Pelo direito de se sentir feliz sozinho

Só quem já viveu a liberdade de poder levar a vida sem precisar encarar a coisa toda como uma busca vai saber do que eu vou falar nas linhas a seguir. A gente sempre busca alguma coisa o tempo todo na vida. Principalmente quando a gente se vê sozinho, à deriva, sem ninguém pra dividir o brownie com sorvete no fim de semana. Como se viver sozinho fosse uma espécie de padrão inaceitável em uma sociedade em que qualquer coisa diferente do que uma vida compartilhada a dois é errado. Como se histórias de amores dignas de roteiros com bilheterias milionárias fossem fundamentais para nos fazer felizes. Mas por quê?

Por um tempo eu também pensei assim. Os amores que eu desenhava e redesenhava na minha mente, com histórias baseadas em pessoas que eu vi uma ou outra vez na vida, eram o centro total da minha atenção. Nossos amores sempre merecerão nossas prioridades, sempre serão nosso ponto linear em uma linha cheia de ramificações, por mais que eles vivam somente dentro da nossa cabeça – não é porque os desenhamos dentro da gente que não são reais. Mas a gente também é importante no processo todo. A gente também precisa se encaixar em um futuro ideal, não só uns rostos aleatórios com histórias alheias que a gente encontra na rua. A gente precisa enxergar a si mesmo dentro da gente pra poder enxergar um universo inteiro lá fora.

Estou em uma fase da minha vida em que meus amores são desenhados e redesenhados todos os dias, e nem sempre envolvem rostos alheios com os quais eu esbarro no vagão do metrô. Desenho amores em uma balada de fim de semana, sem laços inteiros trocados porque ambos estamos ali pra isso: pra viver algo bacana que faça bem pra gente mesmo; pra dividir um momento que não precisa durar pra sempre, precisa durar por agora. Porque amores não precisam necessariamente ser levados adiantes. Engano nosso achar que todas as pessoas que passam pela nossa vida merecem dividir o mundo com a gente no futuro. Às vezes a gente precisa se dar conta de que viver uma vida sem mensagens melosas de bom dia e boa noite também é uma maneira de ser feliz.

Hoje eu me sinto bem comigo mesmo. Sou feliz pra cacete vivendo sozinho. E isso não quer dizer que eu rejeito amores pra não sair da inércia. Pelo contrário, eu até espero por isso. Mas é exatamente isso o que eu faço, eu espero o estalo da ficha caindo e me mostrando que pronto, me apaixonei – não corro atrás de uma história pra rabiscar nas paredes do quarto. Porque o amor ainda é o centro das atenções da minha vida, eu fico mexido pra caramba quando encontro alguém que passou pela minha vida e dividiu aquele mesmo brownie com sorvete uma vez ou outra. E isso não me faz mais feliz ou mais triste que os outros. Me faz um alguém normal, que sabe que, por mais que a gente sempre precise de alguém pra dividir a coisa toda, o abrigo de verdade vive dentro da gente. E todo mundo tem esse direito ou deveria experimentar esse sentimento uma vez na vida: ser feliz sozinho.

Faz a gente mergulhar na gente; faz a gente se apaixonar por nós mesmos. É libertador pra cacete.

julio

Eu não escuto os mais velhos

Eu demorei dezoito anos pra chegar nos meus dezoito anos e perceber uma barbaridade de coisas que nunca fizeram muito sentido pra mim. E eu não amadureci com isso. Pelo menos não com a virada da idade. Eu só senti a ficha caindo. Só ouvi o estalo do metal batendo no solo me fazendo perceber o quanto as coisas que eu pensava antes faziam sentido. Porque foda-se se eu tenho dezoito, vinte e cinco ou setenta e nove anos, eu tenho que acreditar nas coisas que eu percebo, nas coisas que eu sinto, nas coisas que eu vivi até aqui.

