A parte que sobrou do nosso todo mostra que a gente precisa começar de novo

O que foi que aconteceu com a gente?

 

Eu não quero ser só mais uma estatística. Não quero ser aquela pessoa que percebe que se perdeu só quando não há mais caminho pra voltar.

 

A gente era um todo, hoje somos só uma parte, mas uma parte do todo. Não dá pra simplesmente dizer que as coisas não são mais como eram, parar no meio do caminho e desistir. Se somos parte, é porque um dia já fomos todo. E isso me dá esperanças pra fazer algo bem raro nas relações de hoje: reconstruir.

 

Só que pra essa nova empreitada eu preciso de cooperação. Preciso de algum tipo de garantia de que, se eu me jogar sem ver, você vai estar lá pra me segurar.

 

Pra reconstruir, é preciso confiança. E você já ameaçou quebrar a minha algumas vezes. Não falo isso com mágoas e ressentimentos. É só pra lembrar que, se for pra gente resgatar com fé tudo aquilo que nos trouxe até aqui, eu preciso do teu comprometimento total. Só assim serei capaz de ficar bem e não me sentir idiota por crer que há saída.

 

Eu não sei se você se lembra, mas a gente criou um mundo só nosso. Tinha muita vida lá dentro. Depois de muito tempo no automático, você me fez sentir vivo de novo.

 

É difícil, pra mim, acreditar que isso seja algo que se possa jogar fora. Não acredito que não há marcas no teu coração como há no meu. Se houvessem dúvidas com relação a isso, minha proposta de reação nem seria uma realidade.

 

Mas, agora, chega de papo. Me dá a mão. Vamos provar pra esse mundo que a gente pode voltar pra onde estava. Que o amor se renova quando a gente se empenha por ele. Que as surpresas podem surgir até das maiores trivialidades.

 

Vem comigo!

 

Vamos provar pro mundo que a gente sabe como fazer pra ser feliz. Do nosso jeito.

 

Aquele jeito que parece esquecido, mas que pode ser encontrado dentro de cada sorriso sincero teu.

 

Cheguei da festa e lembrei o quanto era mais feliz ficando em casa com você

Naquela noite eu senti que podia, enfim, ter te esquecido. Foi por isso que vesti minha melhor camisa, me banhei no meu melhor perfume e ensaiei na frente do espelho o meu melhor sorriso.

Naquela noite, eu queria te esquecer provando o sabor de outras oportunidades.

Os amigos passaram aqui em casa e, quando apaguei a luz e tranquei a porta, pensei em quanto tempo fazia que eu não saía assim, sozinho, sem saber ao certo qual era a programação. Justamente eu, que tanto amava a rotina, sucumbia à boemia por ter esgotado todas as opções anteriores.

Antes, eu mergulhei no fast food e nas noites viradas vendo séries. Antes, eu ouvi aquele disco que a gente tanto gostava até decorar cada arranjo. Antes, eu chorei até a última lágrima do estoque dos meus olhos para ter certeza que eu tinha batido no fundo do poço e que, agora, só podia subir.

A noite foi agitada. Foram muitas luzes, muita música, muita bebida, alguns sorrisos desconhecidos e uma consistente sensação de alegria artificial. O álcool nos enche de ilusões ainda maiores que aquelas que fabricamos na realidade.

Eu sabia da banalidade de tudo que estava vivendo naquelas horas.

Eu sabia que toda aquela gente em roupas de marca e rindo muito de piadas sem graça provavelmente estava tão infeliz quanto eu. Se eu perguntasse, eu sei que negariam até o fim. Ninguém quer assumir o próprio infortúnio.

Ainda assim, eu consegui deixar a música, a bebida e algumas promessas precipitadas de amor eterno me preencherem por alguns minutos. Em um ato inédito, consegui me concentrar mais no que estava fazendo e menos no que me esperava lá fora.

O sorriso que era forçado começou a ser natural, a música que era ruim passou a ser boa, um eu que eu não conhecia parecia estar despertando.

