Eles riem de mim

Leia ao som de Natural – Imagine Dragons

Sim, eles riem de mim. Apontam o dedo, julgam, ridicularizam.
Eles gargalham. Debocham, desdenham, querem me derrubar.
Querem que eu pare, que eu me entregue, que eu desista.

Eles riem de mim.

A cada vez que eu dou mais um passo buscando o que eu gosto.
Todas as vezes que eu faço algo diferente, sempre que fujo dessa palidez do mundo normal.
E dentro do meu coração sinto que estou fazendo a coisa certa, me sinto inteiro durante os momentos em que as novas ideias cruzam pelo meu pensamento e, com uma certeza ímpar, boto pra fora para o mundo ver.

Gravo, edito, posto.
Milito, debato, discuto.
Opino, escrevo, respondo.

Simpatizo e até recebo simpatia.
Sei que tem gente que admira o meu trabalho, mesmo que de longe ou sem comprar as minhas brigas.
Mesmo sem precisar me dizer falar nada a respeito.

Mas eles? Eles riem de mim.
Nas rodinhas, nos grupos, nos compartilhamentos, nos posts.
Pelas costas, pelas ruas, pelos meus experimentos, pelas minhas tentativas.

E eu sinto os cortes.
No escuro, sangro.
Na solidão, penso em parar.

Durmo triste, acordo mais ou menos.
Será que tento de novo?
E tento por mais um dia. Mais um dia em que eles riem de mim.

Mas eu sigo o meu trabalho. Vou adiante no que acredito. Em mim vai se criando uma casca que serve de armadura contra esse veneno todo. Vou descobrindo que não preciso receber pancada por nada.
Se eles querem bater, deixa que batam. É só eu não aceitar apanhar.
Entende? Entendo.
Entendo que só machuca se eu deixar.
Receber crítica construtiva de quem nunca construiu nada não tá é mesmo com nada.

E eu sigo. E eles? Ah, eles…

Eles riem de mim.
Por fora eles que riem de mim.

Por dentro eu estou rindo deles.
Paulinho Rahs

Desculpa os excessos, mas é minha forma de amar

Tenho consciência de mim mesma e sei que nem todos os meus atos são merecedores do teu amor e da tua companhia. Às vezes me perco e por muito tempo te deixo partir, te deixo ir para longe, em um lugar distante onde não sou capaz de te encontrar. O problema é que sempre que isso acontece, é como se eu também desaparecesse, ou pelo menos aquela parte boa que existia aqui.

Porque quando tu vais, um pedaço de mim vai junto. Uma célula minha se perde ao deparar-se com a ausência do teu toque quente e suave. A cabeça gira e o coração perde a mira. Encontro-me sem rumo e perco-me na certeza de ter jogado fora todo o meu possível futuro.

E não posso te culpar por não gostar de ficar. Eu também não ficaria. Deve ser foda o meu grude e minha forma de querer te prender a mim, de querer te pertencer por completo. A cada abraço eu tinha medo de perder os teus braços que me envolviam tão bem. Todas as noites deitada em teu peito, eu tinha certeza de que aquele seria para sempre o meu melhor travesseiro e o único capaz de trazer paz para as minhas noites de ansiedade e insônia. O teu beijo precisava ser eterno e o nosso tempo era tudo que eu tinha de mais precioso nessa vida, e por fim, guiada pelo medo de te perder, acabei te levando para bem longe de mim.

Mas ainda assim, caso um dia venha a ler esta carta, saibas que não desisti de nós. O teu lado da cama ainda está vazio, vez ou outra ocupado por um livro ou uma garrafa de vinho, mas ele ainda está lá. Aquela camisa branca que tu deixaste de rastro ao partir, continua ali, pendurada no mesmo cabide e trazendo o mesmo cheiro de paz para a minha vida. De vez em quando me pego olhando para ela e é como se conseguisse te enxergar aqui, me faz bem saber que talvez um dia tu voltes para pegá-la e leve de brinde também, essa bagunça que ficou dentro do meu peito.

