Não é feio pedir ajuda

No período mais difícil da minha vida eu entendi que não é feio pedir ajuda.

Estava no fundo do poço das minhas lamentações, vivendo um momento difícil, dolorido, angustiante. Eu que sempre quis ser autossuficiente, desci do pedestal que eu criei com todos os meus egos para pedir. Correr atrás dos seus sonhos não significa que você fracassou, não significa que nada deu certo e não significa que não existam pessoas dispostas a ajudar e a interceder por você.

E eu pedi, sem medo ou receio, com dor, mas com um coração cheio de vontade de fazer o bem, de doar esforço e dedicação em prol de um ideal, em prol de uma luta de anos, em prol de fazer algo por mim mesmo. Eu estava na lama, me lamentando por tudo que ainda não havia conquistado, enquanto o mundo inteiro esperava por mim, por mais um golpe nessa luta que é viver.

E fui, tomada por bons sentimentos, por pessoas amorosas, empáticas que compreendem que o verdadeiro sentido da vida é poder fazer o bem, sem olhar a quem, ou a o quê. Essas pessoas mesmo sem saber, mesmo fazendo o mínimo que lhes cabia, me ensinaram um mundo de novas sensações, de vontade de ser melhor, de sede por caridade. Cada uma delas, e suas palavras de conforto, de auxílio tocaram meu coração e me motivaram ainda a mais a não desistir de tudo o que batalhei pra chegar até aqui.

As vezes a gente não sabe o quanto nossas palavras podem mudar a vida de outras pessoas, para o bem, para o mal também. Palavras são gatilhos de uma arma que mata ou impulsiona. Arma ou foguete. Resta a quem profere, saber colocar o seu alvo em baixo ou em cima do foguete. O caminho das estrelas é de quem está em cima e só quem cuida do que diz pode proporcionar um bem a outro alguém.

Nada mais bonito que o sentimento de gratidão!

