Uma conversa sobre amizade

O tempo estava bastante frio ontem, uma sensação boa para quem encontrava-se numa cama, coberto por um edredom. Eu estava no alto do edifício, bem agasalhado – isso não me livrou de um certo desconforto por causa da temperatura –, vendo a garoa que caía sob as luzes da imensa cidade. Embaixo, na rua, poucas pessoas passavam, todas agasalhadas também. O relógio batia quase dez da noite, e o frio ficava mais intenso com o passar das horas. Virei para o lado oposto de onde eu estava e me deparei com uma visão espetacular: a ponte que atravessa o rio. Ele servia de espelho para as luzes da imensa obra. A lua fazia parte do cenário, tão grande e bonita; penso que as estrelas não ousaram comparecer nesta noite para compartilhar do mesmo lugar. E, enquanto eu estava viajando em pensamentos diante daquela paisagem, ouvi o barulho de duas pessoas subindo a escada lateral do edifício. Era um jovem casal. Estavam empolgados, movidos pela emoção de um ato proibido, pois não é permitido ficar naquele local à noite. Ficaram sentados bem próximos, na mureta de proteção, virados para a metrópole à frente. Os dois olhavam aquela cena com os olhos fixos como se estivessem perdidos em pensamentos. Aparentavam ser amigos, apesar de eu deduzir que o garoto pretendia mais do que uma conversa. Parecia querer dividir algumas ideias com sua companheira. Então, depois de um tempo ele a olhou, hesitou um pouco, mas aprumou-se e começou:

“Sabe, certas amizades são como alguns monumentos da Grécia Antiga: tiveram um passado glorioso e hoje encontram-se em ruínas, mas ainda com seu valor histórico. Amigos mantidos por um pequeno elo que sobrou dos momentos de glória. Eu tenho dificuldades de aceitar que algumas amizades que são importantes para mim tenham perdido a intensidade no relacionamento, ficando tão frias quanto esta noite. É uma sensação ruim olhar para o passado e lidar com as modificações que o tempo nos impõe. Além disso, me traz descontentamento conversar com amigos assuntos breves e sem empolgação, sendo que antes o diálogo fluía sem grandes esforços. E os assuntos que empolgam hoje são voltados para coisas que vivíamos no passado, uma fútil tentativa de resgatar um combustível de lembranças para impulsionar um carro com o motor quebrado. Me lembro que os momentos desses anos foram muito bons, e estar perto de alguns amigos é como voltar e reviver tudo aquilo, apesar de não ser a mesma coisa. ”

Por sua vez, a garota que estava prestando atenção em cada palavra que o amigo dizia, voltou o foco para a grande cidade e se pôs a pensar um pouco, como se estivesse procurando as palavras certas para então tirar a angústia do amigo:

“Você já parou para pensar que talvez a dificuldade principal esteja em você se desprender do seu passado, e não o fato de lidar com o atual comportamento dos seus amigos? Sim, a mudança ocorreu e sempre ocorrerá. Mas você não acha que os têm como um ponto nostálgico? É como se precisasse ter contato com eles para poder ter sensações já vividas. Diante disso você fica decepcionado pela impossibilidade de voltar, e coloca a mudança deles como foco principal.

Claro, nossos amigos mudam, mas não é só eles, acontece comigo, com você e com todos. E nem sempre as relações acompanham as alterações, pois mudam os nossos gostos; a forma de pensar; a própria personalidade vai ganhando outras formas; e uma infinidade de coisas que alteram com o tempo. Com isso, alguns ciclos de amizade vão divergindo, e essas pessoas criam outros ciclos que estejam de acordo com a sua vida atual. Por outro lado, existem aqueles amigos que mudam mutuamente, convergindo em alguns aspectos e, assim, fortalecem os laços com o passar dos anos. Não raro nós ouvimos alguém falar: ’ A gente passa tanto tempo sem ver o outro, mas quando nos encontramos a relação é a mesma. ’ Não é que seja a mesma coisa, ambos mudaram, mas em um mesmo sentido. A partir disso acontece a renovação do afeto.