Eu estou te esperando. Talvez seja em vão, mas algo me diz que um dia tudo isso vai ter a sua determinada razão. Hoje te escrevi na intenção de simplesmente dizer que estou ciente dos teus motivos, mas jamais irei me arrepender dos meus excessos. Eles fazem parte de mim e meu coração estará sempre aqui te esperando para transbordar comigo, por isso se quiseres voltar, um dia de repente, quando a saudade acusar, bate aqui de madrugada e vem correndo me amar.

E-mail para uma amiga que está chorando uma traição

Oi, amiga

Eu sei que seria muito mais fácil eu te mandar uma mensagem instantânea. Mas desde sempre, uma carta e um telegrama têm uma diferença imensa. Optei pela carta. Ainda que seja a versão moderna.

Pra começar, quero dizer que sinto muito. Sinto muito por tudo o que aconteceu entre você e ele.

Eu poderia vir aqui agora e dizer que tentei te alertar mas, por incrível que pareça, quem aconselha também se assusta quando a coisa acontece.

Não pense que sinto algum prazer por isso ter acontecido. Ao contrário. Não vou dizer “eu te avisei”. Me sinto mal por ver uma amiga que amo chorando por um canalha.

Sei que você deve ter estranhado a minha ausência, talvez outras pessoas tenham chegado antes de mim, mas é que eu estava aqui sentindo em sintonia com o seu coração.

Eu poderia ter mandado uma mensagem instantânea, mas não sabia ainda o que dizer. Por isso, vim parar aqui, no meio do dia, num restaurante qualquer, pra tentar encontrar algum sentido em tudo isso e confortar o teu coração.

Toda vez que uma menina é traída, eu sinto também. Sinto porque sei como é. E sinto porque sei o quanto você amava pura e genuinamente.

Quando ele te traiu, não traiu só você. Traiu a si mesmo. Traiu a honra de firmar um compromisso. Traiu a dádiva de ter alguém que concorde em estabelecer um compromisso às cegas.

Quem se compromete precisa ter um mínimo de consciência do tamanho da responsabilidade que aceita ao receber integralmente a confiança de alguém. Precisa saber que, mesmo existindo o livre arbítrio e, com ele, a possibilidade de fazer o que bem entender, alguém apostou todas as fichas na sua lealdade.

Ele não foi capaz de fazer isso. E eu lamento muito que existam pessoas assim, que pouco se importam com o sentimento alheio.

Não falo tudo isso para te relembrar da dor. Falo porque quero que você olhe para si mesma e sinta muito orgulho de ser como é.

Ele só caçou níqueis e não enriqueceu ninguém. Só que o jogo ainda vira. No fim da noite, você dorme o sono dos justos. Ele ficará no frio de um salão gelado sem ninguém para apostar.

Acho muito engraçada essa história das pessoas rirem de quem é traído. Deveriam chorar por quem trai. Quem é traído é pego de surpresa pela pessoa que mais confia. Trata-se do imponderável. Quem trai tem a confiança plena de alguém e, ainda assim, decide cortar o laço sem pôr o relacionamento em risco. Trata-se de uma escolha lúcida.

Traição é covardia.

Medo de ir embora e desgosto por ficar.

Ausência de personalidade mascarada com soberba.

Uma tristeza profunda convertida em um prazer sádico por usar os outros.

Sei que só o tempo pode te curar as feridas, mas vim escrever porque acho que você deve somente pensar no que é real: quem trai, sempre perde. Pode não parecer, pode demorar. Se não perder pros outros, é derrotado por si mesmo. Já a sua integridade, essa segue intacta.

Eu vou estar sempre aqui.

E milhares de caras legais também estarão pra te merecer de verdade.

Não pense no que você perdeu. Pense apenas que a vida se encarregou de enviar cada um de vocês para um destino justo de acordo com as suas índoles.

Aquele abraço apertado da sua sempre amiga.

Te amo!