Durante todos os dias do ano, eu quero é ser dona de mim

Leia ouvindo Mulher – Ana Cañas. (https://www.youtube.com/watch?v=mnQiEqKReas)
Hoje é dia da mulher, certo? Dia de lembrar-nos o quanto nós somos lindas e delicadas e loucas e neuróticas.
Hoje é dia de receber flores e chocolates, desconto em produtos de beleza, aparelhos domésticos e mensagens vazias sobre o que acham que somos.
Hoje é dia da mulher, mas eu não tenho o que comemorar, porque hoje é o dia da mulher midiático, superfaturado, comercial, capital, brutal.
Hoje é o dia da mulher que nos outros dias é chamada de louca porque não se cala pra abuso.
Hoje é o dia da mulher, que apanha nos outros 364 dias e chora calada porque vive sem amparo, sem espaço, sem rosto, sem voz.
Hoje é o dia da mulher que assiste calada, homens de terno e gravata decidirem sobre o seu corpo. Muitos pais abortam sem a menor consciência, simplesmente vão embora… Mas hoje estamos falando do dia da mulher que não pode tomar essa decisão, que não pode falar sobre isso, que não pode escolher sobre isso, que não tem direito a vida.
Hoje é o dia da mulher que, sozinha, luta pra criar os filhos sem ajuda do pai que acha que é menos responsável só porque não teve uma gestação em seu corpo.
Hoje é o dia da mulher, que quando livre é chamada de puta, vagabunda, imoral, indecente, promíscua, vadia, vaca… a lista é longa!
Hoje é o dia da mulher que aparece na tv, na capa dos jornais, nas histórias mais curiosas sobre super mulheres sofridas que tem mil e uma utilidades para a sociedade machista ao qual está inserida. Dia da mulher que lava, passa, cozinha, cuida da casa e dos filhos e ainda exerce uma grande profissão.
Mas não é dia da mulher real que está de fora da tv, que não tem acesso a jornais ou internet.
Dia da mulher que é subjulgada, esquecida, maltratada, humilhada, hostilizada, condenada e desrespeitada durante todos os outros dias.
Só por hoje a mídia esquece de nos condenar ou nos menosprezar, apenas para cumprir seu papel social de uma data. Aliás, mulher não é sinônimo de competência nos outros dias do ano.
Hoje é dia da mulher e só por hoje eu quero sair na rua, sem ter que ouvir meu corpo ser sexualizado por homens ou pela mídia.
Só por hoje eu quero usar uma saia, sem ter fiscal de medida “tá curta demais” “tá parecendo uma crente”.
Só por hoje eu quero não ser chamada de puta só porque falo o que penso ou porque fui pra cama com os caras que eu quis.
Só por hoje eu quero ser vista com um ser humano igual, que sente e que tem desejos também. O meu desejo não tem que ser menos porque eu nasci mulher e “preciso me dar ao respeito.”
Só por hoje eu quero andar pelas ruas sem o medo de ter meu corpo invadido, sem o medo de ser agredida.
Só por hoje eu quero conduzir um país e ao tomar decisões erradas, ser chamada de incompetente e não de puta, vadia e vagabunda.
Só por hoje eu quero ocupar um cargo e receber um salário justo ou deixar de escutar piadas sobre ter dormido com meu chefe, quando for promovida.
Só por hoje eu quero dar de mamar ao meu filho na rua sem ter alguém banalizando o meu ato ou propondo que eu me cubra.
Só por hoje eu quero decidir sobre o meu corpo e sobre a vida que eu quero ter.
Só por hoje eu quero ser mãe solteira sem ser julgada. Porque hoje o que mais se vê é a realidade das mulheres que criam seus filhos sozinhas. Criam meninos e meninas que nunca souberam sobre seu pai, que nunca o conheceram nem por fotos, muito menos receberam um telefonema no dia do aniversário.
É confuso estar do lado de quem sente, de quem fica do lado daqui, de quem assume o peso de gerar e colocar um filho no mundo. Sozinha.
Virou estatística a quantidade de caras que vão embora viver suas vidas e esquecem de quem deixaram pra trás. Eu sou estatística, você também. Sou mais uma criança com a certidão de nascimento com um milhão de Xs no nome do pai.
Só por hoje eu quero decidir não ter filhos, sem precisar ouvir que “toda mulher nasceu pra ser mãe” até o fim da vida.
Só por hoje eu não quero ser presa por quebrar um contrato com um cara que me violentou, nem que duvidem do abuso alheio.
Só por hoje eu quero não ser chamada de louca. Aliás, dia desses eu li no facebook: “Os homens têm muitas histórias sobre as ex loucas. As mulheres normalmente não. Porque mulher que tem ex louco, geralmente está morta”.
Só por hoje. 8 de março. Por um único dia. O meu dia, não é mesmo?
Mas por todos os outros dias também! Quero que me deixem ser o que quiser, porque durante todos os dias do ano, eu quero é ser dona de mim.
Hoje é muito mais do que flor, hoje é dia de resistência e de luta. Dia de avisar pra todo mundo que viemos para cada vez mais ocupar os espaços que ainda nos são negados. Dia de silenciar assédios e não se calar para eles. Dia de divulgar dados cruéis, porque é complicado lidar com a peteca de saber que 86% das mulheres brasileiras sofrem ou já sofreram assédio na rua, que 80% delas, já sentiu ser assediada no trabalho e se calou por que duvidou da ação que sofreu. Vivemos a banalização do assédio. Muitos homens e mulheres (infelizmente) ainda acham que é normal, natural do homem, assediar. Principalmente de maneiras sutis que só nos constrangem cada vez mais, afinal, o machismo está enraizado.
Sete a cada dez mulheres são agredidas ao longo de sua vida. É triste lidar com uma sociedade que se nega a reconhecer seus defeitos de caráter e é mais triste ainda não conseguir assumir que o machismo é um problema real e histórico. E mesmo quem fala tanto, quem estuda, se desconstroi, ainda não consegue lidar quando é vitima de machismo e agressão. A gente sempre acha que tem bagagem o suficiente pra saber contornar as coisas, principalmente quando acontece dentro de casa. A gente sempre acha, mas não tem. Um muro desmorona todas as vezes em que uma mulher é agredida. Todas as mulheres sofrem junto quando uma mulher é agredida e violada.
É importante falar sobre o machismo de todo dia. Falamos muito sobre literaturas, pensadores, conteúdos e ramificações. Mas a realidade do machismo está na rua. Está no jornal. Está dentro de casa. Nas nossas escolhas que não são tao nossas.
A descriminalização do aborto, por exemplo, é justamente pra que mulheres possam escolher. Tem muita mulher pobre, classe baixa, sem nenhum tipo de acompanhamento psicológico, morrendo por não ter acesso ao aborto. A legalização do aborto deve ser uma questão de saúde pública, saúde da mulher e mais do que isso, uma questão de sororidade e empatia. E é importante entender o lado de quem sofre, de quem morre, de quem sente a dor de realizar um aborto clandestino, sem amparo médico. Mas também é importante entender o lado do feto, que se torna um ser, uma criança que nasce pra morrer, pra ser violentada dentro de casa, pra não ter acesso à saúde e educação, pra virar bandido, pra morrer depois pela bala da polícia.
Só por hoje eu quero o meu direito de decidir sobre o aborto, de decidir ser a favor, de decidir ser contra.
8 de março, mais um dia internacional das mulheres! Dia das mulheres, num mundo que ainda mata 5 mulheres a cada hora por causa de machismo?
Rosas só se for pra colocar sobre o corpo das 119 mulheres assassinadas diariamente por seus parceiros e parentes. Feliz dia da mulher, pra que mulher?