Isso tudo não te impede de fazer novas amizades e viver novas experiências com estas. Conservar laços afetivos é importante, mas criar novos elos é essencial para uma vida que busca desenvolvimento. Sobretudo, uma vida que visa evoluir, vivendo intensamente o presente sem ficar preso ao passado. Então, se quiser ter sensações boas, vividas com amigos novamente, viva da forma como elas se apresentam hoje e com quem estiver ao seu lado. Além disso, seja o proporcionador de momentos agradáveis, pois esperar vindo de alguém aquilo que você é capaz de realizar é dar para o outro seu papel de protagonista. Entendeu? ”

Com um gesto afirmativo, o amigo sorriu aliviado para amiga. Parece que ele estava decidido a viver intensamente o presente. Percebi isso, quando escutei ele dizendo que gostava de ouvir a moça falar, seguido de um comentário recheado de segundas intenções. Depois disso entraram em uma conversa mais “caliente” sobre namoro. Até que chegou um momento em que os dois se olharam como se estivessem pedindo forças para dar um próximo passo no relacionamento e … faltou energia no bairro.

Não sei o fim dessa cena, mas ontem me identifiquei com a situação do garoto, pois já vivi coisa semelhante com um grande amigo.

Apesar de hoje a gente não ter um contato frequente, nos consideramos muito pelo respeito construído, pelas memórias de grandes momentos e, sobretudo, por todo passado glorioso. E, sem que esse passado interfira, estamos desbravando novos caminhos e vivendo momentos diferentes. Mas todo aprendizado vivido com ele está guardado na memória, fazendo parte do que sou hoje.

Libere o turbante

Já inicio o texto me desculpando por dar pitaco em um assunto do qual eu não tenho amplo conhecimento. A internet é uma ferramenta fantástica e, ao mesmo tempo, um tanto quanto perigosa, o perigo costuma estar nas redes sociais, todo mundo quer contar algo e todo mundo quer opinar, mas nem sempre isso é oportuno e, confesso, não sei se se estou sendo oportuna, mas esse texto (http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/20/opinion/1487597060_574691.html?id_externo_rsoc=FB_CC) me motivou a falar sobre o assunto.

Entendo o que a cor negra na pele muda na vida de alguém, entendo que nasci com privilégios apenas por carregar na pele a cor branca, mas sabe o que eu também entendo? Entendo que o brasileiro é fruto de uma miscigenação. Um exemplo bem claro disso é o fato de eu ter nascido branca e minha irmã ser negra, ter pai branco e mãe negra, avô branco e avó negra, isso muda a nossa perspectiva. Eu também entendo que estamos lutando contra o racismo.

Tenho uma prima linda e negra, sua mãe faz turbantes para ela. Tenho primas lindas e brancas, moram logo embaixo, viram o turbante, queriam um também e tiveram. Imagine se eu tivesse que explicar para elas que elas não deveriam usá-lo?

Os negros não lutam pela superioridade de uma raça, assim como o feminismo não luta pela superioridade das mulheres. Não, eles lutam por igualdade. Igualdade na seleção para o emprego, nos salários, no tratamento, enfim, em tudo.

Eu consigo entender que o passado na senzala tem efeito direto e suas consequências estão nos índices de presidiários, analfabetos e pessoas de baixa renda em sua maioria negra, mas aqui lhes escreve uma branca que nasceu na favela. Aqui lhes escreve uma branca de cabelo crespo. Aqui lhes escreve uma branca de mãe negra. O meu passado também está na senzala e acredito ser muito difícil, se não impossível, encontrar alguém no Brasil que não tenha tido um negro na sua árvore genealógica.

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Cultura negra ou cultura africana? O texto mesmo explica que vieram negros de diversos locais da África, lá existem diversos povos, tribos e nacionalidades – já que estamos falando de um continente – e até hoje existem guerras por diferenças culturais por lá (veja o filme “Hotel Ruanda”). Infelizmente, a identidade dos negros trazidos para serem escravos no Brasil em muito se perdeu na história e isso foi feito de propósito, é difícil regatar essas raízes. Aqui viraram apenas negros, se resumiram a única coisa que carregavam de semelhante: a cor. Então não se sabe a origem de cada um, apenas sabemos que eram negros e africanos.

No meio disso, tem o turbante. Podemos citar muitas outras coisas que vieram desse contexto: a capoeira, algumas religiões, o berimbau, etc. Estamos falando de apropriação cultural e temos o contexto de negros escravizados por brancos no Brasil. Para lutar contra a cultura racista, todos eles têm se unido para mostrar que têm orgulho da própria cultura e ainda sofrem pela discriminação. Na Bahia, o Olodum brilha no carnaval e traz consigo muitos desses símbolos, esse é só um exemplo.