Não, eu não dou ouvidos aos mais velhos. Pelo menos não sempre. Arrogância? Não. Visão de mundo, meu caro. O que uma pessoa de dezoito anos tem a dizer sobre os seus dezoito anos e o que uma pessoa de cinquenta e cinco tem a dizer sobre os seus dezoito anos? Um monte de coisas diferentes, né não? Porque o mundo mudou pra cacete, a nossa forma de conviver com o mundo é completamente diferente da geração anterior. Meu pai viu o mundo de um jeito, eu vejo de outro. Isso faz da minha geração melhor ou pior do que a dele? Não.

“Ah, mas antigamente era bem melhor, não tinha essa coisa toda da tecnologia, a gente vivia de verdade”. Fala isso pra um casal que namora a distância e usa da tecnologia pra se ver perto, ou pra alguém que ganha a vida despejando umas palavras nos teclados por aí. Se isso aproxima o mundo, cara, deixa aproximar. Se isso torna a gente mais vulnerável, deixa tornar. A gente tem que aprender a lidar com as ferramentas que tem. A gente tem que arrumar um jeito de a coisa toda fazer bem pra gente, caso contrário vamos precisar ouvir pra sempre o discurso de que a que a nossa geração vive numa zona de conforto, de que tem tudo em mãos e não tem nada.

Calma, queimei um neurônio aqui. E olha que eu só tava tentando explicar que idade não faz da gente maior, melhor ou mais inteligente que os outros. Ou que maneiras diferentes de encarar o mundo fazem gerações certas ou erradas. Talvez a coisa toda não faça muito sentido pra você, afinal, nossas visões de mundo são diferentes, cara. E ainda assim não sigo o conselho dos mais velhos. E falo com estranhos, pasmem – eu converso com estranhos. Isso já não é mais errado desde que eu tinha meus doze anos e aprendi a analisar as pessoas. Meus pais foram estranhos um para o outro um dia, todo mundo é. Porque a vida é feita de encontros, meu caro, e esse aqui é um teu com as coisas que eu penso.

Talvez essas coisas todas não fazem muito sentido pra você, mas tem nexo pra caramba dentro da minha cabeça. E lá se vai mais um dia em que eu acho que passei a entender um pouco mais do mundo. Bobagem, cara. Mas ainda assim nem sempre dou ouvidos aos mais velhos. Dou pro meu coração, bem mais surrado e judiado do que eles. Porque ele tá assim pelas coisas que ele viu e sentiu, não pelo tempo. Porque tempo é nada, olha só: eu demorei dezoito anos pra chegar nos meus dezoitos anos e quando isso finalmente aconteceu, um tempo atrás, minha vida mudou em nada. Só caiu a ficha de que a gente precisa acreditar mais na gente e seguir o nosso coração. Não o que pensam os outros.

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Dor nenhuma serve para justificar amor

A gente tem uma mania subconsciente um pouco paradigmática de que, se a gente não sofre com a despedida, com a partida, não foi amor. Como se a dor, o peito ardendo em brasa fosse só a confirmação daquilo o que a gente diz ter sentido pelo outro. Mas por quê? Às vezes a pessoa foi incrível, passou pela nossa vida colorindo pouco a pouco as coisas com uma aquarela nova, e a gente facilmente ficaria por elas, mas não ficou. Ou elas não ficaram. Foi a descoberta de um mundo novo, e não é a partida, ou a necessidade do rancor, que vai deixar isso no passado; que vai passar a borracha em uma história magnífica que só fez bem pra gente.

A gente sempre acha mais sensato transformar o outro em algoz, em fantasma ou tormento, pra sofrer por algum motivo com a despedida e encontrar uma maneira de justificar a história toda. Como se a cicatriz fosse mais valiosa que a lembrança em si. O problema é que a gente não percebe que os maiores fantasmas das nossas vidas, os que mais atormentam, os que mais perturbam na hora de dormir, são aqueles que a gente cria, aqueles que a gente molda em volta das pessoas que foram, pra ver se a angústia justifica a partida. É que é complicado aceitar que a gente deu certo, mas não ficou junto. É complicado aceitar e entender que às vezes a gente gostou de verdade da pessoa, mas não encontrou motivo nenhum pra sofrer por ela.

