Você não precisa de um boy pra desencalhar, miga

Quando me flagrei escrevendo este texto, confesso que nem mesmo eu acreditei. É sério, poxa, não é do meu feitio e raramente converso diretamente com as mulheres. Mas o negócio é o seguinte: 2018 está chegando e você precisa desencalhar, colega! Sim, desencalhar! Achou ruim? Calma, não é isso que você está pensando. Você precisa desencalhar, mas não precisa de um boy pra isso. E, cá entre nós, você ficou puta, no jantar de natal, quando sua tia bonachona disse você é um desperdício de moça sem namoradinho… Eu também teria ficado. É um saco. Estou solteiro há tempo suficiente pra escutar essas merdas natalinas, mas relevemos e sigamos com o texto.
“Por que eu não preciso de um boy pra desencalhar”, pensa minha leitura curiosa e assídua. Ok, admito que essa parte foi só pra levantar o ego do escritor, desconsiderem. Era só pra deixa a conversa mais próxima, só nós dois aqui, entende, tete a tete, saca? Pois é, vamos lá! Você não precisa de um boy porque você já é um mulherão da porra sozinha! Sua felicidade não está atrelada ao calcanhar de marmanjo nenhum, menina! Até parece que não tem espelho em casa, credo! “Ai, mas eu estou gorda”, é excesso de gostosura! Liberte-se das amarras sociais, das porcarias de padrões e seja você mesma. É clichê esse negócio de “seja você mesmo”, mas é bem verdade, viu. Não é à toa que grande Nelson Rodrigues dizia que o profeta é aquele que consegue prever o óbvio!
Tenho uma amiga linda (aliás, uma de muitas; todas as minhas amigas são belíssimas) que está de bode porque terminou 2017 no zero a zero. Antes de explicar o causo – nós de minas falamos assim – deixa eu dar uns detalhes da minha amiga. Pensa numa moça gente fina, coração grande, altruísta, como poucos hoje em dia, menina alegre, farrista. Uma morena e tanto: cabelão negro como a própria escuridão, pele cor de jambo, um demônio que domina sua alma com tanta beleza. É olhar pra ela e cair duro, apaixonado. Já passei por isso e digo: não se apaixonar por ela é muito difícil! Por que ela está solteira? Só Deus, né, miga…
É o seguinte: a minha amiga-dama é apaixonada por um carinha, mas ele é um babaca completo. Não responde mensagem, não liga, não pergunta se está bem… Mas procura pra saber se ela quer transar. (Não estou condenando esse tipo de relação, cada um vive a seu modo, transa como e com quem quiser. #pas.) Mesmo assim, ela é ligada no sujeito, que não quer assumir o lance. Ela é louca por ele. Já planejou até o enxoval do casamento… No entanto, a vida sempre dá umas porradas pra gente aprende, não é mesmo?
Depois de um longo e conturbado momento juntos, ela descobriu que o boy vai está namorando. Cômico, se não fosse trágico – eu avisei… Na semana passada, a amante abandonada me convidou pra um café decidimos pra xingar o sujeito, pensar nuns ebós pra deixar ele brocha, essas coisas. Pra você ver como o amor é miserável: aquilo que o dia te deu mais prazer hoje você quer amputado… Melhor mudar de assunto, Ave Maria… Brincadeira, continuemos…
Na conversa, minha amiga não se conformava com o fato de ter sido trocada, deixada para trás. Inevitavelmente, procurou na outra – na ladra oportunista de amantes alheios – atributos que não tinha em si mesma. Perdi a paciência! Menina linda dessa ficar se diminuindo? Sacanagem! Depois descobri que o cara a comparava com outras, ou seja, ela não aprendeu a se rebaixar sozinha. Isso é sério: não deixe ninguém diminuir você, por seus ideais, por seu estilo, seu corpo, sei lá, só não aceite. Isso vale pra todo mundo.
Quando encerramos nossa conversa, confesso que fiquei decepcionado, afinal de contas, não consegui ajudar minha amiga. Tudo que pude fazer foi ouvir. Dias depois, encontrei com ela novamente. Não estava o trapo que pensei que estaria, muito pelo contrário: estava radiante. Aí ela me atacou com um clichê: “Aprendi a me amar”. Confesso que cheguei a pensa que era tudo fachada, mas ela pareceu bem convincente e pode até ter me enganado. Esse encontro foi rápido, mas deixou pensando…
Pensei que o amor é mesmo negócio estranho. Sou um amante da literatura, mas acho que aquele romantismo dos séculos XVIII e XIX prestou um enorme desserviço para os amantes. Quando a coisa se propagou para o cinema americano então, nem se fala! E quando o negócio atingiu em cheio o pagode brasileiro? Raça Negra que o diga, né? (Nem curto, mas falar deles enobrece o texto.) O amor romântico nada mais é que uma utopia. Esse negócio de viver e morrer pelo outro… Suicídios belíssimos, isso não cola mais hoje em dia, mas muita gente acredita, tipo minha amiga.
Um pouquinho antes do natal (e com alguns quilos a menos) a reencontrei. Todo aquele papo de amor próprio tinha ido pro saco. Estava acabada, entregue a uma paixão tórrida pelo moço que a deixou. Estranho, mas compreensível. Foi então que ela me disse que queria terminar o ano desencalhada, com um namorado, com uma nova chance para o amor… O problema é que isso custa caro – e não falo de dinheiro.
Falo de mudanças de hábitos, de aceitar a verdade e entender que há pessoas que, por mais que se queira, elas nunca estarão do nosso lado. Isso é ruim, dói, machuca, mas é verdade. É preciso encarar a realidade. Para mim, gente solteira não é problema, mas gente encalhada, sim. Gente que tem medo de seguir em frente, de olhar para o futuro, de buscar um novo abrigo. É por isso que sempre falo: você não precisa de um namorado ou uma namorada pra desencalhar, precisa mesmo é de coragem para o amor, principalmente para o seu próprio. Então, miga, aproveita que 2018 está vindo aí e desencalha!
FIM…