Amor é para quem tem coragem de pagar pra ver

Todo mundo sabe que não existem fórmulas mágicas quando o assunto é amor. Ele simplesmente acontece. Basta uma troca de olhares dentro do ônibus, um esbarrão na fila da faculdade, um sorriso tímido que te faz sorrir também… e quando menos se espera, você está lá; tentando fazer parte de um mundo que acabou de conhecer.

Normalmente, esse mundo não tem muito a ver com o seu. E é exatamente nesse ponto que você começa a perceber o quanto o amor é controverso.

Entre milhares de pessoas, o seu coração  baterá mais forte justamente por aquela que irá bagunçar mais a sua vida. Foda, né? Você tenta manter distância mas o coração exige proximidade. Você tenta não sorrir mas a sua felicidade exige aquela presença. Você tenta se afastar, mas nem sabe como ir em outra direção.

O amor não é para covardes. Amor é para quem se arrisca. Para quem põe a mão no fogo. Para quem enxerga, mesmo de olhos fechados.

Nem todos os dias você sentirá o frio na barriga do primeiro encontro. Na verdade, em alguns dias você nem irá querer encontrar a outra pessoa. Você tem coragem de assumir isso?

Vai chegar um dia em que a rotina baterá em suas portas até um de vocês abrirem. Será que alguém vai ter coragem suficiente para dizer que a casa já está cheia?

Amar não é difícil. Se apaixonar, muito menos. Difícil é manter o sentimento vivo, manter o interesse, manter os corações batendo na mesma frequência, manter os olhos olhando na mesma direção.

E isso, meus amigos, não é para qualquer pessoa.

Às vezes, o amor só não te procura porque sabe que a sua coragem sempre termina logo após o primeiro encontro. 

Namore uma mulher que lhe deseje um bom apetite!

Diz o velho ditado que é pela boca que se conquista o coração de um homem. Carrego minhas dúvidas, pois a entrega em domicílio e o drive thru continuam em alta. Eu faria uma adaptação. Diria que é pelo cortejo à boca que realmente se conquista o coração dos machos. Sim, refiro-me ao cinematográfico ‘bom apetite”.
 
Bom apetite… Isso me lembra aqueles chefes de cozinha italianos, barrigudos e bigodudos com seus chapéus de mestre-cuca gritando ‘Buon appetito!‘ para os fregueses da sua cantina. Ou então aquele gerente puxa-saco ao cumprimentar seu patrão na hora em que este está de saída pro almoço. Esse é o bom apetite eleitoreiro, que enxerga o retorno, que facilita pra ser facilitado. Não me refiro a esse, e sim ao bom apetite quase que materno, àquele que vem com um sorriso de sobremesa, àquele que já não vemos por aí. O bom apetite genuinamente feminino. 
 
Ainda que ela não possua guardado as receitinhas da vovó. Ainda que não consiga discernir a panela de pressão de uma frigideira. Ainda que não saiba nem riscar um obsoleto palito de fósforo e acender a boca de um fogão velho. A mulher que deseja ‘bom apetite’ pega o atalho dos corações famintos. 
 
Que mulher amada, essa que nos deseja bom apetite… É tão segura de si que é capaz de falar abertamente (e sem medo) sobre o maior inimigo das mulheres midiaticamente complexadas: a balança. Sabe que somos devotos do seu pneuzinho de bicicletinha infantil, doces aprendizes das primeiras pedaladas e tombos. O bom apetite não deseja controle, coleiras, e sim a pura liberdade, aquela liberdade sabida de todos os seus mais ternos bem-quereres.
 
O bom apetite da mais fina educação sem qualquer regra de etiqueta. Do chope e da picanha no lugar do caviar e da champanhe. Do bom apetite sem frescuras, sem aulas de francês, sem mentir a idade, sem dietas pugliesianas irreais. Das palavras bem faladas, molhadas nos olhos, do biquinho mais sexy e natural na pronúncia dos dois tês. O bom apetite de desejar o bem sem olhar a quem, minha lady
 
Ela nunca pecará pela falta. Seu desejo não tem a preocupação demasiada de uma mãe nem a formalidade de uma nova namorada. Seu desejo é apenas desejar. Sua verdade é a mais simples e a mais clara. Seu intuito de cuidar é de mais pura família. São vontades plurais. A mulher não esperará uma resposta ao seu doce bom apetite. O bom apetite já é uma pergunta-resposta. 
 
