Hoje eu não vou nem terminar este título

Hoje eu não quero fazer nada. Hoje eu só vou fazer o que eu quiser.

Não quero arcar com nenhum compromisso, não quero ter nenhum dever.

Hoje eu não vou trabalhar, nem limpar a casa, muito menos estudar pra prova.

Hoje eu quero ser criança por um dia, só ver a vida sem me preocupar com a nota.

Não vou me arrumar pra sair, não vou ter hora pra chegar nem hora pra dormir.

Hoje eu vou ficar deitado, numa rede espichado, deixar a preguiça me atrair.

Ah, eu sei que ela vem, me tenta, me trova, se assanha e se desenha.

E eu vou admirar ela tentar, deitar e rolar, vou deixar que venha.

Hoje não existe corrida, não existe prazo nem relógio.

Só existe eu e o mundo, meu quarto profundo e o meu refúgio.

Não quero estar onde não tiver vontade, nem forçar sorrisos e apresentações.

Quero ser eu mesmo, ficar de pijama, comer um doce velho e ouvir canções.

Vou trocar de canal mil vezes, e nem vou prestar atenção.

Vou visitar mil sites, e depois mais mil virão.

Não vou usar o tempo livre para colocar nada em dia, afinal de contas, a vida é minha.

Só vou respirar fundo, me sentir simplesmente parte deste mundo, e, se a preguiça deixar, levanto do sofá e desbravo a cozinha.

Não me confunda com vagabundo. Assim como você, estudo e trabalho.

É justamente por isso, temos tão pouco tempo e nem paramos pra ver ele parado.

Vou tocar violão até cansar, compor músicas que não consigo escutar.

Vou tentar ler um livro, ver um filme novo, sair na rua com outro olhar.

Com a parceria do escuro, vou ouvir um disco inteiro.

E com um vento invasivo vou apreciar o simples silêncio.

Meus cachorros, ah meus queridos cachorros. Não vou embora, vou ficar o dia todo com vocês.

Me sujar, dar risada, dar carinho e gargalhada, como se fosse a última vez.

Hoje não é dia de ser inerte, é dia de apreciar as coisas pequenas da vida.

Aqueles detalhes tão mundanos e cotidianos que nem notamos no dia-a-dia.

Vou beijar minha amada e dizer a ela que está linda.

Vou levá-la pra jantar, ir ao cinema seis vezes, como naquele primeiro dia.

Terei tempo para meus pais, meus avós e minha família.

Vou jogar futebol, rir com os amigos e descer uma geladinha.

Vou ver o sol nascer, ver ele se pôr, sujar os pés de areia.

Vou mergulhar no mar, sentir as ondas e o ar, e ouvir a lua cheia.

Podem me chamar de “índio”, de louco excluído, mas estou vivendo o agora.

Ao contrário da maioria, meu dia vai ter muito mais do que 24 horas.

Hoje vai ser o dia do mundo, o dia da vida, o dia de ser você.

Colocar um sorriso no rosto de uma criança, ouvir histórias de um idoso, mostrar o universo aos que não podem ver.

Vou comer salgadinho, bala, chocolate, bolo, torta, xis e pizza.

Vou lavar, consertar e andar na velha bicicleta, andar nas ruas da minha querida cidade, vou até visitar minha tia.

Vou cantar Vinícius de Moraes, Roberto Carlos e Rod Stewart.

Vai ter espaço pro Samba, pro Humberto Gessinger e pro Jerry Lee Lewis.

Hoje eu quero o tudo e o nada, assim como queria Belchior.

Vou ver o mundo da minha janela, viajar por ela, e ser uma pessoa melhor.

“Vou viver as coisas novas, que também são boas…

o amor e humor das praças cheias de pessoas”

Hoje eu quero ser feliz, e mais que isso, quero que todo mundo esteja de bem com a vida.

Talvez eu até saia daqui, talvez eu vá aí te visitar, ou talvez hoje eu nem termine este…

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Velho amigo

Atenção: Este texto não é uma biografia nem faz parte de um guia de rock chato, leia até o terceiro parágrafo (lhe peço com o pouco de tinta que me resta) e você entenderá.