 

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Amor de verdade é pagar litrão pra mim

Cara, sinto muito, mentiram pra gente! É, eu sei, dói falar assim, na bucha, mas é a verdade; fomos tapeados. Aquela parada de amor, amor verdadeiro, friozinho na barriga, aquele amor pra valer, que só acontece uma vez, é mentira, meu nego. Tudo marketing ― talvez pra vender mais discos do Raça Negra… Venderam pra gente a ideia de que o amor é perfeição, abnegação, entrega, arrebatamento, borboletas no estômago e muito mais… Ele pode até ser tudo isso, no início, mas na maior parte tempo é falta de grana pra sair no final de semana, TPM, carro estragado, ressaca e bico.

Eu sei, eu sei, a gente só quer curti um pagode no final de semana com morena, tomar açaí no shopping e trocar uns amassos no portão no fim do domingo, essas coisas triviais da vida, que dão sentido nesta bagaça que chamamos existência. Essa é a expectativa, mas a realidade é bem mais embaixo! Esqueceram de dizer que pra amar tem que ser duro na queda, tem que tem que ter molejo, jeitinho, paciência, cumplicidade, reciprocidade (odeio essa palavra, coloquei porque ta na moda)…

Muita gente anda de bode com amor, só porque não conseguiu encontrar “a metade da laranja”. Essa conversa fiada me dá sono, preguiça e vontade de vomitar ― isso pra ser educado, se pudesse mandava se f… O mundo está chato pra cacete! É padrão pra tudo, até pro amor, vejam só! Quem foi que disse que pra amar tem que ser igual, tem que ser perfeito, tem que ter “química” ― outro termo que acho horroroso, mas uso pra dar estética no texto ― e uma serie de outros penduricalhos contemporâneos que só servem pra afastar a gente do amor prático, do amor que existe de verdade, aquele que paga boleto, que divide a coxinha, que marca o mozão em post brega no Facebook, essas coisas. O amor não é pra covardes! Amor é passar vergonha e não conseguir esquecer o sorriso daquela trouxa debochando de você. Amar é saber estar sozinho (e sentir-se bem) e quando junto saber dividir sua solidão, respeitar espaços. É aceitar que pode (e vai) dar errado e lutar pra superar, mas claro, sempre se valorizando (olha outro clichê de linguagem aqui), e se esforçando pra fazer a coisa fluir. Talvez seja por isso que muita gente tem medo de amar.

Costumo sair com vários casais, eis o mal dos escritores solteiros, e aprendo muito com eles. É diferente quando você conhece um casal da hora, que se entende, que se aceita. Nem parecem casais, parecem amigos, irmãos. Tá aí uma boa: o amor também é irmandade, é parceria.

Na semana passada estive com um casal de amigos que não via há muito tempo. São dois doidos, sério, gente! Ele é pirado, ela, em nome da segurança nacional, eu mandaria colocar na camisa de força. Apesar de tudo, adoro sair com eles. Divertidos, alegres, e, pasmem, completamente diferentes um do outro! Ela roqueira, ele peão. É sério isso! E se dão super bem, menos quando ele escolhe Amado Batista e ela quer Metallica. Fora isso, é uma graça de se ver. Às vezes admitem que não se suportam, mas se amam. O amor nasce mesmo de lugares improváveis! Já imaginou se eles estivessem até hoje esperando a metade da laranja? Já teriam, ambos, virados suco por aí…

Lembro que, no passado, estiveram separados. Foi um Deus nos acuda! Ela chorava dali, ele chorava de lá e o Zequinha aqui no meio da bagunça de corações partidos. Num belo dia, enquanto ajudava meu amigo peão a se recuperar da fossa, perguntei a ele por que gostava tanto da roqueira, já que eram tão diferentes? A resposta foi linda. “Eu amo aquela metida porque ela paga litrão pra mim”. É mentira, ta bom, eu admito, mas é algo bem próximo disso. O quero dizer é que eles são companheiros apesar das diferenças, apesar das controvérsias! Só me lembro de terem brigado naquela oportunidade.  De lá para cá, a paixão deles cresceu e aprenderam a se respeitar e multiplicar o amor ― terão o primeiro filho em breve. Achei fofo, galera.

Às vezes, quando olho para os dois, tenho a nítida sensação de que amor é isso mesmo: dificuldade e superação. Por mais que a gente queira um amor compatível, um amor igual, não somos iguais, nem nunca seremos. É na diferença que nos encontramos. E pensando na lógica do peão, amor de verdade é aquele que paga litrão pra mim. Nem bebo, mas já quero!