A gente espera do mundo e o mundo espera de nós.

Quando acontece alguma coisa no mundo a gente se sensibiliza, sente dor e em todos os lugares se fala sobre isso. O sensacionalismo dos jornais, os comentários vazios nas esquinas, as correntes de whatsapp que viralizam sem embasamento ou veracidade, as opiniões do facebook e o grande martelo que é batido por cada um em nome da justiça.
A gente se sente um pouquinho desconfortável quando somos envolvidos por tragédias e massacres. A gente se sente compactuante de um crime apenas por estar em sociedade e ser um boneco dentro de todo esse sistema feito pra matar pobre sem piedade, sem empatia, sem sensibilidade pela vida humana.
E a gente quer saber, destrinchar a história inteira pra alguma coisa fazer sentido na cabeça. Buscar culpados ou pelo menos algum Judas a ser apedrejado em nome da justiça que a gente nem em sonhos um dia já possuiu. A gente quer a paz, mas vive imerso numa guerra moral que nem em 100 viradas de ano conseguiremos reverter. A gente quer amor ao próximo, menos ao próximo marginalizado… A escória da sociedade que nasceu pra morrer na maior das crueldades.
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Uma noite de crime pra gente mataria bem menos do que todos os dias de crime onde quem não pode pagar segurança, padece. Mas vivemos de uma moral forjada por uma religião qualquer que abomina essas atrocidades. Quando não pode ver, quando acontece nas favelas, bem distante de você, nos presídios que são fonte de renda pra político corrupto que todo ano disputa eleição e vence, porque o crime só é crime pro pobre. Rico sustenta essa máfia chamada corrupção há milênios. Político destrincha leis pra se beneficiar e encontra amarras onde pode sustentar seus vícios, sua ganancia e sua sede de poder.
Quem detêm poder não se preocupa com o próximo, quem está sentado na cadeira cravejada de privilégios das prefeituras não se sensibiliza com o mínimo que é se doar por outro ser humano, não se preocupa em destinar acesso e conforto pra quem espera horas por um ônibus, por um atendimento médico, por uma vaga na universidade, por uma vida melhor e menos sofrida.
Nós compactuamos com a crueldade todos os dias. Mas somos juízes de todas elas e nunca culpados. O negro marginalizado é a culpa. Aliás, a expressão “negro-marginalizado” é redundância no mundo inteiro. Sangue de pobre escorre todos os dias nas periferias, nos barracos sem saneamento básico.
Matar é horrível quando o sangue escorre sem a gente ver, sem a gente se chocar com a realidade de que tem muito mais sangue na mão de rico, do cidadão de bem e do policial que devia defender e não matar, do que a gente pode imaginar.
Nossa sociedade é um filme de terror censurado para menores de 18. 18 nada! Tem que reduzir a maioridade penal. Se matou, foi porque escolheu matar e não porque faltou educação, saúde e valores.
Somos minideuses povoando a terra. Somos instigados a dilacerar comentários como os mesmos martelos que batem na mão de juízes.
Nos indignamos com o sistema de justiça, mas esquecemos que burlamos leis para nos beneficiar quando precisamos minimizar nossas falhas de caráter. No nosso mundo ganha quem já nasceu trapaceando, quem já nasceu na posição da frente de uma fila de calda onde habita os excluídos.
Camila

Quem você salvaria?