Perto das seis da manhã, voltei para casa como um adolescente depois da primeira festa. Parecia que me renovava a cada passo que dava. Rejuvenescia cinco anos a cada degrau vencido. Retomava o controle a cada volta no trinco da porta.

Bastou entrar para tudo voltar ao normal.
As luzes da noite não substituíam o farol que vinha dos teus olhos. A roupa cara com bebidas importadas não substituía o moletom surrado com a panela de brigadeiro.

Acima de tudo, nenhum outro abraço chegava aos pés do teu.

Não adiantava submeter meu corpo às batidas da música eletrônica se, antes, um único olhar transformava meu coração em pedal duplo de heavy metal.

Vale a pena arriscar? E se eu me machucar de novo?

As memórias tristes são tantas que suplantam com facilidade toda e qualquer alegria que eu tenha sentido naquele tempo. Com você, eu conheci o amor nas mais variadas faces possíveis.

Fui perdidamente apaixonado, larguei tudo pra te ver, parcelei em trinta vezes aquele presente que fez teus olhos brilharem. E foi lindo. Valeu cada parcela.

Pena que a vida tenha resolvido me cobrar juros tão abusivos.

As coisas mudaram.

Tua presença virou ausência e a solicitude virou solidão.

Eu podia te ver cada vez mais longe, mas tentava me apegar a tudo que me puxava pra perto.

Não adiantava eu chegar mais perto se você continuava se afastando. Minhas pernas cansaram e a distância aumentou.

Quem foge tem mais força nas pernas.

Talvez o medo injete mais adrenalina do que a esperança.

E, nessa corrida, uma a uma, as ilusões foram se mostrando.

Eu te perdi e sofri feito um louco. Pensei em nós todos os dias. Foi uma ofensiva sem piedade do meu eu lírico contra o meu eu da vida real.

Quando acaba o poema, é só a vida real que sobra.

Agora, ela apareceu.

Tão incrível quanto você nos primeiros tempos, só que agora há uma diferença em mim: não consigo mais me entregar como me entreguei antes. Sabe a pulga atrás da orelha? O pé atrás? Parecem ser meus melhores amigos.

Ainda bem que tenho outros melhores amigos que me ajudaram a entender que eu mereço ser feliz de novo. Ou melhor, feliz de verdade.
Me disseram que não adianta eu fugir do sentimento. Não adianta eu fugir da vida. Não escolher já é uma escolha.

Sempre que me pergunto se vale a pena arriscar, sempre que penso que posso me machucar outra vez, meu eu lírico assume a primeira pessoa para ser minha voz de comando.

Sempre vale a pena arriscar de novo pra ser feliz.

Se eu me machucar de novo, eu me curo, igual fiz com você.

Medo mesmo eu tenho que ter de não viver e não saber como terminam histórias que eu não deixo começar.

A moça escondida atrás da neblina

Melhor ao som de “Café”, A Máquina e o Homem

 

O dia ia ser cheio de reuniões complicadas com gente chata. O trabalho não ia bem, aliás. Já tinha consciência formada de que precisava sair do emprego, mas não podia. Os boletos chegariam e eu precisava ser responsável. Eu não era mais nenhuma criança para cometer imprudências.

Minhas noites eram vazias. Já não estava na idade virar a madrugada e ir trabalhar direto. Os trinta se aproximavam e a energia se esvaía com rapidez. Eu chegava do trabalho, via mais meia dúzia de notícias tensas e ia dormir.

Eu tive um único amor, sabe? Daqueles de verdade, de tremer as pernas e o coração cada vez que meus olhos encontravam os dela.

Naquela manhã, eu entrei apressado na padaria e pedi café e qualquer lanche. Abri o jornal na página de economia e comecei a arrancar os cabelos. O café chegou e eu sequer olhei para a garçonete para agradecer.

Exausto antes mesmo de começar a jornada, levantei a cabeça e passei as mãos nos olhos como quem desiste quando vê o tamanho real de um problema.

