A boemia da paz

As flores espalhadas pela Avenida Brasil, são nada mais que meus eternos olhares de esperança, de que um dia tudo dará certo.  Sou daqueles cronistas, com respiro de poeta vagabundo, que crê em dias melhores, tanto quanto os tais rapazes do Jota Quest.

Mas meu jeito de paz não é convencional. Não suporto os hipongos filhos de Ghandi, que espalham pétalas de flores pelo mundo pedindo paz e tentando te vender um livro para arrecadar fundos para o Suporte Nacional da Paz. Quem muito escancara um ser espiritual elevado, está perdido nas entranhas das dúvidas de si mesmo.  Ou você não acha estranho um meditador que come salada todos os dias e pesa 26kg, mesmo tendo 46 anos de idade.

A paz de espírito está no beijo molhado, no copo de Whisky, na reunião de amigos e no abraçar um bêbado que nunca viu na rua, gritando ao mundo que somos amigos. A estranheza da risada, causada nas noites boêmias e a sensação de que o planeta terra é um lugar divertido para um cacete. A tranquilidade está ali, escondida entre as duas primeiras caçapas da mesa torta de sinuca.

“GARÇOM POR FAVOR, ME TRAGA A PORÇÃO DE BATATAS FRITAS”, isso é compartilhar o pão do mundo moderno. Se fizermos as contas rápidas, se houverem 50 batatas em uma bacia, lotada de guardanapos, escolha seus 10 melhores amigos e as reparta em cinco para cada um. Os retratos das porções, são desenhados em risadas e cumplicidade.

Não me venha com a lenga-lenga de passeatas pela paz. Roupas brancas só em profissionais da área da saúde ou mãe de santo. Os pacifistas do ano novo, pedem esperanças na data nova que se achega, mas abarrota as praias de lixo. Gosto das camisetas de série ou de bandas, aquelas desbotadas de tanto serem usadas. DJ solta o play daquele som maneiro, por que a música e o bar unem as esperanças, de um dia melhor.

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Filosofia de bar

Mas é claro que não só de coisas boas vive um bar. Ao longo dos anos, posso dizer que a grande maioria dos momentos são felizes, é claro, mas há sempre aquele momento em que alguém precisa afogar um pouco as mágoas.

Ele veio aqui, semana passada. Estava feliz e orgulhoso com o novo relacionamento e ela também parecia bem feliz. Juntos, formavam um belo casal, desses de novela – a gente nunca sabe o que está acontecendo por trás do que vê, mas quando olha acha que vai ser amor eterno; não foi.

“Boa noite, meu amigo”, disse fingindo não ver que não estava muito bem. “Blanche de Bruxelles, como sempre?”. Ele me olhou e por alguns instantes não disse nada. “Traz algo mais amargo dessa vez…”, falou tomando ar.

O que quer que fosse tinha sido sério. Ele não admirava sabores mais amargos em suas bebidas. Salvo em momentos de profunda tristeza, em que bebia algo mais alcóolico, como um drink a base de Campari ou Gyn, era extremamente raro vê-lo pedir algo amargo. “Mas que seja cerveja”, completou deixando-me ainda mais preocupado.

Servi a ele uma de minhas cervejas favoritas, Sculpin da americana Ballast Point.  Não demorou muito e logo pediu outra, deixando claro que a noite seria bem longa. E foi. Já passava de 1 da manhã quando mudamos para a estação de Jazz e Blues, costume daqui do bar para atender a todos os públicos.  E ele ainda bebia. Olhou para mim e me chamou à sua mesa.

“Pode se sentar por alguns minutos? O bar já está vazio e preciso conversar com alguém…”, perguntou. De fato, era o último cliente e já havíamos organizado muito do que era preciso para fechar o bar. “Claro, pois não.”, respondi tentando ser menos formal.

Então me contou toda sua história.

Nos últimos meses, tinha saído de um relacionamento. “Nada sério. Mas, às vezes o amor simplesmente acaba… Sabe como é?”, acenei que sim. Pelo que dizia, o trabalho e a rotina do dia-a-dia os tinha afastado de tal forma, que ambos começaram a conhecer outras pessoas e se apaixonaram fora do relacionamento. Terminaram por respeito mútuo e ninguém sofreu, coisa rara nos dias de hoje.

