Eu escolho a liberdade

Eu escolho a liberdade.

Estar com alguém nunca é uma decisão fácil, por mais que se goste do outro. Involuntariamente (ou não), vamos deixando de lado possibilidades, romances, flertes, ideias, amizades coloridas e afins, para estarmos com uma única pessoa. E decidir abrir mão disso tudo tem de ser por um bom motivo. Ou melhor, por um motivo extraordinário.

Estar com alguém é doação, intensidade, sentimento de bem-querer, planos para finais de semana, feriados e próximas férias ainda daqui uns meses. É inegável que abrimos mão de algumas coisas. Um sábado a tarde pode deixar de ser aquela praia com os amigos para se tornar dia de brincar de ser tio emprestado de duas crianças pequenas. Um domingo de preguiça na cama até mais tarde, se torna estrada de terra batida para um almoço em família. Não a sua. Aliás, agora a sua família também. E você não reclama. Pelo contrário, sorri. E sorri de forma escancarada! Porque é o que você quer para si. Ter alguém com quem você se sinta tão bem, que te faça assustadoramente feliz. Assustadoramente? Sim! Porque quando você se dá conta, deixa de fazer falta aquela vida de efêmeros e soturnos anseios. Todo o prazer gozado de forma livre, é substituído pelo prazer a dois. Livre. Porque quando você escolhe estar com alguém, não vê sua relação como forma de prisão, pelo contrário, liberta-se. Afinal, compartilhar de sonhos e desejos outrora únicos, passa a ter um peso diferente.

A caminhada se torna mais leve e a gente aprende que é mais gostosa a vida quando se tem com quem contar. Liberdade também é saber ir e vir de mãos dadas com alguém. E é, justamente, essa a liberdade que eu escolho.

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Me deixe em paz

Seu pedido veio certeiro:
– Me deixe em paz!
Dito de modo firme, com os olhos marejados de lágrimas, a voz embargada de um choro soluçado de quem acabara de se recompor. Por alguns segundos, a minha única reação foi de me sentir paralisado dos pés à cabeça, sem compreender ainda aquele rompante exaltado em sentimentos tão bagunçados vindos dela.
Por um instante olhei em direção à saída de sua casa. A porta entreaberta permitia que uma brisa suave invadisse a sala. Estávamos a sós ali. Recém chegados de um turbulento afastamento entre os nossos caminhos. Era como se o mundo de ambos houvesse virado de ponta cabeça e, mesmo que nossos olhos, corpos e corações implorassem um pela presença do outro, o que se passava dentro de nós precisava reencontrar seu equilíbrio. Equilibrar-se por dentro para permitir-se do lado de fora.
– Eu só quero que você me deixe em paz…
Sua voz continuava embargada, em um tom mais baixo e os olhos ainda fitando os meus. Havia ternura neles, mas havia também medo. Era um pedido de socorro, como se estivesse quase entregando os pontos em uma guerra longa e cansativa contra um mundo que tentava, a todo custo, derrubá-la. Ela é uma das mulheres mais fortes que eu conheço. Parecia se vestir todos os dias com uma armadura pesadíssima para enfrentar mais uma batalha. Se escondia atrás de um sorriso largo, mas o peso dessa máscara começava a deixar claros sinais de que algo não estava bem. Daí então me abraçou e não conteve as lágrimas.
– Por favor, – voltando a soluçar – só quero paz…
Eu já tinha entendido. Quando decidimos nos afastar, a ideia de que distantes poderíamos nos recompor e voltarmos mais fortes parecia ser a melhor opção. Mas ali, frente a frente, vimos que estávamos errados. Seu pedido nada mais era que um desejo de ser resgatada de um abismo que não parecia ter fim. Um abismo que eu também tinha me jogado e não conseguia mais sair. Juntos seríamos mais fortes para enfrentarmos nossos medos. Juntos teríamos, um no outro, o nosso porto seguro. Seu pedido de paz nunca foi para eu deixá-la partir, mas um pedido para ficar e acalmar todo o seu caos.