Mas, afinal de contas, o que é ser negro? É só a cor da pele? O cabelo também conta? E o nariz um pouco mais largo? Ou a boca um pouco mais carnuda? Acho que todos nós carregamos algum traço dessa história e temos que nos orgulhar disso.

Eu não tenho a pele negra, mas sinto que a carrego, carrego no meu cabelo crespo, por exemplo. Olhar para mim e ver uma branca é só um olhar superficial, ao meu ver. Hoje a química os matem lisos, mas já ouvi ofensas quando os deixava naturais e nesse momento me lembrei que era negra também. Vejo que fiz errado em alisa-los, me submeti a padrões colocados pela mídia e não me orgulho. Mas, claro e obvio, isso em nada se compara a ter a pele negra. Em uma das visitas a meus parentes, meu primo me confessou no carro o quanto era ruim ser negro e ser parado o tempo todo para ser revistado por policiais e eu percebi o quanto era privilegiada por ter a pele branca.

Quando falamos do contexto histórico das senzalas, você perceberá que eu não passaria de uma escrava Isaura naquela época, mas estamos no século XXI, não sou considerada uma bastarda e sou branca. Então temos a polemica do turbante. Temos uma branca enfrentando bravamente o câncer e usando um turbante e por isso sendo mal encarada, segundo ela, por mulheres negras. Temos uma apropriação cultural e um debate por trás disso.

Quando uma branca usa o turbante, ele pode perder seu valor como símbolo de identidade negra e de protesto contra o racismo. Entendo que não queiram que ele vire só um apetrecho da moda, mas quando minha prima pediu o turbante, ela não perguntou se deveria usá-lo, ela achou bonito ver a prima com ele e quis um.

Quando eu uso um símbolo de outra cultura é muito provável que eu não saiba o seu significado, mas quem o conhece com certeza irá identificar. O erro não está em uma mulher branca usar um turbante e achar bonito, errado é alguém olhar o negro usá-lo e achar feio por ser um negro uasando. Se este é um dos símbolos da cultura negra, os vídeos não deveriam pedir para que brancos não usem um turbante, mas, sim, para que usem e se lembrem que este é um símbolo usado por africanos que foram escravizados no Brasil, símbolo que quer mostrar resistência ao preconceito. Então o branco não deve usá-lo como homenagem, mas como alguém que também é fruto dessa história e que deve participar ativamente do movimento que pretende acabar com o racismo no Brasil e no mundo.

Ninguém se pergunta se deve tocar um berimbau ou aprender capoeira. Ninguém se questiona se pode ouvir axé ou ir à um centro de umbanda. As culturas se misturam, ainda mais aqui no Brasil. Se eu usar um turbante, não será para homenagear a cultura negra ou para afronta-los, será porque eu achei bonito, porque um apetrecho criado por negros pode ser tão bonito quanto um criado por brancos, eu simplesmente não saberia a diferença, não estamos aqui para cria-la, certo? Usar um turbante não agride ninguém ao contrário de ser encarado por acharem que um branco não pode usar.

Quando meu cabelo era natural, ele vivia trançado. Minha cabeça doía de tanto que puxavam os fios para não ficarem armados. Isso, ao meu ver, era uma forma de “neutralizar” meus crespos. Eu não gostava, mas aquilo me era imposto para ficar “bonito”. Eu sinto um orgulho enorme todas as vezes que vejo cabelos crespos livres. Tranças para mim eram só uma forma de “neutralizar” meu lado negro enquanto que para os negros é só mais um símbolo da cultura. O racismo está nos olhos de quem o pratica e coloca diferenças.

Que tal pararmos de criar diferenças? Essas regras de se poderia ou deveria usar algo? Que tal deixarmos toda a palheta de cor para as pessoas acima do peso, o turbante para brancas e saia para homens? Não vamos olhar torto, o nosso objetivo deveria ser o de diminuir barreiras e respeitar, de se igualar como ser humano porque somos todos iguais.

thamires-alves

Todo canto tem um pouco de ti

Eu ando indo pra cada lugar inusitado, shows de bandas que não me agradam, bares caros, lugares que nunca pensei em pisar, só no intuito da gente se esbarrar. Locais que, pra ser sincero, você nem deva ir, mas vou, ainda assim, na esperança de que você também esteja lá querendo me encontrar, numa tentativa irracional parecida com a minha e que só passe a fazer sentido com a gente se achando.

