Saudades do futuro

Eu sempre chamei de “patéticas”, as pessoas que diziam sentir saudade do futuro… Até encontrar você. Eu também não acreditava em destino, mas parece que até mesmo os ponteiros dos relógios se ajustaram por nós, como se uma linha invisível, nos amarasse, cada um em uma ponta, e nos puxasse para perto. A relação entre tempo e espaço também olhou para nós, e parece ter se readequado, e então, se apropriado de duas histórias. Linhas inteiras de causalismos. Efeito borboleta. Coincidências significativas. Sincronicidade. Como duas ondas, que se chocam e formam uma só. Elas viajam o oceano inteiro, por anos à fio, através de gerações, para chegarem na coordenada geográfica exata, no mesmo dia, no mesmo horário, em que até os segundos são os mesmos. E elas colidem, se chocam, formam uma só e voltam para o mar, iniciando novamente a busca de uma pela outra. Se há outra explicação melhor do que esta, eu desconheço.

Não vou começar a fazer contas, e tentar definir em exata precisão quantas vezes o meu coração foi quebrado, mas me parece que, de uma só vez, você reestabeleceu toda a ordem que foi perdida, e, como um desfibrilador, você fez com que eu me sentisse viva novamente. Porque a gente vive de pensar que o amor chega no momento perfeito, quando estamos em estado impecável, apenas esperando para que ele chegue… Bem, o amor chega quando bem entende. Aqui, ele chegou quando o meu coração parecia uma enorme e antiga ruína de guerra, cheio de buracos de balas e paredes derrubadas por bombas, com raízes de árvores o abraçando, que mais pareciam os templos de Ta Prohm e Ta Som, do complexo de Angkor, no Camboja. As minhas ruínas recebiam turistas, que fotografavam a beleza trágica do que um dia havia sido uma suntuosidade. Então, o amor me salvou; acabou com toda essa balbúrdia instaurada, reconstruiu os meus muros, cortou todas aquelas raízes de árvores enormes, e as transformou em móveis lindos. E, de certa forma, parece que eu fiz o mesmo com você. Eu, que sempre estive à mercê do teu caminho. Você, que sempre rondou a minha vida sem saber.

Dizem que o tempo é relativo, e eu só acreditei agora. Porque antes, o tempo parecia se arrastar, mas depois de você, cada segundo da sua ausência parecem várias eternidades que correm feito cavalos de corrida. E é por isso que a mais nova patética sou eu: porque eu sinto saudades de tudo que nós ainda não vivemos. Sinto saudades enormes do nosso futuro juntos. Sinto saudades de todas as viagens que vamos fazer, para todos os destinos que já escolhemos. Eu sinto saudades do futuro, desde que ele seja com você, desde que estejamos de mãos dadas, os seus olhos estejam me contando segredos e nossos abraços residam um no outro. O mundo acabou de se tornar minúsculo como um amendoim, e qualquer distância, por mais culpada que seja, acabou de se tornar um novo fator encorajador.

Vem aqui, me tira logo para dançar que o resto do mundo está esperando. Me tira logo para dançar, do seu jeito tão diferente do meu, que eu prometo, vou deixar que o mundo inteiro veja. Mas o faça depressa, porque eu já estou morrendo de saudades do próximo minuto, da próxima hora, dos próximos dias, anos… Eu já estou morrendo de saudades do nosso futuro, e de tudo aquilo que nós temos para viver, ver e conhecer, lado a lado.

As ondas que colidiram enquanto o destino era tecido, viajaram o oceano inteiro procurando uma pela outra, e, enfim, colidiram. A linha invisível do destino, finalmente se tornou laço.

O nosso futuro, enfim, chegou.

Antes que seja tarde

Quantas vezes a gente já deixou para depois, algo que poderia ter feito instantaneamente? Quantas palavras a gente abafou, porque achou que “dava tempo de falar mais tarde”? Quantos cafés quentes a gente tomou frio, ou simplesmente não tomou, porque tinha tanta coisa mais importante do que tomar o café enquanto estava quente, não é? E se a gente parar para pensar, há tanta xícara de café frio na nossa vida, que chega a ser vergonhoso. Porque é essa mania pecaminosa que o ser humano tem: a de misturar as importâncias, e pensar que uma pode ser colocada acima da outra, sem que algo fique para trás, sem que algo se perca, sem que algo se quebre, sem que alguém parta.

Antes que seja tarde, pare de ser idiota. Pare de dar muita importância à quem não mostra que é recíproco. O desgaste pode ser excessivo ao amar por dois, seja este amor, de amigo ou de amante. As suas noites sem dormir não vão voltar. O cansaço por caminhar demais, e por dois, não terá validade alguma. Vai ser apenas cansaço, no final das contas. Não há razão que justifique manter um relacionamento suicida.

