Achei que seria para sempre

Sempre que idealizei você era algo duradouro e eterno. Sei lá, pequeno, me contaram que amor assim não morre nunca, sabe como? Quando fechava meus olhos castanhos e imaginava esse futuro, era algo longo e para sempre. Até assustava, sabe? Assolava um pouco e ainda causa uma pequena ansiedade boba, como se eu entrasse em uma montanha russa e nunca mais pudesse descer. É legal, tem altos e baixos, dá um frio na barriga… mas eternamente. Ao menos, era para ser para sempre.

Tenho a impressão de que a gente se prepara uma vida inteira para encarar isso, mas a bem da verdade é que nunca estamos, de fato, preparados. Acho que é um choque, de todo jeito. De repente você não é mais sozinha, de repente você não é mais só uma, de repente você se torna responsável por dois. Loucura, não?

E isso deveria ser assim, para sempre. Algo que durasse minha vida inteira, sabe?

Mas com a gente não foi assim. Eu soube que você existiria no instante que você não existia mais. Eu soube que não era sozinha, no momento que fiquei só. Foi uma loucura intensa, sabe? Passa uma história diante dos olhos, passa o futuro e medo. Muito, muito, muito medo. Deu para sentir as pupilas dilatarem e o coração se dividir em dois: metade doía, metade aliviava. Metade sentia muito, metade respirava fundo.

Eu ainda não sei lidar com essas sensações duplas, porque me pareceu errado sentir alívio, ao mesmo tempo que me parece muito humano senti-lo. Mas não posso negar que eu achei que, quando você viesse, seria para sempre. Que a gente formaria um elo bonito e duradouro. Que nunca mais seria sozinha.

Entre um suspiro aliviado e outro, me bate uma saudade dolorida de uma história que não tivemos. Eu vejo seus olhinhos castanhos brilhando, eu escuto a tua risada divertida e sinto tuas mãos passeando pelo meu rosto. Eu sinto amor por todos os poros. Seria eu e você, sempre.

Ao menos eu achei que seria para sempre. Talvez o amor, mesmo louco e desavisado, seja.

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Emoldurada

Lembro como você gostava de fotografias e as fotos mais bonitas que tenho são aquelas que, secretamente, você tirou de mim. Vou te confessar que eu disfarçava bem, mas sempre soube que estava sendo fotografada por esses teus olhos de leão. Ou, vai ver, você quem fingia crer que eu não te absorvia da mesma maneira, e fingia que era segredo todos esses cliques de mim.

É. Eu sei que não estou falando nada com nada, mas é que estou numa urgência tua tão grande que preciso só por para fora tudo de saudade que pulsa do lado de dentro. Eu cutuco a ferida, você sabe. Então, na saudade antiga tua, fui atrás das tuas fotos perfeitas, querendo saber mais dos teus caminhos. Sabe? Saber qual estrada você tem passeado, qual comida tem experimentado. Queria mensurar o tamanho do teu sorriso e saber se ele (a)tinge tua íris.  Das memórias tuas, lembro bem o quanto você gostava de fotografias.

Então foi um bocado frustrante ver que não havia nada novo, sabe? Eu vejo tudo parado na tua volta e fico querendo saber porque você estacionou no tempo. Me deu vontade de te perguntar da vida e talvez seja por isso que eu estou aqui agora, te encarando nos olhos e com uma vontade imensa de te abraçar. Daqueles abraços de urso que só você sabia dar. Sabe?

Mas você não me vê. Você não me nota. Tua retina não me fotografa como antigamente. Vem. Diz que está tudo bem. Põe uma mecha para trás da minha orelha, passa teus dedos nas minhas bochechas e me puxa praqueles beijos demorados e doces. Segura minha cintura um pouco, aperta. Me queira perto. Me encara. Daquele jeito profundo. Me faz perder o ar dentro dos teus olhos.

Eu lembro bem como você gostava de fotografias, e as fotos mais bonitas que tenho são aquelas que, secretamente, você tirou de mim. Mas você não me fotografa mais. E sinto falta das vezes que posei sem saber. Sinto falta das vezes todas que você me emoldurou só pra você.