Vocês não percebem que é tão desumano e incoerente uma pergunta como essas?
Quem você salvaria?
É duro enxergar que a vida é tão precoce e que nos resta ter um pouquinho de empatia, caridade e sentimento de humanidade. Cabe a nós um martelo que bate a sentença quando  alguém está gravemente ferido e pela sua condição social não merece uma ajuda?
Vocês não cansam de bancar o deus, o senhor das terras, dos céus e mares, dono da justiça, da moral e dos bons costumes?
Parece que ninguém aprendeu nada com Jesus. Vocês mesmos, que tanto falam dele, que se prendem numa igreja que proíbe de ser quem realmente é, em nome da casa de fé imposta, comprada, subjulgada.
Quem você salvaria?
Entre um policial de esquerda e um bandido apoiador do Bolsonaro?

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Quem você salvaria?
Um policial ateu ou um bandido que acredita em deus e paga o dizimo com o dinheiro que rouba do irmão?
Quem você salvaria?
Um policial corrupto ou um bandido que roubou porque passava fome?
Quem você salvaria?
Um bandido cruel ou um policial honesto?
Todos os dias o mundo inteiro perde amor, perde compaixão, perde respeito à vida. Todos os dias o mundo inteiro pede amor, pede compaixão, pede respeito à vida!
Tô cansada dessas pesquisas inúteis, tô cansada dessas opiniões cheias de ódios. Tô cansada desse ódio, raiva e rancor de todos os dias nessa rede que castiga e pune severamente sem olhar quem e porquê.
Quero ver salvarem a mulher pobre, que morre aos poucos, nas clínicas de aborto clandestino, porque errou, porque seu corpo foi usado, porque sua alma foi vendida.
Quero ouvir vocês salvarem o professor que se aperta pra pagar as contas ou a prostituta que vende o corpo porque a fome dói.
Quero ver salvarem o bom e o ruim. O feio e o bonito. O herói e o bandido. Quero um mundo onde todo mundo se preocupe com a vida, antes de tudo.
O deus que vocês adoram é maia piedoso e bom do que imaginam. O deus que vocês adoram salva negros, brancos, policiais, bandidos, putas, ladrões, doutores e empresários. O deus que vocês adoram escolhe o critério da alma para salvar. Quem deixa morrer por conta de qualquer convenção social, tem menos de deus do que aquele que, agonizando, pediu socorro e perdão pela vida inteira.
Quem você salvaria?

Camila

A crise de todas as crises

A gente cria umas crises tão desnecessárias. Vez ou outra, me pego pensando em crises que já tive e depois pareceram besteira quando comparadas a infinidades de coisas realmente importantes para pensar e amadurecer.

Já tive crise porque comi muita gordura e fiquei achando que meu corpo estava reagindo instantaneamente ao hambúrguer com bacon e batata frita, óleos e gorduras. Já tive a crise da falta de um namorado, porque as pessoas me diziam que já estava na hora de arranjar um namorado, então eu precisava ter um namorado, para me acalmar e ficar quieta. Como se um homem pudesse determinar os meus horários de chegada e saída, comprimento de saia e decote. Aliás, a gente não nasce sendo feminista e demora um tempo pra ir desconstruindo padrões.

Já tive a crise da indecisão da faculdade, da indecisão de que roupa era a certa para ir a uma festa, da indecisão entre débito e crédito, copo ou canudo. Crise de ansiedade, crise do medo da morte, da dor que não sara e a crise de ir ao médico para tomar injeção.

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Indecisão e tempo caminham em lados opostos e por isso não durmo. Quem sou eu? O que faço do mundo? Onde vou no segundo quando a vida se acaba? Quem sou eu? Trabalhador? Vagabundo? Serei pouco ou muito? Me chamo Pedro ou Raimundo? Essas perguntas todas em uma canção chiclete dentro da minha cabeça. Quando deito com essas palavras, quero um copo d’agua, um rivotril, um tapa na cara, um abraço apertado, um desabafo dolorido. Quero dar uma olhadinha lá no futuro, pra saber quem eu sou, onde estou, para onde vou.

E aí eu vou lidando com o fato de que eu tenho medo da minha própria vida, das minhas emoções e do quanto elas podem interferir no meu jeito de viver. Tenho medo de parecer ser quem eu não sou e principalmente, medo de dar errado.

