A sereia

Lá estão os restos da embarcação
Que a mando de seu Capitão,
Velou perto demais dos perigos.
Diz a lenda que, cruzando os mares,
Testemunhou este Capitão encantos mil.
Entretanto, nada do que viu faria pares
Àquela Sereia, feita de tudo que é belo e vil.
Que beleza e vilania são faces da mesma poesia.
À sereia, o Capitão entregou o leme,
As velas e de popa à proa toda sua nau,
E entregou a si ao ouvir aquele canto virginal.
Sua luneta apontava para o risco que se teme;
Mas a bússola, para ela: o Norte é o que se ama.
E por uma noite, ele teve o mar inteiro em cama.
Quando a madrugada vestiu-se de alvorada
Satisfeita em si, a Sereia seguiu sua jornada.
Deixando um homem e seu barco, ambos furados.
Os mastros, tombados; no casco, um corte interno;
E o Capitão, vendo em seu convés o mar de inverno,
Soube que o barco ferido não veria o próximo estio.
E nem ele, pois o Capitão deve afundar com seu navio.

A Lua

Oh, astro cor de prata!
Ah, sol dos que não dormem!
Apareça, faça-se à vista
Que por ti clama teu homem
Surja e dissolva as nuvens assim
Que vagam pela terra, e em mim.
Ilumine os belos campos de Pã,
E faça de mim teu Chopin!
Que eu componha a ti,
Nestes momentos oportunos,
Um sem-número de noturnos
Guiado somente pela chama
Que irrompe em mim e clama
Por tua pálida pele pura.
E na falta de melhor jura,
Dê a ti meu coração, bela dama.
A noite, tendo ela mil estrelas,
Sem a tua face a acendê-las, é só.
E eu, que canto a ti em romaria, ao vê-la
Não trocaria minha sorte pela de um Faraó.
 

Soneto #16

Tenhamos uma conversa, nós dois.
Que nossas diferenças fiquem no depois,
E agora, sobre ela falemos um momento.
Ela, que desvela as sombras do firmamento.
A ti pergunto, com sinceridade,
Que é que fizestes a esta menina?
Pois há em seu rosto uma tal bondade
Que apequena deste mundo qualquer sina.
Sim, eu sei, não nos falamos com freqüência,
E acredito isto ser a consequência
Da minha descrença em tua lei e régua.
Mas proponho, só desta vez, uma trégua:
Por acordar e vê-la ao meu lado,
Agradeço. Por ser dela, Deus, obrigado.

Soneto #15

Se em tirania, os Deuses algum dia
Tirarem-me a fala, ainda sem voz
Eu diria os versos que em melodia
E tanto sentimento escrevo a vós.

Se privam-me das mãos para compôr,
Semelhante efeito há de acontecer.
Ainda que os membros amputassem-me em dor
Jamais impediriam-me de lhe escrever.

Só a ti, expor o segredo me atrevo:
São meus olhos autores do que escrevo,
Testemunhas fiéis de tudo que senti.

Quando têm a sorte de estar em ti,
Como dois poetas tocados pela alegria,
Meus olhos a ti dedicam uma elegia.

A vampira

Que venha a noite, não o dia
Prefiro o som do rouxinol
Do que a voz da cotovia
Que o canto dele anuncia
Orgulhoso a morte do Sol

E meu peito bate no compasso
Do pêndulo baço que se arrasta
Vem! Vem que o ar já não me basta
E tua demora torna o respirar escasso

Ah, doce vampira! Quero me perder
Na noite que há em teus olhos,
Caminhar pela estrada de espólios
Que é o teu corpo. Em ti estar e ser.

Meu coração já é tua propriedade
Então, entrego aos teus lábios minh’alma.
Ah, não tenha calma! Mate-me com teu beijo,
Pois desejo ser condenado já pela eternidade
Se o contrário for viver com esta saudade.

Vermelho

Há quem veja a cor como sinal de alerta
Ou a enxergue com embevecida vontade
A mim, nenhuma das visões parece certa
Pois sempre tive no vermelho a cor da verdade

Vermelhas são tuas maçãs e tuas madeixas
E a cor do céu que conheci na tua boca permitido
Vermelho é o estado em que deixas
Após cada toque, cada pecado cometido.

Vermelho é o quadro que batizamos “Amor”
E se dele apenas restar a moldura sem finalidade
Pouco importa pois foi pintado com nosso ardor.
Vermelho então será o tom da minha saudade.

Dizem ser luxúria, desejo ou mesmo ira,
Enganam-se estas opiniões e conselhos.
Pois de que modo esta cor à Verdade não se atira
Como reflexo exato numa sala de espelhos,
Se todo o mundo parece girar em mentira
Quando longe destes teus belos lábios vermelhos?

O Desafio

Desdenho de ti, Destino, das estrelas e da sorte.
Desista de por fim, que é inútil a tentativa,
À felicidade por mim e por ela construída.
Alta é a tua vontade, mas maior é o nosso porte.

Levante então, Destino invejoso, os obstáculos!
Tire-nos o apoio, chute nossos báculos.
Tu podes, sim, separar-nos na geografia
Mas jamais conseguiria, no fim, ser vitorioso.
Que de mil Destinos, o amor é mais ditoso.

Desafio a ti, Destino sem memórias!
Como Romeu, desafio a vós, estrelas!
E a ela dou todas as minhas histórias.
Dure o nosso amor uma vida de dedicatórias,
Ou apenas o tempo que ela quiser lê-las.

À Psiquê

A ti clamo, bela deusa! Estou à tua mercê!
Que a tua presença é a luz que recorro
Nestes tempos de tão necessário socorro.
Por tal, ouve a este mortal, doce Psiquê.
Não há um só templo erguido em teu nome,
Mas vives em cada suspiro que consome
De êxtase os apaixonados desta terra.
Então, ajuda a este soldado sem guerra.
Tu que ensinou o próprio Amor a amar,
Que é das deidades, a mais humana!
Mostre-me novamente como sonhar
Pois vivo farto da realidade cotidiana.
Dê-me a ilusão de um amor por vir,
Ou a dor de um não acontecido.
Mas livra-me a alma deste não-sentir,
Que torna inútil a jornada e o sentido.
Quero antes amar e ter o coração em cacos feito,
Do que carregar este sólido vazio em meu peito.

Os Teus Olhos

Teus olhos são estrelas-guias
Gêmeas e de igual grandeza.
São fiéis espelhos da rara beleza
Que há entre o cinza destes dias
Teus olhos são o farol na tempestade,
O que me guia através do revolto mar.
Teus olhos são a única verdade
A qual eu me atrevo a acreditar.
Neles expurgam-se minhas tão impuras
Falhas e me torno o mais terso mortal.
Teus olhos lumiam minhas noites escuras,
E sequer precisam ser claros para tal.
Nada pode-se comparar ao seu encanto
E, portanto, são inúteis os versos neste papel .
Entretanto, devo dizer que o próprio céu,
– Em inveja e covardia sem tamanhos –
Pintou-se de azul só para não ter de competir
Com o teu par de olhos castanhos

Soneto da Primavera

Quando todo o meu jardim é frio
E não há mais em mim qualquer brio,
Em pensamentos a trago para perto
Ela, que torna luz tudo quanto é incerto.
E como se fosse a estação das flores,
Ela faz desabrochar os meus amores
E florescer cada semente de sonho
Escondida em meu peito tristonho.
Ela é o calor além dos invernos.
Sequencia eterna de momentos eternos
Que ao seu toque faz tudo mais brilhante.
Aquele que falou da Primavera
Sem antes ter visto o teu semblante,
Sem dúvidas, falou sem saber o que era.