Quando bate a saudade vou pro mar

Acordei incompleta. Sei lá, algo destoava desse céu azul bonito que amanheceu. Dentro de mim parecia que cairia uma tempestade a qualquer hora. Eu não entendia o vazio que me assolou logo que abri os olhos, eu não entendia a chuva que ameaçava cair, eu não entendia porque o azul do céu parecia ainda mais azul e mais bonito. Eu só não entendia. Tudo. Nada.

Sentei abraçando os joelhos, tateando o celular. Pisquei demoradamente, tentando juntar os pedaços. Talvez esse caos logo cedo seja só pela demora em, de fato, acordar. Talvez minha alma ainda estivesse dormindo. Sei lá, odeio achismos. O que me incomodava era o vazio, era a chuva de dentro e o sol – absurdamente lindo de bonito – lá de fora.

Levantei arrastando os pés. Fiz um café forte e doce, que desceu amargo goela abaixo. Havia algo fora do lugar e custei para entender o que era. Tateei o celular outra vez, abri um jogo para distrair, passei pelo Instagram, conversei com poucas pessoas…

A mensagem pulou na tela. Um alarme. Eu havia esquecido do alarme.

Era de um aplicativo que baixei e tinha esquecido. Eu caí na bobeira de fazer uns cálculos malucos, só pra saber quando. E o quando pulou na tela. Eu fiquei olhando para a data, doze de dezembro de dois mil e dezessete, e sorri enquanto uma lágrima boba riscava meu rosto. Deixei pingar.

Larguei o café e entendi o tom azul do céu. Larguei o celular, e entendi a tempestade. Deixaria chover o dia inteiro, mas a tempestade só ameaçava cair, mas ainda era tímida. Resolvi abraçar o dia, na esperança do meu abraço alcançar lá no alto. Caminhei sem rumo, com o coração no céu. A chuva ainda era mansa no meu rosto confuso.

Passei em frente à uma floricultura. Sei lá, resolvi entrar. Passeei por filas e filas de flores e perfumes, mas lá do fundo, lá no fim, tinha um pedaço de sol que me chamava atenção. Peguei um girassol, paguei por ele e saí. Carreguei aquela flor gigante nas minhas mãos pequenas. Sentei debaixo do sol, sentindo a tempestade de dentro chegar.

Eu sentei na areia da praia. A chuva caía torrencial no meu rosto, meus ombros pesavam. Pulsava uma saudade dolorida e insana. Pulsava tanto amor por cada canto, um amor tão genuíno, tão bonito que doía. Fiz uma prece.

Solucei um grito agudo. O sol brilhou mais forte.

E lancei o girassol no mar.

Estou imune à você

Nesses dias de silêncios muitos e distância maior ainda, não enlouqueço. Sinto como se estivesse anestesiada, imune a você. Penso com frequência, mas é algo tão nas beiradas, tão imaginário que, por uns minutos muitos, a imagem fica nadando entre o real e o abstrato, até que deixo de acreditar e passo a crer que todo o conto de fadas foi mera invenção dessa minha mente doente e imaginativa.

Sorrio, mesmo assim.

Tem um quê de felicidade escondido, sempre presente, mesmo nos dias que a quietude é tanta, mas tanta, que começo a duvidar, de verdade, das coisas vividas, sentidas, tocadas e me amontoo na fragilidade que é te querer, me esqueço uns minutos e forço o pensamento a te encontrar, a te reencontrar, até que você dance fresco na memória, ainda que não saiba se é tudo imaginário, se você foi, realmente, inventado.

