicatrizada com o passar do tempo, fechando o corte quase imperceptível e indolor. Eu não disse nada, apenas entreguei o papel e saí de cena, olhando para trás algumas vezes, de certo, mas carregando a quase obscena tranquilidade de quem espera sempre pelo melhor e que, de um jeito estranho, sabia que não poderia continuar sendo a mesma pessoa depois de tudo o que tinha vivido até ali e também diante daquela demonstração silenciosa de afeto e respeito mútuos.

Não dá pra ser a mesma depois de libertar todas as palavras que julguei necessário escrever e ser respondida com um leve fechar de olhos e aquele sorriso sereno enfeitando o silêncio. Aquele silêncio foi diferente porque também era meu e por isso não doía feito punhal entrando na carne, era leve mesmo carregando toda a sua bagagem de sentimentos. Foi um silêncio sobre nós, um silêncio em respeito ao que não pôde acontecer, ao amor que poderia ter sido tanto e não foi, às histórias que poderíamos ter vivido, aos abraços que ocorreram e também àqueles que não tiveram a mesma chance de acontecer, aos beijos que morreram nos lábios um do outro, à minha pele, à sua pele, aos nossos corações nus e totalmente despreparados que chegaram a  esperar ansiosamente pelo “algo mais” até que perceberam que nossos espaços atmosféricos não eram os mesmos.

O silêncio é o que, ainda hoje, nos une em um perfeito ritual que acontece todas as vezes em que nos lembramos daquele encontro que poderia ter morrido com o passar das manhãs, tardes e noites, se levado em conta as horas e datas do mundo real, mas que permanece vivo em algum lugar do tempo, o tempo que todos conhecem ou julgam conhecer. Eu já não sinto saudade, nem mesmo sei se algum dia senti, simplesmente, fecho os olhos e sorrio quando me lembro de você, porque sei que aquilo tudo foi, além de bonito, necessário e isso me basta.

Ainda são muitas as pessoas que acreditam e dizem por aí que o silêncio causa dúvidas, que quem cala consente, mas eu, por minha própria experiência, sigo acreditando que, em certas situações, ele limpa e impede que passemos do limite, que nos afastemos da linha tênue entre levar em consideração a vontade do outro e dar espaço ao desejo ordinário de forçar uma reaproximação apenas por orgulho, para podermos dizer que vencemos, quebrando assim um silêncio que precisa ser vivido e abrindo espaço para uma outra história com um final diferente, um final que talvez nunca fosse feliz e que se sujeitaria a ser somente aquilo que lhe foi imposto acontecer como em tantas outras relações falidas.

Eu não disse nada quando pude, porque eu sei que não tenho nada para dizer, nada que seja melhor e mais correto do que os caminhos vindo ao encontro dos viajantes, contrariando o que se acredita ser a lei natural dos acontecimentos e abrindo os grandes portões de possibilidades que não seriam hoje reais se não fosse por essa divindade a quem hoje chamo de silêncio.

Quem sabe isso tudo, essa forma serena de ver as coisas não quer dizer amor? Não como aqueles amores em que, no final, é um fato ficarmos juntos, mas aquele que une, em pensamento e memória, duas pessoas gratas pelo encontro, mas ainda mais gratas pelo respeito às escolhas e silêncios um do outro, tornando este o nosso pequeno segredo que precisa estar mudo para ser o que é.

O amor dos outros

Não me amolecem o coração esses casais considerados símbolo de perfeição, o tal casal que vive junto há uns 50 anos e jura nunca ter brigado, o par que dá conselhos sobre como ter o relacionamento ideal durante a reportagem de um programa qualquer de domingo, ou a senhora que exibe orgulhosa o anel de compromisso que ganhou de presente quando ainda era aquela jovem que acreditava em tudo e todos, enquanto, hoje, o marido apenas assiste TV, sem nem olhar para os lados.

Não me conquista aquele que esconde seus defeitos e finge que amar é sorrir o tempo todo, flutuando entre mil nuvens de açúcar de confeiteiro. Aqueles casais que só se tratam como tal em fotos nas redes sociais, tão agarrados, tão aparentemente envolvidos, mas que dissolvem no dia a dia, toda a magia que teimam em forçar diante das telas.