Antes que seja tarde, diga de uma vez que você sente. Sabe, a pessoa que você ama, pode ser aquela que se vê em um relacionamento suicida, que ama e sofre por dois, e, enquanto você pensa se vale a pena, essa pessoa pode simplesmente ir embora. E aquela cena do metrô, que acontece em quase todos os filmes românticos, nem sempre é possível na vida real, sabia? Porque chega uma hora em que a gente cansa de carregar uma placa enorme, de neon, com a frase “o que falta em você, sou eu”, e é aí que a gente parte, e deixa um bilhete escrito “eu estava aqui o tempo todo, só você não viu”. Então a ficha cai: você perdeu a pessoa da sua vida, porque achou que ela estaria ali para sempre, e colocou tudo na frente. Colocou profissão, sonhos, objetivos, metas, dores, pesadelos, traumas… E de “espera mais um pouco” e “eu ainda não posso assumir nada agora, é um momento complicado”, você perde alguém que jamais poderá recuperar. Então, antes que seja tarde, passe a mão no telefone, vá até a pessoa, dê os seus pulos, faça o que for preciso, mas diga o que você sente. Essa cena dos filmes, ainda é possível. Amor é via de mão dupla, não deixe o amor da sua vida ir embora por mero egoísmo teu.

Antes que seja tarde, supere os finais dos seus relacionamentos. Viver no passado, é algo cruel demais consigo e com os outros, assim como comparar pessoas pode ser equivocado, e se privar de viver por ter medo dos traumas pode ser sufocante. Pense bem, quantas vezes por semana você pensa nos relacionamentos passados? Quantas vezes você visita os perfis de “pessoas antigas”? Quantas noites você já estragou falando da mesma coisa ou das mesmas pessoas? Então, antes que seja tarde, busque a superação dos relacionamentos e das pessoas. Deixe o preconceito de lado, e procure um psicólogo se necessário, mas pare de sofrer (e fazer os outros sofrerem junto) por algo que você não consegue deixar para trás. Saúde e inteligência emocional são urgentemente necessárias.

Antes que seja tarde, seja o amigo que você quer ter. Porque a gente cobra muito do outro, a gente exige uma amizade perfeita, mas nem sempre somos o amigo que queremos ter. Nem sempre damos o companheirismo que cobramos. Nem sempre somos tolerantes como exigimos do outro. Nem sempre perdoamos o outro como exigimos que ele nos perdoe. Nem sempre somos boa companhia, nem sempre somos o ânimo ou a luz do outro, e fazemos questão de receber a coisa toda. Não adianta querer ser cercado de gente linda e querida, quando se é um poço de azedume, desânimo e escuridão. A amizade, assim como o amor à dois, é via de mão dupla. Então lembre-se que, da mesma forma que nós precisamos do outro, o outro precisa de nós. Dê presença, dê carinho, dê bom humor, dê abraços e cuidados, dê um pouquinho de esforço e um pouquinho de si também, para variar, para fazer com que o outro veja que você também dá valor à esta (às vezes árdua) caminhada.

Antes que seja tarde, valorize a sua família. Valorize o esforço dos seus pais para fazer o melhor para você, porque por mais que este melhor não seja, aparentemente, o “melhor que há”, é o melhor que eles podem fazer agora, com os recursos que possuem e as ferramentas que têm em mãos… Você já pensou que, sendo assim, este, é mesmo “o melhor que há”? Provavelmente não. Então, antes que seja tarde, não vire as costas para isto, não vire as costas para os seus pais, que têm um amor incondicional por você, por mais que eles demonstrem de uma forma meio torta. E não se esqueça dos seus irmãos, e que, talvez, eles também achem você insuportável… Alguém tem que ceder, e não é vergonha nenhuma se você for aquele que dá o primeiro passo. Os nossos irmãos podem ser os nossos melhores amigos para a vida inteira, mesmo com a diferença de idade. Antes que seja tarde, valorize os seus tios. Os irmãos dos seus pais, podem ser mais do que apenas a nomenclatura de “tio”, que você vê duas vezes por ano, nas festas de família. Você pode se abrir com os seus tios também, e você pode encontrar neles, grandes amigos também… Basta que você queira. E antes que seja tarde, valorize os seus avós. Eles também tiveram a sua idade, viveram muito mais do que você, então não seja o imbecil que bate boca com a avó quando ela diz que você está sendo arrogante ou imprudente com a sua vida. Os tempos mudam, todo mundo sabe disso, mas a arrogância sempre será arrogância, a imprudência sempre será imprudência, a imbecilidade sempre será imbecilidade, e os avós sempre serão pessoas dignas do respeito que talvez você não tenha nem consigo. Respeite-os, ame-os, ouça as suas histórias, ouça todos os seus dizeres e ensinamentos… eles valem ouro, e, amanhã, talvez eles já sejam uma peça que não se pode valorar, porque os seus avós se foram. E aí? Então, antes que seja tarde, abrace os seus pais, os seus avós, os seus irmãos, os seus tios, e não se esqueça dos seus primos. Não existe família perfeita, porque nós não somos perfeitos. Não espere a perfeição para dar valor e amor.

Antes que seja tarde, perdoe e peça perdão. Discussão nenhuma vale a raiz de amargura que vem com a falta de perdão. Discussão nenhuma vale a prisão de alma, o nó de fel que se forma entre você e a outra pessoa. A leveza do perdão livre é muito melhor do que a prisão do nó de fel, que te torna uma pessoa extremamente crítica, insaciável, raivosa, arrogante, inflexível e infeliz. Muitas vezes, o outro já nos perdoou e já pediu perdão, mas nós é que não queremos dar o braço a torcer, e ficamos remoendo algo que já está mais do que liberado do outro lado. O outro segue livre, enquanto nós nos amarramos cada vez mais, tomamos uma dose de veneno à cada manhã, e acompanhamos cada passo que o outro dá, botamos defeito em tudo, e nos tornamos o mais rabugento de toda a existência humana. Gritamos que gostamos da solidão, mas por dentro tudo dói, porque o silêncio só, pode ser cruel demais, e gritar em nossos ouvidos tudo aquilo que nos magoa porque não perdoamos da boca pra dentro. Portanto, antes que seja tarde, dê liberdade e se faça livre. Talvez, o perdão seja o que falta para te fazer alcançar o sucesso que você almeja, enquanto está preso demais (em uma gaiola construída por você) para voar livre e o mais alto que puder.