Claro que existem angústias inevitáveis. Na maioria das vezes a gente vai sofrer com a despedida, vai sentir o nó trancando a garganta. As pessoas ferem a gente, e não temos como escapar disso. Mas, geralmente é a gente quem decide como vai lidar com pessoa depois da despedida. Então a gente vai vivendo nessa autossabotagem, nessa coisa de tentar encontrar repulsa em algum lugar, de vasculhar nas caixas do sótão a procura de algum motivo que justifique o martírio. Às vezes essa procura, essa angústia por não sentir nada, dói mais que a despedida em si. Essa coisa de se apegar mais ao fim do que ao início e ao meio da história toda, porque talvez ela não devesse ter acabado, faz a gente sofrer mais do que a ausência da pessoa em si.

Às vezes a gente precisa aceitar que a gente sente falta da pessoa, sente a ausência na hora de dormir quando o celular fica mudo esperando um boa noite que não vem, e que ainda assim não dói. Porque no fim das contas, a gente é quem decide em que canto do nosso passado vamos encaixar a pessoa depois da despedida; é a gente quem transforma a pessoa em fantasma ou em lembrança boa. E a dor, bom, a dor não serve pra justificar nada, não serve pra provar que a gente amou de verdade alguém.

A história toda foi incrível, a pessoa apresentou pra gente um mundo novo em uma aquarela com mais cor, mas a gente não ficou. Ou a pessoa não ficou. E essa história e essa descoberta, mesmo que depois do fim, talvez seja só mais um motivo pra gente se pegar agradecendo por ter esbarrado com alguém que vai ser levado pra sempre como lembrança boa, e não como fantasma. Porque geralmente, apesar de não parecer, a escolha é nossa.

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Antes de você ir embora

Talvez seja mais sensato escrever isso tudo agora, enquanto você ainda tá com um pé aqui – por mais que o outro já esteja em outro sonho -, do que quando você partir e restar só essa saudade bacana de quando a gente nega a parte feia e lembra da pessoa só com aquilo o que faz bem. Talvez seja melhor escrever isso tudo agora, porque talvez você encontre entre uma vírgula e outra um motivo pra ficar; talvez você encontre, em algum lugar escondido entre Mercúrio e Plutão, alguma justificativa pra manter os dois pés aqui, e ainda assim estar bem firme caminhando num sonho.

Te escrevo isso porque acho que você merece saber que a única lembrança que eu pretendo guardar de você é da parte em que eu te amei. Vai arder um pouco nos primeiros meses e eu vou negar a sua existência na frente do espelho todas as manhãs durante um tempo, até que vai chegar o dia em que eu vou acordar e você vai ter passado. A verdade é que a gente escolhe como vai se lembrar da pessoa depois da despedida. Rancor? Nah, seria negar toda a nossa parte bonita –  por que em meio a toda a parte torta a gente teve uma afeição bacana, não teve? Seria negar os sorrisos e os abraços dados no sofá com os pés pra fora da borda e a gente pra fora do mundo, como se vivêssemos em um universo paralelo que fosse só nosso.

Mas apesar desse discurso bacana de quem aceita a despedida como se fosse uma coisa natural, como se premeditasse a coisa toda, eu escrevo isso pra ver se você encontra um motivo pra ficar. Talvez você encontre ao se lembrar do encaixe do nosso abraço, do encaixe dos nossos dedos enquanto a gente levava a vida em passos meios tortos por cismar em não desatar a gente. Ao se lembrar do som da minha respiração ofegante enquanto beijava o teu pescoço. Da maneira com que eu te olhava no meio da multidão toda; a maneira com que eu te devorava com os olhos, negando a existência das pessoas todas em volta, enquanto você me contava sobre os detalhes de nós dois no meio daquele café movimentado. Ou talvez você encontre quando perceber que quando a gente se conheceu a gente era jovem demais e carregava aquela mania estranha de coração adolescente, que nega tudo o que sente, e que agora a gente cresceu.

