Soneto #19

Somente aquele que jamais amou
Dirá haver no amor qualquer escolha.
Opção não há, toda certeza lhe dou,
Para que este sentimento se encolha.
Oh não! Uma vez tomado, o coração
Mesmo em teu peito, baterá por ela.
Haverá medo, desespero não,
Quando se entregar à coisa tão bela!
Do meu sentir és a dona, donzela;
Também são teus os versos nesta folha.
À ti minhas palavras, pena e vela,
E este meu amor, que dou a ti sem escolha.
E ainda que escolha fosse, não dever,
Por amar-te eu optaria, e com prazer.
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A Razão

Fosse eu enumerar as razões
Por ter por ti me enamorado,
Diria que és a razão destas orações;
E também o motivo de meu pecado.
Diria que és o mundo que tenho comigo,
Bem como a saudade que deixo pra trás.
Que és meu escudo e meu abrigo
Contra toda a tristeza contumaz.
Que és minha tatuagem, minha cicatriz,
e meu maior tesouro de batalha.
Que és minha noiva e minha meretriz,
Minha vida e meu tecido de mortalha.
Diria ainda que és o que eu sempre quis,
E tudo que jamais fui capaz de imaginar.
Que és deste mundo a mais bela matiz
Capaz de fazer um cego se encantar.
Por seres quem és, em simples fim
Eu resumiria. Pois não cabe mais a mim,
Senão agradecer a imensa honraria
Que é levar a vida em tua companhia.

Soneto #20

Ele sentia o acabar da jornada
Que tanto o fez questionar sua fé.
Trazendo a certeza já cansada
Seguia assim o cavaleiro: de pé.
Era indiferente ao escudo rachado
E à cota que perdera um elo,
Pois seus temores teriam finado
Ao salvar a princesa do castelo.
Vencendo estrada e muro lá ele chegou
Mas, oh surpresa!, vazio o forte encontrou.
Sem donzela; um espelho em seu lugar.
O herói, lá refletido, a pensar
Atinou que tanto caminhou a esmo,
Apenas p’ra salvar a si mesmo.

Coração Espartano

Ouço os passos, o inimigo se aproxima.
Vejo poucos companheiros nas fileiras;
Tenho comigo um escudo feito rima,
E minha lança aponta para as estrelas.
De súbito as hordas de horror irrompem
Contra nosso batalhão já batido,
Tombando os membros de nossa ordem:
Homens inteiros, mas de coração partido.
Mas nós, menos ainda do que poucos,
Erguendo o gasto estandarte dos loucos,
Marchando ao som que não se escuta
Vamos à luta, ainda que não haja cânticos.
Este, adversário, é o exército de românticos.
Temos no peito um coração espartano,
Portanto, tremei, mundo insano!
Que lutamos pelo Amor, em resistência;
E sem importar a fluência dos algozes vindo,
Nossos soldados seguirão resistindo.

A Pergunta

Perguntas como sei que estou apaixonado?
Respondo-lhe prontamente, e de bom grado.

 

Sei, pois quando a vi, naquele momento
O arco de Eros pareceu curto e sem jeito
E o próprio Deus lançou-se contra meu peito
Para dar conta de tanto sentimento.

 

Sei, pois tornei-me poeta por necessidade.
A necessidade de encontrar qualquer termo
Que ilustre quão este mundo estava enfermo
Antes que ela o tocasse com sua felicidade.

 

Perguntas como sei que estou apaixonado!
Se tenho o nome dela tatuado em cada artéria;
Se com ela, meus sonhos tornam-se matéria.

 

Se, nos olhos dela, vejo a luz de um altar decorado;
E ao seu lado, sou o homem que deveria ser,
Diga-me, como eu poderia não saber?

 

Fogo (Homenagem às Ruivas)

Quem amar a mulher dos fios cor de chama
Deve saber ter no peito mais que uma dama.
Deve ser, antes de qualquer coisa, um forte
Pois haverá muito perigo, e pouca sorte.
Precisará de coragem, digo com certeza.
Partirá numa jornada para entender sua beleza
E quando chegar ao fim, sozinho e sem escolta,
Encontrará o coração dela, e dele não há volta.
É dito que Lilith tinha os cabelos carmesim,
Afrodite, por artistas, também foi pintada assim;
Amá-la, por fim, será uma constante aventura
Que mistura a tentação do romântico ilibado
Com a salvação de um romance já maculado.
Quem amar a mulher dos cabelos de fogo,
Vai se queimar sobre a linha tênue do limiar.
Viverá suspenso entre a perdição e o salvar
E convenhamos, meu bom amigo, sem jogo:
Não há lugar melhor para um homem estar.

Terra (Homenagem às castanhas)

Se amares a donzela do fios cor de areia
Prepare-se, pois será tua última e primeira.
O céu haverá de abandonar seu azul de valor
Para pintar-se de sépia, novo tom do amor.
Muna-se de paciência, cuidado e atenção.
Ela carrega na cabeça a cor da indecisão,
Não pende para luz, para o escuro tampouco;
Uma balança que equilibra o são e o louco.
Reinos tombariam por seus destempérios
Somente para, na manhã seguinte surgirem
Ao seu comando, como altos impérios.
Por ela, tu serás da altura que eles atingem,
Mas isso lhe causará a mesma vertigem.
Uma vez perdido no deserto de seus cabelos,
Serás o zeloso guardião de um amor sem zelos,
Tendo ela como motivo de tuas preces e apelos.
Mas se amares a donzela das tranças cor de poente,
Terás a felicidade de uma era no momento presente.