FIM.

 

 

A tragédia romântica da bailarina de cachos

Não se pode adivinhar o que há nos olhos da bailarina. Os mistérios são parte dela. O que se esconde nessa essência de menina? Veste a máscara do comum, mas no palco é ela mesma, a alma exposta. Na verdade, não é menina – nem mulher – é um anjo esculpido em cachos que brincam com o vento, como se ambos fossem irmãos. Enquanto dança com o céu, dane-se o mundo! Atravessou dezembros vencendo a dor e espalhando amor! Sim, a bailarina ainda acredita no amor! Nem sempre é fácil, pois amor, às vezes, é dor. Aprendeu, por ironia do destino, que amor se cura com amor! Só não conhece remédio para saudade, mas como dizem por aí: “o que não tem remédio, remediado está”. Pois que assim seja: toda dor seria remediada com amor, até mesmo a saudade.
Palavras não são o suficiente para descrever o sorriso dela. Transborda candura; não haveria na terra outro igual. Quisera eu que minha pena fosse capaz de dar àqueles traços a beleza que eles merecem. Não importam o que digam sobre ela, nada se aproximará da verdade. Só os olhos que viram aquele sorriso são capazes de entender… Afrodite te inveja, bailarina! Guarda nos lábios o doce do veneno que apaixona; pobre dos homens. Todos, sem exceção, são tocados, mas nem todos são capazes de tocá-la! É preciso seguir os passos da bailarina, nem todos compreendem seus mistérios, suas tragédias.
As luzes do palco se acenderam, o coração palpita, o gosto ácido na boca causa ânsia, mas se segura. Já no primeiro compasso está entregue ao inexplicável. Enxerga a própria alma deixar o corpo e fazer par com o infinito. É como se apaixonar pela primeira vez: é frio, é medo, é prazer, é emoção é amor! A música continua e invade seus pulmões; agora respira notas agudas, graves, médias e expira movimentos delicados, produzidos com alma. Da platéia ele aplaude de pé. A fumaça do tablado ofusca seus olhos, mas acredita que a bailarina o vê. Não vê, não toca, mas sente… Sente algo forte que emana de olhos petrificados de admiração e amor. Notou que era amor há quilômetros. Entregou-se, se lançou e pensou que voava, mas não: caia de um abismo.
Às vezes, antes de dormir, sente o corpo dolorido, o coração esmagado e o peito apertado. Quantas vezes, desde a queda, se perguntou: “Por que eu?”. Dera de bom grado seu bem mais precioso e, quando menos percebeu, havia sido roubada, extorquida, sugada até a sua última gota de paixão. Desde então, construiu um muro em volta de si e só seus passos agora encantam apenas a se mesma. Criou uma fortaleza de espelhos, para não se sentir só.
A dor é um cofre com combinações impossíveis, quanto mais se fecha, mais difícil fica de sair. Viu-se distante de tudo e de todos, até se descobrir. Viu refletida em seu palácio de espelhos que a própria imagem estava distorcida. Chorou, sofreu, mas aprendeu. Deixou de acreditar no amor, eis a sua verdadeira tragédia!
Depois de muito tempo, decidiu encarar o palco outra vez. Mostrar a se mesma que dançar com a vida é a verdadeira essência. De novo teve medo, de novo quis sair correndo, mas não desistiu. A cortina se abriu e lá estava ela, vivaz, feliz, entregue de novo ao amor! Seus cachos, de novo alegres e sagazes, seguiam seus movimentos. Esqueçam o que já foi dito sobre seu sorriso, seus olhos. É agora ainda mais forte, ainda mais encantadora. É uma advertência aos desavisados: apaixonar-se é um perigo constante. Ainda multiplico os clarões de sua aparição. Não há como descrevê-la, só há o sentir. Sinta. “Que quem olhar, com os mesmos olhos que a olhei/Irá perder a inocência, e ela por fim/Terá roubado o sono de um querubim”.

Pedido de casamento

Gabriela: nome forte; nome de quem sofre e sente na pele a dor de ser essa coisa errante, indefinida e torta para os olhos comuns. O vermelho sangue de seus cabelos é o reflexo de sua alma: intensa e fervente. “Ninguém me entende”, diz baixinho para si mesma, antes de dormir, depois de abraçar Paçoca, a gata de estimação. Essa sim lhe entende bem; conhece os atalhos daquela alma. Não chove há meses e Gabriela se angustia com a seca e tem saudade dos pingos de chuva lavando a janela transparente da cozinha. Sente falta daquele ar gelado que corta o mormaço verão – do verão também saudade, mesmo não gostando do calor. Sobra muita falta nesta mulher incompleta, mas satisfeita. Pode não ser feliz, mas é grata pelo pouco que a vida lhe dá e lhe ensina, às vezes de modo cruel. Sente um aperto no peito, varias vezes por dia… Ausência, Gabriela? Só ela tem a resposta, mas prefere não dizer, finge não haver nada de errado com a máquina cardíaca que bombardeia seu sangue vermelho ralo. Não há mulher mais intensa, mais viva e pulsante que ela! É como uma faca cortando o pescoço: lenta, profunda, danosa, dolorosa, mas é também um devaneio e esmaecimento gostoso, como a transição para outra vida.