Entre uma cerveja e outra, chegamos ao que de fato tinha trazido ele aqui. “Eu sou apaixonado por ela. Ela sabe disso. Mas, me apaixonei por ela e outra pessoa ao mesmo tempo.”, disse quase chorando.  O álcool tem dessas coisas; como dizemos por aqui “O álcool entra; a verdade sái.”. Parecia muito sincero, embora um tanto inusitado. Sendo sincero, não sei se acredito em se apaixonar por várias pessoas ao mesmo tempo. Mas, acho que não é impossível.

“Eu não sei exatamente como, mas isso aconteceu. Amo as duas. Ela não entende isso. Não que eu queira ter um relacionamento com as duas, mas talvez tivesse com a outra também, se tivéssemos tido mais contato.”

Aquilo soou ainda mais estranho para mim, mas não quis me meter. Ora, estava claro que a atual namorada tinha descoberto esse segundo amor e não se sentia segura – quem sabe até mudando seu status para ex-namorada. Pensando bem, quem se sentiria seguro em um relacionamento em que o parceiro ama outra pessoa, também? Mas, por outro lado, ele já havia feito uma escolha. Estavam felizes semana passada. Se completavam perfeitamente e não parecia de forma alguma que o mundo de um seria completo sem o outro.

“Não sei como vou resolver isso.”, disse como se quisesse minha ajuda. Sugeri que sentassem e conversassem o máximo que pudessem sobre. Por aqui, vejo que muitas vezes o que falta na verdade é um bom jogo, com cartas claramente distribuídas sobre a mesa, entre amigos, parceiros de negócios, casais e até amantes. “Nada melhor que um bom diálogo para deixar tudo claro, meu amigo. Posso trazer mais uma e a conta?”, já era hora de fechar o bar. Ele fez que sim, “Traz sem copo que eu levo a garrafa e vou andando. Desculpe tomar seu tempo”. Sorri e apenas disse, “se todo problema do mundo fosse uma conversa com um amigo…”.

Ele pagou e foi embora, meio cambaleante com sua cerveja. Deixou para trás, em minha cabeça uma inquietação. Amar é bom. Mas, na situação do meu amigo, sinceramente não sei dizer se é bom ou ruim. Nunca pensei nisso. Bom, já é hora de ir embora e hoje não vou sozinho. Iremos a três para casa: minha cerveja, eu e a nova dúvida. “Afinal, quantas pessoas se pode amar ao mesmo tempo?”.

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Entreolhares

Trabalhando no bar a gente acaba vivendo os dramas e a as alegrias de alguns clientes, além de aventuras e clichês. Ora, o bar é isso certo? O lar das melhores e piores horas.
Naturalmente, fazemos alguns amigos entre eles.  Tem sempre aquele cliente que já de casa; os que conhecemos pela cerveja favorita, mesa de sempre e até pelo jeito que chegam ao bar. Sentam-se e não falam nada, apenas um “boa tarde”, pois sabem que já sei exatamente o que querem.

Por sinal, aí vem um deles. Hora do trabalho.

“A de sempre meu amigo! Como estamos?”, disse enquanto o servia.  Apenas fez que sim, enquanto acenou com a cabeça, “Ela vem sempre aqui não é mesmo? Aposto que você sabe o nome dela…”.

Olhei na direção em que ele apontava e lá estava ela. Nossa cliente mais, misteriosa por assim dizer, muito bonita e de poucas palavras. Tinha personalidade, isso era evidente. No seu copo sempre um Gentleman – versão de Jack Daniel’s que confesso ser minha favorita – sempre com três pedras de gelo. Era a única exigência que fazia.

Sentava-se sempre a mesma mesa; do lado de fora, o mais longe possível, para fumar seu cigarro sem incomodar ninguém. Parecia ter um ritual: chegar, sentar, pedir seu copo, pôr os fones de ouvido e abrir seu caderninho de bolso. Não falava muito e parecia se incomodar quando tentava ser muito amigável, um hábito de nossa profissão.

“Linda ela não é?”, insistiu o cliente. “Você está certo. Ela é linda sim e vem sempre aqui, mas não fala muito”. Para ser sincero não sei o nome dela”. Ele olhou-me desapontado e sorriu me dando um tapinha no ombro, como a um velho amigo, “ Você já foi melhor nisso, hã?”.

Era verdade. Era muito raro, não ter o nome de um cliente frequente. Mas também era ruim ser inconveniente. O bar é a segunda casa para muito, mas também um refúgio de paz, quando se quer esquecer o mundo.  Esse parecia ser o caso.