Eu sei que esse sentimento já deveria ter passado, mas saudade não tem hora e eu voltei a pensar em você agora. Conselhos de pessoas próximas têm pouca importância em momentos assim. Não precisou de música, filme ou nada que você tenha me indicado. Eu pensei em você por pensar, sem nenhum motivo. Enquanto vagava em pensamentos soltos, enquanto via as pessoas passarem sozinhas na rua, enquanto me vi sozinho, sentado no banco dessa praça, em frente ao carrinho de pipoca que o vendedor entrega o troco a uma moça.

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Vai ver tem lá uma razão, quem saiba uma psicanálise de botequim de um sujeito que tem muito tempo disponível pensando consigo mesmo – uma tarde inteira, pra ser mais exato – decifre que eu queria que aquela moça fosse você. Queria que pegasse seu troco e viesse ao meu encontro, que dividíssemos a pipoca e com as sobras enchêssemos a barriga dos pombos que ciscam a nossa volta.

Entretanto, quando aquela mulher virar, deixando finalmente de me dar as costas, quando seus cabelos não mais esconderem seu rosto, eu vou descobrir que ela não vai ser você. Ou vai? Se for você, senta comigo, vai. O vestido é igual a um seu… até quando eu te verei em estranhos? Por todo canto, em olhares rápidos e descompromissados, confundo você com desconhecidos. Nunca é, ela também não é.

Quando o amor consegue enfeitiçar a razão, é preciso encontrar um bom motivo pra não continuarmos juntos. Algum defeito bobo que justifique a tentativa de esquecer. Ainda que cético, me daria por convencido se houvesse algum sinal vindo de qualquer explicação mística. Bastaria que alguma dessas forças do universo respondesse. Olho pra cima, como um descrente aguardando uma resposta divina. Eis que, então, eu posso sentir algo cair sobre minha camisa, algo que vem desse tal além incompreensível. Merda, quem foi o maldito casal que deu comida aos pombos?!

caio-lima

Eu sei que eles dizem que ninguém é perfeito

Mas eu juro, ela é perfeita pra mim. Quando ela não está aqui comigo seja vendo um filme na TV, ou fazendo cafuné nos meus cachos, nada parece fazer sentido. Ela é minha cara, minha joia rara. Ela costuma ler minhas poesias desconexas e até hoje não sei como entende meus garranchos sem nexo algum. 

Ela anda e desanda uns corações por aí afora, mas sabe muito bem onde repousar teu peito na tarde da noite. Com ela é sempre um apelido carinhoso, ou um ” vem cá” gostoso. Eu costumo chamá-la de “minha infinitude” mas ela prefere que a chame de “bem”. É carinhoso, ela costuma dizer. Quando ela me admira escrevendo algo sobre ela, eu logo perco a concentração e direciono meus olhares naquelas retinas escuras. Eu, que escrevia sobre todos os tipos de mulheres, agora me vejo obrigado a rabiscar apenas sobre ela. Ela é uma poesia que levaria anos para descrever. 

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Como diria o Chico: “Temo que não dure muito a nossa novela mas, eu sou tão feliz com ela.” 

Ela, pequena de um metro e seus charmosos cinquenta e poucos centímetros, esbanja um sorriso como quem já conheceu todo nordeste brasileiro. Ela tem um olhar do sul do Brasil, mas beija como mineira, e sorrir como uma Pernambucana. Ela é um misto de tamanha perfeição. Uma pele morena, unas retinas escuras e umas covinhas nas bochechas que desarmam qualquer exército americano. 

Eu poderia escrever um livro sobre ela. Mas quem me dera ter talento pra isso. 

Perfeita que só ela;

Tal livro não teria fim. 

Pedro

Viva-se

Anime-se, ora! No entanto, anime-se agora, pois apesar de triste ainda é preciso sorrir de volta para as pessoas na rua, eles esperam seu bom dia. Use como conforto que até mesmo o grande da Europa, o Barcelona, levou uma goleada semana passada. Aceitar as falhas é preciso, acima de tudo, procure repará-las. Tolere também suas imperfeições. Seja sua dificuldade com contas, seu mal-humor ou o nariz tronxo. Continue caminhando sempre em frente, observe as pessoas ficando cada vez menos nítidas de longe. Consulte o oculista e constate logo o que já temia: aumento no grau e a dependência definitiva dos óculos. Aceite-se.