O que me conquista é a verdade, o sorriso que se percebe pelo brilho que até parece vir lá do fundo, do espaço mais profundo dos olhos. Um sorriso que pode não aparecer o tempo todo entre flashes nos momentos de fotografia, mas que é certeiro, porque quando aparece, e quase sempre aparece, é natural. Ele vem porque tem um recado direto a dar, não serve como disfarce, pois é feito daquelas coisas bonitas de dentro da gente, aquelas que de tão genuínas, exalam sozinhas e nós, meros mortais, não conseguimos disfarçar.

Não dá pra fingir felicidade o tempo todo, não dá pra fingir que não passamos por maus momentos ao lado daquela pessoa ou que nunca houve uma discussão ou desentendimento, porque isso faz parte e é preciso aparar as arestas. Negar os momentos ruins superados seria o mesmo que negar uma parte da nossa história, a verdade que é parte crucial do verdadeiro amor que consiste em saber dos defeitos e se encaixar assim, ser bonito assim, imperfeito como todo e qualquer ser humano é.

O amor é realmente um sentimento divino, mas não nos transforma em deuses, porque, de alguma forma, torta ou não, precisamos do imperfeito, daqueles pequenos ou grandes desafios que nos fazem mais fortes, que nos fazem nós mesmos.

Que fique claro que encarar os desafios que nos aparecem quando nos relacionamos com alguém não é o mesmo que procurar ou engolir, a cada dia, sofrimentos só para continuar ao lado da pessoa a quem temos amor. Somos feitos de falhas e grandes valores, nós somos a mistura de tudo isso e precisamos do equilíbrio entre dias não tão bons, com os dias em que, tal como Zeca Baleiro, acordamos com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, bater na porta do vizinho e desejar bom dia  e beijar o português da padaria, mas se impera lá no fundo do coração, lá onde só você tem acesso, um relacionamento só de buracos e escuridão, é preciso dar meia volta e recalcular a rota porque algo de muito errado aconteceu durante esse trajeto.

Ouço e leio muitas histórias de amor, mas já me apego a elas, não como nos tempos de menina. Elas me inspiram, me emocionam, mas hoje me questiono muito mais sobre o que é de verdade. Como saber quais são as que, de fato, aconteceram, quais delas são reais? Questiono, mas não me preocupo, observo, me permito encantar, e deixo que a resposta fique a cargo de quem vive esses romances.

Eu não quero me pautar por uma história que não é a minha. Eu quero estar acordada quando isso acontecer, porque eu cansei de sonhar e apenas imaginar, mesmo sabendo muito bem que quem escolhe a hora não sou eu, e que também nesse quesito, Deus, o destino, ou o que quer que chamem de poderoso, é implacável.

A minha parte vem logo em seguida: abrir portas e janelas, ou deixá-las entreabertas, ir devagar ou descer as escadas correndo e pular em seu colo. Eu decido uma porção de coisas, mas não posso evitar quando acaba, porque se tiver que acabar, não há convenções sociais, aparências, feitiços ou decisões desesperadas tomadas por conta do medo de perder, que sejam capazes de deter o ultimato do tempo. It’s over.

Há tanta gente com alguém do lado, mas sozinha, tanta gente acompanhada pela solidão, tantos apenas observando e desejando o amor dos outros, tanta gente que não viu o amor passar e, preocupado tentando salvar o próprio barco, não percebeu que ele chamava para ir com ele, lá no fundo, onde se faz preciso mergulhar. O fim já estava ali, mas ninguém se deu conta que já era a hora do recomeço e que recomeços também dão certo quando estamos sós.

Sozinho é que a caminhada começa, o amor pode nos encontrar logo no início, ou bem mais a frente e mesmo querendo muito, ele só vem quando é chegada a hora e eu sigo, continuo andando, parando de vez em quando, mas repetindo pra mim que um dia ele chega, que um dia ele será pra mim.

Eu teimo em esperar porque eu não quero um amor que é para os outros, o amor que o outro fez, eu quero um amor pra mim e feito por mim. Porque esse amor dos outros não é meu, não fui eu que teci, e embora pareça que sigo fugindo do que não controlo, eu quero mesmo o amor, justamente, porque sei que é ele quem faz o caminho. Eis o risco e eu aceito porque desejo  um amor apenas e não apenas amor. Um amor que não precisa ser pra sempre, que não seja como o dos outros, mas que seja feito da nossa verdade. Minha e de quem estiver disposto a pintar comigo essa estrada toda de azul ou qualquer cor que traga paz para nos ajudar a levantar nos tropeços que podem acontecer sem perder a direção. Um amor que seja feito de duas verdades e duas vontades, a combinação e a soma de duas pessoas que são muitas em uma só nesse grande universo que é ser assustadoramente e apaixonadamente humano.

