Água (Homenagem às Morenas)

Amar a dama com cabelos cor de madrugada
É viver docemente condenado entre a luz e a espada.
É lembrar o nascer de uma estrela sempre que ela sorri
Mas, em sua ausência, esquecer-se de tudo e de si.
Além disso, é estar ciente da nulidade das defesas,
Saber da beleza que é ter mais dúvidas que certezas.
Ela é tantas, que a cada encontro será nova sob o véu,
E ti caberá deixar-se levar pelos humores em seu céu.
Quando ela for chuva, tu serás inundado;
Quando ela for neve, tu estarás a perigo;
Quando ela for granizo, tu não terás abrigo;
Mas quando ela for um céu estrelado, meu amigo,
Tu serás dos homens o mais abençoado.
Àquele que ama a dama dos fios cor de noite
Por fim dou um conselho, para que não se coite:
É ali, no escuro daquelas madeixas, a morada
De mais perigos que qualquer um saberia dizer.
Mas, coragem bom amigo!, que uma vez enamorada,
Ela é capaz de lhe embrulhar uma alvorada de prazer.
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O Pintor

De início, todo meu pintar era vermelho,
Os pincéis riscavam gritos de alerta
Como se mudos, pudessem dar conselho.
E o quadro era apenas uma feriada aberta.

Então – paulatino – vi o amarelo,
Pigmento das vestes da incerteza.
Cada pincelada, um raio, um elo
De luz, que tornava a tela mais acesa.

Por fim, ao esmeralda me atrevi, e fui além:
Esbocei-nos todo um mar verdejante
Para que seja a cor da esperança também
A matiz daquilo que nos guia adiante.

E ainda que haja em minha paleta tanta cor,
À realidade parece infiel a minha aquarela.
Pois ainda não se viu pincel ou amor
Que possa ilustrar o meu querer por ela.

Soneto #17

Pudesse eu um dia morar em teu rosto,
E sob a luz dos teus olhos despertar!
Caminhar por tuas maçãs para atestar
Que ali toda felicidade fez posto.

Me perder na cascata dos teus cabelos
E nela deixar tudo que for dor se ir.
Cada um dos teus sinais decorar, e tê-los
Como minhas estrelas no céu a luzir.

Observar as lindas linhas de tua boca
Traçarem este sorriso delicado,
Que preenche cada canto de minh’alma oca.

Todos os meus ais, eu deixaria de lado
E trocaria o maior palácio com gosto,
Pudesse eu um dia morar em teu rosto.

 

A sereia

Lá estão os restos da embarcação
Que a mando de seu Capitão,
Velou perto demais dos perigos.
Diz a lenda que, cruzando os mares,
Testemunhou este Capitão encantos mil.
Entretanto, nada do que viu faria pares
Àquela Sereia, feita de tudo que é belo e vil.
Que beleza e vilania são faces da mesma poesia.
À sereia, o Capitão entregou o leme,
As velas e de popa à proa toda sua nau,
E entregou a si ao ouvir aquele canto virginal.
Sua luneta apontava para o risco que se teme;
Mas a bússola, para ela: o Norte é o que se ama.
E por uma noite, ele teve o mar inteiro em cama.
Quando a madrugada vestiu-se de alvorada
Satisfeita em si, a Sereia seguiu sua jornada.
Deixando um homem e seu barco, ambos furados.
Os mastros, tombados; no casco, um corte interno;
E o Capitão, vendo em seu convés o mar de inverno,
Soube que o barco ferido não veria o próximo estio.
E nem ele, pois o Capitão deve afundar com seu navio.

A Lua

Oh, astro cor de prata!
Ah, sol dos que não dormem!
Apareça, faça-se à vista
Que por ti clama teu homem
Surja e dissolva as nuvens assim
Que vagam pela terra, e em mim.
Ilumine os belos campos de Pã,
E faça de mim teu Chopin!
Que eu componha a ti,
Nestes momentos oportunos,
Um sem-número de noturnos
Guiado somente pela chama
Que irrompe em mim e clama
Por tua pálida pele pura.
E na falta de melhor jura,
Dê a ti meu coração, bela dama.
A noite, tendo ela mil estrelas,
Sem a tua face a acendê-las, é só.
E eu, que canto a ti em romaria, ao vê-la
Não trocaria minha sorte pela de um Faraó.
 

Soneto #16

Tenhamos uma conversa, nós dois.
Que nossas diferenças fiquem no depois,
E agora, sobre ela falemos um momento.
Ela, que desvela as sombras do firmamento.
A ti pergunto, com sinceridade,
Que é que fizestes a esta menina?
Pois há em seu rosto uma tal bondade
Que apequena deste mundo qualquer sina.
Sim, eu sei, não nos falamos com freqüência,
E acredito isto ser a consequência
Da minha descrença em tua lei e régua.
Mas proponho, só desta vez, uma trégua:
Por acordar e vê-la ao meu lado,
Agradeço. Por ser dela, Deus, obrigado.

Soneto #15

Se em tirania, os Deuses algum dia
Tirarem-me a fala, ainda sem voz
Eu diria os versos que em melodia
E tanto sentimento escrevo a vós.

Se privam-me das mãos para compôr,
Semelhante efeito há de acontecer.
Ainda que os membros amputassem-me em dor
Jamais impediriam-me de lhe escrever.

Só a ti, expor o segredo me atrevo:
São meus olhos autores do que escrevo,
Testemunhas fiéis de tudo que senti.

Quando têm a sorte de estar em ti,
Como dois poetas tocados pela alegria,
Meus olhos a ti dedicam uma elegia.