Mudanças de fim de ano

O fim de ano se aproxima e com isso o bar se movimenta. Cada dia com comemorações de fim de ano é engraçado. É como ver uma retrospectiva de todo o ano em apenas um dia. Há as alegrias dos que confraternizam e as tristezas da rotina da nossa vida.

Hoje em uma mesa há um grupo de empresários, na outra a menina independente – como costumo chamar – e seus companheiros de sempre (a música, um caderninho e um Jack Daniel’s), sentada na mesa de fora e um casal que parece discutir.

“Mais uma barba!” me chama o rapaz do casal, meio invocado, mas com a intimidade de quem vem sempre aqui e sabe que eu não vou errar no pedido. Tão pouco interferir na conversa que a cada momento se agrava. “Aqui está. A senhora deseja alguma coisa?”, perguntei por educação.  “Um novo marido é um bom começo”.

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Fiquei imóvel ao ver ela se levantar e partir. Quase tão estático como a Independente com seu uísque na mão. No mesmo estante os amigos do grupo brindavam ao ano que agora se encerrava e que tinha sido um sucesso, mesmo com todos os problemas.

“Posso fazer algo por você, meu amigo?”, perguntei ao marido. Ele apenas fez que não com a cabeça e entendi que o deveria dar um tempo. Assim o fiz, voltando para o bar para lavar alguns copos.

Mal comecei e um rapaz se aproximou e foi direto a mesa onde a mulher estava sozinha. Aparentemente, a Independente não era mais tão independente assim. Ela tinha encontrado um par. Pensei comigo mesmo o quão bom isso era para os dois. E o quão irônico também. De um lado um casal se desfazia; no outro um começava.

“Barba, pode vir aqui um minuto?”, me chamou ele novamente, disfarçando o choro. “O que eu faço agora?”. De verdade, essa é uma das horas mais difíceis de trabalhar num bar. É tudo muito bom quando a bebida traz a alegria. Mas na hora da tristeza ela faz tudo muito mais pesado. A cerveja potencializa os sentimentos e tem o poder de te fazer voar no melhor dia ou afundar de vez no pior deles.

“Tem jeito?”, perguntei como se não soubesse a resposta. Ele apenas sacudiu a cabeça negativamente. “ Então, vamos relaxar e esfriar a cabeça. Tudo tem seu tempo e a vida há de seguir em frente. Logo é ano novo e ano novo pede vide nova.” . Ele se desmanchou em pranto, mas eu sabia que nada podia fazer.

“Uma Old Engine Oil. E não vem com qualquer uma não, é reserva hein!”, gritou o rapaz lá de fora. Confesso que com a farra não o reconheci, mas ao me aproximar com a cerveja entendi o que tinha acontecido. “Resolveu ser mais gentil?”, disse e sorri olhando para ela. O olhar dela pulou do meu para o dele com surpresa. “Pera aí, ele sabe?”,  e rimos os três. “Tem alguma coisa que meu amigo aqui não saiba?  Barba, dessa vez dois copos, estou devendo um para ela há muito tempo, como você sabe.”

Busquei mais um copo e os servi. Não consigo não pensar, o que me parece filosofia de bar, como um espaço tão pequeno reproduz tão bem a vida real. Uns vão e outros chegam.  Casais se formam e se desfazem. Há os risos e as lágrimas. Mas tudo em seu momento, tudo em seu momento.  Mas antes que eu me perdesse em devaneios, a esposa voltou e chamou por meu amigo. Se olharam por alguns minutos e se beijaram no meio do salão. Os empresários foram ao delírio e aplaudiram a reconciliação. E lá de fora após um brinde meu outro amigo levantou a mão e gritou “Bárbara… O nome dela é Bárbara”. A menina então completou “Eis algo que você não sabia, né Barba?”.  Sorri e mais um casal chegou.  “Boa noite, sejam bem vindos”.
hugo

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Talvez eu entenda que amo você

O dia de trabalho ia normal até que uma notificação de e-mail me chamou atenção.  Minhas mãos congelaram sobre o teclado ao ler que tinha recebido um e-mail seu. Naturalmente, eu já sabia do que se tratava, mas tantos dias se passaram desde que deixei a carta sob sua porta, que achei que jamais receberia uma resposta.