Se você (como eu) é daquelas pessoas que gosta de estar sempre ouvindo novos sons, novas bandas ou novos estilos musicais, este exato momento pode lhe ser oportuno. Vou lhe apresentar uma música talvez desconhecida para a maioria das pessoas, mas que vem da alma de um grande (e já falecido) compositor, e pode lhe servir para relembrar bons momentos.

Morto em 2011, Doyle Bramhall era um baterista e compositor da cena musical de Austin, Texas, desde os anos 60. Em parceria com o lendário guitarrista Stevie Ray Vaughan (também já falecido), compôs diversas músicas (algumas foram gravadas e fizeram parte de álbuns de SRV).

Para mim, a mais especial delas é “Life by the drop”, um blues acústico que fala sobre a antiga amizade entre dois homens. Sim, meu caro leitor, é uma música triste. Dois amigos que se conheciam desde a infância, brincando na rua, mas que foram separados pelas incertezas da vida, seus caminhos traiçoeiros e as escolhas que todos nós fazemos e, por vezes, desejamos nunca ter feito.

Pois bem, os três parágrafos acima serviram para que você, que me lê, entender o que estou sentindo agora. Sabe de uma coisa? Há certos sentimentos e sensações que, por mais curtos que sejam, fazem a vida valer a pena. Nos fazem olhar pra trás, sorrir orgulhosos e pensar “valeu a pena”. Um desses sentimentos eu senti hoje: encontrar um velho amigo nos acasos do dia-a-dia. Aquele amigo que a gente não via há anos. Aquele parceiro pelo qual você tem apreço, e sabe que ele também o sente por você. Aquele tipo de amigo sobre o qual a gente não sabe muito: não sabe onde mora, não lembra sua idade, nem o que ele gostava de fazer no tempo livre, só lembra de quando o conheceu, na escola, no maternal, ou em qualquer outra ocasião. Porém, de alguma maneira, a gente sabe que ele é um amigo, nos lembramos dele na hora de convidar pra jogar uma bola ou fazer um churrasco, e sabe que ele se lembra da gente também.

Andando na rua, no meio de tanta gente, tantas vidas diferentes, reconheci aquele rosto, aquele rosto que também me olhava com uma expressão de surpresa: “bah é tu meu brother? Quanto tempo velho?!”. A nostalgia tomou conta daqueles minutos, me senti na escola novamente, no tempo em que não éramos estranhos um para o outro. Conversamos, contamos as boas novas, em qual faculdade/emprego estávamos e como a vida tinha seguido. E sabe, a melhor coisa não foi nem reencontrar um amigo, mas sim, perceber que nada tinha mudado. Perceber que apesar do tempo, da mudança, do amadurecimento, continuávamos amigos, simples como crianças brincando no pátio do colégio. É aí que a gente percebe que a pessoa é parceria verdadeira, quando nota que não precisa muito para se importar e querer o bem dos outros. Desde aquele dia, comecei a pensar mais sobre outras pessoas que conheci e que nunca mais havia tido contato. Pensei em um amigo que tinha uma banda comigo, e com o qual eu não falava há meses. Liguei. “E aí cara, como vão as coisas? Tudo certo? Bah que saudade de fazer um som, não pilha de reunir a turma uma hora dessas?”. Percebi na voz dele que ele gostou de falar comigo novamente, e que ele também sentia falta da época da banda. Aquilo me deixou em paz comigo mesmo pelo resto do dia. Na música, Stevie Ray Vaughan canta: “você seguiu o seu caminho e eu fiquei para trás, nós dois sabíamos que era só questão de tempo”, e nesses tempos em que vivemos onde a mudança é constante, onde tudo muda do dia para a noite, faz bem saber que existem coisas que nunca vão mudar. Faz bem saber que você tem amigos com os quais você pode contar, por mais longe que estejam no tempo e na distância. Faz bem saber que o tempo vai passar, vocês irão passar, mas a amizade verdadeira ficará ali, e nunca será esquecida.