E que mãe essa mulher será, meus amigos… Que mãe!
 
Imagino o prazer e o cuidado na amamentação, na fartura do seu mais sagrado alimento, das bochechas rosas e roliças de seus rebentos. Zelosos sentimentos maternos aguardam essa cuidadosa mulher, altruísta por essência, aflorando sua vontade de cuidar de tudo e de todos. Apetitoso esmero de amiga, mãe e companheira fiel.  
 
Mulheres que desejam bom apetite: multiplicai! Aos milhares, aos milhões! E olhai pra este desiludido cronista…

Tantas mulheres-poemas em um mundo de tantos homens analfabetos

Ela tem arte marcada no corpo. Carrega em si umas cicatrizes de falsos amores e algumas tatuagens de futuras promessas. Arte por dentro e por fora. Ela tem um sorriso firme e frágil e sabe muito bem o momento certo de usar cada um. Possui umas retinas marrons que parecem fotografar tudo que ela contempla com seus olhos miúdos. Ela tem uma nuca que pede beijos e uns ombros macios que querem um peito para se aconchegar, ela deseja esquecer umas dores. Quanta poesia no corpo daquela pequena. Quantos traços para ser tocados. Quantos poemas marcados em sua pele. Quantas histórias carregadas em sua alma.

À noite, quando o frio costuma visitar sua pele lhe causando arrepios, ela costuma se perguntar; Onde estão os moços com sorrisos largos? Onde estão os rapazes com a verdade na alma e sentimentos sinceros no coração?
E costuma passar horas encarando o teto do quarto questionando-se o que pode ter de errado com ela.

Mal sabe ela que não há nada de errado, alguns homens que não tiveram coragem de carregar tanto sentimento bonito dentro do peito. Alguns e tantos outros homens que só aprendem a arte da conquista, mas não sabem a poesia de manter quem se ama por perto.

A alma dela é perfumada com o mais belo perfume dos jardins botânicos, ela possui um sorriso capaz de desarmar o BOPE inteiro, e uma verdade no coração que só os verdadeiros sabem interpretar só de olhar no fundo de suas retinas escuras. Uma perfeita mulher-poema em um mundo de tantos homens analfabetos.
Uma pena.

Volta e meia a vida continua fotografando seus passos e revelando novas pinturas poéticas apenas para aqueles que conseguem ver beleza nas coisas mais banais. Ela continua apaixonada pela mulher que batalhou para ser. Pois ela não nasceu mulher, tornou-se uma. Carregando umas feridas aqui e outras ali, ela escreveu poemas dentro da alma. Marcada por riscos na pele, ela rabiscou poesias no corpo. Ela é uma arte que apenas alguns conseguem perceber a pragmática de toda sua semântica. Uma mulher que nunca desacreditou no amor por contas de alguns rapazes passageiros. Uma pequena com um sentimento gigantesco dentro de si. Ela vai continuar sua caminhada pelo mundo afora e passará por algumas esquinas alegres e outras tristes, mas sempre com um sorriso no rosto. “Se é falsete ou não, ninguém sabe. No final, toda mulher sorrir de qualquer forma.”

P.S.

Eu lhe imploro,
namore alguém que leia.

A porra do amor não correspondido

Eu era aquela pessoa que mandava mensagens de bom dia e boa noite. Eu era aquela que esperava a meia noite para mandar feliz aniversário. Eu me preocupava se estava bem, se o emocional estava ok, e se não tinha bebido além da conta. Pelo jeito que sorria, eu sabia quando estava tudo bem ou quando tinha alguma coisa fora do lugar. Eu notava quando queria dizer alguma coisa e não conseguia.