É que eu ainda acredito que a gente pode dar certo de alguma maneira na vida um do outro, independentemente da distância que nos separa – e não importa se são cinquenta quilômetros ou o sistema solar inteiro. E por isso, eu pararia por você. Pararia e te mostraria que esse meio jeito meio bobo meio tolo de avisar quando chegou em casa, de não ter vergonha de dizer que se preocupa e de não ligar pro orgulho, é o jeito certo. Pararia e te mostraria que não importa se você mora na esquina da minha casa ou se eu preciso atravessar o mundo inteiro pra te encontrar – mesmo que você já esboce um adeus.

Tô te escrevendo isso pra ver se você encontra – em algum lugar entre Mercúrio e Plutão – um motivo que te faça ficar. E tudo bem se você decidir partir, às vezes a gente precisa aceitar que a gente rabiscou um final feliz e o outro não. Vai ser penoso por um tempo. Vou sentir o peito queimando em brasa e a cicatriz em carne viva; o coração apanhando e se esquecendo de bater. Vou negar a sua existência todas as manhãs até o dia em que você vai passar. E quando isso acontecer, ainda assim vou contar pro mundo inteiro o quanto você foi incrível; vou contar sobre as coisas todas que você fez pra me encontrar. E vou rezar pra você ser tão incrível pra ele, como foi pra mim.

Mas enquanto ainda é tempo e você não foi, fica. Fica e me prova que essa sensação meio boba de que a gente ainda pode dar certo na vida um do outro não é só mais uma daquelas manias adolescentes que a gente carrega pra vida toda.

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Se eu te ligasse

Se eu te ligasse agora e te dissesse sobre as coisas que eu sinto por você, você riria de um jeito bobo pra caramba que eu daria tudo pra atravessar o telefone e atravessar o mundo pra te ver. Mas não adianta, talvez você não atenda. Ou atenda e não entenda, não sei. Por isso eu encaro o teto sem abrir a janela, sem ligar a luz e sem me desligar de você, porque a claridade me cegaria de uma vez por todas e mataria as coisas todas que eu sinto por você.

Morri noite passada. Com três tiros no peito quando você postou uma foto no meio daquele bando de gente, em um lugar abarrotado de pessoas perdidas e de gente que não se entende. Era você quem estava lá mas era a mim que a música ensurdecia e as luzes cegavam. Não sei quando é que você pegou gosto por lugares assim e não me disse. O engraçado é que essa não foi a primeira vez que eu morri por você. Eu morri um pouco quando você saiu por essa porta naquele domingo com um discurso concreto do quanto estar aqui te fazia bem. Só que daquela vez eu morri de um jeito bom, de uma maneira que a única parte dentro de mim que perdeu vida era aquela que me corrompia. E dessa vez as balas mataram um pouco de tudo aqui dentro, meu bem, só não mataram você.

Se você soubesse um pouco do maremoto que você é dentro de mim, talvez você entendesse o quanto o meu mundo ficou revirado quando você apareceu por aqui. E é por isso que eu desconto a angústia na bebida. A gente sempre volta pro vício mais recente quando precisa de fuga. Mas eu não preciso de fuga, eu preciso de você, duplicada na minha frente pra descobrir se pelo menos uma das duas versões decide ficar aqui de uma vez por todas. E enquanto eu olho o mundo de um jeito torto, as pessoas não entendem a adrenalina e a necessidade que eu tenho de ter você aqui. E por isso não me importa se você mora aqui ou eu precise atravessar o oceano pra te ver; não me importa se o teu passado é complicado e deixou feridas expostas, porque o meu também é. Não importa se você vai me dispensar depois do próximo encontro, só me importa que.

Olha bem pra mim. Entende o imediatismo nos meus olhos. Percebe que não tem a tua mão na minha, nem o teu abraço no meu, mas tem esperança. Tem as nossas fotos, as nossas ligações, os recortes de lembranças de nós dois que eu guardo em um porta-retrato nobre em um pedaço mais nobre ainda do meu coração. Do lado daquela frase de Bon Jovi que eu tatuei no peito pra te contar que existem coisas nessa vida que eu só sinto por você.