Aí começa a tocar uma música no rádio do carro e eu começo a sorrir com chuva nos olhos, cortando a toda velocidade uma estrada que separa a rotina. Uma daquelas músicas que eu não conhecia, mas que passei a ouvir sempre e sempre e toda vida, porque você me apresentou a ela. Ou então, esbarro, ao acaso, em algo que carrega teu nome. Ou passa uma propaganda na tv e eu caio num riso compulsivo de imenso alívio. Ou me lembro do toque. Do gosto. Da intensidade das trocas de olhares. Do som do riso. Do tom das músicas. Do cheiro fresco do bom dia e da cor azul do nosso céu particular e concluo, recheada de alegria, que seria humanamente impossível inventar tudo isso.

Eu decidi matar você para mim

Eu decidi matar você dentro de mim. Foi de uma hora para outra, mas resultado de meses de acúmulos de tristezas e frustrações. Não me pareceu certo ficar me corroendo desse jeito, sabe? Eu alimentava algo que me machucava um tanto. Já disse tantas outras vezes: amar você… dói. E se eu sei que dói, porque me manter tão sadomasoquista assim? Entre um gole de vinho e outro, entre uma foto deletada e outra, eu decidi matar você para mim.

Falando assim, tão cheia de certezas e determinação, parece que foi algo fácil e indolor. Mas a história não é tão cor de rosa quanto parece. Cada memória, cuidadosamente deletada, vinha recheada de sorrisos, de cumplicidade, de segredos trocados e olhares furtivos. Cada memória, cuidadosamente deletada, carregava um punhado de querer bem, de querer perto, de querer mais, de querer de novo. Cada memória, cuidadosamente deletada, trazia uma porção de sensações. E essas, meu caro, foram as mais difíceis de deletar.

Eu gostava das sensações. Eu amava todas as sensações que vinham contigo. O sorriso no rosto quando ouvia teu nome, o frio na barriga quando via você, os tremores – primeiro de timidez, depois de timidez nenhuma. O arrepio. O arrepio que me dava quando você falava meu nome, o arrepio que subia na nuca quando você me beijava as costas, o arrepio que circulava no corpo inteiro quando teus dedos me desenhavam milimetricamente, o arrepio que sucumbia uma chuva de estrelas em lençóis amarrotados.

O arrepio de quando você me aninhava no colo e dizia que tudo ficaria bem. O arrepio quando você me contava da vida e rascunhava futuro para nós dois. O arrepio que carregava um sorriso, só por ter você ali, ao lado, dormindo.

Demorei nesses detalhes cheios de sentidos. Mordi os lábios. Toquei a pele. Respirei fundo. Bebi outro gole de vinho. Sacudi o calafrio para longe e tentei matar, cuidadosamente, cada arrepio. Acho que guardei alguns para mais tarde, escondidos no fundo de alguma gaveta que quase não remexo, numa tentativa fraca de me iludir fortemente, alegando a mim mesma que matei tudo de você que podia…

Até que cheguei na maior parte tua.

Eu a encarava do espelho. Outro gole de vinho, que desceu gelado goela abaixo. Outro arrepio. A sensação era agridoce em meu peito e pele. Os minutos corriam soltos e eu não tirava os olhos da maior – e melhor – parte. Ela sorriu para mim e sustentei o riso.

Não matei essa parte. Pelo contrário, guardei com carinho. Há algo nos olhos dessa que merece ficar. Ela mudou desde a tua chegada, mudou ainda mais com a tua partida… Eu me encarava o espelho, afoita. Sorria.

Eu matei você para mim – e renasci nesse dia.

Não sei lidar

Não sei lidar com ausências e distâncias. Sou boa em camuflar a rotina, mas sempre tem alguma coisa que fica cutucando. Tem dias que cutuca demais e fica impossível ignorar – hoje é um deles.

Eu estou sentada na mesinha do computador, olhando para o parquinho que construíram em frente a minha janela. Ainda pouco tinha um monte de criança brincando de escorregar, sem se importar com o dia de amanhã, sem lamentar que é domingo. Era visível a preocupação no riso infantil: o que vai ter de janta? Será que tem sorvete?  Agora o parquinho está vazio, e não é mais tão bonito como estava ainda pouco. Acho que são as crianças que fazem um brinquedo. Sei lá.