Por alguns minutos cogitei nem mesmo ler. Até agora, acredito que te deixar aquela carta foi um erro, um impulso que simplesmente não puder conter. No entanto, acreditei no que te dizia, sempre, para te acalmar: “Tudo tem seu tempo”.  E se houve o tempo de escrever, deve haver o tempo de ler também. E por isso li.

Em primeiro lugar, me desculpe. Nunca quis te fazer sofrer com aquela carta. Como disse, foi um impulso, um sentimento forte, tão forte quanto o do dia em que te beijei naquele bar, quando nos conhecemos. Sim, eu também acho estranho e talvez mais irônico do que o meu sofrer te pareceu. Partir nunca é fácil, é abrir mão de sonhos e assumir que você falhou. Então sim, sofri e lamento que não entenda isso.

No entanto, acredito que tenha sofrido também. Acho que nunca fui incisivo o bastante para te fazer entender os motivos que me fizeram sair da sua vida. Mas também acho que é tarde para me fazer entender.

Não se preocupe quanto sua porta.  O olho mágico já não mais mostrará minha imagem e você não vai mais ter uma renúncia minha. Por favor, não chore mais a noite e nem sofra pelo que um dia fomos. Músicas me lembram você. Cheiros me lembram você. Lugares me lembram você. Já me dei conta de que, mesmo em minha memória, você estará sempre presente e que eu não tenho nenhum controle sobre isso.  Então parei de visitar sua porta, para ouvir tua voz distante. Não precisamos conviver com isso.

Tão pouco, podemos ser amigos. Você diz que encarcerei nossa história, mas não imagina o quão presente ela ainda é para mim. Está em cada lugar que eu vou, em cada lugar que nos encontramos, em cada momento que tivemos juntos e que agora experimento sozinho.

“O amor ainda existe em mim, confesso” é algo que também posso dizer.  Levei um tempo para entender, mas só isso poderia ter gerado um impulso tão forte para me fazer ir até sua porta diversas vezes.  Mas em mim não há feridas. Há apenas um vazio, grande é gélido, que teima em não acabar e não sei por qual motivo insiste em trazer você à tona.

Talvez, só talvez, precisemos nos ver mais uma vez e encerar aquela conversa que acabou com uma porta batendo. Colocar os pingos nos “is” e me fazer entender de vez. Talvez assim o vazio se preencha. Talvez assim suas feridas se curem. Talvez assim eu entenda meu impulso incontrolável. Talvez assim você entenda o que tanto precisa saber: por que. Mas o mais importante; talvez assim eu entenda que eu amo você.

 

Em resposta ao texto Eu preciso entender por que 

hugo

Eu também me lembro de você

A verdade? A verdade é que desde que bati aquela porta eu voltei diversas vezes a ela. Cheguei a encostar na campainha, mas não tive coragem ou força para tocá-la. Ao olhar a porta, tudo que lembro é do som dela se batendo atrás de mim, no dia em que fui embora. Você deve achar que foi fácil; não foi. Bater a porta foi como um bater com o carro… Leva um tempo até você entender que é real e só aí a dor vem. E veio.

Eu sei, não foi a primeira vez que brigamos. E, talvez, não seria a última, caso eu ainda pudesse entrar em sua casa e discutir com você sobre onde guardar as chaves. Com certeza eu venceria e elas acabariam sobre a mesa. Mas de certa forma me arrependo.  Levou muito tempo para entender o quanto eu realmente gostava de dividir meu espaço, minha vida com você. Mas também sei que para você doeu, e isso me tira as forças para tentar de novo.

Sim eu tentei; na verdade, eu ainda tento esquecer.  Foram noites de balada, bebedeira e até viagens. Mas tem sempre algo que me faz gelar por dentro; algo como o acidente de carro – que só existiu ao som da porta batendo – que me faz lembrar de você.