Se eu te ligasse agora e te dissesse sobre as coisas que eu sinto por você, você riria de um jeito bobo pra caramba, tenho certeza, mas ainda assim não saberia como reagir quando eu te contasse que morri com três tiros no peito noite passada. Tudo bem, vai chegar um dia em que você vai me matar de vez. Por completo ou só a parte que me corrompe. Ficando aqui pra sempre ou indo embora de uma vez por todas. O problema que é tudo aqui dentro pergunta por você. As pessoas, os retratos, as paredes, o sofá. Mas tudo bem, amanhã ou depois você volta. E não importa se você vai me dispensar depois do próximo encontro, só me importa que se isso tudo já não for mais por amor, que seja por você.

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Como foi teu dia?

(Você pode ouvir ao som de Clausura)


Não foi que nem naquele encontro marcado na praça em que eu quase liguei pra você dizendo que peguei no sono e iria me atrasar. Foi um encontro desses que a gente não marca, que aparecem no nosso caminho e faz a cabeça girar em sentido anti-horário tentando encontrar um sentido pra justificar que talvez seja destino. Destino, sério mesmo? Foi mais eu indo e você voltando. Um oi, tudo bem, vou bem, te cuida. Até mais, meu bem.

Foi na esquina daquela rua movimentada com outra qualquer que eu parei e esperei que você me contasse como tem sido teus dias. É que eu acho linda a maneira com que você leva a vida, o jeito com que a retina dos teus olhos sorri enquanto você fala sobre a família, o como você encara o teu sonho sem olhar pra dificuldades no meio do caminho. Saí dali com uma vontade tão grande de chorar, de desabar, de desmoronar por inteiro, que você não acreditaria se me visse disfarçando enquanto cumprimentava as pessoas na rua tentando demonstrar qualquer gesto de respeito. Eu até tentei explicar pra segunda ou terceira senhora – não lembro bem – que existem coisas na vida que eu só você me causa. Mas foi em vão. Nunca é fácil explicar pros outros sobre as coisas que se passam dentro da gente, e nem foi menos complicado naquele dia em que eu contei pra você.

Tive que abaixar a cabeça com os olhos e o coração pesados por passar por você e me lembrar do que nos trouxe até aqui. É meio que uma lembrança estranha daquela manhã de novembro em que eu te fotografei, que me devora e me acaricia, me encaixa em um paradoxo que eu até tento explicar, mas ainda não aprendi a entender. Pensei em correr de mim e bater na porta da tua casa pra encontrar abrigo. Mas não tinha você. E nem adiantaria gritar o teu nome sílaba por sílaba, porque você não iria ouvir. Eu só queria ir correndo até você pra me alojar outra vez no teu peito. Pra fugir dessa coisa que me preenche e me devora. É que por dentro, meu bem, eu sou pura angústia.

Deito a cabeça no travesseiro e penso que tenho uma festa pra ir e você não está aqui. Qual a graça de ir pra um lugar movimentado se não tem a tua mão pra me guiar no meio da multidão? Sem ter você pra me segurar pela mão e dizer que vai ficar tudo bem? Da última vez as tuas amigas riram baixinho quando eu beijei a tua testa e disse que sentiria tua falta na manhã seguinte. Por uns dias ou pela vida toda, meu bem? Porque ela tá me consumindo, me devorando por dentro, me jogando em um buraco negro que me lembra todas as noites o quanto eu sinto falta de você.

Te conto tudo isso porque cheguei em casa e me bateu uma saudade gigante de você. Tentei explicar praquela senhora o quanto eu te queria bem pra caramba, o quanto eu me sentia feliz por ter você por perto. Mesmo com os traços tortos da tua personalidade. Mesmo com o jeito bobo de olhar pro chão– de uma maneira que me encanta – quando sente medo. Mesmo com essa certeza absoluta de que é melhor abrir mão das tentativas pra não se ferir. Tentei, mas não consegui.

