Entre sem bater

Enquanto tomava banho e cantarolava uma música qualquer, ouvi a porta da casa fechar. Teria medo ou preocupação, mas não era preciso. Além de mim, só você tinha a chave… Não era alguém que me faria mal… Era alguém que me faria amor.

Por ter chegado de surpresa, eu sabia: hoje tem. Aproveitei cada gota tranquilamente, sem me preocupar com os minutinhos de espera. Deixei os pensamentos vagando em busca de algo que também te surpreendesse.

Saí do banheiro só de lingerie branca, era minha única carta na manga. O cabelo molhado, o cheiro que você adora e um sorriso que dizia: Bem vindo, Amor.

Luz baixa. Aquela música tocando. Um vinho. Duas taças. Estava ficando ainda mais interessante esse encontro surpresa. Você sentado, me analisou e sorriu maliciosamente. O arrepio foi inevitável e percorreu todo o meu corpo. Te abracei como se fosse a primeira vez e você sussurrou em meu ouvido: Que saudade!

Nossos olhares feito imã, denunciando todos os desejos que tínhamos. O beijo quente, intenso e deliciosamente apreciado por nossas bocas.

Segurou minha mão e me levou até o sofá. “Sente-se. Hoje, eu te sirvo.” Serviria em todos os sentidos. Trouxe o vinho, e como um gentleman serviu minha taça e beijou minha mão, carinhosamente. Enfeitiçada, me distrai e derramei parte do líquido na perna… Desastrada!

“Eu cuido da limpeza e de você.” Com a boca, retirou toda a bebida e me fez tremer da cabeça aos pés. Como resistir? O jogo começou!

Puxei-o pra cima, senti seu cheiro no pescoço e mordisquei sua orelha. “Me faz massagem, Amor?”… e antes que eu pudesse pensar, me deitou de bruços, no tapete da sala. “Todas as massagens do mundo!” – ele estava incrivelmente maravilhoso.

Com as mãos precisas, massageou todo o meu corpo, sabendo exatamente onde eu queria que apertasse. Abriu meu sutiã e me disse para relaxar, descendo as mãos da minha nuca até o meu quadril. “Posso beijar aonde eu quiser?”, ele disse. Que pergunta! Quase implorei:

BEIJE-ME! Sou sua!

E beijou. Boca, orelha, pescoço, seios, barriga, costas, pernas… E não parou até me ver remexer incontrolavelmente. Beijos intensos, lentos, mordidas e uma língua insaciável. Eu já não tinha mais como segurar, queria retribuir todo o prazer.

Levantei, virei a taça que estava na mesa e agora era a minha vez! Refiz todo o caminho do seu corpo, arranhei e apertei, beijei cada pedaço do homem que eu amava e desejava. E nada mais instigante que saber que o prazer era mútuo, recíproco e cada dia maior.

A sala foi pouco, o quarto ficou pequeno e acabamos no chuveiro, de novo. A água escorrendo não esfriou nossos corpos… E fomos até o fim. Sexo com amor, sem pudor, sem vergonha de sentir o outro. Tudo que eu precisava naquele fim de dia massante.

Exaustos e felizes, deitamos no nosso ninho para a noite mais tranquila dos últimos tempos. Aconchegada em seu peito, com as pernas entrelaçadas, pedi: entre sempre sem bater… E a gente faz acontecer.

Ah, eu queria!

Tanta coisa que a gente guarda e não fala… Tantos desejos que guardamos e não expomos. Às vezes tão grandes e inusitados, e outras vezes, grandes pela simplicidade e valor que tem.

Queria mesmo era sair sem rumo e parar pra admirar um horizonte diferente ao seu lado. Queria acordar às 12h e almoçar às 17h, quebrando a rotina que teríamos. Te raptar pra um cinema na quarta-feira, depois de horas trabalhando. Segurar sua mão e pularmos de uns sete metros de altura, gritando feito crianças e caindo dentro d’água. Deitar na grama do parque e ficar olhando o céu, até a luz fazer os olhos doerem.