Antes que seja tarde, se ame. Se resgate. Se conheça. Cuide da sua essência. Se olhe no espelho, e repita tudo o que você sempre quis ouvir das pessoas, e talvez seja uma vontade ou necessidade reprimida, não saciada. Olhe nos seus olhos, e diga que se ama, que você é linda(o), que você é importante, que você é brilhante, que você é capaz, que Deus te fez de maneira especial, que você merece ser feliz. Estas palavras, este “autoamor”, vão gerar a autoconfiança que te falta, ou restaurarão a autoconfiança que está quebrada por tantos motivos que só você sabe. Antes que seja tarde, se resgate. Você pode ser incrível, se confiar que pode.

Antes que seja tarde, pare de pensar que o outro vive para te atingir, ou que as atitudes do outro são para te diminuir, te alfinetar, te “cutucar” de alguma forma… O mundo não gira nem ao meu, e nem ao seu redor. Antes que seja tarde, desligue o seu celular e veja o sol se pôr, observe o céu, veja as primeiras estrelas nascerem, observe a lua e as constelações que surgirão ao anoitecer. A gente perde muito tempo olhando para todas as nossas telas, e se esquece de contemplar aquilo de belo que nos cerca diariamente. Além do mais, este exercício abaixa o nosso nariz empinado, e tira a nossa visão do próprio umbigo… Aos poucos, mas tira.

Antes que seja tarde, dê atenção ao seu cachorro, ao seu gato, ou seja lá qual for o seu animal de estimação. A gente vive achando lindo os vídeos de animais Facebook a fora, mas e os nossos companheirinhos? Eles podem ser tão autênticos quanto os dos vídeos, basta que recebam atenção e amor.

Antes que seja tarde, viva. Antes que seja tarde, diga que sente saudades, ligue, abrace. Antes que seja tarde, se faça presente. Antes que seja tarde, acarrete valor à sua existência, e das existências que te cercam. O depois pode não chegar, ou talvez até chegue, mas seja amargo, porque você não fez o que podia e como podia.

O relógio não para, e, na verdade, ele corre mais velozmente a cada segundo. Os dias não voltam, mas marcam para sempre. Tudo passa, tudo é finito. Não vá pensar nisso quando for tarde demais. Está ouvindo o “tic-tac”? Então é bom correr… antes que seja tarde.

Sem filtro

(Você pode ler este texto ouvindo “Live It Well”)

Um dos últimos shows em que eu fui, me assustou muito, e me fez abrir os olhos para algo muito importante: viver o momento, ao invés de capturá-lo, transformá-lo em InstaStorie, Snap, Live no Instagram e no Facebook, e depois, mais uma quantidade absurda de fotos sobre a mesma coisa, o mesmo lugar, a mesma experiência. Por que é que a gente precisa capturar tudo? Eu me assustei com os outros, mas também me assustei comigo, depois de chegar em casa, ver as 15 selfies que eu havia tirado com as minhas amigas, as 57 fotos do mesmo palco, as 5 Lives que eu fiz no Facebook, os 11 vídeos de músicas que eu amava… Mas eu não havia mergulhado em nenhum destes momentos. A minha música favorita tocou, e eu arranquei o celular do bolso pela centésima vez (!), para fazer mais um vídeo, e fiquei enlouquecida quando a minha bateria acabou justamente no refrão; Esbravejei por mais uns 30 segundos, e então, mais da metade daquela música já havia ido embora! Eu não imergi minha alma na letra ou na melodia. Eu não me conectei… com o momento. E quantas vezes a gente já não fez isso, né? Vale tudo por uma selfie, até ser mordida por um tubarão em Fernando de Noronha. Vale tudo por um like, até se expôr em excesso e usar tantos filtros na foto, que quem vê a gente na rua, acaba por não nos reconhecer.

A gente vive, praticamente, uma “ditadura dos filtros”, em que a gente se sente quase que na obrigação de registrar tudo o que faz, do acordar ao deitar-se novamente, a gente registra cada piscar de olhos, enche de filtro, e posta em cada rede social que possui. Quanto mais likes, melhor, e se vierem acompanhados de elogios, nosso ego agradece. Quanto mais seguidores, então, melhor ainda! E quando a gente se torna figura pública, a coisa aumenta de tamanho, porque as pessoas pedem para acompanhar a nossa rotina, pedem por vídeos no Snapchat e InstaStories, e nem pense em parar de postar! E em que momento a gente pausa o virtual e vive o agora? Aquela Arara-Azul voando, livre, rasgando os céus em beleza e graça, naquele dia, naquele horário, a gente não vai ver mais. A gente não vai mais sentir a brisa do vento tocar o nosso rosto, e nem sentir o cheiro do lugar em que estávamos. O momento passou, e ao invés de se entregar à imersão, pusemos os nossos celulares em riste e registramos cada bater de asas, acreditando que não perdemos aquele momento. A gente põe os aparatos para mergulhar, e já leva a GoPro em uma das mãos, e sai filmando tudo o que vê; uma tartaruga marinha nada graciosamente ao meu lado, mas eu não nado com ela… eu a persigo, enquanto filmo tudo. Eu tiro uma foto, mas antes de colocar na internet, passo nela pelo menos uns 4 filtros, responsáveis por coisas como afinar o rosto e aplicar uma maquiagem (que fica ridiculamente artificial, mas a gente usa o aplicativo mesmo assim) sobre a que a gente já está usando, e ao postar a bendita foto, estamos ou irreconhecíveis ou extremamente artificiais. Que ponto estranho é este, ao qual chegamos?