Foi o momento que a vida escolheu pra me presentear com o que ela faz de melhor. O inesperado.

Um vento quente de verão tomava o ambiente e balançava as cortinas. Na dança dos tecidos, a bailarina mais improvável apareceu.

A neblina que saía da xícara encontrava a minha visão turva e incrédula.

Oito anos depois.

Ainda mais bonita.

A dona dos meus pensamentos, aquela que eu prometi a mim mesmo que nunca perderia. Os anos tinham passado, é verdade, mas ela continuava linda como sempre. Eu é que tinha mudado. As rugas de preocupação acumuladas só com coisas que não importavam tinham me transformado num jovem senhor.

Meu celular começou a tocar desesperadamente. Clientes queriam saber como eu contornaria mais um problema, mas nada mais importava.

Minhas pernas ganharam vida própria e quando percebi, minha xícara e eu já estávamos perto dela.

Ela levantou os olhos do jornal assustada, mas o susto virou ternura.

Ambos estávamos diante de um pedaço distante do passado.

Eu movido pela saudade.

Ela pela nostalgia.

Pedi licença para sentar. Balbuciei palavras desconexas que intencionavam um pedido de perdão que ela não entendeu.

Foi ela que, com um abraço, disse tudo o que precisava ser dito.

Por que a pressa, moça?

Por que a pressa?

Tente lembrar que antes de qualquer coisa existe o agora.  Eu sei o quanto é importante pra você pensar no futuro, nas coisas que podem acontecer. Eu sei o quanto você pensa em organizar e antecipar tudo o que for possível.  Mas ao se concentrar tanto nisso, você nem percebe que eu estou aqui há horas pedindo silenciosamente um abraço. Antes de pensar na burocracia, pense na beleza do amor. Na simplicidade que transforma o andar de mãos dadas em um momento espetacular.

Será que consegue pensar que os dias não vão voltar? Esse instante, único e tudo o que temos, é um instante no tempo. Eu sei que a ânsia de ver as coisas acontecerem te corrói de uma maneira destruidora. Eu te entendo. Eu sei que é desesperador pensar em tantos sonhos, em tantas conquistas e às vezes não ver meio e nem saída para nada.

Só que mesmo te entendendo, eu tô aqui pra te lembrar que para o amanhã chegar, seus passos de hoje precisam ser certeiros e isso inclui o coração. Eu tô aqui! Não falei nada até agora, mas tô aqui! Não preciso de muito. Teu abraço, teu riso fácil, são detalhes que sem me encher, me preenchem por inteiro.

 

Eu sei o quanto você deseja crescer. Eu sei que tá numa vibe acelerada, mas não esquece de acertar o passo, tá? Não esquece que a pressa sempre foi inimiga da perfeição. Tá, eu sei que você nunca almejou perfeição, mas quando se trata do coração, ah, meu bem, não vai adiantar buscar segredos. Na verdade, com o tempo você vai perceber que correu um pouco em vão. Sei lá, com o tempo a gente começa a perceber que o relógio não é nosso inimigo. Podemos usá-lo a nosso favor.

Por que a pressa? Usa o tempo a teu favor, menina. Sem medo. Não apavora teu coração. Não se esvazie tanto assim. Eu tô aqui pra te lembrar que amar, assim como viver, não tem segredo.

Canaliza toda essa pressa no único objetivo em que ela cabe: amar.

Amar é urgente. Amar é pra hoje. Não dá pra esperar.

Amar é o segredo de viver sóbrio em um mundo bêbado.

Eu me prendi ao nosso passado

Tanto reclamei do nosso presente…

Quando ainda éramos nós, eu te cobrei muito. Cobrei presença, cobrei postura, cobrei atitudes que descobri no fim que não te cabiam.

Essa minha mania de cobrar perfeição de quem está ao meu redor me fez te perder.

E depois que te perdi, percebi o quanto te amava.

Sadismo da vida. É sempre assim. É preciso ver alguém pelas costas pra saber o quanto valia ter o olhar no olhar.