Imprevisível

As rodas giravam e a cidade toda parecia estar sorrindo pra ela, que com os seus cabelos soltos e cacheados a voar, sorria de volta um sorriso frouxo de quem acordou com vontade de viver e que sabe que tudo fica melhor quando a gente sorri, mesmo que seja por dentro, de um jeitinho tímido, daqueles que só a gente sabe como é, mas ainda acredita, segue acreditando que alguém, um dia, será capaz de enxergar e sentir.

Os carros passavam depressa pela imensa avenida aumentando o vento que já existia. E ela? Ela estava onde deveria estar, no lugar reservado às pessoas, que como ela, gostavam de explorar a cidade, ou mesmo ir ao trabalho ou à qualquer lugar que seja por meio do esforço das próprias pernas e a ajuda de dois exemplares de uma das maiores invenções que o homem foi capaz de criar.

Da praia era possível vê-la passar e as mesmas rodas continuavam girando, até parece que sabiam a direção sem que fosse preciso guiar, quase como soltas, pareciam alegres, com seu leve ruído. Na cabeça da moça de cabelos cacheados não havia preocupações capazes de tirar a sua paz, era notável que ela havia escolhido seguir assim, só com seus pensamentos. A verdade era que ninguém que passava por ela sabia ao certo o que acontecia ali dentro, mas a tranquilidade estava estampada em seu rosto e não havia como negar a sensação de liberdade, a brisa que invadia seus movimentos, tudo era visivelmente leve.

Alheia ao que os passantes imaginavam, seguia rumo à padaria, como costumava fazer em todas as manhãs de domingo, e voltaria com os pães frescos e cheirosos dentro de sua cestinha, fazendo levantar o pescoço do cãozinho deitado encolhido na calçada.

Pedalava. Se encantava com as crianças que corriam pelo meio fio, desviava dos pedestres desavisados e sorria ainda mais como que para manter o equilíbrio e a paz. Mostrava também os dentes à senhorinha que passava com suas sacolas de supermercado, cheias do que pareciam frutas e verduras, ouvia o barulho das ondas tão absurdamente próximas, sentia o cheiro da fruta que o moço do quiosque espremia para o suco do freguês e a força do sol em sua pele. Lembrou então de que deveria ter caprichado mais no protetor solar, afinal, temia as rugas, queria ser sempre jovem porque jovens não precisam ter pressa, eles simplesmente vivem e não se preocupam tanto com o amanhã, pelo menos era assim que ela se sentia o tempo todo.

Pedalava e continuava pensando sobre a juventude, sobre o quanto gostava de vivê-la e sobre o quanto queria que ela se alongasse e contava os dias para a festa que daria no próximo final de semana, mas não contava com aquela moto, a buzina e os gritos. As cabeças em volta de seu corpo,  aquele branco na mente e, finalmente, a perda dos sentidos. Agora era só aquele líquido vermelho escorrendo pelos cachos, manchando o asfalto  pintado daquela mesma cor de sangue, era marcado, sinalizado, permitindo o acesso dos livres, mas sem pena dos distraídos.

Mal sabia ela, ainda sobre o chão, que era chegada a sua hora de nascer de novo e que, de fato, necessitaria agora conservar-se, pelo menos em espírito, ainda mais jovem para reaprender a viver e descobrir outras formas de liberdade, já que frágil e imprevisível, a vida havia de seguir em qualquer circunstância.

Quero que a vida seja hoje

Caro amigo,

Resolvi seguir o conselho escondido nas linhas de uma carta que não foi endereçada a mim e que não era pra todo mundo ter acesso. Ela em nada se parece com os contos que eu adoro ler e nem mesmo traz conselhos, na verdade, fui eu que entendi assim e que fiquei petrificada segurando a página daquele livro . Foram os meus pensamentos que pareciam se ajustar àquelas palavras e não o contrário, como era de costume.