Não é errado registrar o momento, não é errado corrigir uma coisinha ou outra em uma fotografia… Mas estamos todos exagerando na dose, “errando a mão” como diria a minha avó. Sabe, a vida não possui filtros. E a gente está deixando com que ela passe, enquanto colocamos mais um filtro, tiramos mais uma foto, fazemos mais um vídeo. Você pode sair várias vezes para jantar com a pessoa que você ama, mas uma vez nunca será igual à outra, por mais que vocês se direcionem sempre ao mesmo restaurante… A comida pode estar linda dessa vez, mas você já perguntou à esta pessoa bem à sua frente, como ela realmente está? Você já beijou esta pessoa hoje, já pegou a sua mão, já disse o quão especial ela é? Você já olhou nos olhos desta pessoa, e ouviu tudo o que eles têm para te dizer hoje? Você está curtindo o momento com esta pessoa, está imerso à experiência à dois, ou está mais preocupado em fotografar e postar o prato de comida bem à sua frente, porque ele está muito bem elaborado? Quantas fotos conceituais formam o feed do seu Instagram, e quantos momentos especiais fazem parte da composição da sua história? Quantas pessoas você abraçou para caber ou ficar melhor na foto, e quantas pessoas você abraçou mesmo, com toda a sinceridade do teu ser? Você curtiu mesmo a sua família, ou apenas fez mais uma pose legal para colocar nas redes sociais e manter a sua boa imagem (irônico o uso dessa palavra agora, né?) para as pessoas e ganhar mais uma tonelada de likes? Você vivenciou cada segundo da sua viagem, ou ficou procurando mais lugares legais para fotografar e fazer uma pose diferente? Você sentiu e ouviu toda a atmosfera da viração do dia, ou apenas tirou outra foto do Sol se pondo no horizonte?

A gente só vive uma vez, nosso tempo de vida é um suspiro, e estamos puxando o ar pela metade, porque o restante do tempo, estamos segurando a respiração… e o celular. A vida passa rápido demais, e estamos perdendo, ao menos 30 segundos para cada vídeo que fazemos para postar no Instagram. A vida é uma só, e estamos correndo atrás do vento e entupindo as nossas veias de vazio. Almas aprisionadas. Mentes obsessivas. Celas de prisões em nossas peles. Felicidade instantânea em formato de “joinhas” ou “coraçõezinhos” nas telas de nossos celulares. Fotografias deletadas se os likes não chegam em cinco minutos. Nós podemos fazer melhor.  A vida é mais do que isso.

Pode registrar o momento, sim. Mas não esqueça de que, mais do que registrá-lo, você precisa vivê-lo. O ontem não volta. A hora que passou, não volta. Cada momento é único em suas singularidades e particularidades… Não se esqueça de valorizar isto mais do que os likes que você pode receber na próxima postagem.

A vida acontece sem filtro, enquanto você está preocupado em registrá-la, excessivamente. A vida acontece lindamente imperfeita, enquanto você está procurando o próximo filtro para deixá-la impecável. Lembre-se de viver, ao invés de meramente existir… Eu vou me lembrar também, constantemente.

“Vários contatinhos” pra quê?

Talvez nada esteja mais na moda hoje, do que a tal expressão “vários contatinhos”. Ter os tais vários contatinhos, implica em ter vários esquemas, mas não namorar ninguém. Ter uma pessoa para cada dia da semana, se possível, para matar a carência, a vontade de beijar na boca, a vontade de ir pra cama e afins… Mas e a paz de domingo a tarde, a gente vai dividir com quem? Porque as tardes de domingo são especiais, não se pode dividi-la com qualquer pessoa. É exatamente neste momento, que a vantagem de possuir várias pessoas, se esvai, porque eu converso com Pedro, Victor, Alex, Leo, Lucas, Daniel e Ricardo, e cada um deles, por sua vez, tem o seu número de moças com quem conversam. Eu posso ir ao bar com Leo hoje, comer comida japonesa com Victor, amanhã, no almoço, e a noite, partir para a selvageria com Ricardo, que almoçou com Milena, e no dia anterior foi ao cinema com Letícia, porque ele também tem os seus vários contatinhos. E eu nem vou levar a sério, porque vai saber quem eu vou conhecer na sexta-feira, que vai ter lugar para começar, mas eu nem sei se vou amanhecer na mesma cidade e com quem, no sábado. E no final das contas, ninguém é de ninguém, mas todo mundo tá aí, se pegando. Todo mundo canta em coro “Você partiu meu coração, mas meu amor, não tem problema, não, não; Que agora vai sobrar então, um pedacinho pra cada esquema. Só um pedacinho!” mas espera aí, é isso que eu quero pra mim?