Pronto, agora olhe para o futuro com seus dois graus e meio de miopia e mantenha a esperança. Ainda que a esperança seja hoje, pra você, aquele resquício do sentimento de quando tocava a música de abertura do Dragon Ball GT. Não se afobe, acharemos uma saída pra humanidade, apesar do derretimento das calotas polares e do fato de estarmos ingerindo mais carboidratos do que gastamos, especialmente à noite. Tranquilize-se.

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Não guarde a comemoração para quando tudo der certo, valorize cada pequena vitória contra a preguiça diária ou os medos antes insuperáveis. Lembre-se de, ainda que não seja carnaval, celebrar, pois sempre cabe um carnaval fora de época e não tem época melhor para isso do que a prévia carnavalesca. Divirta-se.

Não fale de amor pra tia que pergunta, pro psicólogo que questiona, pros pais que esperam uma nora. Escreva um soneto, amasse e jogue fora, não mostre a ninguém, deixe ser apenas um segredo seu. Apesar de ser um fã convicto do Chico Buarque, ouça a nova música do Wesley Safadão, porque afinal de contas: “ninguém é de ferro”. Conheça-se.

Saia da zona de conforto, busque reinventar-se todo dia, experimente novos prazeres e novos modelos de sapato. Converse com estranhos, chegue tarde em casa na sexta feira, conte umas mentiras sobre o que gostaria de ser, peça uma sobremesa nova ao invés da “de sempre” no restaurante, perca tempo com bobagens, aprenda a tocar um instrumento. Inove-se

Guarde uma tarde para os amigos, pratique exercício físico 3 vezes por semana. Faça algo que lhe dê dinheiro, mas dedique um tempo para aquilo que mais ama. Nem que seja só por diversão durante uma pequena parcela do dia, sinta-se bem. Depois disso tudo durma, durma o suficiente, durma 8 horas diárias, aproveite e passe do horário no sábado e domingo. Depois acorde e faça tudo de novo. Respire-se.

caio-lima

O que eu diria se o mundo acabasse hoje

Se o mundo acabasse hoje, provavelmente diria estas mesmas palavras que digo agora. Não posso explicar de onde elas vêm, nem pra onde irão depois da destruição, mas o fato é que preciso dizê-las. Contrariando a lógica comum, esperava o fim do mundo ― na verdade ansiava por este dia mais que qualquer outra criatura na terra. Afinal, o fim não pode ser isso tudo que dizem. Para ser sincero, nos últimos tempos, tenho vivido uma hecatombe a cada segunda-feira. Recomeçar, seja lá o que for, é desgastante e não há alma humana capaz de suportar tantos problemas reais. Sinto um enorme desconforto em admitir, mas tudo que queria agora era fugir: para o quinto dos infernos, talvez; qualquer lugar é melhor que aqui e agora. Enquanto escrevo, nenhum meteoro cruza o céu anunciando a desgraça geral; mesmo assim espero.

Na minha última noite insônia procurei por minha alma embaixo na cama ― só encontrei ácaros e um sapato velho, que já não cabe mais no meu pé 42, e que hoje serve de abrigo para um casal de baratas. Olhando para aquelas criaturinhas cascudas e asquerosas, senti pena delas. Li alguma coisa na internet que dizia que as baratas seriam as únicas sobreviventes da extinção em massa. “É um capricho de Deus!”, pensei furioso. De todas as criaturas na terra, por que escolher logo a barata? Um ser sem vida ― para muitos até sem alma ― e que passa a existência em busca de migalhas e rastejando na penumbra dos quartos vazios. É muita sacanagem! Além de suportarem tudo isso o direito de reclamar ― direito esse, aliás, que julgo necessário para qualquer ser vivente ―, estão condenadas a carregar, sozinhas, a ressureição da vida num planeta devastado e condenado ao nada. Acho que Ele pegou pesado desta vez. Ou não: quem sabe o Divino escreve certo por linhas tortas? Pode ser que Deus só seja um autor ruim mesmo, não é verdade? Vai que não sabe mais que fim dar aos nossos personagens e decide agora acabar com tudo, como quem embola uma página e recomeça a narrativa, e dar novo sentindo pras coisas, ou fazer tudo diferente. Como não sou dono de nada, nem mesmo deste nariz ― que tantas vezes julguei ser meu, mas que hoje vejo apenas como mais um de meus incontáveis defeitos físicos ― sinto-me aliviado de ter sido a barata do meu sapato-velho a escolhida para reconduzir a vida na terra! Se tivesse que reconstruir essa quiçaça de planeta, nem saberia por onde começar. Provavelmente por mim mesmo: um nariz menor, que seja verdadeiramente meu seria bom…