Sair, andar, viajar, dormir, descobrir, experimentar… Uma vida de desafios. Ah, é o que eu queria!

Ter ao meu lado quem me faça crescer, quem me evolua, acredite em mim e queira dividir cada momento. E eu queria ser segurança, cúmplice, seu ponto de apoio e impulso. Quem também te ajudaria a ser ainda melhor. A ser o que sonha, a conhecer o que guarda no coração.

Eu queria o laço forte do amor, da amizade, do companheirismo, da intimidade. Eu queria caminhar ao seu lado todos os dias e de mãos dadas dizer: Vamos em frente! Pra onde for. Juntos. Dispostos. Vamos viver, Amor!

Eu queria ser o que traz felicidade. O que te transborda, o que soma, o que te faz sorrir. Ah, eu queria… Queria ser sua vida e te transformar em minha vida. Queria te dar mais de mim e receber mais de você. Queria ser… Estar, ficar, permanecer. Em par.

Eu quero é menos

É, eu sei que sou o excesso de tudo. Excesso de palavras, de sentimentos, de pensamentos, de sonhos, de desejos, de esperanças. Sou o excesso… O excesso como o drama mexicano, a música sofrida, a morte do cisne. O excesso de amor, de rancor, de ciúmes e de carinho. Excesso de ironia, de verdades, de sabores e cores. Excesso do medo e da coragem, bem assim: 8 ou 80. Excesso de tudo e nada. Mas o excesso é a sobra. Transborda, vaza pra fora do pote e tem que ser jogado fora.

“Tudo em excesso faz mal.” Não é essa a frase tão conhecida?! E eu, que já dizia que menos é mais, começo a ver ainda mais verdade nisso tudo.

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Não quero mais excessos, eu quero menos. Menos dores, menos peso, menos obrigações, menos promessas. Menos reclamações, menos choro, menos culpa e muito menos desculpas. Menos horários fixos, menos expectativas, menos pressão.

Menos “se”, ” talvez”, “depois”. Menos saudade, menos distância, menos solidão. Menos, sabe?! Bem menos. Quase nada… Só o necessário. Cansei dessa bagagem excessiva, cansei de carregar mais do que posso. Cansei de ser demais.

Quero abrir essa mochila de excessos e esvaziá-la. Quero só a roupa do corpo. Quero cortar o cabelo. Quero o pé no chão, a brisa no rosto e nenhum pensamento em vão. Quero menos, porque essa vida já é demais pra mim. Só quero o que caiba espontaneamente no meu coração.

Yulle

Aceita!

Tem horas que não tem outra saída: aceita! E não estou falando do “aceita que dói menos” pro recalque não. Estou falando pro geral. Pra vida! Aceita, gente! Aceita que não temos o controle total das situações e nem dos sentimentos. Aceita que nem sempre a.maré vai estar boa e que vamos engolir um bocado de água salgada, que vai descer queimando a garganta e fazendo sair lágrimas pelos olhos. Aceita que nem sempre vamos ser correspondidos e que, no fundo, não temos culpa disso. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém.

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Aceita que a realidade é bem diferente do que se sonhou. Aceita que pessoas entram e saem das nossas vidas, a gente querendo ou não. Aceita que não se pode resolver todos os problemas do mundo, porque nem dos nossos estamos dando conta. Aceita que todos temos responsabilidade por cada escolha e suas consequências. Aceita que não adianta o mundo mostrar mil razões para mudarmos, porque a gente só muda quando quer.

Aceita a alegria, mas aceita a tristeza também. As duas ensinam. Só não aceita tudo sem antes tentar, lutar, acreditar. Mas quando as forças acabarem, vai a dica: ACEITA! Aceita porque talvez não é mesmo para ser. Aceita, porque vai doer menos. Eu garanto!