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Pelo menos uma vez por semana, eu ouço que preciso ter vários contatinhos, porque afinal de contas, todo mundo tem! Mas veja bem, eu parei para analisar, e descobri uma coisa: eu não preciso ter vários esquemas ou “vários contatinhos” para me sentir feliz, satisfeita, bonita ou uma mulher completa. Pra quê manter o coração partido, se eu posso ser inteira e plena? Pra quê dar um pedacinho do meu coração pra cada boca que me chamar a atenção? Como sempre bem disse minha mãe: eu não sou todo mundo. Eu não preciso enrolar o Alex até sexta, porque hoje eu vou ver o Pedro, amanhã é dia do Dani, quarta é dia do Lucas, e quinta eu vou precisar me virar pra não trocar os nomes do Victor e do Ricardo. Eu não quero nenhum deles, e muito menos o Alex, ou o Leo, que nem lembrava que tinha combinado comigo. Eu não quero sair com a obrigação de beijar pelo menos uma boca no sábado. Eu não quero ser carente a tal ponto, de ter a necessidade de supri-la constantemente. Eu não quero todas estas mãos me tocando, todas estas línguas me envolvendo, e todos estes corpos se ligando ao meu. Eu não quero me perder entre os nomes que aparecem na tela do meu celular. Eu não quero ter receio de trocar o nome de ninguém. Eu não quero ser chamada de “rainha deles”, enquanto pego todos os que são chamados de “rei delas”. Eu não quero ser igual. E eu não preciso do vazio do domingo, do vazio do peito, ou do espaço vazio ao meu lado, enquanto eu construo sozinha o meu castelo, as minhas vias de acesso e a minha vida toda.

Sinceramente? Eu desejo que você, que sempre vem me dizer que eu preciso de vários esquemas, vá cuidar da sua vida. Eu aprendi a respeitar o meu corpo, os meus limites, e, principalmente, os meus valores. Eu nunca fui para vários homens pensarem possuir. Eu sou o tipo que é mulher de um homem só, e não aceita ser tratada como segunda opção de ninguém. Eu sou o tipo de mulher que um homem precisa batalhar para ter. E não pense que já não há homens que batalham para possuir apenas uma, pois muitas foram as batalhas para possuir este coração, que está escondido nas conchas das mãos de Deus. A verdade, é que apenas o amor poderá fazer com que Deus abra as conchas de suas mãos, e deixe meu coração à mostra, e nenhuma das batalhas travadas, foram com as armas corretas. Esta é a minha realidade: eu acredito no amor. Piamente. E eu prefiro caminhar efetivamente só, do que aparentemente acompanhada, e terminar o meu domingo em plena solidão vazia. Eu prefiro a leveza da espera silenciosa por um amor certo, do que a gritaria escandalosa e pesarosa, de pertencer à vários corpos, e ainda assim, não pertencer à nenhum.

Só lá, na paz do amor certo, é que eu vou poder despir a minha alma… Pois veja bem, não se despe a alma para qualquer um. Alma é profundidade plena, que não pode ser confundida com aquela última decepção, apenas. É na paz do amor certo, que a gente junta os nossos sonhos, com os sonhos do outro, e dá as mãos para aumentar a força da empreitada para alcançá-los. É na paz do amor certo, que a gente constrói a vida junto, mesmo que já tenha construído tanta coisa só. É na paz do amor certo, que dois inteiros transbordam – porque, entenda, essa coisa de “metade” é história pra boi dormir, porque ninguém merece ter que ficar tentando completar as lacunas emocionais do outro -.

E é aí que eu te pergunto: ter “vários contatinhos” pra quê? Pra não me sentir sozinha? Pra me sentir desejada? Pra elevar o meu ego, e ter a comprovação de que eu sou bonita, gostosa, e desejável?

Deixa eu te contar, meu bem… tudo isso é vã vaidade. Porque, no final das contas, a gente tem que saber e conseguir se encarar no espelho. No final das contas, os “vários contatinhos”, são uma equação desigualmente errônea, que resulta na solidão que a gente quer fugir. Essa mania de querer se saciar em tanta gente e provar tantos sabores de tantas bocas, só mostra o quão NADA resolvido a gente é. A gente tá querendo saciar o quê, afinal? Que depravação é essa, tão infinitamente profunda quanto a alma?

Se ainda assim você escolher os seus vários contatinhos, eu respeito você. Mas não venha me chamar de boba, de trouxa, de atrasada ou de arcaica. Eu ainda acredito no amor, e eu ainda espero por ele, sabendo que ele não virá em cavalo branco algum, mas virá a sua maneira. De qualquer forma, a minha alma solar continua lhe fazendo sinal nos dias mais nublados e nas noites mais escuras.

Eu respeito a sua mania de querer tudo ao mesmo tempo, e não aproveitar plenamente este tudo. Agora, respeite a minha decisão de sobrepor a qualidade, e deixar a quantidade de lado.

Afinal, vários contatinhos pra quê, se eu nasci para um amor certo?

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Crença de merecimento

“Nós aceitamos o amor que acreditamos merecer.” O QUÊ?

Esta frase é do livro “As Vantagens de Ser Invisível”, de Stephen Chbosky, escrito em 1999, e que se tornou filme há alguns anos. Quando me deparei com esta frase, a julguei tão absurda e descabida… Mas eu não havia parado os meus pensamentos demasiadamente acelerados, para que pudesse analisar friamente esta nova informação, ou nova “máxima”, que havia acabado de receber. E foi então que eu me deparei com a realidade, e vi esta frase me salvar de mim.