Sim, eu estava ai. Eu estava em detalhes, eu era a amiga. A amiga com quem colecionou risadas, bobagens e alguns momentos que não voltam mais. Pois é, não voltam mais! Eu tô aqui hoje para isso, para dizer não dá para voltar atrás. O sorriso ao teu lado nunca mais será o mesmo. O nosso beijo nunca mais vai se encontrar como antes. Sei lá, a tua indiferença me acordou. De repente eu amava por dois. Assim, repentinamente me ficou claro, talvez seja só esse teu jeito de amar. Acontece que apesar de sóbrio, não me acelera o peito, não me alivia a alma. Eu não te culpo por nada, apesar de ter sofrido e chorado, eu me levantei.

Eu na verdade, só posso agradecer. Obrigada pela mensagens não respondidas. Ah, obrigada também pela frieza, para com as mensagens que respondeu. Obrigada por todas as vezes que insistentemente me disse não. Porque foi com todos eles que eu aprendi a construir o meu próprio “sim”.  Foi em meio a tua negação, que sofrendo eu aprendi, que o único “sim” que eu precisava, era de mim mesma.

Parece maluco eu te agradecer né?! Mas é que foi com toda dor que trouxe, que aprendi sobre o meu amor. Enquanto loucamente buscava pela tua aprovação, me esqueci de me olhar . E quando a incerteza bateu na minha porta, meu pensamento se refez. Foi a tua incerteza, que me trouxe a certeza de que me basto.

Apesar de amar você, eu não precisava de você. Acho que teu erro foi ai né?! Imagina, eu me achava loucamente iludida, mas você acreditava que eu realmente precisava de você. Pois é,  foi na corda bamba, nessa coisa de caminhar sempre à beira da ladeira, que eu aprendi que me basto. Foi tentando me completar, que eu entendi que já sou completa. Na verdade você não ficou porque não quis, mas porque nunca coube aqui.

A verdade é que batemos cabeça, por não entendermos. Eu por olhar somente pra você, e você por perceber todas as outras, menos a mim.

Enfim, quando ressurgiu em uma mensagem qualquer, senti minha alma leve. Pela primeira vez meu coração não disparou e meus olhos não vidraram no celular. Eu simplesmente abri, e joguei o celular na cama outra vez. Não por ignorância, mas é porque assim como ninguém ri da mesma piada dez vezes, ninguém machuca no mesmo lugar dez vezes. Sabe, com a porra do amor não correspondido, aprendi que meu coração tem que disparar sim, mas por mim. Meu coração precisa se dilacerar sim, mas por mim mesma não por um outro alguém.  Foi tudo difícil e muito doloroso, mas também uma escola. Uma verdadeira escola onde aprendi: só posso amar por mim e aqui, só fica quem cabe. Não me espremo mais e quanto ao amor, tô firme, tenho rumo e prumo, não tremo e nem temo.  Afinal, é se amando que se aprende a amar!

Eu sei que é um erro, mas eu gosto de errar…

Não sei porque ainda insistimos em algo que sabemos o fim. Porque nos iludimos na esperança de que vai ser diferente, sendo que não será.

Não foi da primeira, não foi diferente na segunda e não será na milésima chance.

Mas sabe quando o coração teima com o cérebro e nessa disputa sempre ganha a opção que machuca mais.

tudo que é racional em mim diz que é melhor fugir, que não adianta tentar, que nunca será.

Mas meu lado emocional já pulou de cabeça e com olhos e ouvidos tapados para não escutar mais ninguém além de si mesmo.

Eu tento sair, tento fugir, mas algo me faz ficar. Me faz acreditar, mesmo que tudo mostre que eu estou errada.

E logo que eu sempre fui de acreditar na minha intuição tô me deixando levar por um caminho escuro e desconhecido.

Eu tenho todos os motivos possíveis para partir sem arrependimentos, mas parece que meus pés estão colados com threebond e não consigo mais sair daqui.

E vou me agarrando a cada pequeno detalhe de uma possibilidade de dar certo, mesmo sabendo que não dará. Que minha eu no futuro me dirá em tom de reprovação “eu te avisei”, e então irá me consolar em seus braços e dizer que dá próxima eu aprendo, ou não.