Yulle

Hey! Tá na hora de ir embora

Provavelmente você já leu vários textos sobre esse tema (e eu também), mas é quase impossível não falar mais uma vez. Se me perguntassem sobre algo que eu gostaria de aconselhar aos outros, eu diria quase prontamente: More fora! Existem várias outras vivências e experiências que eu também penso e acho muito válidas, mas morar fora está entre as principais. Esse momento, se assim posso dizer, desencadeia vários outros pelo caminho.

Saia de casa e da sua cidade, de preferência. Pode ser por 6 meses ou por 6 anos, mas tenha essa experiência ao menos uma vez na sua vida. Saia de casa de verdade: da sua casa familiar, da sua bolha, do seu mundinho paralelo. Saia de casa para conhecer o mundo lá fora, ou melhor, o mundo do outro. Mais do que a sensação de liberdade que isso traz, é a chance que te é dada de crescer interiormente. Não é garantido; isso vai depender da maneira como cada um lida com a situação. Eu não me lembro de algum momento da minha vida em que eu não soubesse que iria morar fora. E talvez tenha sido a melhor coisa que me aconteceu.

Morar fora te faz reaprender tudo que seus pais te ensinaram um dia. Te faz perceber que o mundo é infinitamente explorável. Mesmo que você resista, morar fora te obriga a abrir mão: da zona de conforto, da facilidade de ter tudo por perto, das suas vaidades, de manias que te mimam, dos seus caprichos, do egoísmo que, até sem querer, a gente tem dentro de nós. Você aprende a ser mais humilde e menos egocêntrico.

Morar fora te dá a chance de ser mais humano. De valorizar coisas que por vezes são consideradas banais. Sua geladeira não vai ter comida se você não enfrentar a fila do supermercado. Sua dor de cabeça não vai passar se você não for até a farmácia mais próxima. Sua cama vai ficar desarrumada, a toalha vai ficar jogada, as roupas não vão voltar sozinhas pro armário. A propósito, as suas meias nunca mais serão tão brancas como antes. Você não será mais como antes. E a gente só enxerga tudo isso de verdade, quando sai de casa.

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Ir para outro lugar te dá oportunidade de expandir relações. Conhecer novos amigos, viver novos amores, construir uma família que não é de sangue, mas que te ajuda a preencher o coração. É ter numa mesma mesa, seus amigos de infância, os da faculdade que fez no interior de SP e os colegas da empresa do Rio. Como nem tudo são flores, morar fora também te faz aprender quando coloca em seu caminho, pessoas que não são tão boas assim. Vai ter rasteira, vai ter gente passando por cima da sua cabeça, vai ter aquelas cenas de novela que a gente acha que não acontecem na vida real, mas acontecem. Faz parte! E tudo isso nos ensina a sermos menos inocentes e mais realistas.

Recomeçar sua vida em outro lugar te faz repensar naturalmente. Seus princípios te sustentam quando você precisa decidir sozinho, a maneira de agir em situações que talvez nunca tenha imaginado viver. Sua percepção de mundo começa a mudar quando você se abre para conhecer o cotidiano de quem te cerca. E não há nada tão delicado e enriquecedor quanto adentrar ao universo de outra pessoa.

Morar fora te ensina a viver mais simples. Te faz dividir não só a casa, mas momentos que raramente você conseguirá explicar a alguém que não viveu essa experiência. Morar fora te faz se reaproximar de você mesmo e faz com que se conheça mais a fundo. Afinal, quando faltar uma companhia, será você e você mesmo por esse mundão afora. Depois, se quiser, não há problema nenhum em voltar pra casa. Mas primeiro, more fora. Vai fundo, vale a pena! Sua alma enobrece e agrade.

Yulle

Ninguém perde por ser grato

“Sabe, Yulle… a vida é boa demais!”. Eu não sabia, mas ali começava uma série de poucas palavras que traziam um significado tão forte quanto o brilho que enxerguei nos olhos da Dona Iraci. Minha vó, com essa simplicidade e o cuidado de sempre, contava um caso num sábado à tarde, sentada à mesa enquanto eu e minha irmã almoçávamos. Na verdade, ela deu um aula de vida em dez minutos.