Paulo era o amor da minha vida. Ele dizia tudo aquilo que eu gostaria de escutar de alguém, me enchia de presentes, me dava chocolates no meio da semana para compensar a sua ausência no final de semana que havia passado. Paulo aparecia do nada na porta de onde eu estivesse, e me levava para almoçar. Paulo fazia questão de me levar ao cinema ao menos uma vez por semana… Mas eu nunca escolhia o filme. “Se você me ama mesmo, vai assistir a este filme comigo”.

Paulo fazia questão de me levar ao cinema ao menos uma vez por semana… Mas eu nunca escolhia o filme, e tinha sempre que assistir a aqueles filmes de terror que eu odiava ou que não faziam o menor sentido para mim, enquanto tudo o que eu gostaria, era assistir aquela comédia super bem comentada que havia estreado, ou aquele filme inteligentíssimo, cujas críticas eu acabara de ler… Mas Paulo não se importava, porque não era o que ele queria assistir. Paulo elogiava o meu cabelo, mas dizia que gostaria ainda mais, se ele fosse loiro, liso e duas vezes mais longo… Então, de morena do cabelo médio, que hora adotava os cachos, e hora fazia uma escova bem lisa, eu me tornei loira platinada, fiel aos meus apliques e às escovas progressivas… Eu não gostava, mas Paulo elogiava, apesar de sempre ver um defeitosinho ou outro. Paulo elogiava as minhas roupas, mas dizia que gostaria mais, se eu jogasse as minhas calças fora e usasse apenas saias e vestidos, curtos, de preferência, e ele também não gostava de shortinhos… “só sainha e vestidinho, linda, assim você me agrada”, e lá fui eu… Joguei as minhas calças fora, e deixei os shortinhos para usar em casa, por mais que usar saia curta me incomodasse, porque, poxa vida, Paulo gostava! E ele também dizia que gostaria mais, se as minhas blusas tivessem mais decote, umas alcinhas fininhas, mostrasse “mais pele”, para todo mundo ver o quão “gata” era a namorada dele… e lá fui eu, de novo. Até que começaram a olhar demais para mim, assoviar para mim na rua, mesmo com o Paulo ao meu lado, e os homens viravam o pescoço para ver como eram as costas dos vestidos provocantes que agora eu usava… Até os amigos de Paulo começaram a olhar demais para mim, me “secando” sem dó, até que um deles fez uma comparação infeliz, que enfureceu o Paulo: “quer aprender a ter namorada gostosa, cola no Paulo, porque olha esse troféu!”. Voltei para as minhas roupas antigas, só que agora, vestido, só se fosse largo ou longo, e blusinhas, todas largas também, e nada com decote. Saia, nem pensar. Ele ia me buscar, sempre, não importa onde eu estivesse, ou qual fosse o meu compromisso, ele estava sempre me esperando na porta, cinco minutos antes de acabar, não porque ele queria me surpreender, mas porque ele queria ter a certeza de que não havia outros rapazes comigo. Quando eu percebi esta postura dele, alertei todos os meus amigos, e eles se afastavam de mim quando estávamos chegando perto de onde Paulo estava…

Meu pai não gostava de Paulo. Dizia que eu tinha que dar fim ao relacionamento e me afastar de Paulo. Mas eu amava o Paulo, e contava tudo para ele. Então, Paulo começou a fazer críticas sobre o meu pai… Começou de forma sutil e sorrateira, até que tomar uma grande proporção. Quando eu vi, quem estava falando mal de meu pai, era eu. E o mesmo aconteceu com a minha mãe, meu avô, meus tios, minhas tias, pessoas de convívio próximo, amigos, e até algumas amigas… Me afastei de todos, porque Paulo distorceu a minha visão, e eu nem havia percebido.

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Paulo sumia por dois dias, dizia que havia ficado sem crédito no celular, e então aparecia com algum presente caro, uma cesta de chocolates, flores… O que pudesse me amolecer. Então Paulo me levava para almoçar, mas nunca onde eu queria, porque não era o tipo de comida que ele gostava. Íamos sempre comer lanche em algum fast-food da vida, porque era disso que ele gostava. Mas ele era magro, comia e não engordava… já eu, comecei a ficar gordinha com tantos lanches gordurosos, pizzas, cestas de chocolates e afins. Daí o Paulo achou ruim, e paramos de almoçar e jantar juntos, porque ele não admitia ter uma namorada gordinha. Mas ele dizia que me amava. Eu ouvia “eu te amo”, ao menos cinco vezes ao dia, e “ninguém te ama mais do que eu”, ao menos uma vez por semana.

Mas Paulo continuava sumindo. E o ciúme aumentava gradativamente. E as amigas de Paulo, de repente, tinham mais qualidades do que eu, uma família mais legal do que a minha, sabiam muito mais do que eu, e eram lindas. E lá íamos nós, nos aniversários das lindas, em que eu era ignorada. Mas ele sempre dizia “eu te amo, bebê”. O meu celular apitava o dia inteiro, e era sempre o Paulo, perguntando o que eu estava fazendo, onde eu estava e com quem. Mas eu nunca sabia onde é que ele estava… As minhas opiniões eram piada, mas as dele, eram sempre importantíssimas. As festas da minha família não tinham importância, mas eu tinha que acompanhar Paulo em todas as festas da família dele, e ouvir, em todas elas, que meus pais eram muito controladores, porque eu tinha horário para estar em casa. E então, comecei a ouvir de todos, que aquilo não era amor. Até a minha avó se posicionou. De alguma forma, Deus começou abrir os meus olhos através destas pessoas. E foi então que eu comecei a ver todas as coisas descabidas ao meu redor… E então, Paulo me pediu em casamento. E no mesmo dia, eu li aquela frase: “Nós aceitamos o amor que acreditamos merecer.”