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Passei a correr. Corpo são, mente sã. Mas a minha companhia de corrida, nosso cachorro, agora meu, me faz lembrar do dia em que fizemos amor no chão da cozinha depois de discutir sobre deixar ou não ele subir no sofá. Ou qualquer outra coisa boba, que não merecia tanta atenção.

A água tônica não acompanha mais o Gin. Agora é misturada com uma boa dose de Campari. Amargo; como a vida ficou depois daquele dia. Na academia pensei ter te visto um dia desses, como um vulto passa de uma sala para outra, na saída de uma turma de boxe. Mas achei de mais para você, sempre com preguiça dormindo no sofá.  Memória aliás, que me fez vender o meu; simplesmente não consigo sentar nele e não lembra de você.

Às vezes a vida também não me ajuda.  Conheci uma outra pessoa em uma viagem para Curitiba. Inteligente, como você. Bonita, como você. Independente, como você.  Ironicamente, com o mesmo nome que você. Simplesmente pedi a conta e fui embora. Ouvir seu nome teve a mesma força do vento que empurrou a porta. E mais uma vez fiquei em choque esperando até saber se era real ou não.

Talvez eu estivesse errado, talvez não. Mas sabendo que as coisas terminariam assim, talvez eu tivesse feito diferente. E assim, talvez, eu não visitaria tanto seu prédio, sua porta. Talvez eu não revivesse todos os dias aqueles 3 segundos, que pareceram anos, do momento em que tudo o que eu mais quis era sair da sua vida. Porque hoje eu tudo o que eu mais quero é voltar. E sei que é impossível. Não se pode voltar para algo que habita a gente.

Em resposta ao texto: Ontem me lembre de você (Leia também)

hugo

A tristeza que te levou

É triste, porém comum, encontrar as mesmas pessoas no mesmo estado alcoólico pelos bares. Aqui não é uma exceção. Todas as sextas-feiras ele chega, já com cheiro de cachaça, se senta e pede “A mais forte que tiver”.

“O senhor não aceitaria uma água, ao invés disso?”, pergunto na esperança de que algum dia ele vá entender o mal, consciente ou não, que faz a si mesmo. “Água eu tenho em casa. Aqui eu quero cerveja. Traz uma Cauim que eu vou com calma. ”, ele respondeu dessa vez.

A gente nunca entende o que se passa na cabeça dos clientes, é claro. Eu mesmo já passei por uma fase em que beber era um refúgio, um abrigo que se fazia necessário para esquecer a vida real, mas aquela foi uma fase muito difícil e isso pode ficar para outra hora. O que importa é que ainda assim, é triste ver alguém nessa situação e não poder ajudar.

É engraçado como nós acabamos nos julgando. Eu já estive dos dois lados, então sei que é verdade. A grande maioria dos outros clientes acha que ele é um pobre coitado ou um vagabundo e não iriam acreditar na verdade.

Todas as tardes, enquanto arrumo o bar para o próximo expediente, ele passa com seus dois filhos, voltando da creche.  Carrega consigo uma bolsa de couro, indicando que tem um trabalho e, a julgar pelas roupas, parece ter um cargo elevado. Já o vi passar algumas vezes com sua esposa, indo para um jantar ou um happy hour no restaurante do final da rua.

Resumindo, nada de pobre coitado. Ele tem uma vida normal como qualquer um. Exceto pelas sextas feiras quando sua vida parece não fazer sentido algum.

Ele nunca fala nada, pede uma única cerveja e fica horas olhando para o copo como se pensasse na vida. Normalmente é um dos últimos a ir embora, totalmente embriagado pelo que bebeu antes daqui.

“O que aquele senhor tem?”, me perguntou um cliente de uma mesa ao lado. Sinceramente não soube o que dizer, apenas dei de ombros. “O senhor precisa de mais alguma coisa?”, continuei com meu serviço.

A verdade é que, de certa forma, eu o entendo.  E quando entendo um cliente tão fechado, prefiro deixa-lo em paz e incentivá-lo a beber o mínimo possível, ou o máximo possível de refrigerantes; açúcar, sabe como é. O álcool potencializa os nossos sentimentos. E isso pode ser uma dádiva quando se está feliz, mas quando sua vida parece não fazer sentido, pode ser um poço sem fundo.