Pequeno dicionário amoroso

Ando desconfiado. Há muito tempo não me via cantarolando músicas de cabeça e sorrindo à toa em meio à multidão. Há tempos não me pegava perdido entre fotos e galerias em busca de um sentido para os meus devaneios. Aos desavisados que teimam em visitar minha caixa de entrada com qualquer cantada barata, apenas digo que ando bem entretido em uma jornada sem a intenção de parar ou desviar meu caminho.

Sinto pontadas no peito e disritmias bastando ser envolto por seus braços. Me assumo uma fortaleza no menor banhar dos teus olhos enquanto se aconchega dentro do meu abraço. Me faço de porto seguro quando, entre dúvidas e pedidos de conselhos, me procura para ouvir o que lhe tenho a dizer em alívio aos teus medos. Finco os pés no chão quando me pede para ir, sabendo muito bem que a única partida que deseja, é o adeus de nossos próprios bobos desejos de partida. E fico.

Sonho acordado e durmo sorrindo. Acordo sorrindo. Sorrio até sorrindo! Através da alma. Sorrio escancarado e escandalosamente por dentro em sua presença. E, do lado de fora, sorrio da ponta do pé ao último fio de cabelo.

Tenho procurado dentro de mim qualquer lembrança que me remeta à última vez que me senti desse jeito. Lembro que há muito tempo conheci quem me fez cantarolar centenas de clichês em meio à multidão. Lembro que houve sorrisos espalhados pela cidade em cada canto onde imprimi minhas pegadas. Amei doce e sereno, mas aprendi que não bastava amar sem saber, de verdade, o que era o amor.

Hoje, algumas primaveras depois de me despedir daquela que me ensinou a amar, desconfio que, finalmente, aprendi sobre do que se trata o amor. Desde sua chegada, pude vivenciar na prática o que, antes, só conhecia dentro de leituras soltas em meio a milhões de sentidos. Revisitei meus velhos cadernos de textos e bebi dos versos dos mais boêmios poetas. Busquei notas, ouvi outras canções, rascunhei palavras que descrevessem o que eu me percebi sentindo. Foi então que ergui meus olhos e dei de encontro com os teus. Me peguei amando outra vez. Mas, desta vez, alguém que me ensinou o real significado do amor.

Amores modernos: sobre o não querer

Não quero namorar. Sério. Assim, do jeito que as pessoas sabem como funciona o namoro de hoje em dia. Conhece hoje, namora amanhã, o primeiro “eu te amo” surge no início da segunda semana, juras de amor eterno, planos de casamento, casa, carro, cozinha planejada, crianças, cachorro, cama king size, cafeteira elétrica e aquela coisa de coisar bolo. Ufa! Não rola! Serião! Conhecer os pais, apresentar aos amigos, fazer média com os sobrinhos, aniversário dos primos, avós, cachorro, gato, vizinhos… Namoro cheio de convenções sociais, regras de etiqueta, esquema padronizado com dia, hora e lugar para se estar de casal nos próximos dez anos… Detalhe… sendo que isso tudo só dura, no máximo, 3 meses. E depois parte-se para outra. Tudo novamente. Conhece hoje, namora amanhã, o primeiro “eu te amo” surge no início da segunda semana… Ok. Você já sabe como continua essa história.

Ando bem cansado desse mundo mecânico. As pessoas confundem demais as coisas. Confundem individualidade com individualismo, reciprocidade com dependência, companheirismo com mera companhia, doação com obrigação, confundem carência com amor! Quando foi que o mundo se transformou num mar de gente rasa, vazia e egocêntrica? E nem pense em colocar a culpa no Tinder. A razão da sua existência é justamente reflexo do que se encontra por aí. Aproveitaram uma oportunidade e… pimba! E aí veio mais um aplicativo, outro, mais outro… e assim por diante. Ok. Não é regra. Mas também não chega a ser exceção. De vez em quando rolam umas histórias interessantes que surgem a partir desses encontros virtuais. Encontros casuais que, por obra do acaso ou destino, se tornam uma relação que ultrapassa esse namoro tão pragmático do mundo moderno.