Te encontrei e não foi com hora marcada. Foi mais um esbarrão com oi, tudo bem, vou bem, te cuida.
Mas e aí, meu bem, como foi teu dia?

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Por que a fuga?

(Você pode ouvir ao som de Always)

Desligo a luz, te desejo boa noite – mesmo que em pensamento –  e desabo sobre o travesseiro. Vou dormir com aquele sentimento de que deveria deixar pra lá, parar com isso, esquecer um pouco o martírio ou evitar que tudo imploda dentro de mim mais uma vez. Talvez se eu deixasse pra lá a ferida ardesse menos, entende? Bobagem, porque não tem fuga quando a coisa da qual a gente tenta fugir mora dentro da gente. Acho que é por isso que eu não consigo nem quero te esquecer.

Te desejo bom dia e logo depois passo por você. Talvez você não tenha percebido que eu sempre te desejo em todas as coisas que eu faço. Você abana e sorri e o mundo fica mais bonito nos quinze minutos seguintes, até que passa o efeito de êxtase com morfina que o teu sorriso me traz. É incrível essa tua forma de me ter mesmo sem fazer esforço, mesmo sem fazer nada, sem mover um pé, enquanto eu moveria montanhas pra quebrar essa barreira de nós dois. Já passou pela tua cabeça que é burrice fugir daquilo o que te faz bem?

Se você deixasse de lado esse jeito comedido de viver a vida, esse medo que você tem de se arriscar e se ferir de novo, talvez a gente pudesse ser feliz. É que eu também já me feri bastante, meu bem, já sofri pra caramba e por um monte de gente menos importante que você. Mas o amor é isso, não é? A gente encarar as feridas, encarar qualquer possibilidade de sofrer e encontrar no outro alguma coisa que justifique a entrega, que justifique todos os fracassos anteriores e faz imaginar que talvez a gente não tenha dado certo com ninguém antes, porque o nosso abrigo é aqui.  Eu entendo o teu medo, o teu receio, mas não entendo a fuga, a reclusão. Se trancar daquilo o que faz bem é auto-sabotagem, meu bem.

Talvez dia desses você perca essa mania boba de se trancar do mundo por medo de sofrer. Talvez perceba que entre o oito e o oitenta existem setenta e duas possibilidades de ser feliz. Talvez perceba que essa fuga necessária nem é tão necessária assim, e que eu tô aqui, sou diferente de todos os caras que passaram pela tua vida. Como eu sei disso? Eu não teria passado, teria ficado por você. Ficaria agora se você deixasse, ficaria até o café ficar pronto e ficaria pra sempre. Ficaria até você não me aguentar mais e ai sim eu entenderia a fuga; até arranharia um trecho de Bon Jovi pra te fazer rir e te contar que é pra sempre, até as estrelas não brilharem, os céus explodirem e as palavras não rimarem.

Eu sei que eu preciso aprender a caminhar sozinho, mas se não tiver você, vou caminhar pra onde, entende? Dia desses  você me olha de canto e percebe que se trancar do mundo e fugir de mim  talvez não seja o melhor pra você. Sabe por que, meu bem? Porque como eu te disse, eu sou diferente dos outros caras que passaram pela tua vida. Eu não teria ficado por você. Eu fiquei.

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Estalo

É estranho quando dá o estalo, quando a gente percebe que tem um pouco do outro no livro na cabeceira e nos detalhes enrustidos em cada parte e em cada canto da mobilha, quando os quadros na parede e o desenho do horizonte ganham um significado que não tinham. É estranho porque quando a gente percebe a coisa toda guina, troca de rumo, segue na contra-mão e a gente se dá conta de que tudo o que tá aqui tem um pouco do outro e um pouco da gente, só faltava a gente perceber. E o estranho é bom.