É triste ver os clientes assim. É triste ver pessoas assim.

hugo

Relembrando velhas amizades

Eles se conheciam desde os 12 anos. Haviam estudado juntos e formavam um belo trio. Ele, ela e Beto, que hoje vive em Londres e para onde eles viajam agora para fazer um reencontro emocionante. Eles pegaram um voo direto e levaria 10 horas até aterrissarem nas terras da Rainha. Era tempo de sobra para conversarem e relembrarem os velhos tempos.

– Quanto tempo faz que você não vê o Beto? – Ela perguntou.

– Nossa! Faz muito tempo. Acho que já perdi as contas. – Disse ele. Beto era um de seus melhores amigos no passado. Aliás, até então. A distância física não tinha enfraquecido a amizade dos dois.

– Eu também. Tô morrendo de saudade dele. – Disse ela, saudosa. Apenas de toda tecnologia ela sentia falta do abraço do velho amigo.

Não demoraria muito tempo, já viajavam há sete horas. Mais três e estariam em terra firme para verem seu amigo novamente.

– Será que ele mudou muito? – Ele não acreditava que sim, mas queria ter ideia do que ela pensava.

– Pelo que vi nas fotos ele engordou – Ela disse rindo – Mas nem posso falar nada, também engordei. A gente era tão magrinhos naquela época, né?

– Hora, quem não era? Bons tempos. Só estudávamos e dormíamos. – Ele riu.

– Tenho saudade dessa falta de responsabilidade. Nossa única preocupação era a prova da professora Vilma. – Ela lembrou.

– Sim!!! Nossa! Vilma, de matemática, Jesus. Achei que nunca me livraria dela! – Ele disse

– Ela já deve ter morrido, aquela praga. – Ela disse aos risos – A gente se reunia na sua casa pra estudar pra prova dela e lembro dos lanches que sua mãe fazia.

– O melhor misto quente que se podia fazer em casa com uns poucos trocados, como mamãe dizia. – E riram por muito tempo.

Eles eram como irmãos, mas ela nunca imaginaria que um dia ele quis mais do que isso. Não seria hoje que ele falaria. Hoje, só o Beto importava. Mais um pouco e estariam juntos. Lembraram de quando ela fugiu para casa dele. E de quantas vezes ela tentou ensinar matemática pra ele.

– Nossa, já te disse mil vezes. Faz assim. – Ela repetiu como se tivessem voltado no tempo.

Era engraçado, parecia que o tempo não havia passado para eles. Lembram de como ajudaram Beto com ciências, com a primeira namorada e de como era bom rir os três juntos.

– Mal posso acreditar que poderemos viver tudo de novo – Ele disse.

– Não vai ser a mesma coisa, a gente cresceu. – Lamentou ela – Não vai ter manga no pé, Mamonas Assassinas tocando e nem o misto da sua mãe.

– Bom, nem tudo está perdido – Disse ele mostrando Mamonas Assassinas no celular.

– Você é demais, sempre pensa nos detalhes. Você sempre foi assim. – Disse ela quanto abraçava o amigo.

O abraço era reconfortante. Trazia um pouco do presente e do passado. Pelos dois não sairiam dali até que uma voz os interrompeu “Senhoras e senhores, iniciamos nosso procedimento de aterrissagem”. Se entre olharam por alguns instantes, sorriram e afivelaram seus cintos, como pedia o comandante.

– Agora falta pouco – Ele disse.

Ela sentiu algumas lágrimas brotarem nos olhos. Ele e Beto eram os melhores amigos que teve na vida e poder reuni-los depois de tanto tempo estava deixando a garota emocionada.

Quando desembarcaram puderam ver seu velho amigo os esperando com uma plaquinha onde se lia: “Bobão e Bobona”. Era assim que Beto os chamava quando ainda eram crianças.