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Durante toda minha vida acredite no amor, é verdade! No entanto, foi vencido pelo exagero. Para mim era inconcebível se amar pelas metades, gostar só um pouquinho, ou trocar carinhos miúdos. Sempre queria mais, tudo no aumentativo, no plural. O problema é que quanto mais me multiplicava, sobrava menos de mim. Fui como uma ponte que depois de matar a sede de uma população inteira secou e tudo que sobrou foi um poço seco e vazio de pó. Como o mundo não acabou, talvez tenha tempo de aprender a dar o mínimo de mim e a receber menos ainda ― se é que ainda sobra em mim alguma coisa parecida com amor. Não sou perfeito, carrego comigo um sem-número de defeitos e imperfeições, mas sonhava em usar amor como um curativo, como um balsamo que seca ferida. A verdade é que só consegui me cortar ainda mais. É preciso admitir: amores certos em pessoas erradas são como veneno. Enveredam por cada canal sanguíneo e espalha suas pequenas farpas que matam, uma a uma, a esperança de sermos felizes ao lado daqueles que nos completam. Se o mundo acabasse hoje, essa seria a principal lição que carregaria para o outro mundo ― se é que ele existe.

Há tanto para ser dito, tanto para ser registrado, eternizado… Talvez inicie um diário daqui pra frente, já que o mundo não acabou. Registrar as dores, amarrá-las com papel e caneta pode ser sadio para o coração. Me senti tão pequeno e diminuído que nem mesmo quando desejei, desesperadamente, o fim de tudo, ele não me foi concedido. É assim mesmo que as coisas funcionam? Quanto mais se anseia por algo, mais nos distanciamos? O fato é que nada depende de nossa vontade diretamente. Não estou eliminando o pensamento positivo, nem as boas vibrações. Essas coisas podem até funcionar, mas têm de ser usadas na medida certa, com as coisas certas. Para fugir, como pude constar, de nada adiantará…

Bom, acho que já chega de devanear numa folha de papel, mesmo porque o mundo continua girando, girando… Não sei disse tudo que deveria dizer, não sei mais seria isso mesmo que diria se o mundo acabasse, mas eu já disse e ele não acabou. Se amanhã chegar tudo ao fim, com certeza terei novas coisas para compartilhar com o infinito. A vida, no fim das contas, são correntes infinitas, que dão num mar desconhecido, que um dia se evapora e se torna chuva e a chuva rega um novo recomeço. Como diria Shakespeare, “estar preparado é tudo”, seja lá por vier…

FIM…

flavio

Eu quero é menos

É, eu sei que sou o excesso de tudo. Excesso de palavras, de sentimentos, de pensamentos, de sonhos, de desejos, de esperanças. Sou o excesso… O excesso como o drama mexicano, a música sofrida, a morte do cisne. O excesso de amor, de rancor, de ciúmes e de carinho. Excesso de ironia, de verdades, de sabores e cores. Excesso do medo e da coragem, bem assim: 8 ou 80. Excesso de tudo e nada. Mas o excesso é a sobra. Transborda, vaza pra fora do pote e tem que ser jogado fora.

“Tudo em excesso faz mal.” Não é essa a frase tão conhecida?! E eu, que já dizia que menos é mais, começo a ver ainda mais verdade nisso tudo.

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Não quero mais excessos, eu quero menos. Menos dores, menos peso, menos obrigações, menos promessas. Menos reclamações, menos choro, menos culpa e muito menos desculpas. Menos horários fixos, menos expectativas, menos pressão.

Menos “se”, ” talvez”, “depois”. Menos saudade, menos distância, menos solidão. Menos, sabe?! Bem menos. Quase nada… Só o necessário. Cansei dessa bagagem excessiva, cansei de carregar mais do que posso. Cansei de ser demais.

Quero abrir essa mochila de excessos e esvaziá-la. Quero só a roupa do corpo. Quero cortar o cabelo. Quero o pé no chão, a brisa no rosto e nenhum pensamento em vão. Quero menos, porque essa vida já é demais pra mim. Só quero o que caiba espontaneamente no meu coração.

Yulle