Terminei com Paulo. E foram meses percebendo coisas absurdas. Foram anos, recuperando laços. E alguns dos laços antigos, eu jamais consegui recuperar. Sabe, tudo aquilo que custe os teus laços, é caro demais. Tudo aquilo que custe o teu relacionamento com a tua família e os teus amigos mais queridos, é caro demais. Eu acreditava que aquele amor controlador e chantagista, era o que eu merecia. Eu acreditava que aquilo era amor, porque vez ou outra, a obsessão se travestia de amor, me fazia um carinho, e me dizia “eu te amo”. Eram migalhas sentimentais, e não amor de verdade. Talvez a gente pense que não vai encontrar coisa melhor, ou então, a gente foi condicionado a pensar desta forma… Mas não precisa ser assim.

Se ame, primeiro. Mas se ame muito. Vá para o seu quarto, fique você e Deus, abra todas as suas feridas, novas e antigas, exponha as suas mazelas, e deixe que Deus trate. Se permita ser curado. Se permita olhar para dentro de si, se permita à autopercepção. Se permita à leveza, e à paz que vai além do seu próprio entendimento. E jamais aceite algo que seja menos do que isto. Jamais aceite que alguém te traga um amor que seja menos do que isto. Jamais aceite alguém que te ame menos do que você se ama, do que os seus pais e a sua família te amam, do que Deus te ama. Jamais acredite, leitor, que você merece migalhas de alguém. E jamais dê migalhas ao outro. Não aceite um Paulo, e não seja um Paulo. Você não precisa disso, e você não deve. O amor é sublime demais, para se tornar obsessão, ciúmes, mandamentos e opressões.

Talvez o amor que você realmente mereça, demore a chegar. Nestes momentos, “pega a solidão e dança”, mas não se sinta obrigado a matar a carência de forma desesperada, como tanta gente faz por aí. De qualquer forma, chova amor por dentro. Transborde-se e seja inteiro. E quando alguém chegar, observe se juntos, vocês se tornam um belo rio, ou se juntos, o outro é riacho sozinho.

A gente recebe o amor que acredita merecer. O que você tem recebido?

debora

Amor distante

Eu sinto a tua falta aqui. Sinto tanta falta, que às vezes eu acho que ele vai chegar como sempre, com os olhos sorridentes ao me encontrar. Porque esses olhos… eu já sabia que seriam meus amores desde o momento em que os vi chegando, trazendo uma bateria de carnaval pra batucar no meu peito. Eu ando pelas ruas, e quando sinto o teu perfume, cruzar o meu caminho, minha mente é invadida por tantas lembranças quanto eu sou capaz de administrar, e, apesar das lágrimas mal-educadas que querem brincar de trampolim com os meus olhos, o meu coração sorri de fora a fora. Mas o aeroporto é a minha tentação… eu queria chegar até a porta da sala de desembarque, e ficar esperando você chegar.
Só quem tem um amor distante, é que entende o que eu estou dizendo. As gírias do vocabulário do outro, se tornam as nossas palavras favoritas, e as vezes, nos apropriamos delas, para nos sentir mais perto, porque o outro lado do mundo é distante demais. Aliás… precisava ser de tão longe? Podia estar ao menos à um aeroporto de distância, ao invés de cinco. Podia estar na cidade ao lado, que a gente dava um jeito. Podia estar logo ali…

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O amor não tira férias, e você me fez entender isto da maneira mais doce que poderia existir, com a sua certeza me cercando, me mostrando quão única eu sempre vou ser no seu mundo; com o seu caráter me mostrando que nem todo homem, ao ver que encontrou alguém diferente e singular, continua procurando, cortejando e brincando com a sorte; com a sua gentileza, me colocando no topo do mundo. O amor não descansa, e eu percebi isso enquanto o seu olhar, cor favo de mel, me contava uns segredos absurdos.
O amor não passa. E eu percebi isso assim que você me deu o último abraço apertado e entrou naquele maldito avião. Você foi e o amor ficou. E eu passei umas vinte e cinco vezes na frente do lugar em que te conheci, pra ver se te trazia de volta. Parei na metade da vigésima sexta, não por falta de fé, mas porque o choro me invadiu feito um tsunami furioso que eu jamais conseguiria conter. O amor não passa, e esse tempo vivendo distante, me fez entender que quem passa, é a ingrata é ilusória paixão. O amor fica, sempre. Obrigada por me trazer este entendimento que muitos julgam como utopia.
Tanta distância, prova o quão longe o amor pode ir, quantos mil quilômetros pode viajar, e continuar sendo amor.
Obrigada por ser tão único no meu mundo. Obrigada por vir, e mesmo depois de ir, continuar aqui, e nunca se permitir estar realmente distante, mas sempre preencher as minhas saudades com presença. O amor espera, obrigada por me trazer mais este entendimento. E por falar nisso… Eu estou esperando por você. Volta logo.”

debora

Às pessoas de asas quebradas

(Você pode ler este texto ouvindo “Free” – link: https://www.youtube.com/watch?v=hCAeLmbVIIo)

À todas as pessoas que estão com as suas asas quebradas… este texto é tão meu, que é para vocês também.

