Não sai da minha cabeça

Sou capaz de escrever um texto que demore horas para ser lido. Sou capaz de saltar de um muro alto pra salvar alguém que precise de ajuda, mesmo que eu sequer conheça essa pessoa. Sou capaz de vestir a camisa do rival no dia que ele perder de 5 a zero e sair na rua como se nada diferente tivesse acontecido. Eu sou capaz de, sei lá, mergulhar até o fundo do mar para puxar uma criança se afogando.
Pensando bem, eu sou capaz de muito mais do que eu posso imaginar. Sou capaz de apagar o fogo da tocha olímpica, se você pedir. Sou capaz de correr mais 5 quilômetros, mesmo depois de ter desmaiado de tanto correr. Sou capaz de me jogar no chão agora, só pra te fazer sorrir, mesmo que pareça um idiota na frente de todo mundo.
Só acho que eu não sou capaz de esperar um sábado pra ver alguém que eu podia ver na quarta-feira. Não sou capaz de fazer mal pra alguém que me faz tão bem. Não sou capaz de suportar o fato de te ver chorando. Não sou capaz de te deixar ir embora sem ter certeza que está tudo bem.
Sei que eu não sou um daqueles super-heróis de cinema. Eu sou só alguém incapaz de acreditar que encontrou uma pessoa tão legal de um jeito tão normal. Incapaz de aceitar que tu simplesmente possa escapar entre as minhas mãos, enquanto não sai da minha cabeça.
Então, lembra da vez que a gente se viu e tu teve vontade de ir embora? Ou lembra de algo que a gente viveu e tu não teve vontade de repetir? Essa pergunta eu sei que eu já te fiz e lembro que a resposta era um “não”. Um “não” que rima com a dificuldade de tirar da cabeça alguém que não sai do meu coração.

Deixa uma fresta aberta pra eu entrar

Não sinto que seja coerente a atitude que eu tomo agora. Não considero que seja a melhor opção, mas também não pedi nenhuma opinião. Só quero um minuto teu e umas cinco respostas, mesmo que a principal, lá no final, seja um “não”. Pode me olhar indiferente e dizer que o que eu falo não tem nada a ver com a gente.
Eu cansei de imaginar que entraria na fila preferencial da tua vida, como uma grávida na fila do banco. Foram tantas vezes que eu fiquei pra trás, puramente ludibriado. Foram tantas pizzas que eu deixei de te pagar. Tantas cervejas que a gente deixou de dividir. Tantos momentos que a gente deixou de compartilhar. Tantos nadas que tu parecia fazer questão de recusar.
E se eu ainda tô aqui falando contigo e fazendo questão de te mandar uma mensagem quilométrica às 2 horas da manhã de uma sexta-feira, é porque eu sinto falta do teu sorriso e porque sinto vontade de te deixar cada vez mais sorridente. Tenho saudade de te surpreender, de aparecer quando não espera e te dar dois abraços quando nem sabia que eu queria um.
Só deixa pra trás os medos que teve há dois ou três meses. Segue a luz que eu quero ser pra ti. Abre a janela, a porta e tira umas telhas do telhado da tua casa, para eu ter certeza que tu quer que eu entre.
Se tua ideia não for essa, só me liga dizendo que vai estar tudo fechado quando eu chegar. Depois me avisa se tua ideia mudar e tiver uma fresta me esperando. Eu vou aí, mesmo que seja depois de um mês, ou dois. Se precisar, até espero um ano.