“Mesmo sem andar direito há cinco anos, eu não acho a vida ruim não… Eu tenho meus netos que lembram de mim, ligam pra conversar comigo e saber como é que eu tô. Eu tenho meus filhos que tão tudo com saúde e com a vida encaminhada. Tem que agradecer a Deus!”, ela continuou, me dando uma surra de experiência.

Minha cabeça voou em mil pensamentos e situações ao longo daquela tarde com ela. Do alto de seus 82 anos e das dificuldades que já superou e supera todos os dias, ela estava me lembrando que o importante é sermos gratos. Por tudo e por todos que, de alguma forma, fazem nossa vida ganhar cor e ser mais doce. Sermos gratos pelos gestos simples, por quem nos dá uma palavra de carinho, por quem nos faz sentirmos queridos. Gratos pelo que a vida nos faz passar, das alegrias às tristezas, porque até quando a gente não entende e se sente injustiçado, estamos aprendendo.

Gratos de coração, de verdade e sem esperar nada em troca… gratidão não é obrigação. Mas é renovação. Às vezes só temos que parar um pouco e observar ao redor. Observar que ainda há solução se agirmos pro bem, valorizando aquelas coisinhas que passam despercebidas no meio da correria. Valorizando as pessoas que permanecem ao nosso lado e o que elas são capazes de fazer por nós. Já parou pra pensar em quantos já te estenderam a mão, o braço e o abraço? Agradecer não é feio, sabe?! Ninguém perde por ser grato e por expressar isso de alguma forma. Cada um encontra uma maneira, o importante é externar. Eu acredito muito que gratidão é energia, que se converte e se espalha, que ganha força e traz esperança. Precisa (e deve) ser “passada pra frente”, colocada pra fora. Ninguém diminui. A gratidão engrandece o espírito!

Sem saber, minha vó me fez lembrar de tanta gente e tanta coisa que estava lá no fundinho das memórias… histórias cobertas de pó, “esquecidas” e guardadas. Como se fossem enfeites bonitos, mas empoeirados e deixados no porão, esses momentos precisavam ganhar mais atenção e cuidado. Ser colocados em evidência de novo, na estante que é a vida. Limpos e cheios de luz.

Ela me lembrou que a vida tem mais sentido quando reconhecemos e agradecemos o presente que é estar aqui. Me lembrou também, com meia dúzia de frases, que a gratidão é bonita demais. Me emocionou e eu engoli o choro naquela hora. Não devia… devia era ter dado mais um abraço nela e dito: Obrigada, Vó! A senhora tem razão… A vida é boa demais!

E quando não for, a gente que faz ficar!

Yulle

Bela, recatada e do lar… Se ela quiser

Mulher, sorte a sua! Imagina só você poder definir o que quer ser… E você pode! Não só pode como deve! Deve ser exatamente do jeitinho que lhe faz bem. Pode ser linda, exuberante, impecável. Bela no sentido mais literal da palavra. Bela como você queira ser e não como os olhos dos outros querem ver. Mas olha, você também pode não querer nada disso viu?! Não precisa “se embelezar” todo dia, pode ficar com o cabelo pro alto, com a roupa velhinha e super confortável, e não precisa ir ao dermatologista três vezes em duas semanas. Pode se cuidar da maneira que você achar melhor, afinal de contas, sua beleza não está na casca que eles querem que exiba. Está no que você transmite.

Mulher, eu entendo que você seja recatada, tímida e discreta. É o seu jeito, né?! Sempre tão quietinha e reservada. São questões de personalidade e cada uma veio pra ser de uma forma, com alguma coisinha bem peculiar e individual. Mas você está feliz assim? Que ótimo! É isso que interessa, não é mesmo? Seja extremamente realizada com você mesma, assim como as que são escandalosas, loucas, extrovertidas e desinibidas. Vocês são completamente opostas, mas ninguém veio aqui pra ser igual a ninguém. Você veio pra ser você, por você, para você!