Me tornei minha melhor companhia

Os dias tem sido difíceis, tempestade, chuva e frio, fico o tempo todo a imaginar como mudar, e fico a me indagar: “O que fazer para sair desse lugar?” Chove tanto, alagou, transbordou até mesmo pelos olhos, parece que é o fim, quero sumir…

– Me tira daqui!

Grito e espero pela sua misericórdia, mas tu não me atendes, na realidade nem me nota.

Não teve como sair, precisei aprender a sorrir sem te ter mais em meus dias, precisei passar por tudo isso, a metamorfose de nosso final, para aprender que depois dessa tempestade horrível, o dia amanheceu lindo, sol com poucas nuvens, eu achei que não iria sobreviver, mas você se foi, e eu ainda estou aqui, sobrevivi e agora é hora de recomeçar.

 

E depois de uma longa caminhada em uma única direção, ficamos acomodados com o sabor da velha rotina, e buscar novos horizontes muitas vezes não é tão fácil, eu até queria ter alguém para dividir muito mais que uma noite, um alguém novo, um alguém que não visse apenas meu rosto maquiado, um cabelo perfeitamente cortado e minha pele exalando o mais cobiçado dos cheiros. Mas depois passei a ter que conviver com minha sombra que male má encarava o espelho, tinha medo de dormir por não ter mais quem me fizesse companhia nos dias de chuva e tempestade, emagreci alguns quilos e adquiri uma anemia por não me importar mais em comer apenas restos de batata fritas ou pães amanhecido.

captura-de-tela-2016-03-18-acc80s-23-14-38

Passei a ir para o emprego apenas pela estabilidade do salário, perdi a vontade de estar em lugares que sempre amei, pelo medo de te encontrar por lá em novos programas que era apenas meu e seu ao lado de um outro alguém. Fiquei presa no casulo dá separação emaranhada por dor, solidão, e descaso, até o dia que parei de ser vítima e decidi ser a protagonista da porra que tinha se transformado a minha vida.

Resultado? Descobri melhor companhia e no momento que passei a me conhecer verdadeiramente, não foi mais qualquer prazer barato que me atraiu, e nem qualquer boca que me apetece, finais de semana em casa passaram a ser divertidos, aprendi a achar minha risada engraçada e definitivamente aposentei minhas lágrimas.

Hoje ao me olhar no espelho eu sempre espero mais de mim mesma, e mesmo que tudo esteja vazio lá fora, aqui dentro eu jamais permitirei que seque a alegria e principalmente a vontade de viver, não fico mais registrando lamúrias em meu diário, esqueci ele no criado mundo em algum canto da minha casa, agora registro momentos e lugares, passei a sair sem cronograma e sem destino certo, e todos os dias na hora de voltar para casa, eu descubro no final da noite que estar em minha própria companhia é satisfação garantida, e isso tem me bastado. Sobre você? Alguém que teve a oportunidade de ao meu lado estar, mas preferiu virar passado.

re

Não te amo, mas meus sentimentos estão atrelados em você

Ignoro os motivos que me trouxeram as voltas com esse diário; ignoro, há muito, os sentimentos que me motivam a relatar as experiências de minha vida ― se bem que já nem sei mais se vivo; acho que apenas existo, como os seres rasos da terra. Ontem, voltando pra casa, passei pelo jardim do seu Baldo e confesso que não reparei em uma pétala sequer. Não seria capaz de dizer se as rosas eram vermelhas ou brancas, sei apenas que são rosas… Ouvi dizer que são bonitas, que têm cores altivas e graciosas, mas já não reparo nelas.

captura-de-tela-2016-03-18-acc80s-23-14-38

Poderia dizer que a culpa é sua, que o frio que hoje habita meu peito é resultado do seu total desinteresse pelo meu amor e pelo meu calor. No entanto, prefiro pensar que você me procura, inconscientemente, dentro de si mesmo. Como não vê nada além de vazio e desespero, tenta me encontrar em outros abraços, outro cheiro, outro toque, outra risada… Não encontrará nos outros ― e você sabe muito bem disso ― nada do que fui para nós. Aquela mulher que fui outrora não existe mais; ela morreu ― sim! Morreu e não se assuste com o termo ― depois que me jogaste aqui em baixo, nesse vale seco e incolor que é o abandono.