Sente que se repete nos últimos tempos, mesmo tendo mudado de casa, cabelo e companhias. É uma mulher sem rotina, mas essa lhe engole aos poucos! Sem que perceba é tragada e mastigada pela rotina dos sem rotina. Não é mais a mesma, de fato, mas também não é nova. A essência não mudou; deveria, Gabriela? Sua dor exige mudança? Sua inquietude atordoou a esse ponto? Como ser ela mesma, sem se espelhar em ninguém? É uma mulher sozinha, mas não vazia. Em outros tempos, a chamariam de vagabunda: mulher sem destino, solitária e entregue a beleza das coisas das artes e as migalhas de beleza que o existir oferece de mão beijada… Ah, o doce, o doce que todos os dias lhe faz molhar a língua começa a perder o sabor e amargar. “Quem sou, agora que já não sou quem eu era?”, questiona a se mesma.

Tem tanto a dizer, mas os velhos amigos, onde estão? A conexão é a mesma: profunda! Gabriela não troca energias se não for para guardar… Ah, o futuro, o futuro é a coisa responsável por transformar: deixar o presente no passado. Como o tempo passou rápido, como as coisas estão loucas nesses últimos dias. Uma casa nova, novos amigos (alguns de sempre), novas saudades, novas ausências, novas tristezas… Ela só quer fugir! Fugir de si mesma, mas sua alma está presa neste corpo de mulher delicada, ruiva, viva, atrevida, olhos de ressaca, leve, má, intensa!

O novo trabalho lhe oferece, de um novo jeito, antigas sensações de desprazer. Mas a vida, essa coisa rara, sem rumo, sem eira nem beira, encarrega-se de lembrá-la de quem ela é, de quem foi e de quem pode ser. Embora seja uma resposta que apenas Gabriela sinta, a vida devolverá, em grossas pancadas no lombo branco sensível da menina, as lições que devem ser absorvidas. Você fechou os olhos para se mesma, Gabriela! O despertar é preciso. Desperte, leoa, desperte senhora do próprio destino.

Era um dia qualquer, talvez quarta-feira, ou segunda, ou terça, não importa, era o dia em que pra sempre seria marcada! Como de costume, Gabriela acorda cedo, cuida da gata, cuida da casa, tenta se ajeitar o máximo que pode. Há muita bagunça pelo quarto e sentimentos desarrumados dentro do peito. É cansativo estar no lugar dela, é cansativo ser você, Gabriela. Mas naquele dia, venceu o cansaço de si mesma e foi em frente, ao trabalho… O sustento de cada dia!

Duas mulheres, de poucas posses, mas que exalavam bom espírito, boas energias e vibrações, cruzaram o caminho da moça, como um relâmpago. Clientes, nada mais que isso para Gabriela. Alguns são mais assíduos, outros nem tanto, mas a maioria passageiros, como um sopro. Aquelas duas não! Havia algo diferente nelas. Minha amiga ruiva não notou isso logo de cara, demorou a sentir atmosfera permeada por uma áurea conhecida… Sentiu aquilo antes, não era novidade. Mas o que era? As clientes, mulheres, humildes, sem muito dinheiro, mas com boas feições, pesquisavam produtos da pequena vitrina do balcão… O que procuravam? O que queriam? Buscavam o quê buscavam naquele Beco?

Menina tola essa Gabriela! Não percebeu que ali sobrava amor! As moças não eram “clientes”! Eram amantes, um casal, dois, completas uma na energia da outra! A surpresa de Gabriela veio depois do enfático pedido: “Quer casar comigo”, disse uma das moças. O singelo “sim”, que mal pode ser ouvido, foi dito! A união foi ali sacramentada e amarrada por um par de alianças de cobre, ou qualquer outro metal vagabundo, vendido por dois reais e cinqüenta centavos…

É, Gabriela, a sensação da qual falamos antes é o amor! Logo você, “amor da cabeça aos pés”, demorou tanto pra sentir aquela coisa, aquele pulsar… A paz retorna ao espírito da moça, agora já tem, ao menos, noção de quem foi, de quem era e quem poderá ser!

FIM…

Uma verdadeira história de amor

O som da chuva, o vento balançando as flores do ipê amarelo, gargalhadas de criança, a pele… o sorriso… por que estou lhe dizendo essas coisas? Talvez eu precisasse contar isso para alguém e, talvez, seja para você. Um fim tarde frio, úmido e melancólico; a enxurrada levando de eito as folhas secas espalhadas na rua. Eu acabara de desembarcar naquela cidade, tudo era novo e inquieto. O mau tempo impediu-me de contemplar a beleza do lugar, a qual só conheci mais tarde. Cada junta do meu corpo rangia como uma porta enferrujada e o cansaço dominava minha mente. Uma estranha sensação de vazio invadiu meu espírito; saudade de casa? Nunca soube dizer, mas aquele aperto, aquele nó me perseguiu por anos a fio e até hoje invade meu leito.