Um beijo em cima da mesa

Quando eu te vejo olhando de longe, não sei se eu posso imaginar o que eu fico imaginando. Talvez seja delírio puro. Talvez seja saudade exposta, que me engana e me faz acreditar que tu quer um pouco mais do que só me olhar.
Sei que foi só uma vez. E sei que pra ti pode ter sido nada, mas te ver me olhando, de vez em quando, entre o reflexo de um vidro e outro, me faz lembrar de tudo. E pode parecer besteira, mas eu lembro dos detalhes. Lembro da música, da roupa, do lugar e de como lá eu queria ficar. E lembro que o final foi despedida.
Então, quando o fogo apaga, tu acende. Quando o calor passa, tu volta pra jogar lenha na lareira. Quando eu vou embora, tu me puxa pelo braço. Quando eu quero levantar, tu passa a perna e me joga no chão. E, no final das contas, é tu que tem alguém. Eu só tenho solidão.
Eu que durmo às 8 da noite, enquanto tu tá no bar tomando cerveja. Eu deitado na cama, tu com o copo na mesa. Eu respirando sozinho, tu respirando incerteza.
Quando eu chego, tu dispersa. Quando eu quero, desconversa. Quando tento, é mais bola pra fora, do que chute em gol. É mais tempo perdido, do que beijo desmedido. É mais aumento de saudade e diminuição de certeza. É mais distância, do que convite que acaba com beijo em cima da mesa.

Acha que tá pronta pra ficar?

Eu só quero uns 57 segundos do início do teu dia. Quero que atrase um pouco a mordida na tua torrada, ou que espere um pouco mais do que o normal para escovar os dentes. Deixa pra descascar a fruta depois que chegar no trabalho e lava a louça da pia na volta pra casa. E se perder a hora, te ajudo a encontrar ela depois que chegar no ponto final.
Só quero que saiba que não vou esconder meus defeitos contigo, como eu fiz com quem eu conheci antes de te conhecer. Não vou colocar uma máscara da tua cor preferida só para poder te ter. Não vou fingir ser o que eu não quero ser.
Tu vai perceber que eu não gosto de lavar a louça da pizza, que não jogo no lixo o papel amassado do chocolate que eu acabei de comer e que quase nunca limpo o farelo do pão que fica na mesa. Vai perceber que eu vou querer me jogar na cama quando tu quiser ir na festa da tua melhor amiga. Vai perceber que eu durmo até tarde quando quer levantar mais cedo e que eu não vou saber te dar coragem quando tiver com medo.
Eu vou ter que trabalhar no final de semana que quiser viajar. Vou ouvir música alta quando quiser ler o livro da faculdade. Vou virar de costas quando quiser conchinha. Vou querer água quando abrir o vinho. Vou rir da tua cara de brava e ficar bravo quando rir da minha. Vou contar piada quando quiser poesia. E, por incrível que pareça, vou querer ir no almoço de família na casa da tua tia Sofia.
Só não vou te contar que um dos meus defeitos agora é não querer mais te soltar, é não conseguir ficar sério quando tu faz careta, é não conseguir te deixar pra amanhã, é não querer dar tempo pra saudade, é querer acordar contigo toda manhã. E se agora eu perguntar, acha que tá pronta pra ficar?

Mais uma história de sorriso ausente

Ela sentiu saudade quando era tarde demais. E hoje, sabe o que ela faz? Ela chora no meu ombro e me conta como queria ter ele de novo. Ela pediu pra ir embora, mas não foi pra frente. Ficou pra trás. E tá tão atrás, que nem enxerga ele mais.
Tudo o que ela falava era nada com nada. E ao mesmo tempo, ela sentia tudo. Ela travava a fala um pouco antes de terminar cada frase. E travava de novo antes de começar a próxima. Ela só não deixava de falar por um segundo. Pra mim, era nada. Pra ela, era o fim do mundo.
Eu já tinha ouvido muito sobre teoria, mas a prática era novidade. E quando mais eu ouvia, mas ela falava sobre dores que não vem embaladas com prazo de validade. É chuva forte, com vento forte, com ar frio e com uma triste e infeliz cara de tempestade. Mas não era tempestade, era uma simples dor de saudade.
Resquícios de uma dor irreparável. Detalhes que não foram esquecidos. Momentos, histórias ou meros flashes do que não vai acontecer mais. São os nuncas, os tudos e os nadas. São poesia sem rima. E rimas sozinhas. É amor sem presença literal. É literatura sem a verdade escondida por trás da ficção. É a intenção sem ação. É pérola sem anel, colar, ou alguém para usar. É passado sem alegria, é presente sem uma presença que te deixe alegre.
E nas vezes que ele chegou perto, o coração disse pra ela falar, mas ela insistia em olhar de longe alguém que queria por perto. Não sei se foi por falta de coragem, ou por incerteza. Mas o certo é que ela perdeu tempo demais pensando que se acostumaria com a falta de alguém que ela queria presente. E hoje ela tem sorriso ausente e as lágrimas sinceras de um choro que não mente.