É de certa forma interessante como este lugar pode ser um universo completamente paralelo às vezes. Quantas coisas já não aconteceram por aqui? A mulher que vem porque quer paz e esquecer a vida. O homem que a observa, mas que jamais vai incomodá-la, afinal aqui é um lugar sagrado ou seria mesmo só inconveniência. Comemorações de negócios bem sucedidos e pesares de coisas mal acabadas. Inícios, meios, fins…

Observando os dois chega a ser engraçado. Ela anota coisas em seu caderno, parecendo escrever uma história ou algo assim. Nitidamente, entregue por inteiro a uma realidade que só ela conhece ou é capaz de compreender. Volta e meia agita seu copo, não para misturar o gelo ao uísque, mas para retomar a linha de raciocínio por hora perdida.

Ele continua a observar ela, esquecendo completamente o propósito de ter vindo ao bar – se é que em algum momento houve um. Parece intrigado ao vê-la ali novamente, tão envolvida num mundo que não enxerga. “O que será que ela tanto escreve?”, o vejo sussurrar.   Perdido, pede mais uma de sua favorita,  Old Engine Oil – Engineer’s Reserve.  Cerveja interessante e que lhe dá mais tempo para observá-la.

Seus olhares se cruzam algumas vezes. Ela não expressa qualquer reação a isso. Ele olha fixo como se fosse pego pela surpresa.  Vou até as mesas e pergunto se precisam de mais alguma coisa. “Um centroavante no time seria perfeito. Nosso time esse ano vai mal, não é mesmo?”. Concordo com a cabeça e lamento não poder ajudá-lo, “Sempre fui goleiro, hahaha”.   Ela, “Não, obrigada. Aliás, a conta… Por hoje, está bom.” E mais uma vez seus olhares se cruzam, mas dessa vez ela solta um leve sorriso, daqueles de canto de boca, enquanto alcança sua bolsa.

Ele parecia aflito ao saber que ela estava de partida.  Segurei meu passo, quando pareceu que ele se levantaria, o que seria surpreendente vindo dele.  Sempre foi muito tímido e todas às vezes em que tentou se aproximar de uma mulher no bar a história tomou um rumo desagradável, por mais discreto que fosse. Mesmo bonito e com uma aparência de ser bem sucedido, as pessoas sempre eram muito duras com ele. A vida tem dessas coisas.

Dei mais uma chance, antes de levar a conta do balcão, mas meu amigo já havia se entregado ao futebol que passava na tela. O que quer que tenha pensado poucos minutos antes ficaria para o próximo encontro – se houvesse um.

Enfim, vamos ao trabalho.  “Aqui está, senhorita…”, falei esticando o máximo que pude para dar a entender que gostaria de saber seu nome. Ela apenas estendeu o cartão e riu, “ Crédito, por favor.” Recebi a quantia e tomei meu caminho para o balcão, passando de propósito pela mesa dele. Talvez certo apoio moral o incentivasse. “Um dia eu vou entender qual é a dela meu amigo. Nesse dia eu vou até lá. Mas agora é hora do jogo”, disse entendendo meu ato.

Voltei para meu lugar a tempo de observar ela se levantando. Tomou um seu ultimo gole com o olhar fixado nele, que já não notava mais.  Pegou algo sobre a mesa e guardou seu caderno na bolsa e seguiu pela calçada, desviando para a mesa dele.

“Você é melhor nesse jogo não é mesmo?”, disse pegando ele de surpresa. Deixou um bilhete em sua mesa, riu e beijou-lhe a testa. “Até um dia”, saiu andando enquanto acendia seu cigarro. “Você viu isso?”, disse me chamando.  Parecia uma criança que acabara de ganhar um brinquedo enquanto abria o bilhete.

Aquele tinha sido o momento alto do seu dia. Não haviam  trocado sequer uma palavra, mas ele sentia que estava conectado a ela de alguma forma. Não sabia onde, nem quando, nem como, mas faria de tudo para vê-la de novo.  Então abriu o bilhete e ficou sem reação quando leu, “Seja mais gentil da próxima vez 😉 P.S. Old Engine Oil ? Boa pedida… Aceitaria um copo.”.

“Aceitaria um copo…”, repetiu diversas vezes como se estivesse em transe. Toquei seu ombro para trazê-lo de volta a realidade, “Saideira, amigo?”.

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