Conheci Beatriz em um domingo de sol fraco. Comecei a amá-la vinte minutos depois de tê-la visto. O jeito meigo de menina do interior e sua candura prenderam todo meu afeto. Sabia que nunca diria “não” para ela. Estava dominado, acorrentado para sempre aos calcanhares daquela mulher. Um dia, Luís, se você for um homem de sorte, conhecerá o amor e talvez tenha noção de toda essa coisa que falo. Quando este dia chegar, pegue tudo que sente e multiplique pelo infinito, acrescente séculos e milênios e, quem sabe assim, compreenderá minhas palavras, que agora soam exageradas.

Casamo-nos na primavera. Lembro-me, como se fosse agora, daquela cerimônia. As palavras de padre Amaro abençoando nossa união, os convidados, as borboletas em festa ao redor de Beatriz… tudo isso, nunca me sai da memória, Luís. Naquele tempo, cheguei mesmo a acreditar que o amor era simples. Estávamos felizes, Beatriz e eu, com uma vida sem luxo, mas povoada de prazeres, gozos e ilusões. Não nos faltava nada, nem amor, nem pão à mesa. Parecíamos alimentados com a paixão, com a descoberta da vida a dois. Foi uma época feliz, mas tudo que é risonho e alegre não dura muito.

O verão chegou implacável e com ele as mudanças. Foi Beatriz quem me trouxe a carta. Quando li, me senti atravessado pela morte. Era uma mensagem do exército; tinha três dias para me juntar ao regimento no sul. Para muitos amigos e conhecidos, aquela foi uma viagem sem volta. Estávamos em desvantagem, os alemães avançavam decepando cabeças e espalhando uma mancha de sangue e morte por onde passavam. Não tive escolha, parti na quinta-feira. Prometi a mim mesmo que voltaria vivo para Beatriz.

No campo de batalha presenciei e promovi horrores que jamais serão esquecidos. Três anos se passaram e, finalmente, voltei para a casa. Estava exausto e trazia algo diferente no semblante. Beatriz percebeu. Sempre acreditei que ela viu em mim o sobrevivente e o assassino no mesmo homem, mas depois de um tempo soube que viu mais fundo em minha alma do que eu imaginava. Apesar disso, estava de novo em meu lar. Por incrível que pareça, tudo estava perfeitamente como eu deixei.

Estava mais rico que antes e logo tratamos de erguer nossa casa e nosso futuro. Finalmente pude realizar o sonho de Beatriz: construir um jardim. Ela amava as flores, lírios e camélias. Tínhamos muito espaço para nossas flores, mas dentro de mim havia uma cratera ainda maior. Nada escapava a sensibilidade de Beatriz, ela sabia exatamente o que se passava. Mesmo assim, não disse uma palavra e, honestamente, Luís, não pude notar a tristeza que dela emanava. Sempre que a procurava estava sorridente e me recebia com fogo e com paixão.  Em uma noite quente de verão, se entregou a mim com o ardor de uma prostituta e a delicadeza de uma virgem. Chorava de prazer e medo.

Um ano depois do meu regresso, recebi uma nova carta do sul, mas não era do exército. Novamente, Beatriz me entregou o envelope, com naturalidade. A mensagem era simples, mas dolorosa: “Meu amor, preciso de você, volte. Estou sucumbindo e vou morrer”. Escondi o papel em um velho baú de madeira que só eu tinha a chave. Aquele vazio de antes, novamente tomou conta de mim. Precisava urgentemente retornar! Fui tomado pela dor e por lembranças que julgava sepultadas há muito.

Mergulhei em um passado de beijos molhados e prazer indescritível com outra mulher. Havia mentido para mim mesmo: quatro anos se passaram e aquela pele, aquele sorriso, aquele cheiro ainda estavam em mim, como uma mancha que o sabão não é capaz de remover. Carolina era prisioneira de guerra. Nossa missão era simples: executar o grupo dela e descartar os cadáveres o mais longe possível e fugir das trincheiras. Não sei dizer quantas almas meu rifle entregou aos céus. Carolina era a última da fila da morte. Viu centenas serem abatidos sem piedade por mim.

Quando apontei o rifle e fitei aqueles olhos, uma força estranha tomou conta de mim e não pude atirar. As lágrimas dela tocavam o chão encharcado de sangue que eu mesmo havia derramado em nome de uma guerra idiota. Não pensei duas vezes e fugi, levando Carolina comigo. Havia me esquecido de Beatriz e todo o resto. Só pensava naquela mulher misteriosa com cheiro de açúcar mascavo. Foram meses possuindo aquela coisa pequenina, delicada como um botão de flor. Não sabia nada sobre ela; quem era e de onde vinha, nada disso era importante. Nosso amor era tudo, tudo! Sabe, Luís, era um amor delicado que me aquecia e fazia de mim outro homem. Mais uma vez me iludi pensando que o amor era simples.

Fui dado como morto pelo regimento. O meu retorno ao grupo foi encarado com espanto, surpresa e certa desconfiança. Havia perdido a noção do tempo e dos dias, não soube dizer quando deixei Carolina. Desisti daquela aventura amorosa depois de encontrar, no meio do mato, um lírio branco insistindo em sobreviver naquela terra fria e maltratada. O rosto de Beatriz me surgiu como uma epifania. Beijei a amante parti para encontrar os outros; felizmente não haviam comunicado a Beatriz minha falsa morte.