Tudo fazia um absurdo sentido para mim naquele momento e foi assim que me permiti perseguir o  parágrafo​ e repeti-lo como um mantra e, quando dei por mim, isso havia se tornado um hábito que eu não mais me esqueci de pôr em prática:

“Quero que daqui pra frente a vida seja hoje. A vida não é adiável.”

O contexto destas palavras era outro e como todo bom leitor, por vezes egoísta, as tomei para mim, dei de presente para o que eu sentia e encaixei seus sentidos no que antes eu não encontrava explicação.

Como um ser humano cru e visceral, tomado por alguma paixão inexplicável, se contaminando por essa doce doença que chega de mansinho, eu me apossei daquelas frases que conversaram comigo e que me mostraram o que talvez eu não quisesse ver.

Eu precisava entender que não há como viver de futuro, que é preciso experimentar cada página desse romance do qual somos personagens, nem sempre donos de nossos próprios destinos, mas completamente aptos a escolher a quem ou a que nos prender e por quanto tempo isso deve durar. Cabe a nós mesmos o basta.

A simples afirmação que encontrei entre as linhas de umas das cartas escritas por Caio Fernando Abreu – sim, essa carta era dele – me ajudou a viver, ou pelo menos tentar viver como se esse fosse o último segundo.

Talvez Caio F. também precisasse entender justamente isso naquela época e focar suas atenções ao que ele tinha de mais próximo, o momento presente e, ao escrever estas palavras, que hoje me servem como mantra, e que são um pouco do muito que ele deixou, quisesse dizer exatamente o que eu havia pensado.Que não podemos nos arriscar brincando de adivinhação, sacrificar dias e dias a espera do que não sabemos se virá ou quando virá. Cada detalhe importa e pode ser uma nova chance, possibilidades que deixamos passar se olharmos somente para o que está lá na frente.

Vez ou outra, torno a  repeti- las não apenas para mim, mas também para quem me pede algum conselho. E pensar que eu mesma quase me esqueci de que já morava em mim o que julgava estar lá fora. Passava os dias a pensar numa maneira de “passar de fase” quando, na verdade, a vida estava apenas começando a se abrir, mas era inútil tentar convencer aquela menina tola que eu era, sempre mirando o que estava longe. Mal sabia ela que seus dias estavam contados, o mês passaria, o ano passaria e então só lhe restaria o que sempre fez: olhar, o esperar sem ter vivido. Quase me perdi junto a ela, mas  o reflexo que apontava meus olhos naquela janela, me fizeram ver que eu precisava de  mais, e no mundo das palavras, me encontrei e hoje tem pressa a minha travessia, mas não é uma pressa comum. É a pressa do sentir e do não esperar pelo amanhã. Uma pressa inimiga do relógio e que contempla a existência dos seres e acontecimentos vistos como insignificantes.

O que o mundo passou a ignorar me fascina e o meu melhor sorriso é para quem enxerga o que vejo: a beleza da vida agora, o instante.

E se amanheceu chovendo como ontem, decidi que eu vou é dançar na chuva. Não tenho o porquê esperar pelo sol do céu se eu guardo um igualzinho dentro do peito e, muito além de telhados e ruas, hoje eu vou deixar que as gotas lavem a minha alma no ritmo que eu escolhi viver.

Sou capaz de me permitir pisar delicadamente no chão repleto de folhas secas, trazidas pelo outono, prestando atenção no barulho e na sensação que isso me provoca. Me sento à sombra da árvore mais bonita e assisto as pessoas passarem apressadas para o trabalho. Sinto a brisa fresca tocando o meu rosto e então desperto sabendo que também devo ir trabalhar, mas é um despertar diferente, um despertar cheio do agora e seus​ aromas. Um elixir infalível para atravessar o resto da estação sorrindo, porque é preciso sentir com a alma e colocá-la em cada detalhe do dia, mesmo que não seja tão fácil, mas com a plena certeza de que assim é mais bonito viver.

O líquido quente e negro que desce em minha garganta cotidianamente aquece não somente o corpo, mas o meu olhar sobre o dia. Nem mesmo a pessoa mais fria será capaz de me penetrar a alma, pois ofereço meu café e amor mais quentes como ingredientes​ principais no preparo de um dia que, entre seus possíveis altos e baixos, vale a pena ser vivido. Os pequenos desânimos da rotina não são capazes de amargar toda uma história, porque cada pessoa é um mundo a parte, um mundo que gira a medida em que evoluímos e nada justifica abandonar toda a imensidão do que somos por causa de expectativas não atendidas.