            A gente já se esbarrou e se perdeu tanto, meu bem. Passei tanto por você na rua e pensei tanto em alguém enquanto passava por você que é estranho perceber que esse tempo todo foi prefácio pra esse estalo. E eu passei por tanta coisa enquanto passava por você e percebia nada. Pra mim você sempre foi um alguém por quem eu passei e sorri enquanto a vida virava o rosto pra mim; um alguém por quem eu passei e enxerguei nada uma vida toda; por quem eu passava e não tinha medo nenhum em estampar na minha cara fechada os demônios que eu carregava e insistia varrer pra debaixo do tapete, já que eu não tinha que agradar você, porque você sempre foi um alguém por quem eu passava e suplicava ajuda com olhos, berrava para que me puxasse da realidade e me liberta-se dos demônios todos, mesmo sem sentir nada.

            Talvez as pessoas todas tivessem razão em dizer que eu dava certo com ninguém porque já tinha me encontrado em outro lugar; que eu ladrava em vão porque tudo o que eu precisava passava e esbarrava por mim e eu só precisava levantar a vista e a cabeça pra perceber – é que a gente sempre anda de cabeça baixa pra não ter que encarar o mundo e as pessoas todas quando as coisas não dão certo. Era segunda quando eu te fotografei. Dali então era terça e eu já dormia e acordava com você todos os dias, com os meus pensamentos todos vidrados e com os olhos brilhando que não suplicavam ajuda, mas refletiam um soldado ferido pela guerra sem reação em meio ao milagre. Era quarta e eu me vi livre do martírio, livre das amarras e das correntes que me prendiam aos meus demônios. Era quinta e eu esbarrei com você e te fotografei de novo, pra te registrar e ter um pouco mais de você em mim.

            Noite passada contei pro meu travesseiro sobre essas coisas todas e em como eu demorei pra perceber que eu me perdia tanto até esbarrar o meu olhar com o teu e me perder. Fiquei pensando se era verdade ou era só mais uma coisa bonita dessas que a gente usa pra formar poesia, mas é sim. Se perde em mim ao contrário e se encontra. Me puxa do martírio, me tira pela tangente da realidade e me leva pra outro lugar onde eu perceba que isso tudo – esse estalo e essa coisa que eu sinto – é real, que isso aqui não é mais uma guerra e que eu não preciso mais lutar contra os meus demônios.

            É estranho quando dá o estalo. Mas o estranho é bom. Era sexta e eu vaguei a madrugada procurando por você. Sábado sentei em meio a multidão e o turbilhão pra ver se te encontrava e registrava enquanto te via passar. Foi no domingo que eu te procurei pra te dizer essas coisas todas e pra te dizer o quanto eu sou feliz por me ver livre das amarras. Dali então já era segunda de novo e eu me apaixonei.

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Naufrágio

É estranho ter que encarar o teto e dar de cara com um reflexo nosso, que preenche os olhos e machuca fundo, quando a gente deita a cabeça no travesseiro pra recordar e se punir. É estranho porque arde e o corte parece fundo, por mais que a pele esteja igual, sem marcas e sem rasgo, porque o rombo e a cratera são no coração. E se punir no fim das contas é nada; é nada porque o que fere de verdade, o que faz a pele arrepiar e os músculos todos contraírem é ter que se encarar no teto e no espelho; é ter que encarar um pedaço do outro em tudo o que ficou e permanece nas prateleiras do quarto.

            A gente nunca sabe lidar com um término porque nós nunca sabemos o que vamos sentir. Na maioria das vezes a gente acorda com essa sensação estranha e que preenche, que embrenha e cria raiz no peito, encarando a gente logo na manhã seguinte. Tem vezes que a gente sente nada e o vazio e o silêncio que ficam até nos parecem bom, agrada a vista e o ouvido, mas até quando? A gente pode até passar por um período de enganação, de encarar o espelho e encontrar um sorriso amarelo que nos basta, até que chega uma hora em que deitar a cabeça no travesseiro e encarar o teto se torna inevitável. E os olhos e a vista embaçam de qualquer forma, com a luz acesa ou apagada, porque a sensação que fica é de que a pupila secou mesmo estando cada segundo mais molhada, enquanto a gente desaba e desagua no mar, pra aumentar o naufrágio.