Quantas vezes a gente se desencontrou dos próprios sonhos, dos próprios objetivos, e até da própria essência, e se achou desgastado, cansado, e até derrotado? Quantos sonhos a gente engavetou ao longo do caminho, e colocou a culpa em Deus? Quantas vezes a gente recalculou a rota, porque a vida bateu tão forte que a gente não pôde suportar o baque de estar, novamente, com a cara no chão? Quantos foram, os amores que não deram certo? Quantas vezes a gente olhou pra alguém e pensou “É desta vez! Agora vai!”, e viu que o “eu te amo”, outrora dito com tanto fervor e verdade, era, na verdade, pura maquiagem de um teatro sentimental, que se desfez, bem na nossa frente? E quantas vezes a gente começou a conhecer alguém, e se permitiu apaixonar por alguém que fez a gente de trouxa? Quantos amigos, eram, na verdade, apenas egoístas conhecidos, e quantos amigos-irmãos, jamais passaram de golpistas, que estavam ali apenas pra sugar a nossa boa vontade e companheirismo, mas jamais para nos dar a sua reciprocidade? E as rasteiras, tomadas no trabalho, a ponto, talvez de nos custar um emprego? E quantas vezes essas feridas doeram tanto, que adoeceram a nossa alma? Não foram poucas, eu garanto. E a gente conclui que a vida, as vezes, machuca mais do que deveria.

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Quantas vezes você foi sabotado? Quantas vezes abafaram a tua voz? Quantas vezes disseram que você “não servia” para alguma coisa que, na verdade, você era o encaixe perfeito? Quantas pessoas vieram e arrancaram todas as belas penas que você tinha nas suas asas? E quantas pessoas vieram com martelos, prontas para quebrar as suas asas? E quanto vieram com facas, lhe cortaram e levaram partes de você, e das suas asas, para que elas jamais batessem novamente? Comigo, foram tantas vezes, que na décima quinta vez, me cansei de contar. Quanto engano, e quanta lama, pântanos de areia movediça, minas ansiosas para explodir a gente, enquanto caminhamos pensando que tudo está, finalmente, em paz? A vida bate forte demais, e, de repente, a gente se vê em uns becos escuros da alma, porque disseram pra gente que o nosso lugar é ali. O corpo todo dói, de tanto se contrair de medo. O tremor chega aos ossos, e a respiração se entrecorta. A gente acha que vai morrer, e não morre. Torce para que consiga dormir, mas não dorme. E o choro vem, como um turbilhão desesperado. E a gente acha que o Amor está longe de nós… a gente sempre acha, nesses momentos, que Ele virou as costas.

Mas eu vou te contar o que aconteceu comigo.

Eu já estive nesse beco escuro da minha alma. E, de alguma forma, consegui manter inquebráveis as minhas esperanças. E então, na hora mais escura da noite, no beco mais escuro da minha alma, eu me lembrei de que, no meu espírito, apenas Deus é capaz de tocar. Juntei todas as minhas esperanças, e as trouxe à memória. Então, uma por uma, elas me diziam “nem tudo está perdido, torne-se quem você é”. E acho que, neste ponto, Deus resolveu mostrar que nunca tinha me deixado de lado… Foi aí que o meu espírito gritou tão alto que estourou os tímpanos da minha alma, e quebrou todos os meus muros. Eu peguei o que sobrou das minhas asas, e corri sem olhar para trás. Quando me vi, sabia que estava mais forte do que nunca, então peguei tudo aquilo que era meu, tudo aquilo que haviam tirado de mim, e refiz as minhas asas. Eu me apropriei de mim, por mais estranho que este termo possa parecer. O Amor me salvou de mim, enquanto me fortalecia para que eu mesma me salvasse dos outros. Ainda era noite, mas eu ouvia o céu me chamando. Mirei a primeira constelação que vi, e bati as minhas asas. O chão não é o meu lugar. Nunca foi. Tentaram, cruelmente, me pôr ali, pois no chão, eu não ameaçava ninguém. Mas a ameaça é minha, por natureza, então deixe que aqueles medrosos continuem tremendo enquanto eu voo.

Ninguém tem o direito de pôr no chão, quando o seu lugar é nas nuvens, leitor. Ninguém tem o direito de te oprimir tanto, a ponto de você ir parar no beco mais escuro da tua alma. A vida bate com força no rosto da gente. Mas é tempo de resgatar as suas asas, de trazer à memória as esperanças, e deixar o espírito se fortalecer e gritar como nunca antes. As escamas vão cair dos seus olhos, enquanto O Amor faz nascer uma liberdade nova, incandescente e inflamável dentro de você.

A tua percepção vai nascer. Os muros vão cair. Você vai olhar em volta, e o sorriso vai lhe chegar aos lábios, depois de ter nascido no fundo da tua alma. O resto das asas, são seus. Pegue tudo o que tiraram de você, use a sua essência como linha, e refaça tudo o que estava destruído. Então mire a primeira constelação, e alce voo.

Você é livre. Se não se sente assim ainda, mova-se. E aproveite.

debora