Era bom ver como o tempo havia passado, mas a amizade não. Ainda se conheciam por velhos apelidos, manias e hábitos.

O abraço triplo durou uma eternidade e chorando os três cantaram em uníssono:

– Quanta geeeente… Quanta alegriiiiaaaaa….

MONIKAJORDAO   hugo

Dois escritores e algumas ideias

– Por onde começamos? – Disse ele, um rapaz formado em engenharia química e que, hoje além de escrever, fazia cerveja.

– Não tenho ideia. – Disse ela, uma atriz que nunca exerceu a profissão e que, hoje, se dedica a escrever.

– Talvez um diálogo, o que acha? – Ela tinha dúvidas quanto ao processo de escrever em dupla.

Escrever a dois não era um processo normal para eles. Cada um tinha seu estilo, sua temática. Ele era muito novato nesse mundo e ela já tinha uma certa experiência.

– Acredito que um diálogo funcione. – Ele disse. – Mas que tal seguirmos uma série de perguntas e respostas? – Ela exclamou.

Confuso com a ideia ele questionou.

– Mas que tipo de perguntas e respostas, seria um Quis?

Ela parou e pensou na ideia. Como escrever com duas cabeças pensando ao mesmo tempo? Seria preciso alinhar os pensamentos. Era preciso determinar um tema para que o texto pudesse ser desenvolvido.

– Sobre o que você quer falar? – Ela perguntou. – As perguntas e respostas precisam partir de algum ponto, teremos personagens?

– Vamos com calma. – Ele disse. – Não vamos pensar muito. Deixa rolar… onde estamos? – Perguntou.

– Estamos nas perguntas e respostas. Quem pergunta primeiro? – Ela disse

– Então eu começo. Preciso visualizar a cena. – Ele disse. – Sugiro que nossos personagens estejam em uma viagem. Um avião, navio talvez…

– Boa ideia! – Ela disse – E eles são um casal? Amigos? Irmãos?

– Bons amigos. Que tal? – Ele perguntou.

Era mais fácil criar um ambiente entre amigos quando se escreve entre amigos.

– Perfeito. – Ela respondeu. – Bons amigos que viajam juntos. E sobre o que eles conversam? Vida, carreira, amor, saudade?

– O que me diz? – Ele devolveu a pergunta. Era difícil fazê-la tomar decisões, é libriana.

– Saudade da infância. – Ela sugeriu

– Ótima ideia – Ele concordou. – Então eles estão no navio ou no avião? Pode escolher.

– No avião – Ela estabeleceu. – Eles estão indo para onde? Paris?

– Londres. – Era a vez dele escolher. – O que iam fazer lá?

– Visitar outro amigo de infância, assim a gente tem um ponto de partida. – Ela estava ficando animada.

– Podemos falar de alguma professora chata que eles tiveram. – Ele também estava ficando animado.

– Sim, ela pode ser professora de matemática, todo mundo já teve uma rabugenta professora de matemática. – Ela deu a ideia.

– Podemos falar que eles ouviam Mamonas Assassinas. Eu sempre ouvia. – Sugeriu ele.

E assim o texto foi nascendo e ganhando vida.

Quando colocaram o último ponto final satisfeitos, sorriram e colocaram o texto no ar.

 

[Para ler o texto que eles escreveram juntos clique no link abaixo]
RELEMBRANDO VELHAS AMIZADES

MONIKAJORDAO     hugo

Filosofia de bar

Mas é claro que não só de coisas boas vive um bar. Ao longo dos anos, posso dizer que a grande maioria dos momentos são felizes, é claro, mas há sempre aquele momento em que alguém precisa afogar um pouco as mágoas.

Ele veio aqui, semana passada. Estava feliz e orgulhoso com o novo relacionamento e ela também parecia bem feliz. Juntos, formavam um belo casal, desses de novela – a gente nunca sabe o que está acontecendo por trás do que vê, mas quando olha acha que vai ser amor eterno; não foi.

“Boa noite, meu amigo”, disse fingindo não ver que não estava muito bem. “Blanche de Bruxelles, como sempre?”. Ele me olhou e por alguns instantes não disse nada. “Traz algo mais amargo dessa vez…”, falou tomando ar.