            A gente desaba porque sempre que alguém vai embora uma parte fica. Fica nos detalhes e nos porta-retratos na cabeceira; fica no silêncio que consome a alma e grita ecoando no ouvido porque a casa tá vazia; fica no outro lado da cama que tá vazio e só restou o lençol amassado refletindo isso o que tenho sido: um alguém amassado, debilitado por acordar todo dia e dar de cara consigo mesmo, de frente pro espelho encarando a perda e desistindo de se autopunir porque vai ser nada. O que dói de verdade é ver o outro partir em uma embarcação em que a gente tinha tudo pra ser capitão – da farda as qualidades necessárias pra embarcar na viagem e encarar o mar juntos, mas não foi porque ficou assistindo tudo da orla.

            É assim que eu tenho me sentido desde que você embarcou e eu fiquei, meu bem. É assim porque a covardia que eu sinto é a mesma de um capitão que abandona o navio com medo de naufragar – e eu você tínhamos tudo pra aguentar as ondas e as tempestades. É assim porque eu tenho encarado o teto, o espelho e um pouco de você que ficou nas prateleiras pra me fazer lembrar, enquanto você fazia as malas e partia com tudo aquilo o que eu preciso.

            A verdade é que autopunição é nada porque o que dói de verdade é ter que encarar o próprio reflexo no teto – porque quando a gente se sente assim, tudo reflete aquilo que machuca e a gente quer esquecer. Queria vestir a farda, meu bem, ser capitão e encarar no horizonte o pôr do sol e o mar com você, mas é tarde. Fica um pouco de você em tudo aquilo o que ficou e o silencio que é voraz. Me encaro no teto e percebo que na maioria das vezes a gente naufraga por medo de navegar.

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Percebe

Percebe alguma coisa em mim, meu bem. No jeito com que eu seguro a xícara quente com as duas mãos ou na maneira com que eu tremo a perna e o corpo todo quando eu tô do teu lado. Percebe alguma coisa que te faça se esquecer das outras coisas todas e te faça enxergar nos outros nada; alguma coisa que vire o teu mundo do avesso e que te desnorteie no meio da curva; que te tire da rota e que te faça ter vontade de se perder no mar. Vira a cabeça pro lado pra ver se o teu olhar esbarra no meu e você se dá conta de que tudo isso o que eu tenho sido e tenho escrito, isso tudo o que eu tenho feito e tenho sentido, é tudo por você.

            Me tira desse frio e me leva pra passear na orla. De noite a água é mais quente e se você quiser a gente se atira sem medo de naufragar, mas me tira daqui. Me leva desse lugar onde as outras pessoas todas pra mim tem sido nada, porque eu me sinto bobo em encarar você e sorrir quando tem um monte de gente aqui. E eu tento disfarçar, meu bem, mas não dá. E essa coisa toda me angústia porque parece que eu vivo tudo isso sozinho e que pra você eu sou como essas outras pessoas todas, só mais um alguém que esbarra e você e se perde; mais uma dessas pessoas que você olha e sorri, e que me encanta.

            Eu não te disse, mas essa musica de fundo me lembra você. Eu sei que é difícil escutar no meio desse bando de gente, mas é com ela que eu deito toda noite e converso sobre essas coisas todas que você me causa e que é voraz. Encaro a parede, o abajur e a tela do celular enquanto espero por um aviso teu que me diga que o teu mundo ta do avesso desde que você se deu conta que isso tudo o que eu sinto é o que toma conta do teu corpo todo também.

            Percebe em mim alguma coisa que te encanta, alguma coisa que estale na tua cabeça e te faça se dar conta que aqui tem um ombro em que você pode desabar sem julgamentos e um alguém que você pode dividir a dose e o fardo na hora de carregar, quando as outras coisas todas derem errado. Percebe no jeito com que eu vejo as outras pessoas todas passarem enquanto te encaro bobo, ou no jeito com que eu fecho os olhos quando toca essa musica que me faz lembrar você; mas percebe.

Percebe e me tira desse lugar.

Percebe, porque eu já percebi.

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