Se você soubesse como estão amareladas as folhas desse diariozinho… Digo isso porque as folhas do seu tempo eram brancas e transmitiam a paz absoluta e um silêncio contemplativo que fazia o peito retinir com emoção. Hoje, tudo que tenho são folhas amareladas, lembranças mal apagadas e histórias sem final. Lembra-se dos meus poemas? Dos quais muitos dediquei a você? Estão todos aqui e, ironicamente, como nós dois (ou pelo menos como eu) acabados, finalizados, com último verso e um ponto final que encerra um sentimento. Pena que, para mim, o nosso poema não tem ponto final, mas reticências. Mas e os novos poemas? Você deve estar se perguntando. Esses também estão como uma parte de mim: por fazer, como um terreno que aguarda a obra, mas não há engenheiros, serventes, pedreiros, só o lugar vazio, esperando para ser preenchido e, enquanto não ocorre, se deteriora e é tomado pelo mato seco e duro que nasceu regado pelas minhas lágrimas salubres.

O que me entristece não é a saudade, não são as lembranças, nem os momentos juntos. O que acaba comigo é o vazio. Sim, o vazio! Creia ― e digo do fundo do coração ― escrever estas linhas não dói! Compreendeu? Não dói! E é isso que me assunta! Transformou-me num ser oco, opaco e incapaz de produzir qualquer sentimento, entre eles o maior e mais completo, o amor. Que arrancasse tudo de mim, mas não o amor! Sinto como se fosse forte como a morte, mas meu calcanhar de Aquiles é você. É como se a conjugação do verbo amar começasse com “você me ama”… Repito, não dói! Não dói. Lembre-se disso: não dói.

Foram inúmeras as vezes em que me tranquei no quarto e estudei, comigo mesma, que diabos é esse tal de amor. Sei que amo, amo mais que muita gente por aí, mas onde está esse amor agora? Onde está minha capacidade de ver as coisas? Você e seu sorrido desgraçado roubaram meus sentidos. Não enxergo, não ouço e não sinto nada sem você! Devolva-me o prazer das coisas simples, é o que lhe rogo, de joelhos, se preciso for. Que fique com quem quiser, que transe quantas achar necessário, mas traga-me de volta.

Arrepio a espinha só de pensar nas mazelas e moléstias que já lhe desejei. Se não morreu ainda, meu caro, é por pura sorte ou capricho de apaixonado, pois as pragas que lhe roguei… as pragas que lhe roguei… Está vendo? Olha o monstro que você criou! Eu, que nunca desejei mal a uma mosca sequer, desejo seu tumulo, sua cabeça decepada. Já amei outros, é verdade, mas nenhum deles levou de mim o que você levou. Não me fez nenhum mal, confesso, mas sua personalidade, seu jeito de me olhar e suas carícias aos domingos, me deixaram presa a você. Pena que nunca quis me levar para onde quer que você fosse. Sente meu peso em suas costas? Acho que não, mas mesmo assim, queria perguntar.

É madrugada, a chuva cai e eu preciso apenas de um afago seu, no meu pescoço, como só você sabe fazer, para dormir e me embrulhar na chuva. Gosto do som da água tocando o telhado, o chão e as folhas e os trecos do quintal… Era mais bonito quando você fazia prestar atenção nessas coisas e ― Deus, como eu sou boba! ― não entendia nada, mas mesmo assim sorria. Uma experiência pra vida! Por último, saiba que já esqueci e não te amo. Se um dia alguém ler esse diário, saibam que é a ele ― cujo nome não pronuncio mais ― o responsável pela minha apatia sentimental. Peçam-no que devolva meus sentidos.

flavio