Agora outra coisa: Vai pra rua? Vai mesmo, menina! Vai pra rua, vai pro bar, vai pra noitada, vai pra igreja, vai viajar, vai trabalhar. Vai pra onde você se sente à vontade e não se preocupa não! Você tem mesmo que aproveitar dia, noite, madrugada e todo o tempo que tiver. Ah, mas você é daquelas que gostam de ficar em casa, cuidando da limpeza, do almoço e da rotina dos que vivem com você? Caramba, que bacana! Se foi você quem escolheu ser assim e se sente feliz sendo “do lar”, eu tenho certeza que faz todas as outras pessoas se sentirem especiais com a sua generosidade e carinho.

Sabe, mulher, não vou me prolongar mais não. Posso resumir em duas palavras: SEJA LIVRE! Eu só falei tudo isso porque também sinto o peso desses padrões que são estabelecidos na nossa vida, há tantos e tantos anos. A gente vem quebrando muitos deles, né?! E ainda vamos quebrar vários outros, pode acreditar! A história está aí para nos encher de inspiração e esperanças. Vamos juntas, lutando a cada dia para rompermos essas amarras e mostrando que não temos que ser encaixadas em regra nenhuma. Afinal, não somos produzidas em escala. Somos versão exclusiva! Versão exclusivamente definida por nós e mais ninguém.

Yulle

Não vem que não tem

Entre tantos assuntos para virar um texto, decidi hoje falar diretamente. Da Yulle de cá, pra quem estiver lendo daí. Sem muito enfeite, história ou rodeios. Vamos bater um papo de boa e falar do que acontece todo dia? Eu tenho certeza que você aí também passa por isso. Ah, e vamos combinar uma coisinha aqui: vamos simplificar as coisas!

Já dizia aquele samba: Nem vem que não tem! Não ando com muita paciência pra “meios” sabe?! Meio assunto, meia conversa, meia vontade, meio bem ou meio mal. Meio termo! Ou é o termo inteiro ou nada dele. Não é ser radical, mas é que esse negócio de ser nota 5 já deu. Não sei para você, mas para mim o tempo está correndo tão rápido, que sinto como se fosse um monte de areia escapando por entre os dedos. A gente faz força pra segurar cada grão, mas escapa. O tempo é isso. E é agora, não é depois.

Agora tá na moda falar de reciprocidade né?! Então vamos falar também. Como o próprio significado da palavra diz, ser recíproco é ser mútuo. Trocando em miúdos, seria a via de mão dupla. Colaboração! COLABORAÇÃO! Não adianta achar que algo vai durar quando você não faz sua parte. Seja onde for e em qualquer tipo de relação que tenha na vida. É preciso dar pra receber em troca. Mas sem joguinhos sabe?! Sem ficar de mimimi. Quer falar? Fala! Tá com saudade? Procura! Não gostou? Pergunta!

Esse negócio de ficar achando problema onde existe solução me mata! E, infelizmente, tem muita gente que tende a ser sempre o do contra. Tem coisa mais chata que isso? Não… não tem.  Gente… é tão simples e a gente complica tanto a troco de que? Vamos perdendo chances, afastando de pessoas que a gente gosta, deixando de viver mais histórias por orgulho puro. Porque se fulano não vai atrás de você, você também não pode ir. Ah vá! Faça-me o favor! Já somos grandinhos pra isso.

Então “não vem de garfo que hoje é dia de sopa!”. Não me esquenta em banho Maria porque tenho pavor de coisa morna. Ou coloca pra entrar em ebulição ou deixa fria. Seja e esteja! Esquece esse papo aí de desapego, porque é numa dessas que a gente vai se perdendo. Indiferença nas relações humanas só nos faz menores. Menores no amor, menores na convivência, menores no aprendizado e na evolução.