Toda vez que acontece uma merda seguida da outra, eu crio um medo maior de não conseguir lidar, de fazer tudo errado, de me atrapalhar e cair no abismo que é a minha instabilidade sentimental.

Eu sofro pelo amanhã, porque acredito que ainda não conquistei o hoje. Tenho muito medo de não dar certo, de estar cometendo mais uma das imensas decisões erradas que já tomei.

Todos os dias, me equilibro numa corda bamba para manter-me firme diante às adversidades, diante às dificuldades, diante a qualquer coisa que chegue se instale e me roube a razão. Acontece que o ponto de conflito está sempre mais perto da hora em que a gente só quer parar, esquecer, fechar os olhos e dormir.

Aí eu sinto que preciso urgentemente de terapia. E bagunça mais ainda a mente, porque a gente sempre acha que está bem, mas na real nunca se está bem quando o problema é mais íntimo do que físico, passivo de resolver.

Qual é a solução que se aplica na memória? Que remédio eu tomo pra pensar de menos em todas as coisas que eu quero que aconteçam agora, já, na velocidade da bala que acerta o peito e a dor e a morte e o último sopro de vida.

É que é tão difícil conseguir alguma estabilidade emocional que quando vem a crise, a gente sente um medo desgraçado de por tudo a perder.

Na hora em que ela chega, a gente esquece a razão e esquece a metáfora do degrau. E é preciso relembrar: Tem degrau que cai, tem degrau que é firme e tem aquele degrau que finge cair, mas só flutua pra te fazer subir mais rápido. Resta a inteligência e a sorte pra saber decidir.

Logo eu, tão burra e tão confusa com tudo.

A vida é uma escada de degraus flutuantes… A gente sempre tem que saber onde pisar.

Camila

Cabelo curto, um ato de resistência

Nunca pensei que um corte de cabelo me faria tão bem. A gente corta, pinta, quer sempre mudar, porque a gente se ama e quer sempre estar de bem consigo mesma, além de gostar de experimentar trezentas coisas novas que façam nos sentir renovadas.

Eu cortei o cabelo curto e isso mudou a minha vida. Mudou porque é prático e eu nem preciso pentear, foi uma facilidade pra esse pouco tempo que a gente já tem e usa contando os minutos no ponteiro do relógio. Diminuiu a uma hora que eu usava pra ficar pronta antes de sair. É lavou, secou, tô pronta.

Mas, cortar o cabelo, mudou muito mais o meu modo de lidar comigo mesma, a minha relação entre mim e quem eu sou. Um empoderamento fascinante. Eu me sinto maravilhosa todos os dias porque homens me olham como se eu estivesse pecando, como se fosse um erro, como se eu quisesse mudar as regras que foram impostas a mim. E quero. Afinal “Cabelo curto igual de homem”, eu respondo: “Cabelo curto de mulher! Que não tem medo de rótulos, mas que está cansada deles. Sou livre demais pra seguir um padrão!”.

Já percebeu que um cabelo curto é tão polêmico quando nem deveria ser? Você só quer a liberdade de escolher, de deixá-lo como quiser, de não se render ao consumo, às horas de chapinha, ao preço do shampoo mais caro, mais americanizado, capitalista, que te faz comprar, comprar e comprar.

Cortar o cabelo curto é rever padrões. Padrões de beleza, de consumo, de liberdade, de poder. Cortar o cabelo é sentir-se cada dia mais mulher, bonita, que não esconde o rosto à luta.

Você não precisa ser aprovada, não precisa de um aval da sociedade de que o que você escolheu serve para o mundo, para os conceitos, para a “moda”. Você só precisa sentir-se bem e feliz com a conquista que a tesoura mágica trouxe para a sua vida. E você não estará menos completa por isso. A sua feminilidade é tão forte que não se abala por uma simples mudança, muito menos por uma opção. Cortar o cabelo curtinho é um ato de resistência, de que precisamos incomodar aqueles que nos rotulam por isso e constranger quem ousar dizer que isso nos torna menos mulher. Ser mulher é muito mais que cabelo, maquiagem e depilação. Ser mulher é estar à frente de todas as adversidades e poder enfrentá-las de peito aberto, sorriso no rosto e cabelo curto, se quiser, quando quiser. A regra é fugir às regras, aliás: meu cabelo, minhas regras!