Quer dizer que abomino o namoro e sou totalmente desesperançado com as relações amorosas? Não. O que tem me incomodado é só o contorno que os relacionamentos tem ganho nessa nossa modernidade. A gente que busca o equilíbrio nesse quesito que é o amor (ou o “sermos dois e sermos um”), deseja ir muito mais além do que a denominação de “namorada(o)”. Afinal, não basta estar namorando, não é algo que se põe da boca pra fora assim. Mais que ter ou estar, é preciso ser. A ideia de “estar” com alguém parece ser tão banal, um jogo de conveniência, uma simples troca de favores. Você nutre a minha carência e eu nutro a sua carência. Sobre o “ter”, nem preciso falar, né?! Ninguém é objeto de ninguém, ninguém tem a posse sobre ninguém. Porém o ser…

Somos seres únicos. Estamos em constante busca de nosso equilíbrio para que sejamos sempre a melhor versão de nós mesmos. E estando em equilíbrio conosco, podemos encontrar quem, em equilíbrio consigo, esteja igualmente disposto a compartilhar a sua vida. Aí sim, não devemos ir em busca de nossa “cara metade”. Ser metade é estar muito distante de estar em equilíbrio. O amor não é uma simples soma como 2 e 2 são 4, mas uma média aritmética simples. A soma de duas pessoas em equilíbrio, dividindo vida, sorrisos, beijos e reciprocidade. Daí se chega ao resultado final. O propósito do encontro, o transcender do “sermos um”. Então não quero namorar, não quero me limitar a um termo banalizado por toda essa modernidade tóxica. Quero muito mais do que isso. Quero ser história. Quero pecar pela luxúria de amar, mas também ser alvo do pecado de alguém. Quero companheirismo, reciprocidade, respeito mútuo, liberdade para poder voar sem limites estabelecidos. Mas voar a dois. Começar com um “de hoje em diante” e terminar em “felizes para sempre”. Não como nos contos de fadas, onde tudo é perfeito. Quero a vida real, com defeitos, batalhas e conquistas. Mas alcançar a felicidade plena como um desejo comum a dois sem prazo de validade.

Aquilo que não somos

Caminho a passos lentos por medo da queda. Não que eu me importe com os machucados, mas, com um mundo cada vez mais egoísta, me preocupo em não ter quem possa me estender a mão. É um fardo imenso levar consigo um grito uníssono e quase inaudível a quem se recusa a enxergar mais do que a si próprio. Meu grito é um clamor por atenção, é quase um pedido de socorro. É por medo de ser sozinho nesse mundo que ainda tento me fazer ser ouvido.
Carrego uma mochila nas costas cheia de sonhos e expectativas e o peso das minhas escolhas é quase insuportável. Pelo caminho sempre encontro pessoas dispostas a se aventurarem e percorrerem as trilhas abertas pelos passos que dou. Todos trazem suas próprias bagagens, umas mais pesadas, outras mais leves. Poucos são os que aceitam dividí-las. A explicação é óbvia. Se recusam pelo medo de ter que carregarem mais do que suportam. Tolos. O que há em comum entre nossos desejos não se soma e sim se complementa, se compartilha, tirando o peso de levá-los sozinhos. O problema é saber quem está realmente disposto a correr os riscos que a estrada proporciona.
Aos que aceitam, devolvo sorrisos aos rostos de quem, até mim, vem com lágrimas. Permito que descarreguem suas angústias, suas tristezas, suas mágoas… é como se eu pudesse captar toda aquela energia negativa acumulada e a neutralizasse. E os próprios sorrisos que voltam a brotar em seus rostos é o que me traz a paz de saber que meu trabalho foi feito. Coloco de volta a mochila nas costas e retomo minha lenta caminhada, deixando sementes de gratidão plantadas em corações outrora vazios de esperança. A estrada é longa e a vida passa depressa, mas de que valem nossos passos se não for para deixarmos as marcas de nossas pegadas no chão? Somos reflexo das mãos que se estenderam para nós no caminho. Somos a busca incessante pelos corações que necessitam serem acolhidos e abrandados. Para quem se importa. Para os outros, só interessa aquilo que não somos.