Então, como diz meu pai: Não inventa moda não! Faça o que sua vontade te diz e deixe de lado o que todos acham certo. Não deixe de mostrar sentimentos e sensações, só porque o mundo anda frio e insensível. Não deixe as coisas passarem sem realmente aproveitá-las… Aproveite à sua maneira. Mas aproveite. Ninguém disse que é fácil… Mas é simples. É só desligar a chavinha e ir. Só ir.

Yulle

Cadê a chave, moço?

Era fim de tarde daqueles domingos bem preguiçosos. Nada além da ociosidade preenchia seu tempo. Tentou dormir, ouvir música, mas nada funcionou. O que ia fazer? Se viu trancada naquele ônibus que só chegaria em seu destino depois de longas horas de viagem. Observava a estrada pela janela, se perdeu pelas paisagens e pelos pensamentos também.

Quando percebeu pensava em amor. Amor que sumiu há algum tempo. Amor que ela não sente, não encontra e não lembra de como seja. Sem acreditar no que estava refletindo, começou a rir de si mesma. Com tanta coisa pra pensar, por que lembrou justamente do amor? Logo tentou controlar os próprios pensamentos, mas foi em vão.

Voltou alguns anos, lembrou daquele namoradinho de infância, depois das paixonites que surgiram na adolescência… Até que parou no ano que encontrou o primeiro amor. Aquele que fazia o coração acelerar e a barriga gelar. Aquele que a deixava com cara de boba, se perdendo no meio das palavras. Era nova na época, mas o amor era verdadeiro. Ela imaginava todos os dias como seria sua vida ao lado dele. Gostava do seu jeito, das risadas e do cuidado. Queria ficar mais velha e poder sair pra onde quisesse, com ele ao seu lado.

Riu novamente, vendo como foi bom sentir tudo aquilo. Até que se lembrou de como tudo terminou. Lembrou da dor, do baque, da decepção. “Por que tem que ser assim? Por que terminou comigo?”. Lembrou dos dias de choro descontrolado e da vontade que tinha de ficar com ele mesmo sabendo que o sentimento não era recíproco. “Como pude ser tão boba? Me rastejei aos pés dele e levei um pé na bunda!”, constatou em silêncio.

Mas a questão não era ser boba ou não. A experiência do primeiro amor (e do pé na bunda) foi muito válida, apesar dos pesares. Então continuou naquela viagem pelo tempo, pelas histórias que viveu e chegou a uma conclusão que a assustou. “Cara, depois dele eu não amei mais ninguém! Ninguém! Eu realmente não sei o que é amor depois disso.”

Contou os anos que passaram, as pessoas que conheceu, o que viveu com elas, mas não achou o amor. Viu que não consegue se entregar, que não confia o suficiente e que mesmo gostando, não deixa com que se aproximem demais. “Será que nunca mais vou amar ninguém?”, pensou. “Quem é que vai fazer eu me apaixonar de novo? Existe algum cara que valha à pena amar?” Quanta pergunta de uma vez só… Quanta incerteza. Isso no fundo deve ser medo. Medo de amar alguém que a faça sofrer novamente.

As horas passaram, já estava quase chegando em seu destino final, mas o pensamento continuava no passado. Recordou de algumas conversas, encontros, presentes…Opa! Presentes! Lembrou-se do dia em que ganhou um colar cujo pingente era em formato de cadeado acompanhado de uma mini-chave. Num gesto simples, pegou a mini-chave e deu àquele amor. “Guarda contigo. O cadeado é meu e a chave é sua. Fica com ela, tá?” Era como se dissesse: Meu coração é seu.

Ele guardou. Guardou tão bem que só depois de anos ela entendeu o porquê de não conseguir amar mais ninguém. Como vai se entregar para um novo amor se a chave do seu coração ficou com o outro? A chave era só uma analogia, um símbolo, mas parece ter sido levada a sério. O coração está trancado, sem a chave, ‘fechado pra balanço’. Mas até quando? Ele vai voltar? Ou um novo virá? Moço, devolve a chave por favor. Ela precisa amar de novo!