Quando voltei para casa, senti que parte de mim ficou naquele lugar. Não conseguia parar de pensar nos beijos e nos abraços de Carolina; da forma doce e sutil de como fazíamos amor. A lembrança me torturou por meses. A chegada daquela carta, então, trouxe tudo de volta. Era como se minha amante estivesse de novo entre mim e o paredão de execução. Aqueles olhos piedosos de novo me pedindo compaixão…

Um dia depois de ter recebido a carta, procurei Madame Lô e mostrei a ela a mensagem. Era uma mulher fina, de traços elegantes e extremamente rica. Apenas homens milionários tinham dinheiro suficiente para terem com ela meia hora de prazer. Diziam que era russa, mas a verdade é que ninguém jamais soube de onde veio. Ficou rica vendendo o próprio corpo e de outras mulheres. Seu lupanário era um espetáculo de elegância e luxo. Eu a conheci antes mesmo de Beatriz. Digamos que tínhamos um passado juntos.

Era uma mulher articulada e com muitos contatos que poderiam me levar de volta à Carolina. Estava obcecado por ela; não pensava em outra coisa. Quando a procurei, reagiu ríspida:

― Esqueça, rapaz.

― Como assim? ― Atalhei sem entender.

― Essa mulher. Esqueça-se dela e nunca mais volte para lá.

Não segui o conselho dela e em menos de cinco dias estava de volta ao sul. Tudo era muito diferente de antes. A paz havia chegado por lá, mas o povo ainda estava assustado e arredio. Procurei Carolina pelos quatro cantos. Encontrei a cabana onde passamos nossos dias de prazer e amor, mas não havia sobrado quase nada; estava completamente destruída. Tudo que pude levar de lá foi um pedaço de seda vermelho, do robe de chambre que ela usava quase sempre. Ainda tinha o cheiro dela. Voltei para casa pensando na morte e na tristeza de perder o amor da minha vida.

Beatriz me recebeu com olhos felizes, mas que escondiam alguma coisa. Temia que ela descobrisse meu impuro segredo e me abandonasse. Queria dizer a verdade, queria contar algo para alguém, mas não tive coragem. Fiz uma nova promessa para mim mesmo e decidi que finalmente o jardim de Beatriz ficaria pronto, do jeito que ela sempre sonhou.

Foram longos meses de trabalho e muita felicidade. Pena que, mais uma vez, não duraria muito. Você já estava mocinho naquela época, já dominava a arte da jardinagem, mas ainda era muito fraco para o serviço pesado. Seu pai era quem nos ajudava com tudo por aqui. Você está quase tão hábil quanto ele. Bom, mas voltando a nossa conversa, foi naquela época que descobrimos Beatriz com carcinoma. Os médicos deram a ela menos de três meses de vida. O sofrimento foi terrível.

Pouco antes de morrer, recebi uma nova carta de Carolina que dizia o seguinte:

Meu amor, é pena que o tempo não volte. Aquilo que vivemos ficará na eternidade. Está sentindo? Estou do seu lado agora. Minhas mãos percorrem seus braços e sobem lentamente, até encontrarem seu rosto. Meus lábios, quentes e molhados, procuram os seus com fome e sede. Sua barba grossa me faz arrepiar, quando me roçam o pescoço. Nossos corpos estão unidos, você aperta meus seios e respiro fundo de prazer. Estou com medo, mas quero você…

É tempo de dizer adeus, meu amor. Guarde tudo de mim na sua lembrança, mas não hesite em me esquecer quando uma nova paixão lhe bater no peito. Esta mulher levará na pele tudo de você. Não me procure mais… Adeus!!!

Beatriz morreu pouco depois da chegada da carta. Ainda enlutado, mas consumido pela curiosidade, procurei novamente por Madame Lô. Soube que se mudara para longe e ninguém tinha o endereço. Não medi esforços até encontrá-la. Foi em Paris, em um palácio elegante, que aquela cafetina bela e sarcástica se escondia.

― Como me encontrou?

― Preciso que me leve à Carolina. Eu imploro.

― Há muitas coisas que você não sabe.

― Beatriz está morta.

― A carta que recebeu era de Beatriz; escrevi por ela. Me procurou pouco antes de você. Até hoje não me esqueço da voz dela enquanto dizia aquelas palavras. Sabia de tudo, de suas aventuras e muito mais. No entanto, mais do que isso, Beatriz queria ser aquela mulher, queria ser sua amante. Por favor, não volte mais aqui.

Depois daquela conversa finalmente compreendi o que Beatriz viu em mim depois da guerra, Luís. Agora, só me resta este jardim onde nós dois estamos. Lembra-se da promessa que fez a ela? A promessa de cuidar dos lírios. Cumpra, pois tudo que me restou dela foi lembrança do som da chuva, o vento balançando as flores do ipê amarelo, gargalhadas de criança e a pele… sua pele, e aquele sorriso…

FIM…

Não se pode explicar o amor

Se alguém consegue explicar os motivos pelos quais ama alguém, com certeza amor não é. Amor é irracional, é ilógico, é delírio puro e dilacerante; não se pode explicar o amor. Deixem a lógica para os físicos, químicos, matemáticos e todos aqueles que são escravos da exatidão. Sentimento não é mensurável, não é tributável, não é contabilizado no conjunto das coisas da vida. Não existe equação para o amor e, mesmo que houvesse, o resultado com certeza seria uma dízima periódica robusta e fria. Esqueçam as fórmulas e os sistemas, nada disso funciona com a maior das forças naturais. Amar é simplesmente amar!