Gênios incontestáveis, homens desprezíveis

Racistas, machistas, misóginos, homofóbicos, pedófilos… Qualquer um desses conceitos já seria o suficiente para que uma pessoa passasse a figurar na lista de desafetos de muita gente. Mas há um pequeno porém: essa mesma pessoa possui uma obra inquestionável em sua área de atuação. E agora?
David Bowie influenciou grandes astros da música internacional, tem uma vasta obra com elementos que fizeram a crítica enxergá-lo como o precursor de um rock glamourizado, além de sua inclinação ao apoio à comunidade LGBT durante a década de 70. Porém, tentou ganhar fama em cima de uma suposta bissexualidade com o intuito de ser admirado pelo espírito transgressor. Contraditoriamente, confessou simpatia por Hitler e pelo fascismo e foi fotografado em uma ocasião fazendo a saudação nazista.
Fernando Pessoa dispensa apresentações quanto à sua relevância na literatura. Porém, recentemente, veio à tona diversas declarações racistas e de apoio à escravidão, além de discursos de depreciação às mulheres.
Tim Maia era machista e homofóbico, assim como Che Guevara. Maurício de Souza, Nelson Rodrigues, Woody Allen, Charles Chaplin… todos figuras incontestáveis, porém enquanto seres humanos palpáveis…
Será que é válido desconsiderar a obra de um determinado artista em detrimento de sua vida pessoal? É preciso enxergar que, em muitos aspectos, estiveram à frente do seu tempo, porém, em outros, foram apenas mais um entre todos aqueles que viviam a sociedade na época. Nada justifica os erros, porém e seus méritos? Somos condicionados a exaltar os defeitos e ignorar as qualidades, um ponto fora da curva é o suficiente para levar alguém do céu ao inferno em questão de instantes, mas será que esse é o modo correto de se avaliar sua real importância para o que foram considerados precursores?
É como se tivéssemos um diamante coberto de poeira. Seu brilho é ofuscado, mas o seu valor não se altera. Isso significa que estou defendendo indivíduos que cometeram ações negativas ou grupos privilegiados e opressores da nossa sociedade? Óbvio que não. Mas é necessário saber diferenciar a obra do artista. Sabemos que muito do que se escreve, do que se faz enquanto expressão artística, é fruto da própria vivência pessoal. Porém não é, especificamente, a vida pessoal. Peguemos o caso específico de Chaplin. Toda a genialidade de um artista à frente do seu tempo que foi capaz de, durante um período delicado de conflito mundial, criticar abertamente o regime ditatorial adotado na Alemanha nazista e na Itália fascista. Mas ele foi um machista pedófilo. Chaplin produziu o fantástico “Tempos Modernos”, em plena ascensão de um feroz capitalismo industrial explorando toda a massa proletária sendo, posteriormente, praticamente escorraçado dos Estados Unidos acusado de práticas comunistas. Mas, foda-se, ele foi um machista pedófilo. Até hoje, o cinema-mudo é admirado e invejado pela sua singularidade em transmitir, através da linguagem corporal, sentimentos, ideias, sentidos… Mas eu já disse que ele foi um machista pedófilo?
Maurício de Souza e seus quadrinhos fizeram parte da infância de várias gerações no Brasil. Diversos valores sobre família, amizade, companheirismo, cuidado com o meio ambiente, dentre tantas outras questões. Mas, além de Jeremias, personagem quase que figurativo com seu bonezinho vermelho, alguém consegue lembrar de outro menino ou menina negra? Apesar de não ser negro, Cascão é o que mais se aproxima disso por ser o único de cabelo crespo. E adivinhem quem na história é o personagem sujo e sempre submisso às ideias mirabolantes de seu amigo? Aliás, sua namorada, Maria Cascuda, em algumas histórias também aparece como quem não toma banho. Nem preciso dizer sobre a textura do cabelo dela, não é? Mais uma dica: pesquisem sobre o personagem Nico Demo, o “politicamente incorreto” dos quadrinhos de Maurício de Souza.
Uma mancha enorme em seus currículos, é verdade, mas não deixaram de ser inspiração no que se propuseram a fazer para o seu grande público. Seres perfeitos não existem, até gênios têm suas ressalvas em sua vida pregressa. O legado que deixaram é incontestável… ou será preciso rever a importância que tiveram na história?