A única luz acesa aqui de casa é um abajur que fiz. Uma garrafa transparente de um vinho rosè que bebi, cheia de luzinhas de led que não piscam. Fiquei frustrada quando liguei e vi que não piscavam, mas agora agradeço o deslize. A luz é branca e fria. Contraste com a escuridão quente desse fim de dia.

Eu estava trabalhando, juntando uma palavra na outra para ver se calava algumas coisas que gritam aqui dentro. Não é nada sério, mas é bom pôr os pensamentos no papel para ter uma noite de sono tranquila. Sonho meu. Dormi a manhã inteira e antevejo uma demora para cair no sono – faz parte. Rotina de todo domingo.

Reli algumas coisas antigas e outras novinhas, recém descobertas. Vi o parque sem riso, o céu querendo chover e o silêncio desse fim de dia. O cutucão veio mais forte, quase me dobrando ao meio.

Eu não sei lidar com ausências e distâncias

Falta espaço

— Hei, garota, me explica uma coisa? Onde foi que te perdi?

— Lembra aquele dia que fui embora? Depois de muita lágrima rolar, de muita palavra escapar, eu saí porta afora e ali, então, já era.

— Lembro disso, claro que lembro. Cada pedaço daquela despedida ainda pulsa na minha retina, sempre que fecho os olhos. Aquela tua partida é minha maior insônia. Mas eu queria saber antes disso. O que te motivou a ir embora?

— Sei lá, boy. Uma montoeira de coisa. Num dia estava tudo bem, n’outro dia eu só estava cansada de mendigar amores, Aí decidi que era dado o momento de cortas os tês e pingar os is e foi exatamente isso que fiz. Expus meu coração inteiro pra você, estendido mal embrulhado num pacote de pão e, nas entrelinhas, naquilo que não disse, estava implorando para que você pegasse meu coração e cuidasse dele como se fosse teu. Porque era. Mas você nada fez, sabe? Ficou inflado num ego maior que a cidade inteira. Então pra mim bastou. Eu peguei o coração amarrotado, botei dentro do peito e saí. Era o melhor que podia fazer. Pelo menos pareceu certo naquela hora.

— Por que naquela hora? Você se arrependeu de ter ido? Sei lá garota, acho que agora gostaria muito de te ouvir dizer que houve um arrependimento bruto de ter partido. Que você me olhasse com aquela ternura nos olhos, cheia de segundas intenções, e dissesse que está tudo bem agora, que a gente ‘tá de novo nesse mundo para somar, não para dividir…

— Vê a merda, garoto? Agora é você quem quer que eu volte, mas você nunca se deu conta de quão doloroso e difícil foi ter partido. Eu parti meu coração em mil pedaços quando engoli o amor próprio. Simplesmente não cabia eu e você no mesmo espaço, porque você é espaçoso demais. Você não sabe, mas quando fechei aquela porta e te deixei parado às minhas costas, eu escorri pelas paredes e chorei naquele corredor pequeno e vazio, com os ouvidos atentos para qualquer sinal possível de que você estava vindo atrás de mim. Os nós dos meus dedos ficaram brancos tamanha força que fazia nos dedos cruzados. Mas só houve um silêncio ensurdecedor. Você não veio atrás de mim, porque teu orgulho sempre foi maior. E aí eu fui embora querendo ficar, porque simplesmente não havia espaço para nós dois e torci para que você chegasse para o lado, dizendo que cabia nós dois e ainda me dói um bom bocado pensar que você não moveu uma vírgula pela gente. E foi aí, exatamente aí, que você me perdeu.

— Mas e agora? Estou aqui, querendo entender como foi que te perdi e querendo arrumar a bagunça toda. Confesso que te odiei por muito tempo, porque você não tinha o direito de ir embora, porque você não deveria ter saído daquela forma, mas com o tempo entendi que você foi porque te perdi e fiquei te procurando um tempão para tentar conversar e resolver o que nem deveria ter estragado..

— Shiu, não diz nada não, boy. Agora eu que inflei demais. E mesmo você implorando, não tem espaço pra você aqui dentro.