Sempre que toco neste assunto (amor), me lembro da canção de um amigo, que diz: “O amor é forte como a morte/ Que transcende todos os temores que tentam me privar de você”. A reflexão parte de um conceito bíblico e, para os apaixonados, faz todo o sentido prático. A morte é inevitável para todos. Há quem diga que a morte é uma das poucas coisas justas nesta terra; todos morreremos, jovens, velhos; ricos, pobres; pretos e brancos…É impossível escapar dela. O que quero dizer é que a morte é uma das forças mais poderosas (que irônico!) da vida! E por isso compará-la ao amor é, talvez, a analogia perfeita.

O amor, por sua vez, nem sempre é justo. Então para que serve o amor, se nem todos conseguem amar? Gosto de pensar que o amor é antítese da morte. Com ele, a longa caminhada da vida se torna mais simples, mais prazerosa e quente. Se você já amou de verdade, sabe do que estou falando. Como dizer isso de forma compreensível e lógica? Impossível. Só concebo amor como o inconfessável para os homens, como a incerteza da alma. Quem ama nunca sabe por que. Se sabe, está mentindo, nega a essência magna desse Deus! Sim, o amor para mim é um Deus! E como tal, pode te consagrar ou te amaldiçoar para todo o sempre, com a justiça do divino!

Às vezes amar dá medo, mas se entregue! Será arrebatamento total, como uma explosão! Perca o controle, pule sem medo: o amor é um despenhadeiro! Amar é como voar, sim como voar! Os pássaros aprendem a voar se jogando dos mais altos lugares. Acha que eles não se amedrontam? Acha que eles refugam? Sim, mas apesar disso eles vão. No jardim aqui de casa há um ninho de pardais. Inicialmente, eram três filhotes, hoje só sobrou um, na verdade uma. Batizei a sobrevivente de Luna.

Era sábado, cinco e pouco da manhã, mas o sol já estava claro, acordei e ouvi uma agitação estranha na macieira. Confesso que não dei a menor pelota para o barulho, no entanto, alguma coisa me fez levantar e ir até a cozinha. Procurei por café, mas não tinha. Fui ao armário, apanhei pó, o bule, o coador e fui até a pia para lavar o vasilhame. Quando olhei para fora, lá estava Luna e sua mãe em uma curiosa agonia. Pareciam discutir; gozado. Na minha cabeça as duas discutiam, algo mais ou menos assim:

― Está na hora, Luna!

― Eu tenho medo, muito medo!

― Precisa ir, Luna, só você pode encarar o vento!

Voltei do imaginário, quando dei por mim, Luna já estava voando. Foi meio desajeitado, batendo nas plantas, mas logo ela chegou ao chão. Depois levantou novo voo e voltou para o ninho. Uma cena bonita. Quando vi, pensei o mesmo sobre o amor. Sim, o amor é assim!

Mas é preciso uma advertência: para voar ou amar é preciso estar preparado! É preciso sentir o momento! Assim como um pássaro tenta voo sem ter formado completamente as assas, não se pode amar sem ter a certeza que seu corpo, mente e espirito estejam em comunhão. Amar não é para tolos, exige experiência. Amar assim é o mesmo que tentar sair do ninho sem assas: é um salto sem volta no abismo. A queda mata! Não tenho mais o que dizer sobre o amor, afinal de contas, o amor é inexplicável! Não explique o amor a ninguém, nem crie expectativas sobre ele. Apenas sinta e se entregue. Quando é amor, o sentimento vai ser diferente!

 

 

 

 

 

Ame alguém digno de comer metade da sua coxinha

“Vovó, quando a gente sabe que é amor de verdade? ” Confesso que a pergunta não me pegou de surpresa; Clarissa vem de uma família de artistas e o romantismo é comum para ela. O irmão mais velho, Robertinho, de 14 anos, já mandou flores, já fez poemas e declarações acaloradas para uma menina do colégio. É bonitinho o amor de criança. A mãe não permite que namorem (e concordo com ela), mas acho legal que aprendam desde cedo a cultivar o lado sadio do amor.

A pergunta foi direcionada para minha tia, que é avó de Clarissa. Estávamos na cozinha. A pequena fez cara de sofreguidão e suspirou como naqueles filmes de amor dos anos 70, onde a mocinha se derrete por um ato heroico do mocinho. Fiz cara de riso e continue lendo Nelson Rodrigues como se nada tivesse acontecido. Lúcia (minha tia e avó de Clarissa) soltou uma gargalhada tremenda e me jogou na fogueira: “― Não sei; pergunte ao Ezequiel, ele entende do assunto.”