O que quer que fosse tinha sido sério. Ele não admirava sabores mais amargos em suas bebidas. Salvo em momentos de profunda tristeza, em que bebia algo mais alcóolico, como um drink a base de Campari ou Gyn, era extremamente raro vê-lo pedir algo amargo. “Mas que seja cerveja”, completou deixando-me ainda mais preocupado.

Servi a ele uma de minhas cervejas favoritas, Sculpin da americana Ballast Point.  Não demorou muito e logo pediu outra, deixando claro que a noite seria bem longa. E foi. Já passava de 1 da manhã quando mudamos para a estação de Jazz e Blues, costume daqui do bar para atender a todos os públicos.  E ele ainda bebia. Olhou para mim e me chamou à sua mesa.

“Pode se sentar por alguns minutos? O bar já está vazio e preciso conversar com alguém…”, perguntou. De fato, era o último cliente e já havíamos organizado muito do que era preciso para fechar o bar. “Claro, pois não.”, respondi tentando ser menos formal.

Então me contou toda sua história.

Nos últimos meses, tinha saído de um relacionamento. “Nada sério. Mas, às vezes o amor simplesmente acaba… Sabe como é?”, acenei que sim. Pelo que dizia, o trabalho e a rotina do dia-a-dia os tinha afastado de tal forma, que ambos começaram a conhecer outras pessoas e se apaixonaram fora do relacionamento. Terminaram por respeito mútuo e ninguém sofreu, coisa rara nos dias de hoje.

Entre uma cerveja e outra, chegamos ao que de fato tinha trazido ele aqui. “Eu sou apaixonado por ela. Ela sabe disso. Mas, me apaixonei por ela e outra pessoa ao mesmo tempo.”, disse quase chorando.  O álcool tem dessas coisas; como dizemos por aqui “O álcool entra; a verdade sái.”. Parecia muito sincero, embora um tanto inusitado. Sendo sincero, não sei se acredito em se apaixonar por várias pessoas ao mesmo tempo. Mas, acho que não é impossível.

“Eu não sei exatamente como, mas isso aconteceu. Amo as duas. Ela não entende isso. Não que eu queira ter um relacionamento com as duas, mas talvez tivesse com a outra também, se tivéssemos tido mais contato.”

Aquilo soou ainda mais estranho para mim, mas não quis me meter. Ora, estava claro que a atual namorada tinha descoberto esse segundo amor e não se sentia segura – quem sabe até mudando seu status para ex-namorada. Pensando bem, quem se sentiria seguro em um relacionamento em que o parceiro ama outra pessoa, também? Mas, por outro lado, ele já havia feito uma escolha. Estavam felizes semana passada. Se completavam perfeitamente e não parecia de forma alguma que o mundo de um seria completo sem o outro.

“Não sei como vou resolver isso.”, disse como se quisesse minha ajuda. Sugeri que sentassem e conversassem o máximo que pudessem sobre. Por aqui, vejo que muitas vezes o que falta na verdade é um bom jogo, com cartas claramente distribuídas sobre a mesa, entre amigos, parceiros de negócios, casais e até amantes. “Nada melhor que um bom diálogo para deixar tudo claro, meu amigo. Posso trazer mais uma e a conta?”, já era hora de fechar o bar. Ele fez que sim, “Traz sem copo que eu levo a garrafa e vou andando. Desculpe tomar seu tempo”. Sorri e apenas disse, “se todo problema do mundo fosse uma conversa com um amigo…”.

Ele pagou e foi embora, meio cambaleante com sua cerveja. Deixou para trás, em minha cabeça uma inquietação. Amar é bom. Mas, na situação do meu amigo, sinceramente não sei dizer se é bom ou ruim. Nunca pensei nisso. Bom, já é hora de ir embora e hoje não vou sozinho. Iremos a três para casa: minha cerveja, eu e a nova dúvida. “Afinal, quantas pessoas se pode amar ao mesmo tempo?”.

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