O vento costuma levar as folhas das árvores e dos papéis descartados pelo chão, ele não escolhe o que arrasta pela frente. Já o tempo, senhor tão implacável e sábio, escolhe muito bem as palavras que levará para o futuro, como as de Caio, atemporais, e as que se perderão pelas esquinas e isso se aplica também à jornada de cada um.

Percorremos todos os dias estradas que não sabemos onde ou quando vão terminar e é exatamente aí que está a graça em viver: o inesperado.

Que não adiemos o agora por medo do depois, também eu quero que a vida daqui pra frente seja hoje, o agora e o que não se pode adiar. Me perdoe, se isso tudo o que escrevo lhe parecer insano. Tanta gente vive esperando pelo fim de semana, pelas férias, pela resposta daquele e-mail ou por um telefonema para ser feliz que eu já nem sei mais o que é normal, mas o que eu quero eu sei muito bem. O maravilhoso agora, com todas as suas surpresas, hábitos e infinitas possibilidades que só precisam de uma chance para fazer de nós o que realmente somos capazes de nos tornar e realizar.

“A vida não é adiável” e isso é tudo o que precisamos saber para irremediavelmente viver.

Com amor, C.B.M

*A carta de Caio F. citada neste texto está presente no livro “Cartas”, uma coletânea, lançada em 2002 e organizada por Ítalo Moriconi, que traz algumas das muitas correspondências do escritor Caio Fernando Abreu.

Forte como gotas de chuva em tempestade

Caminhando lentamente debaixo da chuva fina de final de fevereiro, se entregava ao sabor do chiclete que mascava devagar. Chicletes lhe traziam um pedaço do passado, uma parte boa da vida que veio antes daquela que suas escolhas lhe deram.

Era tudo cinza naquela manhã, mas não era a falta do azul do céu que lhe assombrava, nem a ausência dos pássaros nos galhos das árvores que agora balançavam com o vento, nem mesmo as pessoas que passavam por ela sem nem mesmo enxerga-la.  O que lhe causava medo era aquele dedo em riste, quase encostando em seu nariz, as ameaças, o terror que tomava sua  mente porque sabia o quanto era difícil conversar e de quanto tempo precisou para criar coragem de assumir para si mesma a situação que nem mesmo ela compreendia e sobre o quanto tinha receio de parecer maluca ou exagerada.

Aumentaram, cada vez mais grossos e fortes, os pingos que caíam do céu, agora lavavam seu cabelo e escorriam pelo rosto delicado, um rosto que pouco sorria. Havia uma enorme tela em branco na cabeça e a sensação de espera que permanecia intacta na pele. A espera inocente pelo final feliz que prometeram nos contos de fadas e pelo arrepio que aquele abraço que ela nunca mais sentiu, poderia provocar se acaso viesse.

Se essas mãos que tanto lhe abraçaram chegassem, enfim,desarmadas, poderiam fazer essa chuva cessar? Essas gotas que caíam sem dó também dentro do peito, afogando o que um dia foi bom, o que um dia já foi chamado de felicidade. Então viria o sol trazendo a luz novamente?

Tudo o que tinha agora era a chuva que a pegou de surpresa logo no início do dia, essa chuva aqui de fora que encharcava meninos e meninas, carros, cães de rua, monumentos da cidade, uma chuva para todos. Uma chuva que todo mundo podia sentir sem que fosse preciso gritar que estava frio lá dentro também, que tudo era igualmente cinza do lado de lá.

Por alguns minutos, experimentava a normalidade, vivenciava algo que todos sabiam como era sentir. Deixava a água escorrer pelos dedos, como se pudesse permitir escapar o que lhe prendia, seu espírito ainda tinha sede e gotas, cada vez mais grossas, eram necessárias para sentir certo alívio. Era possível reconhecer ali, um prazer que há muito não sentia, o gosto de liberdade.

Quando criança, tinha o hábito de beber, freneticamente, o líquido que jorrava dos céus como um viajante no deserto que, finalmente, encontra seu oásis. Era seu costume agradecer, de braços abertos, enquanto girava e girava, como num carrossel encantado, como se a vida pudesse esperar sua reação, o seu próprio tempo de lidar com o que lhe acontecia. Quando se demorava no meio do temporal, a mãe a despertava da comunhão entre céu e inocência com os gritos nervosos, demasiadamente protetora:

– Saia já dessa chuva fria! Vai se resfriar!