Meu castigo é ainda maior do que tu poderias imaginar. Enquanto tu viras a página com firmeza, eu fico preso ao nosso passado, como alguém que lê dez vezes a mesma página e não consegue entender.

Enquanto tu vestes uma nova história feliz, eu sigo trôpego e maltrapilho com os trajes que me fazem lembrar de ti.

Enquanto tu guardas com carinho as belezas da nossa relação, eu preparo teu prato preferido na lamentável tentativa de diminuir a tua falta. Um jantar solitário que suplica por companhia.

Tudo em vão.

Enquanto tu vives de realidade, eu vivo de lembranças. E talvez seja essa a pior das condições. Uma lembrança nunca será real. Estou preso a situações que já se foram junto contigo.

O sorriso amarelo que tu me entregas na fila do supermercado é uma míngua do que já tive. É um lembrete firme e doloroso de que, de tudo, só sobrou isso.

Um sorriso amarelo da boca de quem podia dizer tudo sobre mim.

Eu era a pessoa mais próxima de ti. Agora sou um estranho.

Tu eras uma pessoa estranha pra mim. Agora, nunca senti tanta vontade de estar próximo.

Minhas contradições te enlouqueceram, as paranoias te afastaram, a instabilidade te levou ao limite. Eu sei.

Termino meu relato desejando do fundo do meu coração que seja feliz como um dia me fez sem que eu percebesse. Na dor, eu consegui enxergar tudo.

Ao fazer votos de felicidade, peço apenas que, por um instante, retribua o desejo com um simples pensamento a meu respeito:

“- Tomara que ele consiga seguir em frente.”

Não te peço orações nem compaixão.

Peço apenas que peça por aquilo que eu já cansei de clamar.

Peça a um amigo para que te defina

Temos a mania enxergar somente o pior de nós mesmos. É muito fácil enaltecer o que temos de ruim e pensarmos que nossa contribuição para o mundo é nula.
O egocentrismo é um mal terrível. Não se discute. Mas o outro extremo é tão maléfico quanto.
A intolerância severa consigo mesmo é uma crueldade desmedida.
Cobrar-se demais parece uma exigência do mundo de hoje.
A sociedade gosta de ver quem se leva ao limite da alta performance pessoal, não importa quanto isso custe.
São milhares de coachs dizendo para você enlouquecer trabalhando enquanto os outros descansam, porque isso é o que te levará ao sucesso esperado. Mas como alguém pode dizer o que representa o sucesso para você?
Esse texto não é uma demonização da disciplina e da determinação. Pelo contrário. Só proponho que se pense que, talvez, o coração seja ainda a melhor bússola para a realização.
O desgaste só vale a pena quando você tem certeza de que é isso que quer alcançar.
Pare de olhar para os métodos dos outros e crie o seu próprio.
Se nenhuma das minhas frases fizer sentido pra você, não as siga também. É apenas o meu jeito de pensar. Ele pode contribuir ou não para aquilo que você acredita. Autenticidade vale muito para ser fiel a si mesmo.
Contudo, se a sua insegurança é grande ao ponto de não acreditar que é capaz de algo, peça a um amigo para que te defina.
Eles geralmente nos veem em nossa versão real.
Já nós mesmos abraçamos a irrealidade nas noites de insônia, nos pensamentos catastróficos, no autoflagelamento de quem não admite errar.
Amigos são capazes de nos ver por fora e por dentro. São capazes de detectar nossos mais ínfimos e íntimos detalhes. Leem as entrelinhas de nosso ser.
Nos vemos com olhar de exatas. Nossos amigos nos veem com olhar de humanas.
Nos vemos pela pontualidade. Nossos amigos nos veem pela complexidade.
Nos vemos por nossos demônios. Nossos amigos nos veem por nossas verdades.
Peça a um amigo para que te defina. Faça o mesmo por ele.
Isso é uma pequena contribuição para um mundo de almas mais leves.
Aprenda a se orgulhar disso.