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Nem a maldade do tempo consegue me afastar de você

Leia esse texto ouvindo: https://youtu.be/8PCwLqyyyXE

A gente passa muito tempo ouvindo que o tempo cura tudo. Que o bom da vida é deixar fluir, desapegar… Que enquanto o tempo passa, ele leva seus medos, angústias e amores e o que a gente sente agora, neste minuto, logo vai passar.

Somos dois apaixonados, desde o dia em que nos conhecemos. Não foi amor a primeira vista, muito longe disso. Mas quando te olhei pela primeira vez, achei que podia ser legal com você, porque você era uma pessoa que dava pra ser legal. Meses de conversas e trocas antes do primeiro beijo. Mas eu te beijei e senti que havia encontrado você. Um achado. A melhor descoberta. A chance de amar alguém de verdade. Amor é construção. Pensei. “Quero construir um amor com esse cara!”. E assim fizemos.

Anos de namoro. Beijos, abraços, amassos. Histórias, dramas, medos. Angústia, partida e dor.

Mas quando você foi embora eu senti uma dor do tamanho do mundo, uma dor de perda, de que o mundo estava ganhando de mim e eu era a perdedora. Que ficou em último. Que não se empenhou. Que deixou a bola passar no mata-mata, no ultimo pênalti.

Naquele momento eu perdi. Perdi você pra qualquer coisa inútil da vida. Pra um orgulho bobo. Pra um desentendimento qualquer.

Você significa tanto pra mim. Não sei nem mensurar. Mas te ver indo embora me doeu, porque você se foi não só da minha casa, mas da minha vida. Porque você estava presente nela, mesmo sem estar. Porque a lembrança do teu abraço e beijo me acompanham em todos os momentos.

A gente se separa e volta 100 anos depois e ainda assim tanto amor. Sempre amor.

Será que a vida espera por essas desculpas que a gente inventa pra não se amar? Será que o tempo vai passar e agente vai se arrepender amargamente daquilo que não disse? Será que você vai se dar conta disso?

Que loucura é essa da vida. Do amor ser mesmo um sentimento que não se esvai, que não se acaba, que não escorre no tempo. O tempo que tanto “cura”. Cura mágoa, cura doença e amadurece. Mas que não levou você.

Porque no fim das contas, amor não é enfermidade. Não se cura, não acaba, não se perde.

Ainda que você queira ou lute contra. Ainda que você parta pra longe, oceanos de distância, galáxias ou anos-luz. Amor não acaba nunca. Mas ele muda.

Muda a forma de agir, os mistérios e segredos. Muda a conquista, o sexo, a entrega. Mas sempre amor. Se acabar, amor não era. Você foge dele e ele te encontra na primeira fragilidade, no primeiro descuido, quando a capa que você pintou cai e você se vê repleta, transbordando amor. E chora, porque chorar de amor faz bem. Chorar de amor é uma dor bonita de se sentir, porque você se sente capaz, não uma máquina, não uma capa, não uma máscara… Mas você mesmo, nú, coberto apenas de si mesmo e verdade.

A questão é que o tempo passa, pessoas surgem, novas paixões e suas impressões. Um novo beijo e um novo jeito de se entregar. Mas o amor está sempre lá, guardado no espaço que fincou no coração e fez morada. Preso nas grades do pensamento, sem nenhum habeas corpus.

Você tenta, grita e chora. Você suplica pra que ele se vá. Se agarra ao tempo, que não é eficaz. E você tenta. Tenta entrar nesse jogo de esconde-esconde, nos bloqueios das redes sociais. Mas quando é amor de verdade, ele sempre está lá, num lugar onde é difícil bloquear. Dentro do coração e amarrado por uma força indescritível.

E você me prende nessa sintonia, de corpo e alma. Estou ligada mesmo sem querer, mesmo sem esperar, mesmo seguindo a vida e levando adiante tudo, sem você. Tudo mudou, mas nada mudou.

Quando você chega, me paralisa. Quando você volta, eu me desconcerto até achar o ponto em que me sintonizo nessa aura espiritual que só a gente tem, juntos. Porque eu não sinto isso com ninguém. Só você.

Não consigo e nem quero mais desistir de você.

Camila