Então abria os olhos, como se acordasse de um sonho bom, e via que tinha um lugar quente e acolhedor para correr. Era essa a melhor lembrança da infância que habitava sua mente tão repleta de sonhos engavetados e vontades reprimidas. Ainda era capaz de se sentir como criança, ainda gostava de beber água da chuva. Ainda podia girar e girar, se ver cair e se molhar, encharcando o corpo e os pensamentos, experimentando aquela gostosa sensação de liberdade.

Era capaz de fazer tudo outra vez,principalmente de se confessar ao fluído que caía sagrado do céu para molhar seu corpo quase sempre tão febril.

Sentia que era possível deixar escorrer o passado juntos às gotas, cada vez mais poderosas e límpidas. Que era possível lavar então a sua alma, deixar cicatrizar as feridas que necessitaram de todo esse tempo para serem cicatrizadas. Bastava os braços abertos de novo e o coração de menina voltaria a bater, tudo correria com o líquido para os ralos, e se perderia para sempre. O futuro poderia brotar daquele aguaceiro.

Sentindo-se em paz e apta a enfrentar o novo, se deixou levar com o pensamento somente no barulho da água e, fechando os olhos, girou e girou novamente, como nos velhos tempos. Despertou-se, dessa vez, não com a voz preocupada da mãe, mas com o profundo silêncio de sua alma e viu que tudo estava limpo, enfim. Pelo menos, por hoje, poderia se dar ao luxo de esquecer.

Talvez ela ainda seja aquela menina que corria para a rua ou para o quintal, toda vez que via as nuvens negras chorarem, que falava sozinha pelos cantos, inventando brincadeiras e novas formas de entender o mundo, que sonhava com um futuro tranquilo e que cantava pela casa enquanto andava descalça pelo corredor. A mesma que pulava da cama e ia direto para o seu portal da fantasia: o quintal da casa que a viu crescer e guardar suas feridas, um espaço que só era grande em sua memória tão cheia de lembranças contraditórias. O chão de terra batida, junto das galinhas e patos, cachorros e pés de figo, o pai que lhe ensinou a amar os bichos e as plantas, e que zelava pelo lugar. Lá, no seu pequeno mundo, nada havia de mau, seus cortes eram curados com um beijo carinhoso e a vida parecia seguir devagar. O tempo não era medido a relógios. Esse era o seu paraíso, o refúgio da tímida criança de ontem que nunca soube crescer e que jamais imaginou que, quando isso precisasse acontecer de fato, tivesse que se esconder e lutar em uma guerra que ela nunca quis.

Ainda hoje escuta os passos, sente o cheiro da terra, e se lembra das infinitas conversas com os animais e, principalmente, de como era bom pertencer à um outro mundo. O dos inocentes e puros de coração, de quem não vê maldade em apenas ser livre.

Meninas de oito anos não pecam e isso era tudo o que ela podia dizer, meninas não imaginam o quanto um silêncio pode dificultar ainda mais suas vidas.Meninas de oito anos não são capazes de prever que o que julgarão ser amor no futuro, poderá se tornar o seu maior inimigo.

Hoje, com pouco mais de  vinte anos e uma pequena vida para proteger dentro de si, ela só tem a chuva e a  velha casa da infância.

Do muito que gostaria de esquecer, sobrava ruídos, batidas de porta, e as poucas carícias de agrado depois da briga. Depois da humilhação, depois que o efeito do álcool evaporava junto à memória de quem prometeu somente amar.

Se as feridas, realmente, escorressem com a água da chuva, curada estaria agora e ela sabe que uma nova vida não se inventa do dia pra noite, mas que pode ser construída dia após dia, no seu tempo, sem regras ou pressões alheias, somente à base de amor e esperança.Mentalizando essas palavras, tocou firmemente a campainha do lar que guardava a melhor versão de si mesma e que agora poderia ser o palco de sua redenção. Começava ali uma história que enfim, um dia, teria orgulho de contar, renascia como mulher, ainda não tão segura do futuro, mas forte como gotas de chuva em plena tempestade.