Fitei minha titia por sobre o livro com olhar homicida e senti o coração disparar. Nunca pensei ser tão difícil encarar uma criança curiosa. Clarissa tem sete anos, mas seus olhinhos tinham sede de uma resposta que pudesse mudar para sempre sua vida. Imaginei, por alguns segundos, a garota como minha filha; foi bizarro. Um dia ela perguntou ao pai dela, Roberto Carlos, que é músico e escritor, “como os bebês vinham ao mundo”. Senti a garganta gelar, não por achar a pergunta um tabu, ou caretice da minha parte, mas sim por, no lugar dele, não saber o que dizer. O cara foi mestre: disse que era tudo graças ao amor dele pela mãe dela. Explicou que, quando se ama muito alguém, a força da paixão faz nascer uma nova vida, como a soma de duas forças poderosas, que geram algo ainda melhor e mais poderoso. “― Que nem quando a gente soma 2+2 e dá 4, papá?”, perguntou a guria curiosa. Ele sorriu e disse que sim. Depois dessa aula poética sobre soma de amores e tudo mais, explicou o processo, o sexo. Ela reagiu bem, Roberto foi didático e não deu margem para futuros embaraços.

Viajei e Clarissa me puxou de volta para a cozinha e para a fatídica dúvida: “― Quando a gente sabe que é amor de verdade, tio Zequinha?”. A menina sempre me chamou assim, de Zequinha, aprendeu com meus amigos. Como eu queria ser pai para sair daquela situação e responder Clarissa sem traumatizá-la ou vender-lhe uma falsa ilusão. Que difícil é ser pai! Foi a primeira vez que tremi nas bases e morri de medo de ter um filho, embora a paternidade nunca, ou pelo menos raramente, ocupou meus pensamentos.

Queria responder com a literatura, pensei em Goethe. “Bom, Clarissa, amor de verdade é quando você é capaz de tirar a própria vida em nome daquele que é dono do seu coração, assim como fez Werther.” Descartei a resposta antes que ela me saísse pela boca. Estava convencido de que meus autores favoritos teriam a resposta para a pequena, mas minha influência trágica, como Lúcio Cardoso, Nelson Rodrigues, Nabokov e outros não pareciam ter respostas sobre o amor para crianças. Sabia que, no futuro, Clarissa sofreria por amor. Todos sofrem por amor, não é mesmo? Até essa certeza se transformou em dúvida naquele momento. Estava literalmente atônito. O rosto apreensivo de Clarissa e a ansiedade atômica de criança provocavam em mim uma agonia profunda. No ápice do meu desespero, comecei a rir. “― Bobão, eu to falando sério, me responde! A vovó disse que você entende do assunto.” Voltei meu olhar homicida para tia Lúcia, que deixava a cozinha em direção ao forno, que fica nos fundos da casa. Não tinha escapatória, era responder ou responder. Bom, então fiz o que todo jornalista faz: perguntas!

― Por que você quer saber se é amor de verdade, Clarissa?

Dexaôticontar. Acho que apaixonada pelo Pedrinho, lá da escola, Zequinha. E queria saber se é de verdade. A mamãe falou que a gente só ama uma vez e sabe quando é de verdade, mas eu não sei, ninguém me ensinou.

― Isso ninguém nos ensina, Clarissa.

― Como vou aprender então? A vida é muito difícil! Amar é muito chato; não quero amar mais! E se eu não acertar nunca? ― Talvez, Clarissa, a gente não acerte nunca, mas você não precisa saber disso agora, pensei com meus botões.

― Você acha que é de verdade com esse tal de Pedrinho, Clarissa?

― Eu acho, mas não sei, sabe?!

― Você sente, o quê, Clarissa?

― Ah, quando eu o vejo na escola, me dá vontade de dividir minha coxinha com ele. Eu sei que amo coxinha, o senhor e a vovó sabem disso, é meu lanche mais favorito. Então, se eu quero dividir o que eu mais com ele, deve ser amor, né, Zequinha?

Tia Lúcia voltou à cozinha depois de me deixar em apuros com Clarissa. Trouxe alguns quitutes que a menina e eu devoramos feito dois porcos no chiqueiro. Acho que a fome (ou a vontade de comer) é maior que o amor. Pedrinho, a paixão e a vontade de dividir tinha tudo ido embora e a garotinha nem se lembrava mais de nada naquele momento. Comeu e sorriu. Quando pensei que estava livre, ela voltou:

― E aí, Zequinha, é amor ou não?

― Pensando bem, Clarissa, é melhor mesmo amar alguém que a gente queria dividir uma coxinha. Acho que é amor sim, Clarissa. Desde quando você divide sua coxinha com ele?

― Até hoje nunca, né, Zequinha! Eu disse que queria dividir, não que dividia. Não vou dividir o que eu mais amo com a pessoa errada, vai que não é ele?!

― Menina esperta!

A mãe da pequetucha me salvou! Apanhou a garota e as duas foram embora, de volta para a casa. Quando ela foi embora, fiquei pensando: talvez seja melhor mesmo amar alguém com quem a gente gostaria de dividir nossa coxinha. E o mais sábio Clarissa me ensinou: não se pode dividir o amor (ou a coxinha) com qualquer um. Vai que não é a pessoa certa? Se é que isso de pessoa certa existe. Melhor não tentar entender. Nelson Rodrigues me aguarda…

FIM…