Ela quer ele ao lado e ele está de costas

Ele não aguenta mais estar com ela. E ela sabe que também não está mais aguentando. Juntos em corpo, separados em alma. Dividem a cama, a casa e os momentos em família. Comem na mesma mesa, assistem a mesma televisão e compartilham um mesmo sentimento: solidão. Juntos na presença física, mas sozinhos em coração. Corpo colado e mente distante. Ela cozinhando em casa, ele saindo com a amante.
Mantêm uma união de longo prazo com brigas, mas sem separação. Ele com um punho fechado batendo na mesa. Ela de cabeça baixa olhando aquilo e vivendo incerteza. Ele olha ela de cima, ela percebe que com ele acabou o clima. Ela quer a sua casa, ele quer que a casa dela seja a dele, mas que estar presente não seja necessidade.
Os dois têm um grande medo: a idade. São reféns do que os pais deles chamam de bons costumes. E esse bom costume é aceitar a companhia de quem só traz indiferença e infelicidade. É submissão total ao tradicional. É negação absoluta. É desistir da luta. É achar que está velho demais para ser diferente, é se render ao que dizem impossível: felicidade sem alguém pra dividir o teto.
Ela cansou de chorar escondido e chorou pra mãe, pro sobrinho e pro neto. Ela quer distância. Ele não diz que quer por pura arrogância.
– Procura a tua felicidade no teu lar, porque eu já estou feliz em outro lugar -, é o que ela disse em sonho.
E ela também sonhou que no meio de um desabafo falou que tinha cansado. Sonhou que ele tinha aceitado. E ela acordou na segunda-feira, falando de frente pra ele e vendo ele virar as costas, ao invés de ficar ao lado.

Reflexo do que eu nunca sonhei em ter

Te ver me inspira, me empolga, me fascina, me transborda. Te ver é a força que eu preciso pra levantar quando caio, e o impulso pra me fazer pular ainda mais alto no meio de um show bacana.
 
É bom te fazer sorrir, ainda mais assim, desse nosso jeito, sem chance de te fazer chorar.
 
Tu é tipo o beijo que me faz fechar os olhos. É tipo o cafuné que me faz olhar pro céu. É tipo a energia das ondas do mar. É tipo a brisa calma de uma madrugada no verão. Tipo o brilho, que brilha por si só. Tipo os sentimentos mais óbvios. É tipo o doce do mel. Tipo o “te amo” escrito no papel. Tipo a pessoa que faz acelerar qualquer coração.
 
Mas eu sei que tu também é tipo o anexo grande demais, que eu não vou conseguir carregar no meu e-mail. Tipo aquela história de areia demais pra uma viagem só com meu caminhão. E eu te digo que faria mais quantas viagens fossem necessárias, mas sei que não é isso que tu procura.
 
Tu procura viagens, sim, mas viagens que tu aproveite com as tuas próprias pernas, porque não precisa de caminhão nenhum pra te carregar.
 
Tu é tipo o significado do teu nome no hebraico. É a pessoa que age sem dar importância pra opinião alheia. É tipo o olho castanho que não sai da memória de alguém de olhos verdes. É tipo o cabelo que mudou de cor. É a voz que não mudou, mas parece sempre diferente. É a presença que me deixa com saudade. É a saudade que eu senti quando te vi mais uma vez. Tu é tudo que me transforma com cada detalhe do teu toque. Tu é tudo o que tu faz pra mim, mas faz melhor quando faz do teu jeito: com teu beijo, com teu abraço, com tuas histórias e com cada detalhe dos teus sorrisos.

Tu é o reflexo do que eu nunca sonhei em ter. Tu é o que te faz feliz, cada vez mais próxima de me deixar assim também.