A viagem ao passado chegou ao fim quando o ônibus parou. Era hora de desembarcar. Ao pegar a bagagem, voltou pra realidade, lembrou da semana que ainda iria enfrentar e pediu coragem e paciência aos céus. Largou os pensamentos sobre o amor por lá e concluiu: Deixa…Um dia ele vai voltar!

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E agora? O que você vai fazer?

Eu queria ter o que te dizer nesse momento, sabe?! Mas eu realmente não tenho. Queria ser aquela pessoa resolvida, cheia de conselhos de vida. E também não sou. Mas de uma coisa eu sei muito bem: essa é a hora que o filho chora e a mãe vê! E vê muito!

Aquele dia tão esperado chegou. Dia de comemorar a formatura, uma grande etapa, o fim da tão sonhada vida universitária. Liberdade! Opa… Perai, amigo. Isso rola só naqueles tradicionais três dias de festas. Não quero te desanimar, nem jogar um balde de água fria. É que o buraco é mais embaixo… e só na hora de pular, é que temos consciência do tamanho do precipício.

A vida adulta assusta né?! Aliás… o que eles chamam de “vida normal” assusta. Procura por emprego, por estabilidade financeira, por casa, carro, aquele relacionamento duradouro e blá blá blá. Mas nem todo mundo tem esses desejos. Nem todos pensam dentro dessa caixinha de desenvolvimento rotineiro. Só que as obrigações nos atormentam, por ora. A ausência de um luz no caminho faz com que não enxerguemos além.

A visão é turva e os ouvidos já estão cansados das mesmas perguntas: Já sabe o que vai fazer? E agora, pra onde você vai? Vai fazer mestrado ou pós? Não pensa em fazer concurso não? Vai morar com seus pais de novo? O salário é bom? Já enviou currículo? E a entrevista será que dia? Alguém te deu retorno? Já tirou seu registro e arrumou a carteira de trabalho?

PAREM! Por favor, parem!

A vida é mais que isso. E quem está passando por esse momento, já se faz todas essas perguntas constantemente. Não é preciso que tenha mais pressão, sabe?! A situação em si já é louca. Se você está de fora e não percebe que esse interrogatório é um porre, eu estou aqui pra te lembrar que é! Não faz isso não… deixa que a pessoa vai falar sobre isso quando se sentir à vontade. Seja desabafar, pra falar sobre uma possibilidade, um e-mail recebido daquela empresa bacana, de uma ideia que teve… não importa.

Se sua intenção é ajudar, chama para tomar uma cerveja, refrescar a cabeça, pra um programa legal na quinta-feira… Mas não fica insistindo nesse assunto “pós-formatura” não, tá?! Fica a dica! Isso é tudo que não precisamos. Ajuda o coleguinha e não coloca mais peso sobre os ombros dele.

Aos poucos, quem acabou de sair da faculdade e caiu no caos do mundo, começa a entender como que funciona essa selva. Começa a ver se vai querer entrar no sistema ou seguir pela rota alternativa. Vai encontrando possíveis caminhos para começar essa nova caminhada, ou buscando lugares onde tem mais chances de ganhar experiências. Ou também, começa a ter ideias empreendedoras, que motivam a correr atrás do que faz bem e do que tem prazer. Essa é a melhor parte. Eu disse a melhor, não a mais fácil.

O que a gente espera, é que no final valha à pena cada gota suada, cada currículo enviado e não respondido, cada lágrima que rolou descontrolada e cada uma das vezes que respondemos aos questionários cansativos e desnecessários. Calma, gente! O tempo de cada um é diferente e a absorção também. E isso não quer dizer que está tudo perdido ou que estamos acomodados. Isso quer dizer que, estamos buscando o que nos fará levantar da cama todos os dias com um sorriso no rosto e pensar: HOJE VAI SER FODA!

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